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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Porta do Tempo – Um Pórtico feito de memórias que fazem a cidade que somos

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Está ali, erguido imponente, residual, como se monumento fosse, ou talvez, uma fronteira desactivada, que não se quer esquecer, porque, afinal, era naquele lugar que a Vila se ligava à fábrica e a fábrica se ligava à Vila.

Era, ali, naquele lugar, contam os antigos que chegava a camioneta trazendo passageiros, ao encontro da Vila.

Aquele era o largo da fábrica grande, enorme, de muita gente vinda de muitos lados, de milhares e milhares, que pela manhã numa corrente humana, tal rio de gente, a pé ou de bicicleta, entravam num mundo solidário, feito de famílias – pais, mães e filhos. Porque a fábrica aqui foi, sempre, feita de famílias, um testemunho de pais para filhos.

 

De repente dou comigo a olhar para aquele pórtico, assim, como quem olha para uma porta do tempo, aquele espaço no espaço que se abre ao passado, ao presente e ao futuro.

Aquele pórtico, ergue-se sublime, numa beleza única, porque ele, na verdade,  é mais que betão, é uma porta aberta à temporalidade, é como se fosse uma  miragem, um passe-partout, uma moldura, a porta para a vila, ou a janela para a cidade. Tem uma beleza que se inscreve nos nervos, na memória, no tempo, no sangue, é tudo isso que lhe dá dimensão estética, emocional e racional.

De contrário, como tudo o que não se sente e não se pensa, seria rotulado de um mamarracho. É assim que acontece quando não se sente o significado do ferro, que enferruja com o tempo, molda-se, transforma-se, e, do cimento que se afirma com uma textura de perenidade. Imutável. É a tal diferença entre a democracia e a ditadura.

 

Os lugares na vida de uma cidade têm um simbolismo próprio e memórias. Ali, o Largo das Obras, completamente remodelado, é, um desses lugares onde as memórias estão vivas. Sentimos os passos que lá não estão. Escutamos o burburinho humano dos portões ao abrir, todos os dias, no final dos turnos ou de mais um dia de trabalho normal.

Vemos as baias a erguer-se para deixar o carro passar, agora, já não para a fábrica, mas para o Parque Empresarial.

Naquele pórtico está o Barreiro que foi, o Barreiro que já não é, o Barreiro que é e o Barreiro que há-de ser, sempre feito de memórias diferentes.

Nos dias de hoje, quando vejo grupos de jovens, por ali, a passear e a conversar amenamente, sinto e penso, que esta geração já não sente a cultura da fábrica, sente apenas aquele sentimento expresso pela obra de Vhils, virtual e de uma beleza universal, essa feita deste tempo que se inscreve nos nervos, igual, aqui, em Londres, Sidney ou Nova Iorque.

 

Há quem diga que, por ali, por aquele pórtico, um dia podemos entrar para um “cluster de indústrias criativas”, espaço de referência criativa na Área Metropolitana de Lisboa. Ao fundo o mural de Vhils, acena a sorrir.

Outros falam, que aquele é a porta para entrar no mundo das“startups”, de gente nova e empreendedora, voltado para as novas tecnologias.

Há ainda quem veja naquele pórtico o ponto que marca a entrada e saída para um Terminal de Contentores.

 

Aquele pórtico, ali, paredes meias com o Barreiro centro e Barreiro Velho, entre edifícios modernos que espreitam dos lados do Forum Barreiro e, aqueles em ruínas, sem donos com rostos, talvez geridos por off shores, é bem uma moldura do Barreiro.

Sim, essa tal terra com muitas potencialidades, com um território  - verdadeira pérola – que continua a estar por ali, sem nexo, apenas mantendo-se erguido sóbrio e solene, tal como um pórtico com memórias no tempo.

 

E, por fim, por ali, sempre presente, frente ao pórtico, está viva essa cultura de apontar o dedo e encontrar culpados, sim, viva, bem viva, naquele edifício que se ergue, sobriamente – envelhecido  e ténue - frente ao pórtico, dizem que é o lugar onde se pensa o território, onde tudo se discute e planeia, aquele edifício que olha olhos nos olhos o pórtico, e, sente que não tem soluções, porque apenas pensa e nada pode decidir, porque, afinal, as decisões estão na outra margem.

