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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Porque será que o PS tem aversão à CDU?

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Ontem decorreu a reunião da Assembleia Municipal do Barreiro. Fiz o esforço de assistir, via internet. Num ponto que era destinado à informação escrita da actividade municipal dos últimos meses, escutei umas notas sobre a pandemia do COVID, quando, pelo que foi dito, este assunto está agendado na ordem de trabalhos.

O começo da reunião foi marcado, por aquele prurido de um deputado da CDU, sobre a distribuição dos tempos, porque se sentia lesado, em relação aos tempos que em conferência de líderes tinha sido acordado, distribuir pelos diferentes partidos.
Nem percebi qual o drama. Mesmo que em reunião de líderes tivesse sido acordado, na reunião do órgão, qualquer deputado tem o direito de expressar a sua discordância e indignação. Só se existe, algum ponto, no Regulamento que diz que as decisões da dita «conferência de líderes», obriga a disciplina de voto.
Achei justa a indignação. E assunto podia ficar encerrado com a sua intervenção. Um direito democrático. A democracia é isto, o direito de cada eleito expressar a sua opinião. No entanto, pelos vistos um deputado que discorde de uma decisão da conferência de lideres, não pode expressar a sua indignação.
Afinal, a CDU que é sempre acusada por, dentro de si, não existir diferenças de opinião, agora, quando um seu deputado tem opinião diferente, isso já é coisa má, e, passa a ser interpretado como sendo a CDU contra a própria CDU. Enfim. Coisas.

Depois, escutámos uma intervenção oriunda da área do PS a erguer a moção da CDU, a qual tinha tido o voto contra dos socialistas, em anterior reunião da Assembleia , agora era erguida pelo PS para subscrever tudo o que a CDU defende na moção – ligação Barreiro- Seixal, Terceira Travessia do Tejo, Arco Ribeirinho Sul. Tudo, e muito mais, acrescentou a ligação entre o Barreiro e o Montijo.
Enfim, jogos de tácticas e estratégias de alta politica municipal.
Em resposta a CDU, veio dizer: afinal o PS não tem um programa para o concelho, navega ao sabor do vento, pois, agora apoia a moção estratégica da CDU. Ontem o PS estava contra, hoje está a favor. Ironia. Coisas.

A reunião decorreu com momentos que são bem um exemplo do nível de debate na vida politica local. Raivas. Cães. Aversões.

Não pretendo, nesta nota, referenciar, ou individualizar intervenções, porque, na verdade, cada uma delas é, certamente, a expressão do pensamento das respectivas forças politicas.
Esta reunião, no final, espremida, deixou apenas uma interrogação: Porque será que o PS tem aversão à CDU?

Na verdade, ao longo das intervenções, assistiu-se a uma luta de boxe – PS / CDU – que atingiu golpes que causam dor e tristeza.
Uma coisa ficou óbvia o PS tem aversão à CDU. Quando fala da CDU é de dedo em riste – os senhores! Nem se trata de diferenças de estratégia, porque nessas, até foi afirmado o desejo do PS de abraçar a CDU.
A aversão existe porque há ódio, há medo, a CDU causa calafrios ao PS.
O PS tem aversão à CDU porque, afinal, nesta reunião, viu-se, a CDU é a única força politica que verdadeiramente lhe faz oposição, quem critica, quem avalia e quem aponta caminhos.
E o PS, sabe, sim sabe, que é de facto a CDU a única força politica que pode conquistar a presidência, é a única alternativa ou alternância, no actual contexto eleitoral.
O PS até hoje, no poder, demonstrou que não é alternativa à CDU, tem sido meramente uma alternância.Tem gerido a herança da CDU. E, diga-se, uma boa herança.
Quando uma força politica, no confronto politico, coloca em relação ao seu adversário, não a diferença de opiniões, nem de estratégia, mas aversão como modo de se diferenciar, é, porque, afinal, perdeu a noção que a democracia tem por base a existência de partidos.

António Sousa Pereira

A vida é frágil

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A fragilidade da vida está sempre presente no nosso quotidiano, basta um simples acontecimento, uma banalidade, um soprar mais forte do vento que parte um galho de uma árvore, e, naquele instante, na nossa passagem somos atingidos. Caímos. Umas vezes levantamo-nos. Outros não resistimos.

A fragilidade da vida está numa onda mais forte que nos arrasta, e, com ela, de repente, lá vão os nossos sonhos. Principalmente, aqueles sonhos construídos em castelos de areia. Os tais, sim, os tais que contam, sempre, com o ovo no dito. Calculismo nem sempre dá certo. Umas vezes sim, outras vezes não. Nem só de obra a vida é feita. Há mais vida para lá da obra. Há cidade. Há seres humanos, que, por vezes, pensam, e, no tal momento de silêncio, tomam a decisão que vai para além da percepção ou muda apenas de percepção. O tempo tudo esclarece. A vida é frágil.

A fragilidade da vida reside na fragilidade que a vida é, de súbito, o que era deixou de ser e todas as previsões económicas, eleitorais, deixaram de ser porque, hoje, cada vez mais, a realidade do mundo é dita e feita de percepção.
O mundo actual inventou a percepção como linha condutora de construção da realidade. A percepção que gere a emoção. O mundo não comunica factos, nem ideias, nem valores, comunica percepção. O video. A rede social. São instrumentos que todos podem usar. Basta existir dinheiro para comprar e produzir. Pois.

