Morreu Manuel Fernandes, que começou sua adolescência desportiva no Estádio Alfredo da Silva, no Barreiro, com as cores do Grupo Desportivo da CUF, sagrou-se como o eterno Capitão do Sporting Clube de Portugal e honrou as cores de Portugal ao serviço da seleção, legou uma vida exemplar de amor ao futebol e à construção de amizades.
Um dia, no Estádio Alfredo da Silva, num encontro de apresentação da equipa do Grupo Desportivo Fabril, então Manuel Fernandes, na função de treinador do Vitória de Setúbal, no final de um jogo de futebol perguntei-lhe, qual a sensação que sentia ao regressar ao Estádio Alfredo da Silva, ele respondeu: ““Este é um campo que marcou a minha adolescência. Passei aqui seis anos maravilhosos, com gente boa, com gente experiente, com um clube com umas condições extraordinárias. É sempre bom visitar este estádio lindo. Era lindo, ainda está bonito, mas dantes era lindo.”
Senti que ser jogador, podia ser a minha profissão.
Igualmente, tive a honra de moderar, na Escola Profissional da Moita, uma conversa com Manuel Fernandes e Carlos Manuel, uma conversa para dar a conhecer aos alunos exemplos de vida e de paixão pela vida.
Nesse encontro com os alunos, Manuel Fernandes, recordou – “nasci numa aldeia humilde, a minha terra era uma terra isolada para lá chegar ia-se por estradas de areia”.
Salientou que desde muito novo – “senti que tinha vocação para ser jogador de futebol, enquanto os meus amigos de infância gostavam de brincadeiras de cow boys, eu gostava de jogar à bola. Eu jogava dois três jogos por dia. Senti que ser jogador, podia ser a minha profissão. Foi a minha mãe que me incentivou a ser jogador de futebol. Ela adora futebol, ainda hoje é a sócia nº 2, do Sarilhos”. A conversa realizou-se em 28 de Fevereiro de 2014.
Ter muito jeito não chega, temos que lutar
“Acho que quando temos vocação para uma coisa, devemos agarrar essa vocação para termos sucesso” – sublinhou Manuel Fernandes.
Recordou que aos 16 anos, vestiu a primeira camisola, integrando a equipa do Sarilhos Pequenos. Sarilhos Pequenos. Era uma terra com 700 habitantes.
“Eu tinha muito jeito” - sublinhou, acrescentando que – “ter muito jeito não chega, temos que lutar”, porque há muitas dificuldades pelo caminho.
“Fui treinar ao Sporting e ao Benfica e fui escorraçado” – recordou.
Manuel Fernandes, sublinhou que esses episódios não lhe retiraram a vontade de concretizar o seu sonho.
“Eu vou conseguir” – foi a afirmação que colocou a si mesmo, vindo a integrar o plantel do Grupo Desportivo da CUF.
Eu queria chegar ao clube do meu coração, o Sporting
Manuel Fernandes, recordou que, dedicou-se durante seis anos ao Grupo Desportivo da CUF.
“Eu queria chegar ao clube do meu coração, o Sporting. Sempre disse que queria representar o clube que eu mais gostava – o meu Sporting” – salientou.
“Eu sabia que um dia ia vestir aquela camisola. E vesti-a durante doze anos” – recordou.
Recorde-se que Manuel Fernandes foi, até aos dias de hoje, o melhor marcador do Sporting Clube de Portugal e o atleta com mais jogos ao serviço do clube.
Partilhar momento de convívio com Manuel Fernandes
Tive, igualmente a honra de partilhar momentos de convívio com Manuel Fernandes em encontros, no Estádio Alfredo da Silva, quer quando integrei o Conselho Geral do Grupo Desportivo Fabril, quer enquanto exerci o cargo de Presidente da Mesa da Assembleia Geral. Um homem de conversa afável, de grande simplicidade e respeito pelo outro.
Também, conversamos e partilhamos selfies, naqueles dias de disputa do Taça Cidade do Barreiro, que colocava frente a frente o Barreirense e o Fabril, os eternos rivais. O derby da cidade. Ele vivia com intensidade este encontros com a história.
Como sportinguista sempre admirei o nosso capitão.
Fotografia - Com António Pereira (Luso FC); Manuel Fernandes (Sporting e GD Fabril), José Augusto - «O Magriço» SLB e FCB Barreiro - 24 de Janeiro de 2017
Todos nós, no tempo que vivemos, conhecemos pessoas que se inscrevem nas nossas memórias. São, afinal, essas memórias que enchem os nervos de cor e musicalidade.
