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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

O prazer de contemplar o passado

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Acordar. Abrir a porta da varanda. Olhar o dia nublado. Observar a gaivota que rasga o espaço entre os prédios, ocorre aquele pensamento de infância, dito, pelos pescadores da minha rua - «gaivotas em terra, sinal de vendaval». Escuto o concerto matinal dos pássaros na árvore em frente. Noto a ausência daquele movimento diário, por esta hora, visível no silêncio da praceta. O único movimento humano é o varredor da minha rua, um homem que faz o seu trabalho com grande dedicação e eficiência. Lá estava ele, limpando os pormenores. Entregue à sua missão de tornar o espaço urbano mais agradável e com melhor qualidade de vida.
Sento-me para tomar o meu pequeno almoço. Adoro café com leite e a minha torrada. Hoje, uma torrada especial, com um sabor especial, o pão foi produzido com o carinho da minha linda Lurdes. Fica o cheiro a encher o espaço. Que prazer, este, de sentir o tempo correr entre o odores e sabores, que tocam a memória. É isso, por dentro dos nervos, chega aquele sabor único do café da minha avó que aquecia a alma e o coração. Ui, e nos dias de Inverno, inesquecível. Rio comigo mesmo, ao recordar os bolos de café que eu tinha por hábito fazer, às escondidas da avó. A minha irmã Jéfinha, pedia-me : «Mano, faz bolinhos”. Recordo e volto a rir comigo mesmo.
Aqueles bolinhos, tinham um receita única, é isso que me faz rir a bom rir. Muito simples. Uma colher, enche-se de café, coloca-se açúcar, até ficar uma papa. Coloca-se num prato. Fica a secar. Depois retira-se, já seco e duro. É o bolo rebuçado. Lembras-te, Jéfinha?! Recordo e fico preso a essas memórias sorrindo.

Dou comigo a pensar, como é belo contemplar o passado. Saborear o passado, não com o sentido saudosista. Não.
Gosto de contemplar o passado como quem sobe ao cimo de uma montanha e de lá, no cimo, porque o cimo é o lugar onde estamos, observar. Sentir, gozar a paisagem, fruir a paisagem, viver a paisagem.
É assim que gosto de olhar para o passado, como quem o observa como uma paisagem, que se contempla do cume da montanha, com a delicia que sente quando observamos e os nossos olhos se encontram com as maravilhas da natureza.
Olhar o passado como quem mergulha numa paisagem, sentir a sua beleza que se estende pela memória. Quantas vezes na vida nós fechamos os olhos, ao som de uma música, seja ela qual for, e sentimos a paisagem tocar por dentro dos olhos. Um cântico alentejano, ao por do sol. A desgarrada do Minho. O Corrididinho algarvio, ou o bailinho da Madeira. As paisagens respiram na nossa memória.
É assim também o passado, respira na nossa memória, em sons e sabores.

Gosto de olhar para o passado, assim, com esse prazer de estar no cimo de uma montanha, este ponto onde, neste instante me encontro, porque a vida é como subir uma montanha, vamos subindo, ora por atalhos, ora no meio de pedras, escorregamos, caímos, levantamos, erguemos. Paramos olhamos lá longe um riacho. Uma casa de pedra que faz recordar, um dia qualquer, de umas férias, onde sentimos o amor florir nos olhos.
Caminhamos, por vezes sentimos a dor dos pés, mas a vida é para subir, sempre, só quem desiste não descobre a alegria de observar a vida do cimo da montanha. Cada um alcança o seu lugar. A montanha é alta e enorme. Há os que preferem entrar nas grutas, Outros constroem uma cabana entre as árvores no meio caminho. Há os que preferem ficar junto ao rio.
Estou hoje aqui, e sinto, esse prazer de contemplar o passado, como quem observa do cimo de uma montanha, penso na enorme alegria que percorre meus nervos, por todo o tempo vivido, por todo o tempo que vivi, e, registo que não é saudade que sinto, nem esquecimento, é a felicidade de observar nessa paisagem que se estende pelo rio do meu sangue, os momentos vividos com imensa alegria e paixão, os momentos de tristeza que doeram, o dizer sim, dizer não, e, hoje, aqui e agora, sentir que sou essa totalidade, essa paisagem imensa, que contemplo deste cume onde estou, sentado e a sorrir.
Paro por instantes de escrever, olho o sol que começa a anunciar o dia, fecho os olhos, escuto sons e penso – hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
É isso, é uma tranquilidade, sublime, estar aqui e sentir o prazer de contemplar o passado...sorrindo!