A percepção gera a ideia do foco, do agora, a vontade não é a vontade de fazer ser, é a vontade inscrita como energia do “eu quero, eu posso” ou, até, do “eu mando”.
É, por isso, que a vida, hoje, é frágil porque é uma vida que não tem asas para voar, não tem ideias para construir, só tem percepção e ter percepção é apenas percepcionar, que é muito diferente de conceptualizar – ter conceitos, ter ideias que fazem pensamento. Pensamento que se faz acção.
Afinal, é só no pensar, pensamento, que nós aprendemos a voar.
Para voar é preciso ter asas, e, todos sabemos, as asas crescem com o tempo, e, é isso, só com o tempo aprendemos a voar. Sem asas apenas rastejamos, caminhamos, vamos andando, por esse lugar donde se percepciona a vida. As vidas.

Talvez por isso, recordo, o cântico de Fanhais, que noutros tempos com a ternura da sua voz gritava – “cortaram as asas ao rouxinol”.
Não esqueçam, a vida é frágil, mais frágil, muito mais frágil, quando não temos asas e queremos voar, sem termos asas para voar, nunca voamos, apenas vamos!
É vida. É a luta pelo ter. Sobreviver. Aguentar.
Afinal, é no voar que somos livres, é no voar que sentimos a liberdade, o amor, a amizade, a vida a pulsar nos nervos.
Tudo o resto é isso...percepção.

António Sousa Pereira

25 de Junho de 2020 

Barreiro com a desindustrialização perdeu o seu mundo de trabalho

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Hoje, pela manhã, passei ali na Urbanização da Escavadeira. Parei. Fotografei a Ponte do Bairro das Palmeiras. Recordei que, aquele, foi o lugar que conheci, na minha primeira deslocação ao Barreiro, no ano de 1967. Antes disso, para mim o Barreiro era a estação de comboio e dos barcos, por onde passei, vindo do Algarve, rumo a Lisboa, no ano de 1966.
Quando vim ao Barreiro, foi numa visita a um amigo do meu pai, um conterrâneo, que vivia no Bairro das Palmeiras, que ali tinha a sua Barbearia, perto da zona onde, hoje, existe o Parque Infantil.
Foi o meu primeiro contacto com o Barreiro. Recordo que no Bairro existiam diversos cafés, lojas e tabernas. Um Bairro vivo. Um dos Cafés, ali, na curva do caminho para a CUF, tinha um aspecto moderno e citadino. Um beleza que guardo na memória. Estantes, mesas e cadeiras de madeira, com recortes decorativos.

Foi com surpresa que, ao longo do dia, fui lendo os comentários que esta fotografia foi suscitando, escritos por diversos amigos e amigas. Desde recordações familiares, que se estenderam à minha terra, passando por memórias de um Bairro que era um exemplo da pujança de uma vila operária, de relações familiares e solidárias. Aqueles Mercados de rua aos sábados de manhã, eram marcados por uma loucura de gente.

Uns recordam que aquela ponte era o caminho que diariamente faziam rumo ao trabalho na CUF, ou na Quimigal. Outros recordam que era o caminho rumo ao Campo de Santa Bárbara, uns para praticar Hóquei Patins, outros basquetebol. Outros ainda, referiam o campo da escavadeira, onde treinava o Rugby do Barreiro. A Fundição da CP, na escavadeira, não foi esquecida.
As memórias desfilam de comentário em comentário – nasci no Bairro das Palmeiras e tenho orgulho neste Bairro, a minha mãe, com 92 anos, ainda lá vive.
Há quem recorde que atravessava aquela ponte, diariamente, para poupar cinco tostões, no bilhete do autocarro dos TCB.
E, nestas recordações não faltam as memórias daqueles que atravessavam a ponte do Bairro das Palmeiras, para, ao domingo, ir ao Cinema da CUF, para uns, da Quimigal para outros.

O Bairro das Palmeiras, é um dos lugares do Barreiro, porque o concelho é uma terra de lugares e sitios. Uma terra de gente que se conhece - ou se conhecia – por isso tinha uma «identidade», essa de muitos praticantes desportivos, de clubes de futebol a disputar, ombro a ombro, com os ditos grandes, com nomes de referência no remo, com história no basquetebol, com campeões mundiais no Hóquei Patins, com nomes inscritos na história da Volta a Portugal em Bicicleta, com uma vida associativa pujante, com lojas, com cafés, com restaurantes, com vida própria de gente de trabalho e culta, porque sabia e sentia que “nem só de pão vive o homem”. Uma terra de familias, de avós e pais que legaram aos seus filhos uma cultura da fábrica – aquela onde se aprende a viver o quotidiano, sendo um por todos e todos por um, mas, ali, na fábrica, também se aprende a descobrir os lambe botas, os que se entregam ao «Senhor Engenheiro», e, no essencial, aprende-se que todos contam no processo de produção – desde o que limpa as escórias, até ao que controla a qualidade, do operário ao engenheiro, ao empregado de escritório.