 

Dei comigo a percorrer aquele lugar, sentir o pórtico, olhar o pórtico, tocar com os olhos a distância e pensar, que ali, aquele pórtico é, sem dúvida, uma porta do tempo. O tempo que fomos. O tempo que somos. O tempo que havemos de ser.

 

Aquele é o nosso «Arco do Triunfo», memória do que fomos, ou, talvez,  o nosso «Arco da Rua Augusta» - a porta do turismo - que talvez um dia, possa cá chegar…afinal, por ali, vamos para o passado, sentimos o presente e sonhamos futuro.

Está tudo ali, basta pensar e sentir…aquele é mesmo o pórtico do tempo!

 

António Sousa Pereira

 

Bom Dia Tu! Bom Dia Barreiro!

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Todos os lugares têm palavras que se inscrevem nas suas memórias e histórias. Nós somos, muito, do que bebemos nas paisagens, mimeticamente.

Somos nós e as circunstancias - as pessoas, as coisas, o ser e fazer, os actos e as atitudes, a gratidão e ingratidão, alegrias e tristezas. lágrimas e sorrisos.

Somos todo esse tempo vivido, todos esses passos inscritos no chão que pisamos. Beijos. Gritos. Os assombros e desassombros. Sucessos e insucessos.

Somos a terra que ajudamos a construir, que construímos, que sentimos nos nervos. Aquele lugar, que olhamos e dizemos, para o nosso coração – aqui está um pouco do que fui e do que sou, do que somos.

 

É por isso que nós nascemos, sempre, nesse lugar onde vivemos na plenitude, quem somos e quem fomos, esse lugar, esse recanto, esse rio, essa muralha, esse jardim, essa rua, os lugares de criança, jovem, adolescente, aí, onde os nossos cabelos ganham a luz do tempo.

Ou, talvez aquela janela, aquela porta, aquela flor, símbolos dentro do coração, esse lugar único, onde está o calor do fogo que dá força ao nosso direito de sonhar e pensar. Sim pensar, porque pelo pensamento descobrimos a força das palavras, elas, que são a energia da nossa vida – Liberdade, Solidariedade, Amor, Resistência.

 

Gostamos dos lugares que nos ensinam a pensar o valor das palavras, fazendo vida, construindo vida.

Gostamos dos lugares que nos fazem sentir orgulho pelas suas memórias e histórias.

Gostamos dos lugares que nos ensinam a amar a vida, a sentir a maresia e a perdermos os olhos no areal que mergulha por dentro do Tejo.

Gostamos dos lugares que nos ensinam a viver para além de populismos – e sentir todos os ismos que estão inscritos na acção de muitas gerações. Vivendo com ideias e ideais.

Gostamos de lugares que nos ensinam a conjugar solidariedade com Liberdade.

Foi isso que aprendi aqui, por isso, talvez muito por isso, gosto de viver aqui, este lugar, onde aprendi a amar e onde plantei o futuro num beijo. Três beijos floridos.  

 

Sim, é isso, nós gostamos dos lugares onde descobrimos as palavras, onde sentimos a força das palavras, onde amamos as palavras, sempre que as sentimos no nascer do sol a brilhar nos olhos, ao amanhecer, quando acordamos e gritamos: BOM DIA!

Bom Dia Tu! Bom Dia Barreiro!

 

António Sousa Pereira

A vida transporta a palavra gratidão para o nosso coração

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Há dias que marcam a vida por dentro dos dias, aqueles dias nos quais todo o tempo se espelha, de súbito, em instantes, palavras ou gestos, acontecimentos, que trazem emoções, lágrimas a dar sentido a todo o tempo.
Ontem, foi um desses dias. Fui visitar a Santa Casa da Misericórdia do Barreiro. Vi rostos conhecidos. Mergulhei na memória de situações e contextos, ali, sentidos nos nervos.