António Sousa Pereira
21 de Abril de 2020

Um cravo na varanda

 

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Neste Abril de quarentena,
sentimos na vizinhança,
como sempre vale a pena,
viver a vida com esperança.

Essa esperança semeada,
ao som de uma canção,
que por todos é cantada.
Grândola com emoção.

E com essa forte emoção,
em cada rua uma bandeira,
em cada casa uma canção,
é celebrar Abril à maneira.

Esse Abril da nossa gente,
A pulsar no nosso coração,
Mantém viva essa semente
erguendo um cravo na mão.

Um cravo na tua varanda,
som da voz bem afinada,
só assim é que Abril anda,
seremos muitos rapaziada!

A quarentena em Abril
Dá mais força à cidade
no querer de muitos mil
hoje, sempre é Liberdade.


António Sousa Pereira
19 de Abril de 2020

 

As pessoas bonitas que entram no nosso coração

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A amizade não se explica, a única coisa que sabemos é que ela existe, ou não existe, tudo o resto são relacionamentos, de maior ou menor proximidade.
A amizade não se interroga, sente-se, partilha-se, vive-se. Ponto final.
A amizade que se interroga é uma amizade que vive com dúvidas, essa, não é uma amizade, é um emplastro, um faz de conta, uma gestão temporal de emoções, de interesses. É, talvez, um relacionamento que se aguenta por mera conveniência ou circunstância. Um aguenta. Um lá tem que ser. Um inconveniente.
Uma amizade vive-se. Viver uma amizade é viver um encontro, é preencher a nossa vida de outras vidas, é a partilha da nossa vida em reencontros, que nos enriquecem. Que nos ajudam a encontrar um sentido para os dias que somos. Sempre.
É viver o tempo que vivemos, com outros ou outras, inequivocamente. Numa amizade não há equívocos. A amizade é absoluta, no dar e receber. É intemporal.

Um amizade temporal não é uma amizade. Uma amizade temporal é algo que se vive num espaço cénico, com marcações, deixas de diálogos, vivências de expressões dramáticas. São jogos dentro do tempo, marcados de acasos e necessidades. Texturas. Encenações.
A amizade temporal existe quando a vida é um palco, uma mera representação. Teatro. É aquele tempo que se vive e deita fora. Rir. Chorar. Cantar. Usar. É uma amizade que se desfaz-se na sua temporalidade, ao dobrar da esquina. Serviu para fazer um caminho. Subir. Descer. Atingir objectivos. Ilusões.
A amizade temporal não é uma amizade é uma circunstância. É por isso que muitas destas ditas amizades acabam transformando-se em inimizades. A inimizade é a continuação da representação, dando continuidade ao trágico, dramático, irónico, à comédia, agora, com a ausência do outro ou outra, numa dimensão psicológica. O teatro dentro da cabeça. É uma necessidade mental para justificar o vazio cénico.