Era em tudo isto que pensava. Nesse Barreiro com história e com memórias. Esse Barreiro que deixou um legado inscrito na história de Portugal, que orgulha os barreirenses e aqueles, muitos, oriundos de muitos lados que um dia, nesta terra, descobriram a vida, o amor, a familia, a fábrica e a vida comunitária. Um lugar, uma rua, onde o vizinho era um vizinho.
O Barreiro vila operária, que foi cidade, já em fase de desindustrialização. A vila ferroviária. A vila Operária – têxtil, quimica, metalomecânica. A vila dos cheiros e da poluição.
Esses cheiros e essa poluição que eram o sinal, o alerta, que devido ao desenvolvimento tecnológico, e, por exigências ecológicas, pouco a pouco, a partir dos anos 70, ainda antes do 25 de Abril, exigia-se que, ali, fossem feitos investimentos, dinamizados novos modelos de actividade industrial, sabia-se, era urgente requalificar e modernizar, porque, era evidente a decadência do modelo de produção industrial. Não aquilo que foi feito nos tempo do FMI, uma nuvem de poeira, os elefantes brancos, para adiar a queda final, até aos anos 90.

Penso em tudo isto, e, como desde os tempos, de antes do 25 de Abril, nos anos 70, com a primeira vaga de construção civil, essa, que teve origem na fuga de pessoas de Lisboa para o Barreiro e margem sul. Era mais barato alugar uma casa na margem sul, que alugar um quarto em Lisboa.
Nesses anos 70, ao mesmo tempo que a indústria iniciava o seu processo de decadência, o Barreiro agarrava-se à construção civil para manter vida.
Foi o terceiro «patrão» do Barreiro, depois do primeiro que foi o ferroviário e o segundo que foi a CUF.

A vila operária, ou por outra o concelho operário, começa a misturar-se com as zonas dormitório.
Há dois Barreiro, o Barreiro que tinha vida própria, com lugares, com autóctones, e, há o Barreiro dos que trabalhavam em Lisboa e vinham cá dormir, mas, estes são «Barreiros» que se cruzam e se abraçam, sendo, regra geral, através das portas do Movimento Associativo que se forja a coesão social.

Tudo isto me ocorreu ao ler os comentários de uma fotografia do Bairro das Palmeiras. Isto e muito mais.
O Barreiro com a desindustrialização perdeu o seu mundo de trabalho, que arrastou a queda do seu comércio, das suas lojas, depois perdeu qualidade no seu espaço urbano, depois foi perdendo população, porque deixou de ser terra de trabalho, a população foi envelhecendo. O Barreiro ficou num guetto, enquanto à sua volta a mobilidade permitiu desenvolvimento. Seixal, Almada e Sesimbra, contaram com o comboio pela Ponte 25 de Abril. Montijo, Alcochete e Palmela, contaram com a Ponte Vasco da Gama.
O Barreiro cá está, com o problema dos transportes. Pois.
E, ainda por cima, com o território da antiga CUF, e da antiga CP, ali, em hibernação.
Uma terra que não tem trabalho, não tem outro futuro, se não, ficar com esse negócio da compra e venda de andares.
É, pelos vistos é esta a escolha de há muito, ela está plasmada no PDM em vigor, e, pelos vistos, é esse caminho escolhido, porque, afinal, isso de reinvindicar a Terceira Travessia do Tejo, a ligação rodoviária do Barreiro ao Seixal, a implementação do projecto do Arco Riberinho Sul – esboçado no pensamento da estratégia do PROT AML, é coisa menor. Isto dói.
Já percebi, o que é o futuro do Barreiro, para os que querem o bem do Barreiro.
Essa coisa de exigir ao Poder Central, responsável pela grande fatia do território do concelho, nomeadamente – ferroviário e antiga CUF – que, de uma vez por todas, deixem de marginalizar esta terra, é uma coisa má e de quem só pensa que a solução dos problemas do Barreiro, compete aos outros ao governo. Enfim!
Não brinquem comigo. Acordem. O Barreiro precisa de voltar a ser uma terra de trabalho, e, tal como os concelhos envolventes, ter condições de estar mais perto de Lisboa.
Assim, como está, o Barreiro será sempre um problema para as empresas e para as pessoas.
A mobilidade no contexto da AML é mesmo o nosso problema. O resto é conversa para encher balões.

É vida. A ponte do Bairro das Palmeiras ergue-se, ali, entre o antigo espaço industrial e uma nova urbanização da escavadeira, como um «monumento» que à sua volta mantém viva a memória dos três patrões da nossa história – a CP, a CUF e a construção civil...este que, pelos vistos, de acordo com o PDM, em vigor, vai ser o futuro. O tal pensar barreirinho.
Um PDM que não prestava e agora já é bom, porque afinal, a contestação não era contra o PDM, era contra o atraso da revisão e já lá vão três anos e de revisão zero.
As coisas que um homem pensa ao olhar a ponte do Bairro das Palmeiras.

António Sousa Pereira

 

ENVELHESER

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Há uma grande diferença entre matar a vida, que é uma espécie de matar o tempo, e, a outra coisa que, sabermos, é, essa realidade, que o viver é ir matando a vida. Viver é morrer. Ponto final.
Mas uma coisa é a vida matar-nos, outra é nós matarmos a vida, assim, diariamente, sofregamente, com a consciência plena que damos vida à vida que matamos.
Sim, acreditem, uma coisa é viver morrendo, outra é morrer vivendo.