No final da visita, quando entrevistava a Sara Oliveira, Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, numa cadeira ao lado, alguém apontava para mim, olhei e não reconheci. Mas, senti aquele olhar e o dedo em riste, erguendo-se da cadeira e dirigindo-se para mim. Voltei a olhar e procurei, em segundos, encontrar aquele rosto na minha memória. Olhei o seu sorriso que se misturava com lágrimas, enquanto abria os braços para me abraçar. Por acaso, dizem, até era o dia do abraço.

E, naquele instante vi aquele rosto rasgar o tempo e reencontrei-o, ali, diariamente, no Café da SFAL.
“É a mãe do Toino”, disse eu. Dei-lhe um beijo. Abracei-a. Ela abraçou-me, de lágrimas nos olhos. Perguntou-me pelos meus meninos. Perguntou pela professora Lurdes.
Eu perguntei-lhe : “E o Toino, onde está o Toino?”.
“Está lá em baixo”, comentou a Sara.
“Eu quero ver o Toino”, disse.
Lá tirámos uma selfie. Eu e a mãe do Toino. Aos anos que eu não via a D. Adrialete, nem o Toino. Nem sabia que estavam na Santa Casa da Misericórdia do Barreiro.
Foi uma agradável surpresa este reencontro.

Depois desci. Vim para ir ver o Toino que estava acamado. Chegámos junto à cama. Ele mexia-se. Olhava. Perguntei-lhe se me conhecia. Olhava. Desviava o olhar e remetia-se ao silêncio.

Aproximei-me mais dele. Voltei a perguntar se me estava a conhecer. Ele ignorava.
“Sou o Sousa Pereira, da SFAL. Lembras-te?”. interroguei.
O Toino abriu os olhos. Os seus olhos grandes. Fixou-me. Começou a rir e uma lágrima caiu dos seus olhos misturada com sorrisos.
Ergueu o braço e gritou : “O So..o So..O Sosa o Sosa Pera”.
Chorava. Ria-se. Remexia-se na cama. As minhas lágrimas saltaram os olhos e os nervos. Um momento único, inesquecível. Uma ternura feita de lágrimas e sorrisos.
“O So..Sosa Pera”, repetia o Toino. Com um sorriso sentia-se feito de veludo e felicidade. Eu limpava o canto dos meus olhos, disfarçadamente.
Ali, estive uns momentos. Antes de sair dei-lhe um papel com meu nome e número de telefone.
“Ficas responsável por não deixar ninguém entrar e incomodar as pessoas. Se te disserem alguma coisa diz que fui eu o Presidente que mandei”, disse-lhe.
Ele ria-se. Ria-se mesmo. Gargalhava. Percebia o que estava a dizer-lhe. Recordava.
Na SFAL, eu costumava dar-lhe um papel e dizia-lhe para ficar ali, num sitio, quieto, sem deixar passar ninguém, ali ficava, junto a uma mesa, num canto, onde ninguém passava. Ele ali ficava horas, quieto a cumprir o serviço. Era a forma de ele estar ali, e, contrariar aqueles associados que criticavam a sua presença e da mãe, no espaço do Café. Exigindo até que fossem tomadas medidas e proibir a sua entrada. Resisti e nunca aceitei essa discriminação. Coisas.

Quando lhe dei o papel, ali, na cama, ele agarrou e sorriu. Até parecia que estava a entender.
“E, vais à SFAL e não deixas entrar ninguém”, disse-lhe.
Ele ria. Sorria. E, até ergueu o punho, com toda a energia, bem alto, enquanto as lágrimas se soltavam nos seus olhos.

Escrevo este reencontro com o Toino. Porque, digo-vos, são daqueles instantes que a vida, transporta a palavra gratidão para o nosso coração.

Aquele abraço e beijo da mãe do Toino. Aquelas lágrimas, aqueles sorrisos do Toino, aquele punho erguido, aquele dia de ontem, aquele momento, inscreveu-se nas raízes dos meus neurónios. Uma verdadeira sinapse, daquelas que nascem na raiz do tempo, todo o tempo que é, afinal, o que faz a nossa vida, aqui, vivendo com a palavra amor.
Não há nada no mundo que seja mais belo que esta ternura que nos toca, assim, um beijo de emoções, tão forte, tão forte…que pensei - é isto a felicidade!
“O So..o so..o sosa pera..o sosa pera”!!
Porra Toino, fizeste explodir o meu coração em lágrimas de ternura. Obrigado!

