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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Um território sem máquinas, sem gruas…

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Na minha leitura diária do jornal «Público» leio noticias que são para mim um leit motiv para pensar coisas do meu quotidiano, a vida da minha cidade, as palavras e a realidade.

Sabemos aquele velho ditado, água mole em terra dura, tanto dá até que fura. Quando escuto certas ladainhas é isso que me ocorre ao pensamento. A repetição de palavras, que são inverdades, mas, de tanto entrarem no diz que diz do quotidiano, passam a ser a verdade, sublinhe-se a única verdade, e, nestas coisas de verdades únicas, já não tenho paciência, perdi mesmo a paciência, de as escutar e deixá-las a marinar como se elas fossem o real verdadeiro.

 

Estava a ler o meu jornal, e, no editorial, Marta Moitinho Oliveira, escrevia sobre os 200 oficias de justiça que serão colocados a partir de 1 de setembro. Sublinhando que a maior parte será colocado nas Comarcas de Lisboa, com salário liquido que não chega a 800 euros. A jornalista acrescenta que esta é uma situação financeira complexa para quem habita numa cidade que bate recordes de rendas das casas e quando as taxas de juro colocam as prestações pagas aos bancos em máximos históricos.

Na mesma edição, um artigo de Ricardo Arroja, refere que em Portugal, ser da “classe média é ser pobre”, bastando ter um ordenado de 2000 euros brutos para fazer parte dos 10% mais ricos do país.

 

Estava com estas leituras quando num folheto de propaganda politica, li que antes nuns tempos idos, lá por 2017, quando este território era gerido por forças que não amavam o Barreiro, nele não se viam máquinas, nem se viam gruas.

Hoje, que as forças dominantes amam a cidade, então, já vemos gruas e máquinas.

 

Foi então que, com o meu tradicional, mau feitio comecei a pensar, como foi possível a construção de algumas zonas urbanas, não  muitos distantes do famigerado ano – 2017 – o tal ano do milagres das gruas.

Interrogo-me, como foi possível construir certas urbanizações sem que fossem vistas gruas? Quem fez o milagre de construir tanto, mas tanto, sem usar gruas, nem máquinas, por exemplo – a Urbanização dos Fidalguinhos, a Quinta de S. João, outras urbanizações em Palhais, Coina, Penalva, Vila Chã, a Urbanização dos Cantinhos, o Forum Barreiro, a Urbanização da Escavadeira, os diversos nichos urbanos no Alto do Seixalinho, a Urbanização dos Navegadores, junto ao POLIS, a urbanização na zona da Telha, em Santo André ou as urbanizações na zona de Casquilhos, entre outras.

Não existiram gruas, nem máquinas?

Foi, certamente um milagre, tanta coisa que cresceu, apenas cresceu, apenas crescimento urbano, sem que, nos céus da cidade se vislumbrasse uma grua ou uma máquina nas ruas da cidade.

Foi milagre. Só pode. Aliás foi um milagre, fruto de um PDM, de 1994, o mesmo que continua em vigor, que era classificado como um instrumento ao serviço da construção de uma cidade de betão, por essa razão criticado. Hoje serve para o mesmo, mas, agora é um instrumento de atração do investimento privado, a tal ponto, que no dito folheto de propaganda politica, dá se relevo às novas urbanizações, com belas fotografias que são a prova real, as imagens não desmentem lá estão as gruas, como exemplo da obra do poder politico.

Se percorrermos a memória para lá desse tempo da mudança histórica – 2017- o ano do centenário da aparição de Fátima e do centenário da Revolução Russa, verifica-se que não há fotografias de gruas, nem máquinas nas ruas.

Foram certamente urbanizações construídas clandestinamente.

 

Mas, tudo isto ocorreu-me a propósito da classe média pobre e dos funcionários que colocados em Lisboa, ali, não têm condições para ter casa.

Portanto, o fenómeno que se está a registar nos tempos de hoje, após a crise da bolha imobiliária que rebentou nos EUA em 2007 e estendeu-se à europa após 2008, seguindo-se a crise da troika, a pandemia, um tempo de resiliência que foi preciso aguentar e resistir com dignidade.

Nos dias de hoje, o facto de a classe média, a tal que é dita pobre, e como tal, não

consegue aguentar as rendas, nem os juros da banca, em Lisboa, está em fuga, e ruma para cá, para esta a margem sul, a outra banda, para onde Lisboa, continua a olhar como tal, e não como um território que devia integrar no pensar AML.

 

Por essa razão aí estão as gruas, as máquinas, que, obviamente, não são fruto de nenhuma estratégia de desenvolvimento local, são isso, apenas isso, o fruto de um crescimento acelerado resultado de um mercado imobiliário que encontrou nesta margem, uma fonte de rendimento e que que mobiliza investimento.

Acontece, hoje, tal como aconteceu nos anos 60 e 70, num tempo que, eu, pagava por um quarto 300 escudos/mensais, em Lisboa, e, no Barreiro alugava um andar com uma renda de 125 ou 150 escudos. Nesse tempo o Barreiro era uma cidade de gruas, mas de gruas que que apenas se preocupavam com os edifícios, não existiam, passeios, nem espaços verdes, nem parques infantis. E, tanto que foi feito após o 25 de Abril.

 

Foi tudo isto que me ocorreu, a propósito da classe média pobre, dos funcionários judicias com vencimentos abaixo da classe média pobre, e, essa narrativa que propaga os milagres das gruas, que milagrosamente, só começaram a ser vistas após o ano dos centenários de Fátima e da Revolução Russa. Só pode ser algo nunca visto e que merecia ser considerado tema de “caso de estudo”, até mesmo de uma tese de mestrado ou doutoramento – O  porquê do surgimento de gruas e máquinas num território sem tradição imobiliária?

Fica a sugestão.

 

António Sousa Pereira

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