É por isso, só por isso, que há pessoas que acordam mortas. Mortas no pensamento. Cristalizadas no sentir. Mórbidas nos sonhos. Não vivem, vegetam. Existem. Vampirizam.
Sei o que é isso, por experiência vivida. Sei o que é isso, quando se vivem anos, ali, metido num canto, esperando o fim de cada de dia, sentindo a inutilidade dos dias, com os nervos a rasgar a dor dos pensamentos. É o tempo que nos agarramos a nós mesmos, ao que temos dentro de nós – a vontade de sermos – lançamos o ferro na energia da família, abraçamos amigos, beijamos as paixões que nascem em poemas, fazemos comunidade no voluntariado que se faz associativismo e cooperativismo - essa uma luta contra o tempo, por dentro do tempo, não aceitar a morte do tempo dentro do tempo que nos matam. Isso é resiliência. Isso é acreditar.
Nunca deixar de acreditar que viver não é matar o tempo, é fazer o tempo ser tempo, dentro do tempo. Olhos nos olhos. Sorrindo. Sempre sorrindo. Acordando e gritando BOOOM DIA! Assim bem alto, para sentir a Liberdade voar nos nervos. Livre.
BOOOOM DIA!!

Superando os escombros. Saltando barreiras. Empurrando para a beira da estrada aquilo que alguns, no plano psicológico, chamam depressão, ou, na vida social, pressão que quer matar, subtilmente e com sorrisos.
Sabem, estes tempos são propícios a sentirmos esse vazio interior. Dói. A depressão não é mais que um vazio dentro de nós, uma luta que travamos em busca de nós mesmos, esse combate na descoberta do nosso ser, esse lugar, onde somos únicos, esse lugar intimo, que nada, nem ninguém substitui, e, nos dá a alegria de acordar vivos.
Quando nos deixamos esvaziar, pelos acontecimentos, pelas circunstâncias, pelo que não fomos, é isso, apenas isso, que dói e faz sentir o tempo esvair-se entre os dedos, então, as lágrimas tocam os nervos.
A depressão vence quando desistimos de ser e, até, cresce mais rapidamente quando optamos pelo ter, essa ilusão que destrói amizades e o amor.
A diferença entre o ter e o ser, é que o ter está fora de nós, enquanto o ser, esse, somos nós sempre. A criança que transportamos. Os sonhos que sonhamos. O resto é sempre o resto. Invenções . Suposições.
É por isso que há amizades que são para a vida e outras, sim outras, são as tais, as que nascem e morrem com as circunstância. Nunca foram.

É por isso que para vencer a dita depressão, ou a dita pressão, só há um caminho. Nunca desistir de criar. Nunca desistir de sorrir. Nunca desistir de amar. Nunca desistir das memórias, de todas as memórias, porque todas as memórias são lições de vida.
Nunca desistir de ser, e, agora, na minha idade, nunca desistir de ENVELHESER.

António Sousa Pereira
24 de Junho de 2020

Quinta do Braamcamp : há mais vida para além do IMI.

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A Quinta do Braamcamp tem sido um tema central na vida local, nomeadamente nos órgãos autárquicos do concelho do Barreiro, particularmente na Câmara Municipal do Barreiro, onde, nos dias de hoje se centra o debate politico. Vivemos numa cidade de politica municipalizada. Parece, por vezes, que não há mais vida para além do que se vive em torno do que faz ou do que diz o Poder Local.

Por essa razão, é positivo que o tema da Quinta Braamcamp, tenha sido transportado para debate para espaços fora da vida autárquica. Isso foi possivel, graças à acção de um Movimento de Cidadãos – Plataforma Braamcamp é de Todos, que conta com a participação de cidadãos interessados em pensar cidade e fazer cidadania.
Este Movimento avançou com uma Providencia Cautelar visando travar a decisão de venda, assumida pelo executivo municipal que foi deliberada com os votos favoráveis do PS, abstenção do PSD e votos contra da CDU. 


Sobre esta decisão juridica, na última reunião de Câmara foi dito que, o PCP meteu um processo juridico à autarquia. É importante que se diga, que isto não é verdade.
Aliás tem sido uma prática permanente, pelo facto da CDU estar contra a venda, os defensores da venda fazerem uma colagem do Movimento dos cidadãos ao PCP, quando, sabe-se, na verdade, este movimento conta com a participação de pessoas oriundas de diversas áreas de pensamento com, e sem partido, assim como com o apoio e colaboração de figuras históricas e prestigiadas do PS, nomeadamente, Madalena Alves Pereira.
A estratégia de ligar este movimento ao PCP, visa colocar o PCP, como sendo o centro da contestação, visa gerar estigmas e dar continuidade ao pensamento que inundou as redes sociais dos bons e dos maus, sendo regra geral os maus – os comunistas nada fizeram pelo Barreiro. Os culpados.