 

António Sousa Pereira

Chegou a Liberdade e a Democracia.

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Em Maio é tempo de anunciar as novidades, e, pelo que me constou, numa conversa no Instituto Politécnico de Setúbal, está em marcha um novo projecto jornalístico no concelho do Barreiro.
E, pasme-se, também já se fala que um outro projecto on line está em gestação, esse, direcionado para o distrito de Setúbal.
Portanto, isto promete. Num distrito e num concelho, onde, na verdade, toda a imprensa regional luta pela sua sobrevivência e aquela que existe, não consegue dar saltos qualitativos porque vive sufocada e não tem condições, nem existem condições para evoluir, desde que seja autónoma e independente, é, sem dúvida, curioso que exista quem está disposto a investir, e arrancar com novos projectos neste mundo da comunicação social local – onde independência rima com sobrevivência.

No içar das bandeiras, no dia 25 de Abril, ao longo dos anos, estando ou não de acordo, tendo ou não votado na força politica que lidera a freguesia, esta, Lavradio, que é a terra dos meus filhos, sempre marquei presença, como cidadão, naquele momento de evocação da Liberdade. De cravo ao peito, ou, até mesmo sem cravo ao peito, porque, desde há muito decidi, em consciência, que o cravo de Abril pulsa no meu coração.

É no nosso coração que pulsa a energia da Liberdade, essa que nos faz respeitar as diferenças e saber, que a democracia não é uma ideologia, mas o diálogo e o confronto de ideias, num permanente caminhar pela construção da diversidade, da pluralidade, sempre rumo a um mundo que se aperfeiçoe, e, onde todos possam assumir um lugar de cidadania na história e na vida.
Estou mesmo cansado dos democratas, que criticam os democratas de não serem democratas, porque eles é que são os democratas. Isto faz-me lembrar, sempre, aquela frase: “Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei…”.

Como dizia Voltaire: «Discordo daquilo que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de o dizeres». É isto o amor à Liberdade. É isto o tal lema, que herdámos da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

E, este pensamento, ocorreu-me, neste Abril de 2018, quando vi uma figura, que, em todos os anos de democracia, nunca o vi, ali, nos dias de Abril, a festejar a Liberdade, mas, finalmente este ano, o dito, lá estava - não sei se sim, se não, de cravo ao peito, mas que estava, lá estava, sorridente e desperto para festejar, certamente, porque só agora, a este canto à beira tejo plantado, chegou a Liberdade e a Democracia.

E, naquela manhã de Abril, quando olhava para o dito cujo, ao meu pensamento ocorreu uma situação que vivi, logo ali, naqueles dias após o 25 de Abril - a 28 de Abril – a primeira vez que saí do Quartel e vim ao Lavradio, após o dia da revolução.

Pela tarde, fui ao Café da SFAL, entrei e cantava-se o «Avante camarada”, ao fundo, a cantar bem alto, estava outro dito cujo, que meses antes, em Outubro de 1973, eu tinha visto sentado na Escola Primária, no Parque Estrela, na Mesa das «Eleições», como Delegado da ANP.

É assim, a democracia tem destas coisas, de repente faz pessoas que não respeitam as diferenças, que cultivam o ódio, vestir a pele de democratas.
Eles sabem muito bem, usar a democracia e a Liberdade…
Então, cantam, sorriem, e, até são democratas, e, de facto, são mais, muito mais democratas que qualquer outro democrata, mesmo aqueles, que não trocam a liberdade de dizer o que sentem e pensam, sabendo que isso significa…perseguições, retaliações e calúnias!

Apeteceu-me escrever estas breves reflexões, hoje, Dia 1º de Maio, só porque, afinal, é 1º de Maio.
Enfim, é vida!

António Sousa Pereira

Conversa no «Arestas de Vento», na Rádio Popular FM

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Um programa que se mantém há largas décadas, sendo um ponto de encontro para conversas, aos sábados, entre as 11h00 e as 14h00. Ali, em FM 90.9.
Aceitei o convite e lá fui, nada sabia sobre os temas da entrevista. Sabia que estava convidado enquanto Director do Jornal «Rostos».

