A peça «O resto já devem conhecer do cinema», de Martin Crimp, encenada por Jorge Cardoso, inscreve a 100ª produção na história de Arteviva – Companhia de Teatro do Barreiro, que remonta ao ano de 1980. E, pode afirmar-se que este trabalho é, sem dúvida, a cereja em cima do bolo, que assinala um processo, marcado, aqui e agora, por esta peça que é o «centenário de ouro».
As peças de Arte Viva que, ao longo dos anos, contam com a encenação de Jorge Cardoso, têm despertado em mim uma curiosidade, pela intencionalidade que coloca na escolha dos textos, os quais, regra geral são plenamente adequados aos momentos sociais que vivemos e, sem dúvida, portadores de conteúdos que proporcionam uma reflexão sobre os tempos que vivemos. As contradições epocais. Um forma de olhar para a realidade, de forma subtil, irónica e, sempre, assumindo o papel de um observador atento, que faz do teatro, um “leit motiv” para sentir e pensar a vida e o mundo.
A peça «O resto já devem conhecer do cinema», é mais um espectáculo, encenado por Jorge Cardoso, que enquadro dentro desta linha de pensamento. Um intelectual que faz da arte a vida, e da vida a arte viva.
Esta pela fascina pela beleza do texto. Fascina pela simplicidade e pureza dos figurinos. Fascina pela sonoridade musical. Fascina pela sobriedade da encenação. Fascina pelo ritmo e movimento das personagens, numa encenação moderna, em espaço aberto, com ligeiras mudanças estéticas, vai recriando cenários, com imaginação, abrindo espaços que proporcionam aos personagens respirar, sendo a textura de referência no espaço cénico, em todos os contextos, os personagens são a centralidade, e, afirmam-se, olhos nos olhos, com o público.
Fascina por ser um espectáculo com cerca de duas horas, sem intervalo, que se dilui de forma suave no tempo, serena e tranquilamente, prendendo o público do princípio ao fim, nas emoções expressas nos rostos dos personagens, na beleza do texto, na energia das interpretações. No ritmo e na intensidade das sucessivas acções. Sincopadas. Uma bela dramaturgia, com grande rigor espacial, na estética das sombras e da luz, nos silêncios, na sonoridade e musicalidade. Um jogo de luz e trevas. Um jogo de palavras e silêncios.
Nas interpretações, em todas elas sente-se que a vivências dos personagens é sentida com firmeza. Os actores e as actrizes, assumem com intensidade a força do texto, sentem as palavras, e exprimem as tensões da linguagem, dando vida e emoções às personagens, com força dramática que se sente à flor da pele.
Uma nota particular, à enorme actriz, Patrocínia Cristovão, no seu papel de Jocasta, só há uma palavra para exprimir o meu sentimento - Excelência. Uma energia intensa. Uma vivência da personagem em total perfeição. Ela assume um papel central, é um motor no espectáculo. Vibrante. Entusiasmo. Aplausos.
As raparigas ( Adriana Lopes, Carla Carreiro Mendes, Carolina Conduto, Catarina Patrão e Sara Santinho) – as esfinges – são uma presença permanente em cena, de grande subtileza, uma espécie de grilo falante, a presença constante de um discurso irónico, e, uma presença que contribui para dar unidade e continuidade aos diálogos, num movimento discursivo que se move entre a interioridade de cada personagem e as conflitualidades no mundo exterior. São um contributo enriquecedor e precioso, quer na dinâmica da encenação, quer no despertar o público, para se interrogar sobre a força das palavras e a importância das circunstâncias. Estão perfeitas, na sua homogeneidade e na sua diversidade.
Pois, na verdade, elas fazem perguntas. E, afinal, desde sempre, a pergunta está grávida de uma resposta.
Rui Félix, no papel de Creonte, vive a personagem com força e sensibilidade, ele, é um exemplo, tal como os restantes actores e actrizes, são um conjunto harmonioso, representam com plenitude os seus papeis, com autenticidade, com beleza expressiva e de grande dimensão estética.
Gostei imenso da peça, pela força das palavras, pela sua dimensão ética; pela energia dos personagens vivenciadas pelos intérpretes, numa sóbria expressão dramática, pela encenação, que enquadra o calor das personagens, num ambiente sóbrio, silencioso, que valoriza a importância dos personagens.
Um espectáculo com grande riqueza dramática, que, sublinho, vale pelo seu todo, pelas interpretações, pela criatividade sonora, pela iluminação, pelos figurinos, pela cenografia, e, tudo isto com raiz num texto que respira humanismo, e coloca um sentido ético, no centro da vida quotidiana dos seres humanos, e na reflexão sobre o movimento da história da humanidade.
Neste tempo histórico, hoje, que a humanidade vive o seu quotidiano, marcado por autocracias, por poderes que manipulam, por redes sociais que controlam e gerem emoções. Um tempo onde a alteridade entre o «eu» e «nós», sucumbe, numa divisão constante das vivências sociais, geridas numa permanente conflitualidade de bons e maus. Neste tempo que sentimos os jogos de poder, e, a luta pela conquista do poder, expressa apenas no poder pelo poder, não se olhando a meios para atingir fins. Um tempo em que, os acordos ou convenções politicas sucumbem pela acção negativa da própria política.
Um tempo de banalização da morte. A guerra é o espelho da ação política. Um tempo que mata os afectos, esquecendo a cultura humanista. Neste tempo, que a política é um mero instrumento de marketing para atingir e manter o poder, pelo poder. Num tempo, que as maiorias absolutas, democráticas, são a porta de aristocracias que se abrem o caminho a autocracias.