Isto até seria uma tema de abordagem e reflexão interessante, um caso de estudo, se após cerca de três anos da gestão do actual executivo se deslumbrasse uma linha condutora de acção, de intervenção na cidade, de pensar a cidade, que se distanciasse da gestão do PCP.
O facto é que nestes anos o que tem sido feito, pelo actual executivo, ou já estava em marcha na anterior gestão, ou estava em fase de conclusão.
Não se vislumbra uma linha de pensamento diferenciador, antes pelo contrário, assistimos a um retrocesso civlizacional, sendo a Quinta Braamcamp o exemplo pragmático, quando se quer avançar com a implementação de uma urbanização na frente ribeirinha, que tem como suporte o PDM em vigor, que foi ao longo de anos amplamente criticado, pela sua excessiva carga demográfica, e, que, sem dúvida, está ultrapassado pela evolução de conceitos urbanos no pensar e no fazer cidade, assim como pelos novos fenómenos mundiais. 

Pronto. Cá estamos, na razão central que motivou este meu texto.
Já o escrevi e volto a repetir a questão Braamcamp, neste século XXI, tem a mesma importância que teve o tema ETRI no século XX.
A ETRI despoletou a necessidade de se pensar o território da antiga CUF, a sua abertura ao território urbano da cidade, o pensar a sua reindustriaçlização, ou seja, pensar aquele território como central para pensar o Barreiro do futuro – terra para viver e para trabalhar, como foi desde o século XIX.
A ETRI abriu o debate que deu origem a um primeiro esboço do arquietcto Manuel Salgado. Seguiu-se o sonho de Emidio Xavier, instalar serviços, Ministérios, nasceu o Masterplan. Até existiu o sonho da Cidade do Cinema .O Poder Central colocou os olhos no Barreiro e pensou Arco Ribeirinho Sul.

Depois, Carlos Humberto deu continuidade a essa visão. Deu-se o passo de abrir o território à cidade. Nasceu o sonho do Terminal Multi Modal. Fez-se a ponte do território da CUF com o território ferroviário. Sonhou-se a Terceira Travessia do Tejo. Sonhou-se a ponte para o Seixal.
Em suma para dar futuro ao Barreiro duas ideias eram centrais – retirar o Barreiro do guetto, melhorando a mobilidade e acessibilidades, pois esta é a única forma, nos tempos de hoje – que o tempo é dinheiro – de criar condições para atrair empresas, e, assim, potenciar os territórios visando gerar emprego.
Para um futuro inovador as acessibilidades e a empregabilidade, valem mais, muito mais, que a habitabilidade.
E, isto, quer queira, quer não queiram passa pela capacidade de reivindicação, pela exigência ao Poder Central que olhe para o Barreiro.
O Barreiro tem que entrar na agenda da AML e do pais, e não pode, nem deve, continuar a ficar com as migalhas, seja do eventual aeroporto do Montijo, seja dos sobejos dos amplos investimentos das zonas ribeirinhas da margem norte do Tejo, de Sacavém a Oeiras.
O Barreiro tem que ter visão própria de cidade e bater-se com força pela sua diferenciação. O seu mote deve centrar-se no pensamento estratégico do PROT- AML. O resto é treta.

É por essa razão que o Barreiro não pode ficar submisso de um PDM, este que está em vigor, que reduz o território a uma urbe que aponta para cerca de 200 mil habitantes. Um espaço urbano como Amadora, Loures, Odivelas.

Sim isso vai dar IMI, vai dar taxas de urbanizações, vai manter a autarquia como o centro polarizador da vida local, mas, retira ao concelho o seu potencial, anula o Barreiro a um mero espaço de especulação imobiliária, e nunca mais vai voltar a ser uma terra de trabalho e para viver. Que alguns com ar de superioridade dizem ser saudosismo.

O nosso actual tecido empresarial, ficou claro na última reunião de Câmara é baseado em micro, pequenas e médias empresas. As receitas da Derrama provam isso, e, por este andar, assim vai continuar, porque a visão é o imobiliário, é habitação.

A última reunião de Câmara deixou claro que existem duas visões de futuro para o território do concelho – uma que quer potenciar as suas capacidades, desde o seu potencial ribeirinho de Alburrica à Mata da Machada, um nicho ambientalista, diferenciador, capaz de ser uma referência única na AML, gerador de emprego e de dinâmicas sociais. Estabelecendo diálogo com o Poder Central. Abrindo caminhos de futuro. Reconvertendo o espaço urbano. Uma cidade única no estuário do Tejo que tem um parque ambiental dentro da cidade, basta pensar a obra que foi feita em Alburrica e aquela que está a ser feita – projectada pelo anterior executivo – de ligação do Parque Catarina Eufémia a Alburrica, ou, em breve, na Doca Pesca da CP.

A outra ideia, é essa, que só pensa imobiliário, que já está a nascer em torno da criação de uma urbanização na Quinta do Braamcamp.
O desenvolvimento do Barreiro que passa por urbanizar – está no PDM. Em breve, por este caminho, iremos ouvir falar da urbanização das Oficinas da CP, prevista neste PDM, em vigor.

 

É por isso que o debate em torno da Quinta do Braamcamp é importante e vai ser uma marca decisiva para o futuro do Barreiro. O resultado deste debate vai determinar as opções estratégicas para pensar, para fazer cidade.
Esta uma discussão que devia ser mobilizadora, porque é do interesse de todos, mas tem sido inquinada, criando um clima de bons e maus, não tem envolvido a comunidade, forja-se estigmas, lançam-se clichés de abandono.
Os bons, os defensores afirmam que vai nascer um projecto que vai criar ali o «céu na terra», com um “toque de veneza".
Os outros, os «maus», são os que não querem o progresso, são os que travam a vinda de investimentos, os que querem manter aquele «inferno», o estado de abandono, que é real, por opção do actual executivo.