E, lá abriram os microfones. Estava no ar, escutando para abrir Zeca Afonso –“…olha o sol que vai nascendo…”.
Depois começou a troca de ideias. Uma conversa agradável, nem se sentiu o tempo passar.
Falei do meu amor à Liberdade. Que para mim a Liberdade é inegociável. Que não troco o que sou, a minha liberdade de sentir e pensar o mundo por nada. Só quem não conhece o meu percurso de vida, pode achar o contrário. Mas eu sei, e há mais quem saiba, tudo o resto pouco me importa. Quando nos vestem roupas, bem “cozidas” ao corpo é difícil rasgar.
“Para mim a Liberdade é o motor da história”, já o escrevi à muito tempo, é, por isso que para mim Abril – “é um sonho chamado Liberdade”.

Na conversa com Ricardo Cardoso, dizia-lhe que mais que ser um «eu», ou um «nós», eu prefiro ser um «Tu», porque num «tu», eu sou um eu com outros «eus » e com o «nós».
E lá fomos durante cerca de duas horas, falando de democracia e liberdade, de Europa, do mundo.
Sou um inconformista e um europeista, disse-lhe, porque acredito que a Europa tem um importante papel no futuro da humanidade, promovendo a cultura das diferenças, o respeito pela liberdade religiosa e politica, pelos seus valores, mas, para isso precisa de travar ímpetos de «democracia autoritária», essa que cala as minorias, silencia a imprensa, e, tudo compra porque tudo tem um preço. A Europa tem que aprofundar a democracia e a cidadania.
“A Liberdade não tem preço”, recordei.

Falamos de jornalismo, do mundo on line, das edições impressas, das condições para fazer jornalismo numa região com um tecido económico de pequenas e médias empresas que tem dificuldades e contribuir para que exista uma imprensa regional com energia e autonomia.
“É difícil fazer jornalismo”, comentei. Só mesmo por amor, por paixão e porque vivemos fazendo aquilo que se gosta e dá gozo, aquele gozo interior que nos realiza e que nenhum dinheiro do mundo paga. Ser que vale mais, muito mais que parecer.
“Isto não é negociável, disse-lhe.

E, a conversa é como as cerejas e veio à baila o ter tido um processo de expulsão do PCP, por delito de opinião e donde sai rumo à vida e senti na pele as consequências. Resisti. Sonhei.
Referi, igualmente que estou inscrito no PS, há mais de década e meia, mas, não tenho actividade militante.
Estou e tento provar, a mim mesmo, que em Portugal, nestes mais de quarenta anos após Abril, é possível fazer jornalismo e ter partido. Mantendo a distância e a independência, sem ser acusado que está sendo um traidor aos seus valores, porque, afinal, a liberdade do jornalismo reside no respeito pelas diferenças. Olhar e viver o pulsar das comunidades.

Conversámos sobre o Barreiro, que referi e refiro como tendo tido três patrões – o ferroviário, a CUF e o «construtor civil». Hoje não tem patrões. os «grandes patrões» são quase e apenas as entidades do Estado – hospital, autarquias, escolas, tribunal e depois IPSS’s, que dependem do estado.
Uma terra que tem como primeira prioridade a resolver sair do gueto, desenvolver a sua mobilidade – a ponte de ligação ao Seixal – e investir na sua requalificação para valorizar a sua qualidade de vida – rede de esgotos, rede de águas, espaços urbanos e revitalização do seu edificado.
Estas são as prioridades para fixar pessoas – jovens e não jovens, porque uma cidade faz-se de gerações e os jovens de hoje serão os velhos de amanhã.

Falei do meu Barreiro. Terra dos meus filhos, como a terra onde aprendi a viver e a sentir o valor e o sabor da palavra liberdade. Antes e depois do 25 de Abril.

Lamentei que o PS, após conquistar a autarquia, não tenha feito todos os esforços para levar até ao limite a negociação de pelouros a todas as forças politicas, que sempre disse em campanha eleitoral que iria concretizar, dando continuidade a essa dinâmica cultural autárquica, que existe desde a Comissão Administrativa.