A vida mais bela, a vida bela que toca os nervos, que fica erguida no tempo, para além, muito para além dos escombros, é sempre feita das alegrias e lágrimas que aquecem o coração.
A beleza da vida é descobrirmos, diariamente, para lá dos recantos das rotinas, a frescura de um olhar, um poema que se escreve nos olhos, ou num sorriso, sussurrando palavras que acordam o futuro, como se o futuro existisse vivo, em todas as memórias por nascer.
Uma amiga que nunca esqueço que me ensinou a amar a Liberdade, que me ajudou a descobrir a palavra Paz, que escuto sempre o seu sorriso no voo de uma gaivota, ali, quando me sento a pensar na Catedral do Tejo, no dia de hoje, se fosse viva, festejava os seus 87 anos.
Recordo-a sempre.
Ainda em Agosto, fui beijar a ternura da sua ausência ali, no Torrão, em Alcácer do Sal, a sua terra natal, onde ela descansa a olhar a eternidade, na planície que se estende até ao Sado, onde – “ao fundo o laranjal continuará verde” – como ela escreveu num poema que me dedicou no ano de 1991, e, só este ano, descobri que estava publicado no seu livro de poemas – “A palavra Iluminada”.
Falo de Maria Rosa Colaço. A mulher que antes do 25 de Abril, escreveu o livro-poema: «A Criança e a Vida», que semeou palavras em histórias de amor para crianças. Esse livro, que era senha de Liberdade. Que era voz de ternura. Que era dor de saudade. Quer era força de fraternidade. Que era a voz que se faz amor, por amar, por amor.
Esse livrinho que ofereci à minha Lurdes, para lhe beijar o coração com palavras de criança. O livrinho que passava de mãos em mãos, com palavras a inventar o sol azul, e, pássaros a beijar o amor pela madrugada, e, com os dias a fervilhar no sangue o encanto da palavra Liberdade.
Falo da minha irmã, como ela sempre me tratou - Maria Rosa Colaço - que um dia no Lavradio, me estimulou para escrever poesia, e, que disse-me com energia que publicasse um livro de poemas, porque, afirmava, tu tens os “poemas à tona da pele”, e, as tuas mãos semeiam poemas por dentro de todas as palavras. Nunca escrevi o livro de poemas que lhe prometi que, um dia iria escrever, mas, talvez, um destes dias venha a cumprir, porque, afinal, escrever um poema é sempre dar um sentido à vida. E a beleza da vida é ser poema.
Para que serve um poema? Interrogo-me muitas vezes.
Talvez sirva para recordar uma janela na noite escura. Ou inscrever um beijo na eternidade. Ou tocar na cascata de sentimentos escondidos na ternura do luar. Ou guardar a distância da penumbra que se esconde por trás de um olhar de magia. Ou sentir a criança a gritar na hora de nascer no sol colorido de placenta brilhante. Ou, apenas, para fazer renascer as flores, os cravos vermelhos, que colocámos a teus pés, no dia que fomos dizer-te adeus, eu e a Manuela Fonseca, e, ali, dizer um poema onde Abril estava por cumprir, esse Abril que tu sempre guardas-te nos teus nervos vindo das ondas do Indico, até às ondas das searas do teu Alentejo, ou, ainda, aos dias de Almada que vias as crianças na escola a escrever PAZ em todas as línguas do mundo.
As crianças que te diziam que eras a Maria sem laço, porque eras Colaço e não tinhas laço.
Ou, talvez, o teu espanta pardais a dizer-te adeus em Toronto, que recordavas a sorrir, em asas de Anjo, cantadas pelo Francisco Ceia.
Recordo-te hoje, ao fim do teu dia, a data que está inscrita nesta memória que faz parte das memórias que enchem os meus nervos de cor, musicalidade e essa saudade que se escreve amor ao futuro.
. Basquetebol está a registar uma redução na ordem dos 70% de praticantes ao nível da formação.
Um passeio matinal pela Avenida da Praia é sempre um momento para "lavar os olhos no tejo", descansar a mente, e, até encontrar pessoas com quem trocamos breves palavras e sentimos o pulsar da vida da cidade.
Há quem diga – “a minha vida é um romance”, eu prefiro dizer que – “a minha vida é um poema”. A poesia é o encontro da nossa tranquilidade, o nosso bem estar, com o tempo que fomos e com o tempo que somos. A poesia é essa tranquilidade que está na memória e se cruza com o nosso quotidiano, fazendo brotar emoções, o prazer de sentir nos dias uma paz de ternura, essa, que se escreve com a palavra Amor a beijar a palavra Liberdade, e a palavra Liberdade a beijar o coração que pulsa com a palavra Fraternidade. É isto a poesia. É isto que me ocorre ao pensamento, por vezes, ali, quando estou sentado no centro da minha Catedral do Tejo, nesses instantes toco as memórias, beijo as palavras, percorro o tempo vivido e penso, serenamente – é pá a tua vida é um poema!