A amizade não é uma representação. A amizade que nasce de um olhar que se cruza com outro olhar, que nasce num aperto de mão que toca o pensamento, que nasce num beijo que se inscreve no coração, essa amizade, cimentada de vivências comuns, forjada de diálogos, do comunicar, do falar, esse falar que se escuta, por dentro da alegria e por dentro da dor, essa amizade, que se forja no suor e no sangue, sem quaisquer outros interesses senão esse, sublime, de viver o tempo por dentro do tempo, apaixonadamente, conquistando o tempo comum num viver e ser solidário. Essa amizade é, de facto, sem dúvida, a amizade que se inscreve na nossa vida, que é, que são, parte integrante da nossa vida. São pessoas que nos conhecem e pessoas que nós conhecemos. Pessoas com as quais nos despimos, por dentro, na nossa interioridade.
É por isso que, como diz a canção – há gente que fica na história da gente, e, outra que nem nome lembramos ouvir...
As amizades nascidas no tempo, por dentro do tempo, não são ideológicas, nem economicistas, ou outra coisa qualquer, são aquelas amizades construídas com pessoas bonitas, pessoas que entram no nosso coração, no nosso jardim, que tocam os nossos neurónios. Únicas.
São as pessoas que partilham o nosso tempo com serenidade, com a suavidade das gotas de chuva num dia de verão, com a ternura da ondulação do mar numa tarde calma, ao por-do-sol, com um cântico que toca os nervos, com poemas que são uma oração ou um hino à humanidade. São as pessoas que no viver comum, nos ajudaram a tocar a beleza da vida, com um brilho a tocar nos olhos e uma harpa a tocar nos lábios. Inesquecíveis.
São estas as amizades com quem aprendemos a viver o direito à diferença. São as amizades que, já, há muitos anos atrás escrevi – a minha liberdade não termina em ti, em ti recomeça a minha liberdade.
Esta é amizade que se escreve com nomes, reais, pessoas lindas, cada uma única e insubstituível, pessoas às quais dizemos sempre – Gosto de ti, porra!

António Sousa Pereira
15 de Abril de 2020

 

 

A politica

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A politica não é um jogo. A politica é a energia que faz cidade. As ideias politicas são o sangue da democracia. O problema é jogo - o jogo das vitórias, porque as vitórias é que fazem história, o ganhar ou perder o poder. Esse é, afinal, o jogo das decisões e opções. E quando o poder se coloca no centro do fazer politica, a politica que não devia ser um jogo, ela é um jogo...a guerra dos tronos!

Quinta Braamcamp - não mexam, que não estragam!

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Hoje é um dia que vai ficar inscrito na memória dos barreirenses. Sim, este é um dia histórico. Uns podem achar que é histórico, por ser o dia que dá origem a “uma boa noticia”; outros vão considerar que é histórico por ser o dia que dá origem a “uma má noticia”. O futuro irá julgar.
Uma coisa é certa, o actual executivo municipal, hoje, numa reunião pública extraordinária vai apresentar a proposta cuja finalidade é alienar uma parte do território municipal. Uma propriedade municipal adquirida há pouco mais de dois anos, vai ser colocada no mercado imobiliário. As tais ditas janelas de oportunidade que fazem os tempos presentes.

Como esta é uma matéria de interesse público, como quero, pessoalmente, assumir a minha posição sobre o assunto, para que conste e fique como memória futura. Expresso, aqui e agora, a minha discordância enquanto cidadão da decisão de venda deste património municipal.
E, como vivemos em democracia, que deve ser vivida e construída no respeito pelas diferenças, aqui afirmo meu não à venda. Ponto final. A minha opinião vale tanto como do presidente da Câmara, só que ele tem o poder de decidir e eu tenho o poder de discordar. É isto a liberdade, o pluralismo, a democracia. Como dizia Mário Soares, em pleno cavaquismo, nunca abdiquemos do nosso «Direito à indignação». Perder o direito à indignação é perder o o direito à cidadania, a ter a voz na polis.

Podem decidir. Foram eleitos para gerir os destinos da comunidade, mas não foram eleitos para calar as vozes discordantes das vossas opções.
Para mim, este é um dia histórico e triste, quando um executivo municipal, opta por vender parte do seu território, adquirido após anos de negociações para o dominio municipal, e, agora opta pela sua venda, com base num projecto imobiliário. Nem só de habitação é feita uma cidade.

É triste, igualmente, que nos dias de hoje, quando alguém toma posição sobre esta decisão do executivo municipal de imediato é acusado de «comunista». Era assim também antes do 25 de Abril, quem discordava do regime, qualquer um, estava ao serviço do comunismo. Era, também, um pouco assim no PREC, que tomasse posição discordante da força dominante era acusado de reaccionário.

Desde que este assunto, da Quinta Braamcamp, foi colocado na agenda politica local, tudo tem sido feito para estigmatizar o tema. Todos os meios servem. Criou-se o “caldo cultural” necessário para afunilar a discussão, ou por outra para não haver discussão. Tudo ficou claro com a criação de barricadas. Nada acontece por acaso. Os acasos são puras necessidades.

