Fabriquismo: expressão da crise existencial

Desde que surgiu o slogan «Fabricado no Barreiro – produzimos orgulho local», nunca fui muito apreciador do dito, porque me transmitia um sentimento nostálgico, depressivo, saudosista, e, simultaneamente triste porque era vazio de um sentido, qualquer coisa que apontasse uma ideia positiva no fazer cidade.
Se não estou em erro este slogan surgiu ligado à promoção de uma eventual plataforma que seria criada, ou estava a ser criada, com a finalidade de dinamizar o tecido empresarial local. Neste contexto e vivendo-se um tempo pós desindustrialização, até, não liguei aos meus sentimentos, porque, na verdade, admiti poder tratar-se de um pensamento – slogan - que podia trazer atrás de si alguma ideia estruturante para dinamizar, dar energia e força ao tecido empresarial local, que, sem dúvida, de alguma forma já, há algum tempo, vivia com grande resiliência e enfrentava uma situação depressiva, tal como todo o concelho, quer devido ao processo de desindustrialização, quer devido às crises financeira e imobiliária, assim como aos tempos de troika, e, ainda, os tempos de pandemia COVID 19.
Por tudo isto olhei e pensei o slogan com algum desconforto, mas, enfim, dei o benefício da dúvida por pensar que seria parte de uma estratégia de coaching, para estimular o tecido empresarial. Coisa que, depois, na prática, nunca senti nascer qualquer dinâmica especifica.
Mas, o dito slogan, na realidade começou, pouco a pouco, a fazer parte da estratégia de comunicação autárquica. É como tudo, primeiro estranha-se, e, como diria o poeta, depois entranha-se. Engole-se.
Mais tarde, com a abertura da Start up Barreiro, notei que o dito slogan aparecia associado à divulgação de eventos que eram promovidos naquele equipamento municipal, o qual é dito como apostado na promoção do desenvolvimento empresarial e económico. Foi, talvez, com esse objectivo que Bruno Vitorino, lançou a ideia, embora, acredito tinha outras ambições, dado que sempre defendeu a criação de uma Agência de Desenvolvimento Local.
Em suma, o slogan «Fabricado no Barreiro – produzimos orgulho local”, acaba por transformar-se como um lema que pretende transmitir um pensamento politico de desenvolvimento local, e, através do qual o executivo municipal, pretende dar a sua visão do pensar futuro.
Assim, pouco a pouco, ao longo do tempo, a comunicação autárquica, foi enxertando este slogan nos seus documentos e procurou introduzi-lo na vida local, afirmando-o como uma ideia-força do pensamento estratégico do executivo maioritário, e, naturalmente, só dele, dado que nunca escutei a discussão, abordagem ou aprovação do dito slogan, numa reunião da autarquia, nem sequer foi aprovado como lema do município, pelo executivo municipal. Que eu saiba, não houve nem aprovação, nem reprovação em reunião de Câmara. Foi sempre um não tema. Um não assunto.
Este era o slogan que exprimia o pensar cidade e o fazer cidadania, da gestão maioritária. Que decidiu, está decidido.
Na verdade, desde que o dito slogan foi criado senti nele um profundo vazio, até, sublinho, senti nele a expressão de um certo “narcisismo local”.
Por várias vezes, estive vai não vai, para escrever e expressar a minha interpretação sobre este slogan, reflectir sobre a minha interpretação do seu conteúdo, que me parecia querer vender gato por lebre, não passando de um mero slogan aculturado, que era expressão de uma ideia de desconstrução do passado, e, que pretendia ser a expressão de um tempo de transição, marcando a diferença, entre uma cidade que tinha uma identidade de cultura de fábrica, e, o nascer de um tempo novo, marcado pela perda de identidade e carente de puxar pelo “orgulho local”. Dar uma nova dimensão à cidade valorizando as emocionais mudanças e criando uma gestão de sentimentos e promoção de emoções, fruto de uma cidade à procura de si mesma, e, perante todas esta nova realidade o município colocava-se como força central do fazer cidade. Um erro estratégico, porque a cidade é de todos e não do município.
Não escrevimada, afinal, achei que se o município adoptava este slogan devia ter alguma visão estratégica e pensamento politico que ao longo do tempo seria, naturalemte, desenvolvido e certamente afirmado.
Para afirmar orgulho de qualquer coisa é preciso mais que a palavra orgulho, é preciso que existam valores e objectivos.