E, quando hoje pela manhã, estava a deambular nestes meus pensamentos, passou o meu amigo Rosado – o Professor Rosado, antigo Delegado Escolar, nos anos 80. Ele, parou e interrogou: “Então está a ganhar inspiração para o próximo texto?”. Respondi: “Gosto de estar aqui a escutar o silêncio de Lisboa”. Recordei-lhe que nasci junto a um rio, que a minha infância, até ao 7 anos, até â morte da minha mãe, foi sempre acordar, abrir a porta e tocar com os meus olhos no Guadiana, beijando ternamente as suas ondas, passear no areal da «praia dos empelotes», e, voando sobre as duas margens chegavam até mim os sons do flamengo.
Ali, estive, hoje pela manhã, naquela Avenida da Praia, para alguns, ou Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita, como ficou inscrita na toponímia, desde a gestão de Emidio Xavier, ou, para outro, os jovens dos anos 70, 80 e 90, ela era sentida como a Avenida do Amor, dos beijos, das paixões. Um tempo que a cidade começou a despertar para o Rio, e, a sentir que o rio faz parte da sua história, mas, também é indissociável do seu bem estar e de contribuir para o prazer de viver o quotidiano, por dentro da paisagem que é continuidade da nossa casa.
Encontrei o Armindo Pereira, o homem do basquetebol do Barreiro, na sua caminhada. Trocámos breves palavras. Ele preocupado com os efeitos da pandemia COVID no desporto. Comentou que ao nível nacional, e mesmo na região de Setúbal, a modalidade de basquetebol está a registar uma redução na ordem dos 70% de praticantes ao nível da formação. São tempos difíceis, ainda conseguem manter alguma dimensão na formação os clubes que têm os seus pavilhões, porque conseguem estender horários e diversificar horas de utilização, os que dependem de instalações municipais, devido às regras impostas pela pandemia, é mais complicado. O Armindo é um apaixonado pelo basquetebol, vive a modalidade com uma intensidade enorme, senti nas suas palavras a inquietação pelo presente mas, ainda mais, a sua inquietação pelo futuro. A pandemia mudou hábitos nos jovens e crianças, motivou-os para o uso das novas tecnologias e, isso, afasta-os das práticas desportivas. Vai ser difícil dar a volta se isto continuar a afectar as práticas sociais.
Por nós, passa a correr o Pedro Miranda da Silva, diz para mim que de fato não vou longe. Pedro Miranda, é artista plástico e escultor autor do salineiro que está no Mercado Municipal do Lavradio, mas, até hoje, ainda não está lá inscrito o seu nome como o autor daquele elemento escultórico. Acredito que um dia vão lá colocar um placa com o nome. O autor merece e a comunidade deve ter direito a essa informação. O Pedro continua a sua corrida. O Armindo vai na sua caminhada. Eu sigo, calmamente. “Tenho 68 anos, já não dá para correr”, é a minha resposta ao comentário do Pedro. Olho a paisagem. Observo o voo das gaivotas. Vou andando, e penso - a partir de uma certa idade a vida deixa de ser para correr, passa a ser tempo de viver a caminhar. Tranquilamente!
Acordar. Abrir a porta da varanda. Olhar o dia nublado. Observar a gaivota que rasga o espaço entre os prédios, ocorre aquele pensamento de infância, dito, pelos pescadores da minha rua - «gaivotas em terra, sinal de vendaval». Escuto o concerto matinal dos pássaros na árvore em frente. Noto a ausência daquele movimento diário, por esta hora, visível no silêncio da praceta. O único movimento humano é o varredor da minha rua, um homem que faz o seu trabalho com grande dedicação e eficiência. Lá estava ele, limpando os pormenores. Entregue à sua missão de tornar o espaço urbano mais agradável e com melhor qualidade de vida. Sento-me para tomar o meu pequeno almoço. Adoro café com leite e a minha torrada. Hoje, uma torrada especial, com um sabor especial, o pão foi produzido com o carinho da minha linda Lurdes. Fica o cheiro a encher o espaço. Que prazer, este, de sentir o tempo correr entre o odores e sabores, que tocam a memória. É isso, por dentro dos nervos, chega aquele sabor único do café da minha avó que aquecia a alma e o coração. Ui, e nos dias de Inverno, inesquecível. Rio comigo mesmo, ao recordar os bolos de café que eu tinha por hábito fazer, às escondidas da avó. A minha irmã Jéfinha, pedia-me : «Mano, faz bolinhos”. Recordo e volto a rir comigo mesmo. Aqueles bolinhos, tinham um receita única, é isso que me faz rir a bom rir. Muito simples. Uma colher, enche-se de café, coloca-se açúcar, até ficar uma papa. Coloca-se num prato. Fica a secar. Depois retira-se, já seco e duro. É o bolo rebuçado. Lembras-te, Jéfinha?! Recordo e fico preso a essas memórias sorrindo.