Manifestei a minha indignação, por essa «corrente de pensar e sentir o Barreiro», onde parece que só existem uns maus de «muros ideológicos» que atrasaram e atrasam a vida e o desenvolvimento e depois, existem os outros, todos, que são os bons.
Fazer dos comunistas os culpados de todos os males do Barreiro é, afinal, não respeitar a memória de muitos homens e mulheres – como dizem alguns meus amigos do PS e PSD, o meu avô foi comunista - que lutaram pela democracia, é não ter a ousadia de olhar a cidade, com olhos de ver, e sentir que muito mudou, mesmo muito…
Isto não significa, acrescentei que concorde com tudo e que subscreva tudo, mas, apenas e isso, defender que uma cidade é de todos e todos pode contribuir para o seu crescimento e desenvolvimento.

Enfim, foi uma conversa, aqui, recordei de memória, que vou guardar, porque, foi daquelas conversas abertas, sem limites, onde expressei sentimentos e partilhei emoções, em Liberdade.
Obrigado ao Ricardo Cardoso e a Céu Campos, pelo convite e pelo momento agradável que partilhei com a vossa grande simpatia. Eles, afinal, são dois grandes resilientes e amantes do comunicar e fazer cultura...em Liberdade!


António Sousa Pereira

Liberdade

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Se te castram a Liberdade,

então, rasgam a energia,

essa, que brilhou nos olhos

daquele menino a sorrir, ali,

na calçada, ao lado do homem,

jovem mobilizado ou por mobilizar

de arma em punho, a g3, do sonho,

essa onde floriram cravos!

 

Se te castram a Liberdade,

destroem tudo o que sofreste,

todo o teu tempo, em luta,

nos silêncios, nas pressões,

nas marcas inscritas no teu peito,

em dor, no amargo dos dias,

todos os que viveste, sempre,

vivo, e nunca abdicando,

nem baixando os braços,

caminhando, como os poetas,

sabem caminhar, com amor

esse amor que nasceu, a florir,

na Primavera, um tempo onde,

sempre, mas sempre, nasce Abril!

 

É isso, apenas isso, não deixes,

que te castrem a Liberdade!

 

Se te castram a Liberdade,

matam a tua memória,

e tu, sem memória,

deixas de ser quem diz,

deixas de ser quem fala,

deixas de fazer a tua  história!

 

Tu que cantaste na madrugada,

quando o silêncio tocava os nervos

prendendo teus dedos a calar, em dor,

dizendo nas entrelinhas, não é agora,

quarenta e quatro anos feitos de flores,

que vais deixar de dizer o que pensas.

 

Não deixes que te castrem a Liberdade,

porque, afinal, a Liberdade não tem preço!

 

António Sousa Pereira

20 de Abril de 2018

Escutar, pela manhã, o cântico dos pássaros nestas árvores é uma delicia...

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Há uns anos aprendi, nos tempos da troika, dito por quem não sei, que há uma grande diferença entre passar os dias a viver como se pensa, e, o passar os dias a pensar como se vive. Uma diferença marcante.

Hoje, quando saí de casa pela manhã, a primeira percepção que tive foi como é lindo, pela manhã, não ter horas marcadas para ir a lado algum, não ter horários a cumprir, caminhar, distraidamente, e, de repente, parar debaixo de duas árvores para escutar a sinfonia matinal dos pássaros que trazem a natureza para o centro do meu bairro.

Escutar os chilrear é uma delícia, doce, suave, inspiradora, dá luz por dentro dos nervos.

 

Continuo a minha caminhada  matinal. Há uma vizinha que abre a porta de um prédio, e, com os olhos voltados para dentro, cruza-se comigo e lá vai, discreta, falando sozinha. Livre.

Numa varanda, um chilrear de canários em gaiolas. Presos.

Dos lados da escola, os sons são outros, são as crianças em correria, chutos na bola, gritos, aquele som que marca o intervalo. Estas crianças que serão os homens, num tempo que, certamente, já andarei a navegar pelo silêncio da eternidade.

