Viver 50 anos do 25 de Abril – renovar a energia da Liberdade no coração!

Fui viver Abril em Lisboa. Tinha que ser, tinha mesmo que ser em Lisboa. No pulsar da Avenida da Liberdade. Hoje, nestes 50 anos, com milhares e milhares de pessoas a encher as ruas. Uma multidão unida em torno da palavra Liberdade. Uma festa de Famílias.
Crianças, pais filhos, avós. Idosos a caminhar com dificuldade. A minha geração com um sorriso de felicidade. Esse sorriso de festejar 50 anos do dia “puro e limpo”. Quantos partiram e não sentiram esta alegria e ternura de viver estas bodas de ouro. Sentir a Liberdade na Avenida da Liberdade. Cartazes. Um colorido poético. Cânticos. Grândola. Depois do Adeus. Zeca. Adriano. Fanhais.
Idosos. Jovens. Gente anónima. Gente conhecida. Bandeiras de todas as cores. Do arco iris ao vermelho ou azul. Risos. Abraços.
Eh pá! Não te via há tanto tempo. Reencontros inesperados vindos do tempo. A fraternidade senti-se naquele aperto do peito que estalava o coração. Abril a florir. É isto Abril.
Ali, na Avenida da Liberdade, olhei o Tejo e ao fundo lá estava o Barreiro a espreitar, num recanto. A outra margem. A margem esquerda. A terra dos meus filhos e da minha neta. A terra que me recebeu e integrou. Ali, a vila operária, hoje cidade, onde sonhei com abril nascer.
Ali, onde aprendi a soletrar a palavra Liberdade. Ali, onde pela noite dentro, nas conversas no Jogos Juvenis do Barreiro, aprendi o direito de discordar, de dizer : Não à Guerra Colonial!
Ali, onde sonhei com Direitos. Da Criança ou do Homem, que naquele tempo, ainda se diziam do Homem.
Ali, onde senti o que é ter deveres. Participar, com voluntariado de forma livre, abraçando causas e sonhos.
Ali, onde percebi e vivi a censura, o corte de títulos ou textos em artigos, antes de serem publicados. Cortavam a palavra povo, só porque se dizia, desporto do povo para o povo.
Ali, nas conversas no Luso, no Cine Clube, no Tico-Tico, ou na Boleira, ou, até na noite, nas escadas do portão da SFAL, no Capri, nas margens do Tejo a conversar sobre a vida, liberdade, democracia e futuro.
Sim, hoje, decidi ir para Lisboa, a cidade de tantas memórias que inscrevi na minha vida. Subi e desci a Avenida da Liberdade, para sentir Abril a florir no meu coração.
No Rossio, gravei a canção – uma gaivota voava, voava e enviei para a minha neta, para lhe dizer – Alice és livre de crescer!
Sentei-me no chão, junto à estátua dos Restauradores, a gente com a idade já não tema agilidade de outros tempos. A mesma energia que pulsou no coração, naquele dia, há 50 anos, vivido com G3 na mão, granadas ao peito. O medo. A raiva. A tristeza. E por fim a alegria a beijar os ossos, quando a bandeira branca ser ergueu e, então, colocou ponto final na ditadura.
Eh pá, que dia tão lindo. Esse dia que senti rasgar o silêncio. Esse dia que tanto tinha sonhado. O tal, do sonho chamado Liberdade.
Essa palavra que aprendi a soletrar nas conversas nos JJB, aqui no Barreiro, no Luso, nas escadas do portão da SFAL, no Capri, nas margens do Tejo.
Sim, Liberdade, como escreveu a minha “irmã” Maria Rosa Colaço, nascia a florir nas minhas mãos em poemas.
Talvez, por isso, só por isso, fui sempre adverso ao silêncio, à submissão, ao calar para sobreviver.
Talvez por isso, nunca mais, mesmo nunca mais, deixei que a Liberdade, fosse calada no meu coração e, de certa forma, fiz, da Liberdade a força que faz a história, a minha estória e a história da humanidade.
Por isso, hoje, fui celebrar 50 anos de abril em Lisbia, e quando entrei na Praça do Comércio observei com os olhos a sorrir, como a democracia é bela, ao ponto de deixar, falar livremente, quem quer calar opiniões diferentes, só porque são diferentes. É por isso que a democracia é bela, permite discordar e confrontar ideias.
Caminhei. Sorri. Pensei, hoje estão na rua, onde se festeja abril, mil, maus mil, muitos mil, são mesmo muitos mil, aqueles que, hoje, saíram à rua para cantar Abril. Foi o mais belo gesto de gratidão, aos que lutaram, resistiram e morreram pela Liberdade e um abraço florido aos militares de Abril.
Olhei a estátua de D. José. O arco da Rua Augusta. Olhei o Tejo, olhei a outra margem e sorri. Vale sempre a pena, ignorar e sorrir.
É isso : 25 de Abril Sempre!
António Sousa Pereira
Fotografia - Hugo Guerreiro