Dou comigo a pensar, como é belo contemplar o passado. Saborear o passado, não com o sentido saudosista. Não. Gosto de contemplar o passado como quem sobe ao cimo de uma montanha e de lá, no cimo, porque o cimo é o lugar onde estamos, observar. Sentir, gozar a paisagem, fruir a paisagem, viver a paisagem. É assim que gosto de olhar para o passado, como quem o observa como uma paisagem, que se contempla do cume da montanha, com a delicia que sente quando observamos e os nossos olhos se encontram com as maravilhas da natureza. Olhar o passado como quem mergulha numa paisagem, sentir a sua beleza que se estende pela memória. Quantas vezes na vida nós fechamos os olhos, ao som de uma música, seja ela qual for, e sentimos a paisagem tocar por dentro dos olhos. Um cântico alentejano, ao por do sol. A desgarrada do Minho. O Corrididinho algarvio, ou o bailinho da Madeira. As paisagens respiram na nossa memória. É assim também o passado, respira na nossa memória, em sons e sabores.
Gosto de olhar para o passado, assim, com esse prazer de estar no cimo de uma montanha, este ponto onde, neste instante me encontro, porque a vida é como subir uma montanha, vamos subindo, ora por atalhos, ora no meio de pedras, escorregamos, caímos, levantamos, erguemos. Paramos olhamos lá longe um riacho. Uma casa de pedra que faz recordar, um dia qualquer, de umas férias, onde sentimos o amor florir nos olhos. Caminhamos, por vezes sentimos a dor dos pés, mas a vida é para subir, sempre, só quem desiste não descobre a alegria de observar a vida do cimo da montanha. Cada um alcança o seu lugar. A montanha é alta e enorme. Há os que preferem entrar nas grutas, Outros constroem uma cabana entre as árvores no meio caminho. Há os que preferem ficar junto ao rio. Estou hoje aqui, e sinto, esse prazer de contemplar o passado, como quem observa do cimo de uma montanha, penso na enorme alegria que percorre meus nervos, por todo o tempo vivido, por todo o tempo que vivi, e, registo que não é saudade que sinto, nem esquecimento, é a felicidade de observar nessa paisagem que se estende pelo rio do meu sangue, os momentos vividos com imensa alegria e paixão, os momentos de tristeza que doeram, o dizer sim, dizer não, e, hoje, aqui e agora, sentir que sou essa totalidade, essa paisagem imensa, que contemplo deste cume onde estou, sentado e a sorrir. Paro por instantes de escrever, olho o sol que começa a anunciar o dia, fecho os olhos, escuto sons e penso – hoje é o primeiro dia do resto da tua vida. É isso, é uma tranquilidade, sublime, estar aqui e sentir o prazer de contemplar o passado...sorrindo!
A amizade não se explica, a única coisa que sabemos é que ela existe, ou não existe, tudo o resto são relacionamentos, de maior ou menor proximidade. A amizade não se interroga, sente-se, partilha-se, vive-se. Ponto final. A amizade que se interroga é uma amizade que vive com dúvidas, essa, não é uma amizade, é um emplastro, um faz de conta, uma gestão temporal de emoções, de interesses. É, talvez, um relacionamento que se aguenta por mera conveniência ou circunstância. Um aguenta. Um lá tem que ser. Um inconveniente. Uma amizade vive-se. Viver uma amizade é viver um encontro, é preencher a nossa vida de outras vidas, é a partilha da nossa vida em reencontros, que nos enriquecem. Que nos ajudam a encontrar um sentido para os dias que somos. Sempre. É viver o tempo que vivemos, com outros ou outras, inequivocamente. Numa amizade não há equívocos. A amizade é absoluta, no dar e receber. É intemporal.