Neste tempo, esta peça, de forma serena, simples, alerta-nos pra os perigos da retórica, e, por dentro de conflito entre irmãos recorda que os «poderes absolutos», esses, que se assumem como donos de tudo e de todos, um dia, quer queiram ou não queiram, ficam reduzidos a um rodapé na história, escrito – a sangue e pó!
É isto, como sempre, me habituou, o Jorge Cardoso, leva a cena peças, com energia que expressa enorme actualidade, e, assim, de forma discreta, no seu posto de observador atento, olhando para o teatro do mundo, vai legando lições de história, contando histórias.
São peças, de arte viva, que são um grito, um alerta para a nossa realidade comum, essa, que, nos diz, afinal, todos os seres humanos, sejam quais forem as suas ambições, invejas, paixões, amor, ódios, poder ou fortuna, essas coisas que fazem as suas vidas – um dia, todos seremos, isso, apenas isso - sangue e pó!
O tempo vai passando e no tempo que passa inscrevemos - o presente, o passado e o futuro. A beleza da velhice é o tempo que está à nossa frente, para nele, sentirmos sorrir o conforto do futuro. No quotidiano a vida vive-se e esvai-se. Sentimos a vida esvair-se quando, em certos momentos, um pouco da vida vivida dilui-se no silêncio do olhar.
Um amigo que parte. Sorrisos que se perdem no futuro. Apertos de mão desfeitos no presente. Conversas que se forjam em memórias. Uma ruptura que rasga, em ruídos feitos miragens, todas as palavras partilhadas. Nesses momentos, o presente e o passado forjam-se na imensidão da luz que se escreve saudade. Esse ponto de encontro onde, afinal, a bruma semeia, no vento e nas trevas, a palavra igualdade. Essa igualdade que nos aguarda, intemporal, seja na terra ou no fogo. É assim, todos, amanhã, vamos renascer cinzas ou pó. Eternidade!
Escrevo estas palavras, quando ao vaguear pelo pensamento, recordava o último almoço da Tertúlia de «Os Leças». E sentia, nos meus olhos, bem vivo, aquele minuto de silêncio, que todos partilhamos, em memória de Nuno Santa Clara Gomes. Um capitão de Abril que sempre que participava naquele convívio, nos seus braços transportava as armas do riso, da ironia, da simplicidade, da bondade e da pureza, que tinha inscrita na sua sapiência, na sua cultura universalista. Ele recordava histórias da caserna, nos tempos da guerra colonial. Partilhava a sua visão, reflexão e pensamento estruturado, que tinha sobre o mundo, os conflitos geo-políticos e geo-estratégicos mundiais, os quais regularmente difundia em artigos que editava, como colunista do jornal Rostos. Um homem de Abril. Um homem culto. Um homem que deu o seu contributo pela conquista da Liberdade.
Sim, recordámos no último almoço da Tertúlia de «Os Leças», num minuto de silêncio e com um cravo inscrito em páginas de um sonho chamado Liberdade – 25 de Abril sempre!
Uma recordação pela sua dedicação ao Barreiro, a Portugal e à humanidade.
E, no final do almoço, brindámos, de copo erguido.
Obrigado, Nuno Santa Clara Gomes!
A Tertúlia de «Os Leças» é um ponto de encontro semanal, às segundas-feiras, sem compromisso. Vai quem quer. Vai-se quando tem disponibilidade. E, por ali, uns conversam sobre memórias da juventude. Outros trocam entre si bocas, aquele sereno picanço para animar. Outros partilham ideias sobre a vida actual – eleições, conflitos mundiais, vida política nacional. Não há agenda de trabalhos. Não há um programa. Há diferenças. Grita-se. Dão-se gargalhadas. Por vezes acaloradas.
Aquela malta a caminhar por dentro do tempo, de um tempo vivido. Diverte-se.
Malta com muitas memórias e muitas estórias. O Barreiro a pulsar por dentro do tempo, dos fumos da chaminés, das prisões, do amor à Liberdade. O tempo que fomos, o tempo que somos, o tempo que seremos.
Malta que continua a sonhar e tem poemas no coração.
Um ponto de encontro que forja, ou procura forjar, conversas marcadas pela diversidade e pluralidade.
E, como acontece com tudo na vida, ali, humanamente, o tempo corre rumo ao futuro. Constante. Fluído. É assim evocamos a memória dos que partem. E, festejamos o aniversário de um companheiro que deu mais uma volta ao ciclo do sol. Desta vez cantámos alegremente os parabéns ao João Pereira. Cantou-se os Parabéns numa polifonia que sincopava em tons que se misturavam, anarquicamente, cada um a seu gosto – metia-se no meio dos «Parabéns a você», os ecos da «Internacional», ou, os sons da «Grândola, Vila Morena».
Saboreámos um agradável bolo de aniversário. E o jovem septuagenário, soprou e mordeu as velas.
Rimos. Conversámos e Recordamos.
A vida, o tempo dentro do tempo caminhamos inscrevendo - o presente, o passado e o futuro.
Nestes finais do ano de 2025, no Salão D. José Carcomo Lobo, na SFAL – Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense, tive o privilégio de assistir ao espectáculo «Rock N Twist», com a participação do Coral TAB - Trabalhadores das Autarquias do Barreiro, Coro B Voice e o Cant Alburrica, dirigidos pelo Maestro Manuel Gonçalves.