Nunca é demais repetir, aquele território, é património municipal apenas desde Dezembro de 2016. E, o anterior executivo avançou com uma candidatura a fundos europeus, que foi aprovada visando a intervenção no Moinho e na valorização do espaço, mais de 2,5 milhões de euros. É pena que não tenha avançado. Isso sim é abandono!

Em conclusão, a Quinta Braamcamp, é central e, sem dúvida, o que acontecer naquele território, será a referência que irá manter o pensamento estratégico da revisão deste PDM, em vigor e ultrapassado.
O contrário será gerar um novo pensamento de cidade, que seja capaz de pensar que há mais vida para além do IMI.

António Sousa Pereira

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«É aparência, mas as pessoas gostam é de aparência»

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Ontem pela manhã, como faço muitas vezes aos sábados, vou tomar o meu café na Esplanada dos Dadores de Sangue, na Avenida da Praia, dou uma volta pelas páginas do jornais, e, depois, vou dar uma volta pelo Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita. Sento-me a olhar o Tejo. A «minha Catedral», onde marco encontro com aquela suavidade, onde se mistura o humano, a natureza, e, na minha interioridade viajo, em busca do «não sei quê», vou pelo Tejo, navego nas águas, e, como diz o poeta, descubro tudo o que lá está e o que lá não está – o passado das naus, ou, até, ao inevitável futuro, o comboio ligando Chelas ao Barreiro.

Imaginar é fácil. Podia idealizar um video. Com uma estação de comboios, ao estilo Santiago Calatrava, que concebeu a Estação do Oriente, imagino uma igual, ali, na zona do Pingo Doce/ TCB.
O Barreiro a 10 minutos do centro de Lisboa, e, então, fazendo, em pleno, parte integrante da cidade de metropolitana. Esta será, no futuro a nossa forma de abraçar a outra margem. Grande video.

Então, podemos sonhar ver nascer, aqui, no terrenos da Baía do Tejo, o Parque das Nações da Margem Sul. Uma zona que para além de habitação de qualidade, terá potencial para atrair empresas, de serviços e de novas tecnologias, dando ao Barreiro uma dimensão cosmopolita.
Esta é visão, que trás dentro de si a energia promotora – a âncora - que conduzirá à reconversão urbana e vai abrir o caminho para o Barreiro do século XXI e para os próximos séculos.
Um Barreiro metropolitano, mantendo dentro de si, pela sua dimensão, uma diversidade de lugares e sitios , servida por um serviço de transportes urbanos – TCB – de excelência, que será o sangue da vida de um concelho-cidade do Lavradio a Coina. Um Barreiro par viver e trabalhar. Um Barreiro com uma zona ribeirinha única da Quinta Braamcamp até à Mata da Machada, passando pelo nosso «Lago», na Polis, e, com uma ponte pedonal a ligar o sapal do rio Coina – dando escala económica e social ao eixo Barreiro e Seixal.

Um Barreiro que ganha escala regional, para potenciar os serviços instalados, nomeadamente, o Hospital do Barreiro, dando-lhe valências e colocou no centro da Península.
Abrindo caminho para a expansão urbana na zona sul do concelho e à logística. Tudo isto já foi dito e sonhado. E é por isto que o Barreiro devia bater-se, não com a ideia de saudosismo do passado, mas com a energia de uma comunidade que acredita que o seu futuro pode ser mais que transformar-se num dormitório. Limitando-se a pensar IMI e imobiliário.

Andava nestas minhas deambulações pelas margens do Tejo e cruzei-me com um amigo. Neste encontro veio à conversa o célebre «toque veneziano» da Quinta Braamcamp.
Dizia-me ele que, na noite anterior, num jantar de amigos, esse foi um dos assuntos de conversa.
“Para aquilo continuar ao abandono, se for feito o que dizem é melhor”, comentou.
Indignei-me. Uma pessoa só tem que se indignar. Uma indignação que à partida, nem tem nada a ver com o dito projecto, que está previsto no PDM, em vigor, elaborado na gestão de Pedro Canário.

A indignação começa por uma pessoa estar farto, mesmo farto, dessa treta da Quinta ao abandono, um argumento, dito e repetido, para gerar uma corrente de opinião que aceite, silenciosamente como verdade esta história do abandono. A Quinta não esteve ao abandono. Usar este argumento é gerar uma teia de fumo.
Ainda, na semana que passou na RTP, no Programa «Portugal em Directo», uma reportagem que abria com essa treta de “após anos ao abandono” agora há uma solução.
Este falso argumento, dito e repetido, é uma das razões que me levou, desde a primeira hora, a colocar um pé atrás, ficar com o bicho atrás da orelha, quando se anunciou a venda daquela pérola do concelho, onde, agora, se anuncia uma urbanização com um «toque a veneza». Outra redundância.