Um amizade temporal não é uma amizade. Uma amizade temporal é algo que se vive num espaço cénico, com marcações, deixas de diálogos, vivências de expressões dramáticas. São jogos dentro do tempo, marcados de acasos e necessidades. Texturas. Encenações. A amizade temporal existe quando a vida é um palco, uma mera representação. Teatro. É aquele tempo que se vive e deita fora. Rir. Chorar. Cantar. Usar. É uma amizade que se desfaz-se na sua temporalidade, ao dobrar da esquina. Serviu para fazer um caminho. Subir. Descer. Atingir objectivos. Ilusões. A amizade temporal não é uma amizade é uma circunstância. É por isso que muitas destas ditas amizades acabam transformando-se em inimizades. A inimizade é a continuação da representação, dando continuidade ao trágico, dramático, irónico, à comédia, agora, com a ausência do outro ou outra, numa dimensão psicológica. O teatro dentro da cabeça. É uma necessidade mental para justificar o vazio cénico.
A amizade não é uma representação. A amizade que nasce de um olhar que se cruza com outro olhar, que nasce num aperto de mão que toca o pensamento, que nasce num beijo que se inscreve no coração, essa amizade, cimentada de vivências comuns, forjada de diálogos, do comunicar, do falar, esse falar que se escuta, por dentro da alegria e por dentro da dor, essa amizade, que se forja no suor e no sangue, sem quaisquer outros interesses senão esse, sublime, de viver o tempo por dentro do tempo, apaixonadamente, conquistando o tempo comum num viver e ser solidário. Essa amizade é, de facto, sem dúvida, a amizade que se inscreve na nossa vida, que é, que são, parte integrante da nossa vida. São pessoas que nos conhecem e pessoas que nós conhecemos. Pessoas com as quais nos despimos, por dentro, na nossa interioridade. É por isso que, como diz a canção – há gente que fica na história da gente, e, outra que nem nome lembramos ouvir... As amizades nascidas no tempo, por dentro do tempo, não são ideológicas, nem economicistas, ou outra coisa qualquer, são aquelas amizades construídas com pessoas bonitas, pessoas que entram no nosso coração, no nosso jardim, que tocam os nossos neurónios. Únicas. São as pessoas que partilham o nosso tempo com serenidade, com a suavidade das gotas de chuva num dia de verão, com a ternura da ondulação do mar numa tarde calma, ao por-do-sol, com um cântico que toca os nervos, com poemas que são uma oração ou um hino à humanidade. São as pessoas que no viver comum, nos ajudaram a tocar a beleza da vida, com um brilho a tocar nos olhos e uma harpa a tocar nos lábios. Inesquecíveis. São estas as amizades com quem aprendemos a viver o direito à diferença. São as amizades que, já, há muitos anos atrás escrevi – a minha liberdade não termina em ti, em ti recomeça a minha liberdade. Esta é amizade que se escreve com nomes, reais, pessoas lindas, cada uma única e insubstituível, pessoas às quais dizemos sempre – Gosto de ti, porra!
A politica não é um jogo. A politica é a energia que faz cidade. As ideias politicas são o sangue da democracia. O problema é jogo - o jogo das vitórias, porque as vitórias é que fazem história, o ganhar ou perder o poder. Esse é, afinal, o jogo das decisões e opções. E quando o poder se coloca no centro do fazer politica, a politica que não devia ser um jogo, ela é um jogo...a guerra dos tronos!
Hoje é um dia que vai ficar inscrito na memória dos barreirenses. Sim, este é um dia histórico. Uns podem achar que é histórico, por ser o dia que dá origem a “uma boa noticia”; outros vão considerar que é histórico por ser o dia que dá origem a “uma má noticia”. O futuro irá julgar. Uma coisa é certa, o actual executivo municipal, hoje, numa reunião pública extraordinária vai apresentar a proposta cuja finalidade é alienar uma parte do território municipal. Uma propriedade municipal adquirida há pouco mais de dois anos, vai ser colocada no mercado imobiliário. As tais ditas janelas de oportunidade que fazem os tempos presentes.
Como esta é uma matéria de interesse público, como quero, pessoalmente, assumir a minha posição sobre o assunto, para que conste e fique como memória futura. Expresso, aqui e agora, a minha discordância enquanto cidadão da decisão de venda deste património municipal. E, como vivemos em democracia, que deve ser vivida e construída no respeito pelas diferenças, aqui afirmo meu não à venda. Ponto final. A minha opinião vale tanto como do presidente da Câmara, só que ele tem o poder de decidir e eu tenho o poder de discordar. É isto a liberdade, o pluralismo, a democracia. Como dizia Mário Soares, em pleno cavaquismo, nunca abdiquemos do nosso «Direito à indignação». Perder o direito à indignação é perder o o direito à cidadania, a ter a voz na polis.