Repito foi um privilégio viver aqueles momentos musicais, revivendo memórias, recordando contextos epocais. Os Bailes dos anos 60 e 70. Os sonhos de tempos guardados num recanto, onde a saudade não se escreve saudadosismo, mas evocação de coisas que ficam inscritas no coração. «Rock N Twist», um espectáculo musical com ritmo, com criatividade, com beleza estética. Music hall com um guarda roupa colorido, epocal, marcado por uma ternura de criatividade e, onde, sentimos o amor de quem faz arte por paixão. No plano musical, o espectáculo tem a marca TAB, a exigência de Manuel Gonçalves, um criativo que motiva uma equipa que, aposta na inovação e entrega-se com plenitude a proporcionar festa. Do "Ob-la-di, ob-la-da", dos Beatles, a "Massachusetts", dos Bee Gees, ou Madalena Iglésias, na sua canção «Ele e Ela«, brilhantemente interpretada a solo, e, não faltou Sandie Shaw, com Puppet On A String, nem sequer Elvis Presley, com Can´t Help Falling In Love. Uma tarde vivida com intensidade musical e que proporcionou um excelente espectáculo que, sem dúvida, fica inscrito na memória de quem assistiu e de quem o viveu por dentro. Uma tarde de amor que sentia-se pulsar no brilho dos olhos e nos sorrisos daquele encontro de vozes de diferentes gerações. Emoção. Ternura. Beleza. É isso, «Rock N Twist», um espectáculo onde a beleza nasce unida à paixão e à criatividade
No Barreiro, uma cidade cuja memória é indissociável da caminhada da humanidade pela afirmação dos Direitos Humanos, da Dignidade e da Liberdade, na minha modesta opinião, o acontecimento que marcou o mês de Dezembro foi a sessão de apresentação da 2ª edição do livro “Direitos Humanos em Portugal: História e Utopia”, de Susana Mourato Alves-Jesus.
O Auditório Manuel Cabanas, na Biblioteca Municipal do Barreiro, recebeu no dia 13 dezembro, uma sessão vivida com muita emoção, com o suor a pulsar por dentro do coração.
A barreirense Susana Mourato Alves-Jesus, sentiu a alegria de viver, na sua terra natal, num lugar onde em adolescente estudou, aqui e agora, em dezembro do ano 2025, sentir-se rodeada de antigos professores, colegas, família, amigos, num encontro com a comunidade para divulgar a sua tese de doutoramento, impressa na sua obra “Direitos Humanos em Portugal – História e Utopia- Das origens à Época Contemporânea”.
Uma obra que, recorde-se no ano 2024, foi a vencedora do Prémio CTT - Correios de Portugal S.A. — D. Manuel I, atribuído pela Academia Portuguesa da História.
Uma sociedade mais desenvolvida
Sara Ferreira, vereadora da Câmara Municipal do Barreiro, na abertura da sessão sublinhou que “a apresentação deste livro faz todo o sentido”, neste espaço de “estudo e partilha de saber”.
Acrescentou que “os Direitos Humanos” é uma tema que diz muito “à nossa geração”, que deve procurar que sejam levados à prática no direito à educação, no direito à habitação, no direito à cultura, contribuindo para “uma sociedade mais desenvolvida”.
Obra fruto de uma investigação vasta
A professora Teresa Nunes, da Universidade de Lisboa, começou por referir que a obra “Direitos Humanos em Portugal – História e Utopia- Das origens à Época Contemporânea”, é fruto de uma investigação vasta, pormenorizada, resultado de um esforço imenso de análise de História Política, História do Direito, Filosofia e reflexão sobre “a dignidade da criatura humana”.
“Esta obra não é apenas um elencar de dados”, porque tem como caminho estudar a “evolução dos direitos humanos”
“É um trabalho absolutamente essencial para o estudo dos Diretos Humanos”, disse, acrescentando que “é um trabalho de história perfeito”, uma história que conversa com a realidade de cada época, na análise das causas, com rigor metodológico, análises científicas, muito bem escrita, que é um gosto ler, que ajuda o leitor a interpretar as conflitualidades entre Direitos Humanos e a afirmação da Liberdade.
Este lado do rio é local global
O Professor Doutor José Eduardo Franco, da Universidade Aberta, recordou que a obra «Direitos Humanos em Portugal – História e Utopia – Das Origens à Época Contemporânea», tem a marca de um rosto do Barreiro, “este lugar e esta terra com identidade própria”.
Foi nesta terra que nasceu Susana Mourato Alves-Jesus, aqui entregou-se ao conhecimento com paixão, aqui começou a sua alma de investigadora e entregou-se à sua vocação, cumprindo-se como herdeira de uma terra de trabalho.
Referiu que esta terra, que ele viu sempre “do outro lado do rio”, que alguns referiam como “um deserto”, ao longo de décadas ganhou identidade própria pela sua capacidade de superação, de atrair gente de muitos lados, de superar obstáculos.
José Eduardo Franco, sublinhou que “este lado do rio é local global”, que recebe as pessoas de vários países, de várias raças e identidades, sempre com solidariedade.
Recordou a experiência que viveu, com Susana Mourato Alves-Jesus, na Escola Secundária de Santo António da Charneca, que não é um espaço de exclusão, mas, pelo contrário, é um espaço de inclusão e de difusão dos Direitos Humanos.
O historiador salientou que a autora tem amor à sua terra e salientou que a terra está inscrita na sua identidade, na capacidade de valorizar a dignidade humana.
Direitos vão sempre sendo actualizados
A obra «Direitos Humanos em Portugal – História e Utopia – Das Origens à Época Contemporânea», é um trabalho que demonstra a vontade de uma investigadora que “gosta de descascar as palavras até ao osso”, é uma tese de doutoramento de qualidade, com muitas novidades, que ajuda a conhecer os direitos humanos, nos dias de hoje e perceber a doença do nosso tempo “o presentismo”, uma obra que alerta para uma visão alargada dos direitos, como Direitos da Natureza, Direitos do Ambiente, a importância de criamos a “casa comum”.
Uma obra que nos permite um olhar para os Direitos Humanos como uma realidade cognitiva e como os direitos vão sempre sendo actualizados.