Uma coisa é certa. Esta é a verdade. A Quinta não está ao abandono há décadas, a Quinta está ao abandono, isso sim, desde que este actual executivo municipal tomou posse, e, sendo o seu proprietário, decidiu não levar para a frente a candidatura de fundos europeus aprovada que teria permitido uma intervenção naquele espaço e a sua recuperação do Moinho de Maré. E, até, podia ter avançado com outras candidaturas. Hoje já era outra realidade.

A opção foi deixar ao abandono. A opção foi meter na gaveta a visão da «Roda Gigante», assim como a visão, escrita nas páginas deste jornal, que aquele um espaço diferenciador para o concelho do Barreiro.
Mas, isso, era no tempo que existia o «grupo de pressão» chamado «Plataforma 2830», que foi aliado autárquico do PS, nas eleições de 2017.
Aliás, segundo o meu amigo, essa «Plataforma 2830» foi forjada como linha estratégica conduzir à escolha do rosto da presidência.
Eu, pensei, é verdade, essa «Plataforma 2830», sendo um bluf, foi a «força» que gerou os instrumentos que conduziu à vitória ao PS.
Neste processo foi central a gestão da opinião pública e criação de narrativas nas redes sociais.

E retomando a conversa, dizia-me o meu amigo, que no jantar, a conclusão que se tirava é que para a Quinta estar assim, então que avance este projecto.
“Viu o video sobre o projecto ?” – interrogou-me.
“Sim, vi, é uma visão tal como aquela da «Roda Gigante»”, respondi.
“É aparência, mas as pessoas gostam é de aparência”, referiu ele, recordando que o eleitorado do Barreiro mudou e a malta dos 30 e dos 40, “gosta disto”.
Dei uma gargalhada. Sorri.
Ah, é verdade, um dia vamos ver ali as gôndolas, comentou. Rimos.
Olhei para o lado e pelo meu olhar senti entrar a realidade das aparências.
“Vou escrever um texto, sobre esta conversa”, disse-lhe.

É isso, pensei, o nosso Barreiro, fica feliz a viver «barreirinho”, delicia-se nas ilusões, e, sem dúvida, com um «toque veneza»...até o Barreiro fica com outra aparência.
Entretanto, continuamos por aqui, com mais rotundas, para ganharmos uns minutos para sair e entrar no concelho. Isto é qualidade de vida, dizem-nos, a sorrir.
Não há emprego. Uma população envelhecida. Vamos continuar a ser um guetto, sem capacidade de atrair empresas, sem criar postos de trabalho, com um tecido económico a definhar. Somos impotentes perante o Poder Central.
Em suma o importante é atrair IMI e taxas de construção. É vida.

António Sousa Pereira

A «Catedral do Tejo»

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Olhar o tejo, sentado nas margens, é como entrar numa catedral, com uma diferença, uma catedral é um ponto de encontro dos homens com o divino, num espaço construído pela acção dos homens. É uma construção humana.
O Tejo é uma Catedral que é um espaço para sentir o divino pela porta da natureza.
O Tejo é o Tejo. É o rio, o que está lá, o que lá não está, o que vemos, o que não vemos, o que imaginamos. O real. O céu. A água. O ar.
O estuário do Tejo é uma catedral, pura, natural, um ponto de encontro com a natureza, com o cosmos, com as tágides. No Tejo está o presente, o passado e o futuro.
Ali, sentados na Catedral do Tejo sentimos o mundo, a vida, abrir-se perante o nosso olhar.
O silêncio. As ondas. A vida. Um catedral onde nós mergulhamos e sentimos a paixão de abraçar com os olhos o tempo, na sua intemporalidade.
Olhando o Tejo, sentimos a paixão de amar com os olhos. Sentimos a paixão de abraçar o belo. Sentimos a paixão da beijar a natureza.
Amar o belo é pensar com os olhos. Amar o belo é sentir com os nervos.
A paixão de amar com os olhos, sente-se na paixão de beijar as ondas com o olhar, a cintiliar, divinamente.
É por isso, só por isso, que quando me sento nas margens do Tejo. Fecho os olhos. Escuto o silêncio. E sinto como sou pequeno, uma gota, num universo enorme, de uma beleza enorme.
A Catedral do Tejo é uma porta aberta ao mundo, à humanidade. Silêncio. Totalidade. Ternura.

António Sousa Pereira
31 de Maio de 2020

 

O melhor do mundo são as flores

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O momento da viragem, é o momento que decidimos começar, um começo adiado, sonhado, agarramos as mãos ao pensamento, as duas mãos, apertadas, dedos entrelaçados, como quem reza ao universo, e, decidimos – Vamos lá!
A viragem é o tempo de partida, esse instante, único que toca a nossa consciência, que grita, como um grilo falante – vai, vai por aí, escolhe o teu caminho. Esse, sim esse, que é teu e só tu podes fazer. Tudo o resto é o resto.
viragem que nos permite escolher fazer aquilo que queremos fazer, que apetece fazer, que nos dá gozo fazer, esse, é, esse o instante mais nobre das nossas vidas. Gozar o tempo. Fruir.
Sentir que todo o tempo, vivido, e, todo o tempo por viver é um tempo que é nosso, é um tempo que nos pertence.