Nunca expressei a minha insatisfação com o vazio que sentia existir neste slogan. Silenciei. Muitas vezes, na vida, é melhor calar. Mas calar, tem um tempo quando, a vida, por factos e coisas, faz emergir a realidade que se esconde por trás de um slogan. Um vazio. E uma dimensão politica e ética, meramente circunstancial e sem visão de futuro.
Foi por isso que comecei por estranhar o facto de nas Festas do Barreiro, em honra de Nª Srª do Rosário, as Festas da Cidade, que tem uma Comissão de Festas, ser esse o slogan adoptado como lema do material promotor das festas, independentemente de o principal financiador das Festas ser a Câmara Municipal do Barreiro, as Festas são um evento de dimensão histórica e cultural na vida do concelho.
Na realidade, considerei que o município estava a utilizar um evento com raízes profundas na vida da comunidade para promover uma campanha de marketing municipal. Fez-me lembrar os tempos que a Festa do Barreiro, foi realizada com o lema – Festas da Paz e da República, promovidas pela Comissão Administrativa, após o 25 de Abril.
Mas pronto, o poder absoluto tem estas coisas, por vezes, leva a pensar que se é dono disto tudo.
Não gostei desta ligação, mas, ainda pensei que era uma situação que emergia, no contexto da Mostra Empresarial, pomposamente denominada BARRIND, mas que BARRIND nada tem, porque aquela mostra, é, isso e apenas isso, uma Mostra empresarial, direi mais, este ano era uma Mostra institucional e imobiliária.
Enfim, mais uma vez não liguei até ao dia que surgiu aquele vídeo, da comunicação autárquica- que mistura as Festas com Câmara e BARRIND, não se percebendo onde acaba uma coisa e começa a outra, esse célebre vídeo produzido, com “orgulho local” e “fabricado no Barreiro”, foi feito para convidar todos a vestir, no último dia da festa, a T-shirt com o lema –«Fabricado no Barreiro : produzimos orgulho local», e, afirmando que esta frase e esta T-shirt era o lema oficial da festa.
“Junte-se a nós neste movimento”, afirmava-se, propondo assim, o lançamento de uma acção que seria promotora da criação de um movimento fabriquista de “orgulho local”.
Isto tocou os meus nervos. Pensei, tenho que escrever sobre este assunto. Ponto final.
E, quando andava nesta reflexão, um amigo meu, militante e activista do PS, mandou-me uma mensagem a perguntar, se eu não ia vestir a camisola no último dia da festa, acrescentando, na sua nota que estava a provocar-me e a brincar.
De imediato, dei-lhe a minha resposta, que considerava este “movimento” em torno da T-shirt «Fabricado no Barreiro – produzimos orgulho local» como um exemplo ridículo do fazer politica e uma forma de municipalização da cidade e da cidadania. Nunca o PCP, tão acusado de repressivo, atingiu estes patamares.
Disse-lhe ainda que, o “produzimos orgulho local” é um exemplo real dos tempos que vivemos do pós desindustrialização, porque nele está inscrito um vazio de identidade, uma vazio de ideia de cidade, sendo a demonstração plena da carência de afirmação do concelho. Este é um slogan que espelha um sentimento de perda de identidade, que inscreve dentro de si um ressentimento de quem pretende reescrever o passado.
O lançar de uma semente apontado para a criação de um movimento do fabriquismo, é, disse-lhe a negação de uma cultura que integra a história do concelho, uma cultura de vizinhança e solidária, que tem valores republicanos, democráticos, socialistas, anarquistas e de liberdade.
Entretanto, uma amiga minha, nas redes sociais, escrevia: “amanhã vou vestir a camisola, porque eu fui fabricada no Barreiro”. Estas palavras foram mais uma situação que me fez pensar sobre esta cultura emergente do fabriquismo que “produz orgulho local”.
Um movimento que nasce com uma dimensão social de narcisismo comunitário. Assim, pensei que esta era mais uma razão que me impedia de vestir a dita camisola, porque não nasci no Barreiro, não fui aqui fabricado.
E, com alguma emoção, ao escrever estas palavras, sinto pulsar na minha mente, aquela frase de Emidio Xavier, quando afirmou que o melhor do Barreiro são os barreirenses, todos, todos, todos, aqueles que aqui nasceram e aqueles que aqui construíram as suas vidas e de suas famílias.