Pilar na valorização dos Direitos Humanos
Fui convidado pela investigadora para, no decorrer da sessão apresentar um «A(nota)mento, foi para mim uma honra, o convite que me foi formulado. Já editei no Rostos o texto que li, aqui, apenas registo esta nota que dirigi à Susana – “Sabes, o teu nome já está inscrito, na história da dignificação da humanidade, e, obviamente, no nosso país, este Portugal da cultural global. És um pilar no estudo e na valorização dos Direitos Humanos, na academia portuguesa, no país, no teu Barreiro, e, na energia das utopias que fazem futuro. Obrigado.”
Devolvendo à terra também parte do que me deu
Susana Mourato Alves-Jesus, encerrou a sessão. Notava-se que estava emocionada. Notei uma lágrima a espreitar no seu sorriso. Agradeceu a todos e sublinhou – “É com muita honra e muita alegria que me encontro hoje aqui convosco”, e viver “a oportunidade de apresentar esta obra numa terra e numa biblioteca que me diz tanto. apoio do município a este livro representa para mim, mais do que um apoio institucional, um valor simbólico. Foi no Barreiro que fiz toda a minha formação escolar, desde a 1.ª classe ao 12.º ano, pelo que me senti no dever de partilhar convosco este trabalho, devolvendo à terra também parte do que me deu.”
Pensar e o viver os direitos, mas também os deveres humanos
A investigadora, salientou que “a problemática dos direitos humanos interpela-nos. Entendemos que compreender o sentido dos direitos vai muito para além do seu uso na linguagem e nas práticas do nosso quotidiano. Por isso, neste livro, procurei aprofundar criticamente o tema, de modo a contribuir, de alguma forma, para uma consciencialização dos seus dilemas, entre as teorias e as práticas, entre o pensar e o viver os direitos, mas também os deveres humanos.”
Barreiro, em busca de utopias
Susana Mourato Alves-Jesus, agradeceu “ a todas e a todos quantos acompanharam com cuidado e atenção este processo longo de investigação, de análise, de reflexão, de escrita e de vida”.
Foi com emoção que disse – “recordo em particular a minha Mãe, a D. Edite, que tinha uma loja de louças, vidros e decorações, ali em baixo na Rua da Recosta, e o meu Pai, Sr. Domingos, que foi subindo a pulso nos CTT Correios de Portugal. Assim que casaram, em 1964, vieram da Beira Baixa profunda, primeiro para Lisboa, e depois, no início dos anos 70, para o Barreiro, em busca de utopias. Nesta terra crescemos, e hoje é com imensa alegria que vos agradeço a todas e a todos aqui presentes.”
Barreiro um lugar tão especial
“Mesmo por último, queria muito que as professoras aqui presentes Teresa Cunqueiro e Júlia Batista se levantassem. Foram minhas professoras. A professora Teresa foi minha professora de Moral deste o 7.º ao 12.º na mítica Escola Alfredo da Silva (tantas vezes carinhosamente referida como Alfredo da “Selva”). Numa disciplina de âmbito católico, foi a professora Teresa quem pela primeira vez nos levou em visita de estudo à sinagoga e à mesquita em Lisboa. A professora Júlia foi a minha professora de Latim do 10.º ao 12.º ano, e em 3 anos apenas fez com que alguém acreditasse tremendamente que o latim era o futuro – e foi! Acabou por talhar as minhas escolhas depois de concluído o ensino secundário.
Queria que hoje aqui representassem toda a comunidade escolar do Barreiro, que tem acompanhado de forma brilhante tantas gerações de alunos e alunas.
Nesta terra, onde crescemos com amigos de todos os feitios, percebemos que isso é que torna também o Barreiro um lugar tão especial, de Comunidade e de Liberdade”, disse.
Tempos em que brincávamos na rua até à meia-noite
“É nas escolas deste concelho e através das professoras e dos professores que neles têm tão empenhadamente trabalhado, que têm crescido gerações de crianças e jovens também comprometidos com o futuro e também com os direitos humanos.
Não esqueço o entusiasmo inicial, também pelo projeto Dignipédia Global, que o agrupamento de escolas Santo António desde logo demonstrou e que todos os outros agrupamentos de igual modo seguiram.
Hoje, na pessoa destas duas professoras, gostaria muito de terminar estas palavras, devolvendo ao Barreiro o muito que vivi e cresci por cá (desde os tempos em que brincávamos na rua até à meia-noite ou mais! até aos tempos do Largo dos Penicheiros, do El Matador, da Vinícola e do DNA – os entendidos vão entender), mas em especial o muito que temos aprendido por cá, pela mão das escolas públicas deste Concelho.”, recordou Susana Mourato Alves-Jesus.
E, está dito, e repito esta sessão que brotou do amor ao Barreiro, um amor que toca os nervos, que está inscrito no tempo, que floresce numa memória que é passado, presente e futuro, é o fruto de um trabalho de grande dimensão, quer no plano académico, de investigação histórica, ou na valorização da cidadania, essa energia que fez do Barreiro a voz de poetas e de homens e mulheres que amaram a Liberdade e sonharam futuro, foi sem dúvida, para mim, o acontecimento histórico do mês de Dezembro de 2025.
A obra de requalificação da Rua Miguel Bombarda, no centro da cidade do Barreiro, arrancou no dia 10 de fevereiro de 2025, tendo sido divulgado que o seu prazo de execução seria de 303 dias, os quais findaram no passado dia 11 de dezembro de 2025. A obra continua a decorrer…e para trás ficam memórias.
Esta uma intervenção que há muitos anos se comentava, visando criar u,ma zona pedonal, mas, era uma obra difícil de concretizar por não existir alternativa para o trânsito. O único arranjo urbano que se registou foi na ligação da Rua Miguel Bombarda com a Rua Stara Zagora – o Paeo Albers. E, a alternativa ao trânsito só surgiu após a abertura que liga a Praça do Rossio à Rua Miguel Bombarda.