O tempo da viragem, é o momento que sentimos todo o nosso passado encontrar-se subitamente no presente que somos. Orgulhosamente. Todo o legado que é ensinamento e vai transformar semente de futuro.
O tempo de viragem é esse instante, o tal momento único, que nos leva a descobrir que a nossa vida é como um metal. A nossa missão é edificar a escultura com o metal que é nosso tempo. Viver fazendo vida.
A nossa vida é a nossa escultura. Uma peça única. Esculpir o tempo dentro do tempo.
O momento da viragem é o momento que deixamos de adiar, é o momento que transformamos a espera em esperança. Esperança que se transforma em sonho, sonho que se transforma em desejo, desejo que se transforma em poema. A vida é um poema. O belo é descobrir.

Fechar os olhos. Recordar aquela aula de Yoga, um dia na juventude, onde inscrevemos na mente as palavras – brilhante, alegre e feliz.
Parar. Sentir. Todo o tempo vivido, todas as aprendizagens, todos os erros e virtudes, foram contributos para manter, sempre, estas três palavras a pulsar.
Hoje um amigo dizia-me, que tinha saudade de amigos e dos tempos que sentia o amor dentro dos dias. Salientava, no mundo de hoje falta muito amor, há mais, muito mais ódio.
Concordei. Disse-lhe é por isso que no tempo que vivo e, no tempo que tenho para viver, o meu sonho é escrever ternura, escrever pureza, escrever silêncio. Sentir uma gota de liberdade a florir nos dias.
O tempo de viragem, é, afinal, o tempo que transporta sempre a Primavera.
É isso...o melhor do mundo são as flores.

António Sousa Pereira
30 de Maio de 2020

A banalidade do ridículo

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O ridículo não é ridículo por ser ridículo. Quando o ridículo é ridículo, é assim, apenas é, não há nada a acrescentar. Ponto final.
O ridículo só é, mesmo, ridículo quando trás, dentro si, a vontade de não ser ridículo, quando se apresenta, ou se quer apresentar, com superioridade intelectual, criativo, quando quer parecer aquilo que não é – costuma dizer-se, no diz que diz-se, que é quando o dito cujo, se arma aos cucos, quando se quer colocar em bicos de pés. O carapau de corrida. A velha fábula do sapo inchado.
O ridículo tem a mania que não é ridículo porque, sabendo que faz coisas ridículas, ele considera que essas coisas ridículas, afinal, são importantes para dar sentido aos seus dias. É autofágico.
A necessidade do ridículo passa por ser ridiculamente ridículo, e, sente-se mais importante quando lhe dão alguma importância. É nesse momento que ele atinge a sua dimensão de excelência. Apregoa a meritocracia e o autoelogio.
O ridículo só é ridículo por ser isso, apenas isso, ridículo na ridicularidade do seu próprio vazio. Não tem conteúdo macro. E no conteúdo micro é o que se vê...um surfista.
Dizia o poeta, que todas as cartas de amor são ridículas, e, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
É assim também o ridículo, ele, não seria ridículo se não fosse ridículo.
As suas atitude ridículas e as suas vociferações ridículas, não são, por isso, por serem atitudes ridículas, são tudo isso, porque, afinal, deixam a nu, essa figura e carisma. Ele representa, e, nem disso se apercebe, porque é um actor marcado pela ausência de verticalidade. Um jogo de espelhos. Uma encenação onde os fins justificam os meios.
Ele não tem substantivos. Só adjectiva. Inventa. Mente. Odeia. O ridículo ainda é mais ridículo quando, pouco a pouco, pela repetição, torna o ridículo numa banalidade.
O ridículo banalizado, deixa de ser emocional, deixa de causar pulsões, transforma-se num jogo, onde o ridículo é o rato, e, onde, o ridículo é, também, o gato. Um jogador. Uma estratégia Pavloviana.
O criador do ridículo transforma-se no próprio ridículo. A criatura confunde-se com o criador. Como não quer ser sozinho, quer colocar todos ao seu nível. Irrita-se quando o desprezam, quando o ignoram, porque gosta de ser o centro.
Todos na vida, sem dúvida, já sentimos momentos nos quais sentimos que fomos ridículos. Usados. Lamentamos. Aprendemos.
Quando descobrimos o ridículo que fomos, por vezes, até, na paixão dos dias, quando emocionalmente ou intelectualmente, em actos ou palavras, fomos criadores do ridículo. Corrigimos. A vida é uma aprendizagem.
O ridículo que vive os actos ridículos, de forma permanente, numa necessidade egocentrista e pedante, não se corrige, nem aprende com os erros, apenas, transforma o seu ridículo num vazio.
O tempo passa, a vida transforma-se, o mundo muda, o ridículo, puro e duro, repete-se no tempo, sempre igual, não muda. É, o dito «the best». .
Afinal, se mudasse deixava de ser ridículo.

António Sousa Pereira

Morango

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Há quem diga que esperança.

É espera.

Há quem quem diga que saudade.

É silêncio.

 

Só quem espera em silêncio,

sente a saudade na esperança.

 

Silêncio não se diz.

Saudade não se espera.

A esperança é a sombra da luz.

A saudade é a luz da sombra.

 

Crescemos com a saudade,

a florescer na esperança,

num ventre que rasga o sol.

 

Esperança. Saudade.

Sementes. Folhas.

O futuro é um morango!

 

António Sousa Pereira

28 de Maio de 2020

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