É que orgulho local, isso, é coisa que não se produz, não é matéria fabricada, as emoções fabricadas são as que visam estimular os instintos, promover o consumismo. As emoções fabricadas não tem nada a ver, mesmo nada, nem nada que com tal se compare, como aquela expressão libertadora que se dizia, com sobriedade cultural, e, até, com altivez no coração, naqueles tempos antes do 25 de Abril, quando se afirmava: “Sou do Barreiro. Vivo no Barreiro”.
Naquele tempo, isso significava ser um ser humano livre, ter honra, dignidade, amar uma terra que sendo sua, ou onde nela se viva, era uma referência viva de resistência, de luta pela Liberdade e Democracia. Isto orgulha qualquer barreirense aqui nascido, ou que aqui tenha aprendido a amar a Liberdade. Uma terra de homens e mulheres que lutavam pelo futuro e sentiram na pele as perseguições. E hoje, são tão esquecidos e ignorados. Homens e mulheres que lutaram contra o pensamento único e sabiam que não é só de pão vive o homem, por isso, havia, na vila operária, mais vida para além da fábrica.
O actual movimento do fabriquismo, que produz orgulho local, é a expressão de um vazio de identidade, de ausência de ideias que envolvam a comunidade, é o fruto de um pensamento politico que se olha ao espelho e pensa ser o centro da vida. Orgulhosamente.
O movimento do fabriquismo é mais uma, das muitas situações que nos últimos anos têm sido geradas por forma a manter um permanente caldo, em banho de maria, do pensar a cidade como um lugar onde há bons maus. O dividir para reinar. Os bons serão os que vestirem a camisola. Os maus serão os que não a vestem, esses serão os aziados.
O slogan « Fabricado no Barreiro – produzimos orgulho local», contrariamente ao que podem pensar, não foi promovido e assumido como uma ideia promotora de uma identidade, de uma cultura, de uma ideia de cidade ou de valorização da cidadania. É coaching. É gestão de emoções.
O slogan foi criado para servir como espelho, onde todos temos que nos sentir reflectidos.
Por isso, apenas por isso, com a vontade de criação do dito movimento do fabriquismo, do vamos vestir a camisola do “fabricado no Barreiro”, hoje, sinto que o slogan está morto.
A ambição de criar um movimento de dar expressão a uma ideia vazia, querendo ir mais além que a insignificância do slogan e do seu conteúdo, deu-lhe uma estocada de morte.
A partir de agora, de facto, é esta a realidade.
Este slogan não une, divide.
Este slogan, na estimula, desmotiva.
Este slogan não faz unidade social, promove o confronto.
Este slogan não transporta amor, veicula ódio.
Este slogan, não promove identidade, estimula ressentimentos.
Este slogan transformou-se numa espécie de expressão de um movimento politico sem dimensão histórica e sem marca no futuro.
Este slogan está morto, porque municipalizou a cidade e quer municipalizar a cidadania. Enterrem-no, ou reduzam-no à sua insignificância.
Quando pensava em tudo isto, ocorreu-me que este slogan, afinal, tem dentro de si uma problema psico-social, que se cruza com a história do concelho do Barreiro, a velha questão filosófica do papel do “eu” e o papel do “nós” na acção cultural e sócio-politica.
O Barreiro, durante muitos anos viveu um problema no seu quotidiano, porque, colocava por regra o “nós” como sendo ele a expressão do “eu”, e, simultaneamente dizia que o “nós”, era a soma de muitos “eus”. Era a cultura da fábrica. O colectivismo.
Este slogan “Fabricado no Barreiro – produzimos orgulho local”, inverte essa situação e perspectiva, porque, agora, quer que o “eu” se dilua no nós.
Este slogan, infelizmente, transforma o “eu” num “nós”. Se antigamente o nós era a soma de eus. Hoje pretende-se que eu tenha um sentir colectivo. O «eu» tem que ser vivido num «nós». Este fabriquismo quer, na prática, que cada «eu» seja um “nós” – o tal orgulho local. Nietzsche, explica isso.
Pensando nisto, disse, para mim mesmo: nunca irei vestir aquela camisola, com aquele slogan, narcisista, depressivo, saudosista e promotor de um pensamento único. Sou um homem livre, que quer viver a democracia como confronto de diferenças e não como um pensamento único.