Naturalmente, esta obra iria originar constrangimentos, na vivência do quotidiano, com cortes de água, cortes de trânsito, limitações na circulação rodoviária e pedonal. Uma situação que, obviamente, afectou o comércio local, de tal forma que contribuiu para o encerramento de loja emblemática – a Sapataria Guinot, com raízes em 1937, encerra as suas portas neste final de 2025.
Obras prolongadas deram cabo do que restava
“Aqui com muita tristeza o que resta da sapataria "Arcada" nome da sua fundação em 1937, depois e até final deste Ano (2025) a sapataria Guinot. Não vou acusar ninguém, mas estas obras prolongadas deram cabo do que restava.”, escreve Carlos Guinot, na sua página de Facebook. Anunciando o fim de mais uma marca de referência no comércio tradicional.
Um intenso comércio local.
A Rua Miguel Bombarda era, conjuntamente com a Avenida Alfredo da da Silva, um verdadeiro centro comercial a céu aberto. Nos tempos que o Barreiro tinha uma vida intensa, fruto de sua realidade industrial e ferroviária, a qual obviamente, gerava uma vida autóctone muito própria e um intenso comércio local.
O Carlos Guinot, na sua evocação de memórias da Rua Miguel Bombarda recorda : a loja da D. Maria e do Leonel, com arranjo de meias de seda, a sapataria do Barateiro, a sapataria do Filipe, o consultório do Dr. Canário, e consultório do Dr. Giroto, a loja de peças de automóveis (Viriato +????), ao lado o Foto Mistério do Zózimo Canoa. o Snack Kapricórnio do Zé do Centenário e, agora com muita resiliência da "menina" Ilda. Ainda mais ao lado a sapataria do Miguel, ainda houve outras lojas e agora a ourivesaria. Existiu um comércio de vinhos e mercearia (nº. 55) Anos 1940, foi um snack Bar o "Polo Norte", a loja do saudoso Sr. Silva e sua esposa (pais do Henrique e do "Janita"), a Tracol, a Singer...enfim um mundo de saudade.
E, com mágoa que está inscrita nas suas palavras, Carlos Guinot escreve, testo marcado de emoção:
Queda do comércio na Rua Miguel Bombarda.
Vai ficar ampla? Vai
Vai ficar bonita? Vai.
Vai ter escoamento das águas pluviais? Vai.
Vai ter água limpa nas torneiras? Vai.
Vai ficar com corredores para acesso à Câmara Municipal? Vai.
Até vai ter arvoredo e sombras para as esplanadas? Claro.
Tudo pensado no bem estar dos meus conterrâneos.
Esqueceram-se de um pormenor. O que vai ser dos comerciantes existentes? Como são todos ricos ainda podem ir dormir para debaixo da ponte.
Protesto silencioso
Mas, pelo que nos foi dito, não foi só o Carlos Guinot a ficar indignado, alguns comerciantes locais, manifestaram-se em silêncio, ou recusando participar no Concurso de Montras de Natal, ou fazendo as suas montras e não se inscrevendo no concurso.
Refira-se que este ano, apenas 13 estabelecimentos comercias, de todo o concelho, participaram no concurso de montras de Natal, e, por coincidência, também, este ano, nenhum membro do executivo municipal compareceu na cerimónia de entrega dos prémios do concurso. É vida.
A peça «Entraria nesta sala...» proporciona uma agradável noite teatral, entramos numa sala que nos ilumina para pensar e sorrir com pensamentos. Abre caminhos para pensar o tempo que somos e o tempo que fomos. As heranças da humanidade. O futuro da humanidade. Os ditadores. Os mitos. As relações humanas. A vida.
Uma encenação que permite uma fluidez de diálogos, e, pela sua dinâmica exige aos intérpretes energia e capacidade de vivenciar os papeis com intensidade e com uma dicção perfeita. Na peça, cada palavra é indissociável do contexto cénico.
Um texto divertido. Um texto bem interpretado.
Não pretendo destacar ninguém em particular, porque, cada qual, afinal, dentro do seu papel esteve dentro da personagem e deu tudo de si para dar vida ao espectáculo. Dinâmica. Humor. Riqueza e vivacidade nos diálogos. Expressão plástica.
Quanto à encenação, esta, sem dúvida, foi de excelência. Tudo no ponto. Luz. Som. Marcações no espaço cánico. Utilização de meios audiovisuais. Beleza coreográfica, quer em momentos pontuais, enchendo o palco de energia, quer nas mudanças de actos, com a simplicidade de uma compére que introduz a nova cena e mantém o público animado e despertando a curiosidade.
Um momento marcante na encenação, que permite valorizar a interpretação, é aquele em que o encenador, na dramatização cénica opta por criar uma estrutura de diálogo, usando o intercâmbio de falas, para gerar interacção entre as personagens e desta forma expressar emoções, cumplicidades. O diálogo teatral com momentos de pausa, silêncios, suspense, interrogações e dúvidas. A passagem do diálogo de um para outro personagem, cria expectativas e forja sorrisos. Um interprete retoma fala, ou interioriza a personagem do outro, numa sucessão vivida, com grande perfeição e teatralidade.
Sente-se os silêncios. Vive-se as expressões faciais. Uma estrutura dramática que proporciona a criação de uma história construída por dentro de uma sucessão de estórias, com beleza e perfeição.
Um rico momento dramático. Vive-se o Teatro.
Um espectáculo que proporciona uma noite agradável e divertida. Uma crónica sobre a vida, o tempo e o modo.
António Sousa Pereira
«Entraria nesta sala...»