Podem decidir. Foram eleitos para gerir os destinos da comunidade, mas não foram eleitos para calar as vozes discordantes das vossas opções. Para mim, este é um dia histórico e triste, quando um executivo municipal, opta por vender parte do seu território, adquirido após anos de negociações para o dominio municipal, e, agora opta pela sua venda, com base num projecto imobiliário. Nem só de habitação é feita uma cidade.
É triste, igualmente, que nos dias de hoje, quando alguém toma posição sobre esta decisão do executivo municipal de imediato é acusado de «comunista». Era assim também antes do 25 de Abril, quem discordava do regime, qualquer um, estava ao serviço do comunismo. Era, também, um pouco assim no PREC, que tomasse posição discordante da força dominante era acusado de reaccionário.
Desde que este assunto, da Quinta Braamcamp, foi colocado na agenda politica local, tudo tem sido feito para estigmatizar o tema. Todos os meios servem. Criou-se o “caldo cultural” necessário para afunilar a discussão, ou por outra para não haver discussão. Tudo ficou claro com a criação de barricadas. Nada acontece por acaso. Os acasos são puras necessidades.
Por isso a cidade não se mobilizou para discutir o assunto, porque ele foi sempre colocado como um conflito entre os «aziados» e os «açucarados». Porque as pessoas no geral consideram que em torno do assunto, afinal, o que há é politiquice, jogos de poder, um conflito PS – PCP, como se estes dois partidos fossem os donos disto tudo. Os outros partidos calam-se, ou vão na onda, gerindo os residuos do conflito, para não ficarem muitos chamuscados. A população em geral está alheia ao assunto. Foi feito um inquérito, ao qual eu respondia que sim, obviamente que respondia – SIM. Sim, a quinta é uma mais valia para o Barreiro. Sim, se for feito um projecto de valorização. Sim, a tanta coisa.
Este assunto foi muito bem trabalhado. Teve uma boa operação de marketing, com de ideias força para isolar os contestatários. Chegou-se mesmo ao nível do ataque pessoal do carácter das pessoas. As pessoas foram atiçadas umas contra as outras. Gerou-se culturas de ódio. De ambos os lados, uniam-se forças em torno do «inimigo comum».
A Quinta Braamcamp foi o «lait motiv» para manter em «banho de maria» a tensão de permanente campanha eleitoral, de guerrilha urbana, de criação de estigmas, de gestação de calimeros, de vitimizações, de muros ideológicos. O debate politico bateu no fundo, no pleno preto e branco.
Até hoje, gostava de perceber o que é este projecto vai contribuir para o modelo de cidade futura, para além dos milhões do IMI, sim, até já ouvi falar da importância da «massa critica» que ali vai residir. Já estou a imaginar o pessoal no futuro, andar por ali a passear de telemóvel na mão, à espera que os VIP’s saiam de casa para fazer uma selfie.
Depois, gerou-se a ideia do abandono, fomentou-se esta ideia nas redes sociais, com «personalidades», a teorizar em torno do estado da coisa, que a Quinta Braamcamp estava ao abandono, há décadas. Até já se fala há séculos. Esta, digo-vos, foi a vertente que mais me indignou, aquela que mais me motivou para estar contra a venda, porque, afinal. quem quer tomar uma decisão desta natureza de venda, que é uma decisão estruturante para a vida futura do concelho, deve estar de forma firme e convicta. Não precisa inventar inverdades para justificar uma decisão, criar ideia erradas para justificar uma opção. Não gostei.
Mas, na verdade, a ideia passou, a ideia do abandono colou, dos ratos, do lixo, da degradação – “o que é que esses senhores que estão contra a venda querem que aquilo fique naquele estado de abandono”. Isto, ao mesmo tempo que se optou por não utilizar as verbas de uma candidatura a fundos europeus, já aprovada, a qual permitia que tivesse sido feita uma intervenção de limpeza e recuperação do espaço para fruição pela comunidade.