 

Um destes dias, dei comigo a pensar que uma criança, nascida naqueles anos, próximos de Abril, e, até, no 25 de Abril, são hoje a geração dos 40 e 50 anos, para todos eles, as memórias do tempo antes de Abril acontecer, são meras «estórias contadas».

Dou comigo a pensar nisto enquanto, de repente, duas pombas rasgam o azul do deste dia de Abril com um sol brilhante a recordar que estamos na Primavera.

Ah, é verdade, hoje não vejo por aqui gaivotas que costumam deitar-se no lago de repuxos, junto à Piscina Municipal do Lavradio. Um espaço agradável. Ainda não há muito tempo, era um terra batida, que marcava de pó ou lama terreno frente à escola do ensino básico. É isso, só quem sente as mudanças na paisagem, sabe como há mudanças que transformam.

 

Parei na Farmácia Roldão. Agora um ritual, para leitura da tensão. Tudo normal.

E, lá comprar o jornal, a leitura de todas as manhãs, adoro percorrer as paginas do Público, porque ali, todos os dias aprendemos a sentir e a olhar o mundo, e, aproveitei para meter o euromilhões, tentar a sorte, que nunca quis nada comigo ao longo da vida, mas, um homem não desiste, só não ganha quem desiste de tentar a sorte. O meu pai tentou a vida inteira e nunca conseguiu, mas isso sei que o divertia, pois, afinal, todas as semanas repetia o seu sonho – “se me sair o totoloto, faço isto, faço aquilo…”

 

Lá vou na minha caminhada matinal, dou comigo a pensar que foi naquela esquina da JJ.Fernandes com a Rua Cândido Manuel Pereira que ele, o meu pai, um dia pela manhã, caiu redondamente, vitima de um AVC. Depois foram anos que marcaram a memória, até, aquele dia que partiu e ainda hoje, sinto o breve aperto dos seus dedos, ao fim da tarde no Hospital do Barreiro, que antecedeu o telefonema pela madrugada. É vida.

 

Já há alguns dias que não ia pela SFAL. A Cândida quando e viu entrar até se admirou: “Por aqui?!”, interrogou.

Depois, fui com a Lurdes, à Loja do Continente – a antiga Cooperativa – comprei um peixinho fresco para grelhar ao almoço.

Entrei e recordei tantas pessoas com quem lutei para erguer a nova loja da Cooperativa Pioneiros do Lavradio. Trabalho voluntário, Fazer. Amor.Paixão. Muitos já partiram. Foi a primeira vez na vida que assumi ser presidente de uma direcção. Um desafio que me foi colocado pelo Ti’Pinheiro.

Foi a minha casa, então na Rua Grão Vasco, lá estava eu encostado às boxes. Tinha saído à dias do Hospital, onde estive em sequência de um incêndio na cozinha, que me queimou as pernas.  Sentado, quase sem me poder mexer. Escutei o seu convite e aceitei o desafio.

A experiência do cooperativismo abriu-me horizontes únicos, na forma de pensar e sentir a vida no plano social e económico. Seria um mundo tão diferente.

Talvez, no futuro a cultura cooperativa possa vir a afirmar-se como uma proposta alternativa a um mundo que está cego pela força do capital financeiro e das armas.

 

Chego a casa. Sento-me a ler o jornal e dou comigo a pensar nesta caminhada.

Sorrio. Retenho instantes a ler, e reler, a intervenção de Marcom, presidente da República Francesa, no Parlamento Europeu. Penso e fixo o conceito «ilibelarismo».

 

Penso, afinal, a minha vida será só e apenas aquilo que eu fizer em todo o tempo que tenho para viver.

Ou penso como vivo, ou, afinal, decido mesmo viver como penso.

 

Até logo!

António Sousa Pereira

Percepção

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Toda a percepção

tem um ponto esguio,

uma plumagem macia,

um foco que nasce

em retinas de luz.

 

Toda a percepção

é um efeito, de outro

feito, com impulsos,

vincos que vincam,

com olhares tracejantes,

soprados por ventos

dos tempos dominantes.

 

Toda a percepção,

transforma a forma,

na luz ou contraluz,

é sombra ou escuridão,

brilha ou reluz, depende,

da centelha… da imaginação!

 

António Sousa Pereira

17 de Abril de 2018

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