A peça «Entraria nesta sala...», de Ricardo Neves-Neves, com encenação de Abílio Apolinário, é a 49ª produção do Grupo de Teatro Projéctor.
A peça está em cena até ao próximo dia 13 de dezembro, no Auditório do Teatro Projéctor. às sextas e sábados, sempre às 21.30h.
Nestes dias, ao fim da tarde, sinto a noite anoitecer, ainda o tempo é vespertino, então, imagino o sol a deitar-se nos meus olhos, e, numa viagem por dentro dos pensamentos procuro despertar as palavras inscritas no quotidiano.
Hoje, pela manhã, numa troca de palavras com uma amiga, ela comentava a azáfama, as múltiplas tarefas em curso, e, como estava assoberbada de trabalho. Comentei que, nestas circunstâncias, o melhor é ter calma, muita calma: sentir, pensar, fazer. É isso, a calma, ajuda a descansar e dar passos fazendo, serenamente. Sorrindo.
E, naquela troca de palavras, acrescentei que nestas situações de trabalho, de exigências temporais, de metas a cumprir, o essencial não e a resistência, mais sim a resiliência.
A resiliência é mais forte que a resistência.
A resistência é um combate pela vida. A resiliência é o amor à vida.
A resistência acaba em vitória ou derrota. A resistência é um pensamento dualista, de luta entre prós e contras, que se procuram anular, os bons e os maus. A resistência finda no dia que o combate, considera, que a luta findou. Um erro. A luta nunca finda. A luta que finda encerra os sonhos. Mesmo que se vista com outros, ditos, sonhos.
Mas, a resiliência não vence, nem perde, é um legado, uma energia que é nossa e continua para além daquilo que aguentamos, somos nós e outros, uma cadeia intemporal, feita de memórias, presentes e futuros. Contradições. Teses. Antíteses. Sínteses. A resiliência é dialéctica. A resiliência é a permanente procura de mudança, transformação, construção do futuro, que está, sempre, quer queiram, quer não queiram, dentro de si, grávido de passado e de presente.
A minha amiga, naquela troca de palavras disse-me: «Resiliência quer dizer superação mesmo no limite da quase destruição». Sorri.
E respondi: Resiliência é a luta pela Dignidade. Resistência é a luta pela liberdade. A dignidade é, ela mesma, as portas e as janelas abertas…à liberdade.
É por isso, que considero a que a palavra resiliência é mais forte que resistência. A resistência é a luta pela liberdade e pela dignidade. A resiliência é, ela própria dignidade, a respirar liberdade. Resiliência é Verticalidade.
A resiliência é Galileu, perante inquisição, murmurar: “E ainda assim se move”, ou, por exemplo, Gomes Freire de Andrade, perante a morte afirmar: “Felizmente há luar”. Eles, estão vivos, inscritos nas utopias e sonhos da humanidade.
A resistência é uma luta diária. Um dia de cada vez.
A resiliência é o viver todos os dias. É o viver um dia todos os dias.
Com a resiliência os nossos dias ganham sentido, para lá do tempo, por isso, resistimos, existimos, persistimos, caímos, e, somos, sempre todas as palavras que dão conteúdo ao tempo que vivemos.
Sim, eu sei, cantei e canto: “Há sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não!”.
Isto era e será sempre quando os totalitarismos silenciam, e resistir é não silenciar.
Mas, na democracia, quando de forma subtil, emergem os bons e os maus, flui o pensamento a preto e branco, gera-se a cultura da indiferença, cultiva-se a servidão, silencia-se discretamente com sorrisos, então, só há uma forma de caminhar e sentir o futuro vivo no presente, e, isso é ser resiliente.
Como diz na minha amiga: Resiliência quer dizer superação mesmo no limite da quase destruição.
Mesmo com a consciência plena, como dizia o poeta – Ser poeta todos os dias também cansa!
Uma amiga minha, um destes dizia-me que gosta de ler os meus a(nota)mentos. Há muito tempo que não escrevo esta coluna. Por isso, decidi voltar a escrever, hoje, quando o sol se deitava, para lá do horizonte, num colorido de luz que rasgava os sentidos, e dei comigo a dar um sentido, ao sentido, do sentido que a vida dá ao final do dia.
Pensei no pôr do sol, agora pomposamente é dito sunset, porque na verdade, assim, é mais cosmopolita. Este um exemplo real da vida. Ou seja, as palavras são expressão de vida, e, quando as palavras são vazias, uma moda, uma circunstância, uma repetição, não passam de uma retórica. Platão, no seu livro Górgias, explica isso, muito melhor que Freud.
Neste fim de tarde, no ano dois mil e vinte cinco, não escuto as sirenes de fábricas, nem movimentos que agitavam as ruas, marcadas por um comércio vivo, de referência, que empregava milhares de pessoas, na restauração, lojas de roupas, sapatarias mobílias, perfumarias. A rua era um grande centro comercial. Os pássaros cantavam em sinfonia na esquina da Alfredo da Silva, ali, onde o ceguinho anunciava o Natal. O pulsar da vila, ou cidade, tinha o ritmo do trabalho, as ruas enchiam -se um colorido que dava vida à vida e rostos à cidade. Em cada esquina encontrava-se um amigo, uma amiga. Uma terra de sorrisos, de esquinas, de irreverência, de gente que arregaçava as mangas para criar futuro. De lutadores pela Liberdade e de bufos do salazarismo. Muita gente vertical, dos resistentes ao reviralho. Aquele tempo que se dizia com orgulho: Sou do Barreiro!