Em suma, de um lado estão os que querem o desenvolvimento do Barreiro, os que querem atrair investimento, os que querem mudar o Barreiro, os que não passam o tempo a pensar e não decidem, os bons, os que têm visão, os que sabem da poda, os que querem tirar o Barreiro do marasmo de décadas. Esses são os que querem vender a Quinta Braamcamp, e, ali construir habitação, destinada a cerca de 550 habitantes, construir um hotel que vai gerar dez postos de trabalho, construir um campo de futebol, porque tudo isto, no futuro, vai gerar mais de milhões de receita de IMI. Enfim, justifica-se a construção de cerca de 185 habitações, com o argumento que tal está previsto no PDM. Ouço dizer isto, de forma séria e indignada, a pessoas que criticavam o PDM, por projectar uma cidade de betão, por ser um PDM megalomaniaco. Agora se o PDM permite, então tudo é permitido. E, com espanto fala-se que os prédios serão construídos numa zona que não afecta a paisagem, são prédios de três pisos, que vão permitir a pemeabilidade da paisagem. Enfim, em vez de «muros ideológicos» tão falados como aqueles que travaram o desenvolvimento do Barreiro, vamos, agora, ter «Muros de permeabilidade», porque esses trazem milhões. O Barreiro o que precisa é de milhões. Uma coisa tenho a certeza se me sair o euromilhões fica aqui a promessa pública, compro a Quinta Braamcamp e ofereço-a ao Barreiro. Isto é que amar o Barreiro, não deixar que estraguem e vendam a sua mais bela paisagem. Não é deixar que ali construam um campo de futebol, isto, numa freguesia que tem o melhor campo de futebol do concelho que tem um enorme potencial de equipamento desportivo, dos melhores da região, que precisa, há décadas, de ser potenciado e valorizado como estruturante para a economia local, e, para o desenvolvimento desportivo.
O Hotel estou de acordo. Isso ou algo na área da restauração que contribuísse para humanizar o espaço. Isso era defendido pelo anterior executivo, liderado pelos tenebrosos comunistas, esses mesmos, que compraram a Quinta Braamcamp.
Mas, enfim, neste processo, o pior que foi feito ao Barreiro, foi ter sido colocada a discussão, e, assim vai continuar por mais algum tempo, como um problema de guerrilha partidária, de confronto PS contra o PCP e vice versa. Isso, de facto, serviu para criar anátemas, para desviar a atenção das questões centrais – Qual o papel da Quinta Braamcamp no modelo de cidade que queremos construir? Faz, ou não, a quinta Braamcamp parte do corredor verde da zona ribeirinha do Tejo e Coina? Este PDM não presta, ou ele vai ser a justificação do conceito «habitação também é desenvolvimento». Agora é, porque, no tempo dos malfadados «comunas» ele era a base da cidade de betão.
Não se percebe esta pressa de querer vender a todo o vapor, sem que exista um visão estratégica de cidade. Este era um assunto que devia mobilizar a cidade para fazer cidade. Será que apenas se pretende justificar, precipitadamente, o bluff eleitoral da «roda Gigante», pretendendo-se tapar esse buraco politico, ou que a dita roda possa vir a todo o custo, nem que para isso tenha que existir um muro de permeabilidade que vai destruir uma pérola do Tejo.
Um dia destes encontrei um amigo, e com ele conversei sobre esta matéria. No final concluimos se eles não fizerem nada da Quinta Braamcamp, não estragam. Sim, é isso, se amam tanto o Barreiro, então, este espaço único, deixem-no estar, ele, faz parte da nossa identidade, da nossa relação com o rio. Foi por ali que se instalaram os primeiros pescadores. A Igreja de Nº Srª do Rosário estava, e, ainda está de frente para a Quinta Braamcamp, quase que toca na caldeira, agora verdejante, um sinal que ainda há uma esperança. E que se faça luz. Sim é verdade, no mundo de hoje o que conta é o dinheiro. Esta venda é um sinal dessa opção de vida. Levem-me os aneis e deixem-me os dedos. A «massa critica» vem para cá residir e, nós, os provincianos, ficamos felizes, com o aumento de IMI e com o «muro da permeabilidade».
A Quinta vai ter espaço públicos e parte do espaço agora vendido, ruas, arruamentos, esgotos, recolha de residuos, numa zona de risco, tudo depois, vai passar para o dominio público e da responsabilidade da autarquia. Quem vier a seguir que navegue sobre os problemas. É assim vende-se e depois retorna o que não interessa ao privado, e não será para manter na sua alçada.
O conselho é que deixem estar a natureza ali a mexer e remexer. Cuidem do essencial e para isso há fundos europeus. Façam essa habitação de luxo para a tal massa critica, que alimenta as opções de gestão de urbanizações, optando pelos territórios da Baía do Tejo.
Se amam o Barreiro não o vendam! Não vendam a Quinta Braamcamp. Sabem, como dizia o meu amigo, que até sabe do que fala, mas não fala: É isso não mexam, que não estragam!
Pela manhã, regularmente a primeira coisa que costumo fazer é deslocar-me para comprar o jornal diário. Sou leitor do jornal «Público» desde a sua primeira edição, faz parte das minhas vivências diárias. Senti a partida de alguns cronistas, que me deliciavam matinalmente. Um deles recordo com saudade Eduardo Prado Coelho. As minhas primeiras conversas matinais começam com o diálogo que estabeleço com as páginas impressas. Gosto de sentir nas mãos as páginas e folhear. Vou lendo. Interrogando. Pensando. É uma conversa interior que permite, calmamente, sem preocupações. Estar ali, ler. Viver.