Já sei que estou lixado. Vou ser rotulado como aziado e ressabiado, e, obviamente, de alguém que está ao serviço dos comunistas. Uma força que dizem está morta, mas, afinal, parece que existe em cada critico.
Uma coisa é certa, após a promoção do «movimento do fabriquismo», tenho dúvidas que, alguma vez, no futuro esta camisola, ou este slogan, seja um elemento de coesão local, ou de valorização da identidade local, quanto muito será a expressão de um qualquer subtil populismo.
A verdade é que o fabriquismo não promove a esperança, nem promove a fraternidade.
O fabriquismo abre brechas no tecido social da cidade, gera conflitos de personalidades, desconstrói a história, e, por fim, não gera pensamento alternativo no fazer cidade e cidadania.
O fabriquismo é uma espécie de exigência moral, de promoção de um orgulhismo, clubista e patético, que não tem valores, nem princípios, é a-ideológico, e, apenas quer contribuir para estimular o populismo.
Vestir a camisola é uma espécie de um regresso ao 1984 de Orwel, somos todos iguais, com a mesma camisola, mas há uns mais iguais que outros.
“Fabricado no Barreiro: produzimos orgulho local”, já está morto como slogan unificador do pensar e fazer cidade e cidadania. Está municipalizado na sua própria ambição. A serpente que come o seu próprio ovo.
Afinal, na vida, há mais vida para além do município. O fabriquismo é um orgulho balofo e municipalista.
Ah, é verdade, eu disse ao meu amigo socialista, em resposta ao seu convite, de vestir a camisola, que um dos problemas do PCP, no Barreiro, foi não escutar a cidade, e, por vezes, pelo facto de ter a maioria absoluta, ter na sua gestão uma doença que o levava a pensar que era dono disto tudo.
O “Fabricado no Barreiro- produzimos orgulho local”, está eivado dessa doença, por isso, é um slogan oco, neurótico. Está morto. A sua morte é uma morte que foi anunciada em festa, na festa. Pode continuar, mas será só para a festa de alguns.
No futuro, por muito que pretendam dar a volta, com esta tentativa de criação de um “movimento fabriquismo”, no encerramento das festas do Barreiro, geraram as condições para criar o cadáver do “orgulho local”, e, daqui para a frente vamos assistir aos confrontos que vão conduzir à morte deste slogan narcisista.
Este slogan, está, desde já, transformado numa pedra de arremesso, de permanente agressão politica, é um lema que vai colocar sempre de um lado os bons e do outro lado os maus.
E, digo-vos, de facto, já começa a cansar, fazer da politica uma guerrilha permanente, em busca do inimigo comum, ou de um bode expiatório, em vez de ser o debate de ideias e de projectos, não uma permanente diversão de slogans e clichés.
Ainda há quem se admire das pessoas estarem fartas de políticos e de politiquices de meia tijela, que é aquilo que cria as razões que desmotivam e levam as pessoas a não ligar à vida politica.
“Fabricado no Barreiro – produzimos orgulho local”, será no futuro o slogan limitado a algum PS, ao executivo municipal maioritário, será a camisola que vai ser vestida por alguns funcionários públicos, e, por outros, que, levados na onda do marketing politico, por amor ao barreirismo, vão sentir a felicidade de sentir que integram um movimento ligado ao poder dominante.
Este, acredito, vai ser um tema que poderá motivar uma ampla reflexão sobre a partidarização do Poder Local, sobre a municipalização da cidade.
Vai ser tudo o que quiserem mas não será um slogan para promover um marketing territorial, nem valorizar a cidadania, porque já tem dentro dele a marca da conflitualidade partidária.
Entender a diferença entre autarquia, partido, e separar as águas, é essencial, para fazer futuro.
Este slogan não veio para unir, este slogan veio apenas para dividir e transformou-se num instrumento municipalizador da cidadania e de partidarização do município.
O fabriquismo é, sem dúvida, a expressão de uma crise existencial e da perda de memória cultural.
Terá sido acaso? Ou, na verdade, é mais do mesmo?
Cá por mim, este slogan morreu, e, desde já, o fabriquismo transformou-se numa nuvem de orgulho passageira, que se dilui no seu próprio vazio de pensamento, e, o futuro confirmará que ele é apenas um fruto das vivências de festas e consumismo. Populismo e eleitoralismo.
António Sousa Pereira