A terra que muitos diziam dormitório, afinal, tinha uma vida própria, uns com raízes na Miguel Pais, outros no Largo do Casal, outros no Largo das Obras, a cidade estendia os seus braços de trabalho até ao Lavradio, passando pelo Bairro da CUF, ou até Vila Chã, passando pela Quinta da Lomba, Sentia-se a cidade- concelho abraçar a Cidade Sol, Palhais ou Santo António da Charneca. Um pouco mais distante, mas, por vezes esquecida estava Coina, a Penalva, Quinta da Areia ou Covas de Coina, lugares onde, muitos, pela manhã pegavam na motorizada ou bicicleta e rumavam às oficinas da CP, às fábricas de cortiça, ou à CUF. A cidade cuja cultura se confundia com a fábrica, nas relações humanas e vivas. Uma cidade que se cruzava com o Tejo e ignorava o Tejo
Sim, a fuga de muitos de Lisboa, para esta margem, aqueles que pagavam 400 escudos por um quarto, e, vinha para aqui, onde alugavam um andar por 125 ou 150 escudos, deu origem a uma explosão demográfica.
Gente vinda de muitos lados, que cruzou suas vidas com aqueles que tinham raízes nos caminhos de ferro, ou com aqueles que se agitavam nas transformações químicas e na energia que dobrava o aço – A CUF. Uma terra de trabalho, a fábrica que fabricava. Com milhares de trabalhadores de cultura ferroviária ou industrial. Pais que davam tudo de si, para que seus filhos, ou seguissem as suas pegadas, ou, estudassem. Talvez, por essa razão, nos anos 90 do século XX, o Barreiro ocupou um lugar no podium dos concelhos, do país, com maior número de licenciados.
Ao lado dos autóctones, famílias com gerações, existiam, a partir dos anos 60 e 70, os novos migrantes, aquele que, ontem, Lisboa expulsou. Por isso, muitos diziam que o Barreiro era um dormitório. Eu, na época, interrogava-me: como pode ser uma terra dormitório, se ela tem vida própria, famílias de primos e primas, conta com milhares de posto de trabalho na indústria, na ferrovia, no comércio, no estado, na construção civíl, que enchia a vila - cidade de gruas. Foi assim durante três décadas. Casas para vender e arrendar. Num tempo que os construtores deixavam para trás, por construir, os espaços envolventes, os arruamentos, passeios e estradas, por construir e os espaços livres abandonados. Muitas destas situações resolvidas após o 25 de Abril e, ainda, nos dias de hoje, tal vai acontecendo, com a renovação de espaços urbanos degradados.
Nessas novas urbanizações, no século XX, milhares, muitos milhares, ontem, e, nos dias de hoje, século XXI, são muito mais, os que vivem cá e atravessam o Tejo, pela manhã rumo a Lisboa, rumo ao trabalho e regressam à noite extenuados. Acredito que todos eles gostavam de viver e trabalhar no Barreiro, e afirmar, bem alto, não saio de cá, nem quero sair de cá, tenho aqui a minha habitação, o meu trabalho, a minha família e adoro viver aqui. Amo o Barreiro.
Hoje, contrariamente, ao que aconteceu no século XX, que, quem vinha para cá viver e continuava a trabalhar em Lisboa, na realidade, aqui, tinha casa própria, hoje, acontece, em muitos casos, que num andar, vivem duas ou três famílias. Esta uma realidade diferente, muito diferente, que devia começar a merecer uma atenção especial.
A empregabilidade no concelho do Barreiro, que outrora lhe dava vida própria, hoje, não existe, e, aqueles que rumam a esta margem, a classe média, pela fuga do custo de habitação em Lisboa, procuram habitações de qualidade – as tais que dão muito IMI, e permitem realizar festas com muitos dias. Esses são o espelho de uma nova realidade urbana.
Uma nova identidade emergente. A fábrica, hoje, é mera retórica.
Nisto, não vejo nada de anormal. Só que uma cidade não se deve resumir a um espaço habitacional. Deve haver mais vida, e mais cidade, para além do IMI.
Enfim, era por dentro destes sentimentos que eu navegava, ao fim da tarde, a olhar o sol descer no horizonte.
E pensava, lá longe a cidade…
Sim, gosto de viver nesta cidade, não sendo a minha terra é a terra dos meus filhos e da minha neta. É a terra que adoptei como minha, aqui trabalhei, aqui sonhei, aqui aprendi a lutar pela Liberdade e pela Democracia.
Aqui, afinal, continuo a dar vida aos meus dias, a sonhar e a acreditar, que, talvez, haja mais futuro que apenas IMI, e, um dia, seja possível pensar e fazer cidade para além da herança e legado do PDM, dos anos 90.
Talvez, assim, um dia, não fiquem só por cá, e, portanto, não se vão embora, os que usufruem de uma vida profissional ligada ao estado, seja em escolas, justiça, saúde, autarquias, ou serviços sociais, cuja realidade está umbilicalmente ligada ao estado. Ah é verdade, inclusive os reformados.
Depois, o que resta, são os micro, pequenos e médios empresários, gente que arregaça as mangas todas as manhãs, para dar vida à vida, erguer e fazer cidade. Alguns, enfim, dependentes das relações e serviços que prestam ao estado. É vida.
No dia que fui submetido a uma intervenção cirúrgica às cataratas, coisas da idade, na mesma hora que esta decorria, no Crematório da Quinta do Conde realizava-se a cerimónia fúnebre de despedida do meu amigo José Saramago. Lamentei não ter sido possível marcar presença e expressar a minha solidariedade fraterna aos seus filhos, familiares e amigos. Mas, hoje, já com alguma capacidade de voltar a utilizar os meios informáticos, decidi, por ética, dever de amizade, escrever esta nota para evocar a memória do José Saramago. Um amigo que entrou na minha vida, nos tempos de «O Jornal Daterra». Onde foi um colaborador assíduo e companheiro de muitas horas de luta, conversas sobre a vida e o jornalismo local.