Hoje, a manchete alertava para o aumento de familias a pedir ajuda, perante o incumprimento no pagamento de prestações. Referia-se que entre Janeiro e Setembro cresceram o número de pedidos de apoio e cresceu a “infidilidade financeira”, que é dito ‘são cada vez mais frequentes’. O aumento de rendas altas, nos centros das cidades, levam familias a não pagar o crédito ao consumo. Mas, acrescenta-se que o fenómeno já se estende às periferias, é frequente as familias começarem a falhar o pagamento de empréstimos, sendo de destacar os atrasos dos empréstimos relacionados com prestações da habitação. Empréstimos sobre empréstimos, para manter a vida, ou a aparência de vida.E, por fim, surgem as penhoras de ordenados e de outros bens. Leio. Penso. Pois, foi assim que tudo começou, naqueles tempos antes da entrada da troika. O crescendo de situações desta natureza, definida depois nas teses – ‘os portugueses vivem acima das suas posses’, são o sinal de um futuro anunciado.
Vou caminhando. Na escola do ensino básico, escuto os gritos das crianças brincando, saltitando, felizes, alheias aos movimentos da vida e da história. Sim, aprendi isso vivendo, a história está a fazer-se todos os dias. Olho a parede da escola e reparo que as pinturas feitas pelos pais, tenho a ideia que foi numa das jornadas do Dia B, desapareceram, a nova pintura tapou os trabalho que, pelo que soube na altura, foi feito com carinho e uma grande paixão pelos pais. Enfim, reparou-se o telhado e retirou-se o amianto. Colocou-se o alpendre na entrada. Muito bom. Pintou-se a escola. Aquelas pinturas, pelos vistos, estavam ali a mais. Incomodavam ? Eu gostava, gostava acima de tudo por terem nascido do amor e voluntariado de pais, de querem dar cor e alegria ao espaço do recreio. Estava giro. Era naif e criativo. Mas, enfim, é talvez, a tal ‘modernidade’ que desconstrói o passado e faz nascer um futuro inócuo, sem a presença dos sentimentos que nascem no coração. Quando ali passava olhava aqueles desenhos infantis e sentia as suas cores misturadas nas crianças a saltitar. Agora sinto o silêncio das imagens apagadas. Faz-me lembrar aquela pintura que foi pintada num Dia Mundial da Criança, na Piscina Municipal do Barreiro e, um dia, igualmente, por um critério de ‘modernidade caviar’, em vez de recuperar, decidiram apagar, destruindo a memória e uma das primeiras obras de arte urbana existente no Barreiro, que, por acaso, o seu autor foi Rogério Ribeiro, um dos grandes nomes da Arte Portuguesa contemporânea.
Pela rua de mão dada lá vão, o pai e a mãe da Elsa. Sorriem, Cumprimenta-mos. Um abraço e um beijo. Tudo bem. Trocas breves de palavras. Afinal são momento destes que nos fazem sentir o território onde vivemos, como parte da nossa consciência, donde viemos, o que somos. É isto que somos. Sim, é isto que somos, humanos de sorriso no rosto. Gente com história e memória, gente que fez esta terra chegar aqui, com filhos e netos e muita esperança. Vale a pena encontrar rostos que nos fazem sorrir e sentir que somos.
Uma das coisas que, por razões da actividade de jornalismo local que mantenho, diariamente vou tomando contacto com as redes sociais. Por vezes é interessante, outras vezes é arrepiante. Na verdade, se há espaço onde a desconstrução social e da sociabilidade é uma marca da vida quotidiana é por ali, especialmente, no facebook, onde proliferam perfis falsos, anónimos, ou semi-anónimos, cuja ‘virtude’ é difamar e caluniar. Há mesmo quem pense que estas redes sociais vieram para retirar espaço ao jornalismo, por isso existem agências que são pagas para manter páginas, vocacionadas para o ‘terrorismo urbano’. São a voz das estratégia dos donos. Eles não vivem, sobrevivem. Não os costumo ler, nem lhes passo cartão. Mas sei que existem, pelo que, por vezes, os meus amigos vão comentando. Os amigos não percebem e dão-lhes troco. O que eles querem é que falem deles, falem bem, ou falem mal, falem deles, só assim se sentem vivos. Eles são faciopatas!
Há uma grande diferença entre as redes sociais anónimas e o jornalismo local. O jornalismo tem rostos, está sujeito ao cumprimento de regras deontológicas, é um dos pilares da democracia. Até já, divirtam-se!