José da Luz Saramago, era assim que ele assinava as suas crónicas voluntárias, realizadas com a energia de dar um contributo construir um mundo melhor. Sempre com um olhar atento sobre a vida, o local, o regional, o nacional ou internacional. Sem sectarismos, com pureza de valores. Era um convicto e activo militante do Partido Comunista Português, de antes do 25 de abril, um cooperativista na vida cívica, um homem sempre disponível para dar ao Barreiro e com um enorme orgulho no partido que tina inscrito no seu coração, Funcionário numa Delegação, aqui no Barreiro, de uma Companhia de Seguros. Cidadão activo. Um homem calmo, sentia-se que as palavras deslizavam nos seus lábios, com ternura e afecto. Discutia sem levantar a voz. Escutava e gostava de debater ideias, sem querer impor ideias. Um sonhador.
Um dia, por divergências de opinião e formas de olhar para a vida na cidade, conflitos próprios da vida dos partidos, rumei para outros caminhos. O José da Luz Saramago com quem conversei muitas vezes, manteve-se sempre solidário comigo, não mudo em nada o tipo de relacionamento. A amizade que nos unia e uniu sempre, pela vida inteira, impunha o respeito mútuo nas diferenças de opinião e nos caminhos escolhidos. A isto chama-se viver a palavra Dignidade.
Um dia José Saramago, após reformar-se, saiu do Barreiro, foi viver, salvo erro, para Alcains, ali para os lados de Santarém, uma vez ou outra, quando se deslocou ao Barreiro, conversámos e trocámos breves palavras.
A última recordação que guardo do meu amigo José Saramago foi, pelo ano 2017, quando participei numa excursão, e, no regresso ao Barreiro, no decorrer de uma paragem, num restaurante, junto a umas minas, que não recordo o nome, à porta, de pé lá estava o Zé, com o seu sorriso aberto, de corpo vertical, como sempre o conheci, que belo encontro. Um enorme e forte abraço juntou os nossos corações. A amizade é isso, podemos estar tempos sem ver um amigo, ou amiga, mas quando nos reencontramos, sentimos que do fundo do tempo, regressa aquela energia que rasga o ventre do tempo e explode em fraternidade, pura e bela.
É, na verdade, esta a última recordação que guardo de ti Zé. Nunca mais nos vimos. Mas, ficas comigo, com esse teu exemplo de vida, de quem abraçou um ideal, sentiu-o sempre nos nervos e viveu-o com verticalidade. Um exemplo de homem que vive de pé, porque, na verdade, é, sempre, de pé que vive quem ama a vida de forma digna e apaixonada. O resto Zé é o resto.
Tinhas 93 anos, que idade linda para abraçar a eternidade. Escrevo estas notas para evocar a tua memória, para ter agradecer o que deste de ti sem querer nada em troca, o teu exemplo de cidadão que viveu, sempre, com ideais de democracia, liberdade e amor à vida e pela afirmação da palavra Dignidade!
Há dias que sentimos a vida esvair-se nos olhos, uma tristeza que toca os nervos. Lágrimas que surgem para regar as memórias do tempo. Recordações. Sorrisos. Palavras de afecto.
Hoje, no começo da tarde, fui despedir-me no Crematório do Barreiro, de uma amiga que partiu. No caminho observei o céu nublado, uma gaivota a rasgar as nuvens. Senti os limites e o infinito que somos.
Conheci a D. Fernanda, foi assim que sempre a tratei, quando assumi a presidência da Cooperativa Pioneiros do Lavradio. Respeito. Dignidade. Um tempo de sonhos. E, com ela, ao longo dos anos mantive sempre uma amizade, daquelas que estão sempre guardadas no cantinho das coisas lindas da vida. Uma trabalhadora exemplar, dedicada, cumpridora dos seus deveres, uma ternura de relacionamento com todos. O humanismo estava inscrito nos seus olhos. Nunca vi nela maldade. Se há pessoas puras, D. Fernanda é um exemplo perfeito de fraternidade.
Sempre que, decidia ir tomar a minha bica matinal, ao Café Capri, lá estava, ela, na conversa com amigas. Aquele espaço era como a sua segunda casa. Senti isso nas lágrimas de dor da Sónia. Mal eu entrava, e D. Fernanda colocava os seus olhos nos meus olhos, levantava-se para nos beijarmos. Uma relação pura que mantivemos ao longo da vida. Uma relação que escrevo com a palavra – Gratidão!
Recordo os dias que ela, já reformada, colaborava com a ASDAL – Associação de Defesa do Ambiente do Lavradio. Com serenidade, como braço direito do seu Amado.
A D. Fernanda Amado, partiu ontem, dia 3 de novembro, não era lavradiense, como eu não sou lavradiense. Nasceu a 12 de dezembro de 1940, em S. Pedro do Sul, contava 85 anos. Mas, sem dúvida, serviu esta terra.
Fiquei surpreendido com a sua brusca partida, porque, ainda, há uns dias atrás, senti os seus olhos a brilhar nos meus olhos a sorrir. Era assim a nossa amizade.
Fernanda, viveu uma vida profissional de dedicação e serviço. Só a conheci nos anos 80, mas recordo de ouvir falar da sua vida profissional, que começou na CUF, onde exerceu funções na Cantina.
Hoje, enquanto o sacerdote recordava que somos a memória, que está viva no presente e com essa memória temos que construir futuro, senti as saudades dos dias de sonho, que muitos homens e mulheres tudo deram de si, voluntariamente, no cooperativismo, mesmo os profissionais deram muito de si, voluntariado, para construir o futuro e sonhar um mundo melhor.
A D. Fernanda foi isso mesmo, uma mulher que deu de si, que gostava de ajudar os outros, que tinha sempre um sorriso e uma palavra de ternura. Semeava amor.