Por isso a cidade não se mobilizou para discutir o assunto, porque ele foi sempre colocado como um conflito entre os «aziados» e os «açucarados».
Porque as pessoas no geral consideram que em torno do assunto, afinal, o que há é politiquice, jogos de poder, um conflito PS – PCP, como se estes dois partidos fossem os donos disto tudo.
Os outros partidos calam-se, ou vão na onda, gerindo os residuos do conflito, para não ficarem muitos chamuscados.
A população em geral está alheia ao assunto. Foi feito um inquérito, ao qual eu respondia que sim, obviamente que respondia – SIM. Sim, a quinta é uma mais valia para o Barreiro. Sim, se for feito um projecto de valorização. Sim, a tanta coisa.

Este assunto foi muito bem trabalhado. Teve uma boa operação de marketing, com de ideias força para isolar os contestatários. Chegou-se mesmo ao nível do ataque pessoal do carácter das pessoas. As pessoas foram atiçadas umas contra as outras. Gerou-se culturas de ódio. De ambos os lados, uniam-se forças em torno do «inimigo comum».

A Quinta Braamcamp foi o «lait motiv» para manter em «banho de maria» a tensão de permanente campanha eleitoral, de guerrilha urbana, de criação de estigmas, de gestação de calimeros, de vitimizações, de muros ideológicos. O debate politico bateu no fundo, no pleno preto e branco.

Até hoje, gostava de perceber o que é este projecto vai contribuir para o modelo de cidade futura, para além dos milhões do IMI, sim, até já ouvi falar da importância da «massa critica» que ali vai residir.
Já estou a imaginar o pessoal no futuro, andar por ali a passear de telemóvel na mão, à espera que os VIP’s saiam de casa para fazer uma selfie.

Depois, gerou-se a ideia do abandono, fomentou-se esta ideia nas redes sociais, com «personalidades», a teorizar em torno do estado da coisa, que a Quinta Braamcamp estava ao abandono, há décadas. Até já se fala há séculos.
Esta, digo-vos, foi a vertente que mais me indignou, aquela que mais me motivou para estar contra a venda, porque, afinal. quem quer tomar uma decisão desta natureza de venda, que é uma decisão estruturante para a vida futura do concelho, deve estar de forma firme e convicta. Não precisa inventar inverdades para justificar uma decisão, criar ideia erradas para justificar uma opção. Não gostei.

Mas, na verdade, a ideia passou, a ideia do abandono colou, dos ratos, do lixo, da degradação – “o que é que esses senhores que estão contra a venda querem que aquilo fique naquele estado de abandono”.
Isto, ao mesmo tempo que se optou por não utilizar as verbas de uma candidatura a fundos europeus, já aprovada, a qual permitia que tivesse sido feita uma intervenção de limpeza e recuperação do espaço para fruição pela comunidade.

Em suma, de um lado estão os que querem o desenvolvimento do Barreiro, os que querem atrair investimento, os que querem mudar o Barreiro, os que não passam o tempo a pensar e não decidem, os bons, os que têm visão, os que sabem da poda, os que querem tirar o Barreiro do marasmo de décadas. Esses são os que querem vender a Quinta Braamcamp, e, ali construir habitação, destinada a cerca de 550 habitantes, construir um hotel que vai gerar dez postos de trabalho, construir um campo de futebol, porque tudo isto, no futuro, vai gerar mais de milhões de receita de IMI.
Enfim, justifica-se a construção de cerca de 185 habitações, com o argumento que tal está previsto no PDM. Ouço dizer isto, de forma séria e indignada, a pessoas que criticavam o PDM, por projectar uma cidade de betão, por ser um PDM megalomaniaco.
Agora se o PDM permite, então tudo é permitido.
E, com espanto fala-se que os prédios serão construídos numa zona que não afecta a paisagem, são prédios de três pisos, que vão permitir a pemeabilidade da paisagem.
Enfim, em vez de «muros ideológicos» tão falados como aqueles que travaram o desenvolvimento do Barreiro, vamos, agora, ter «Muros de permeabilidade», porque esses trazem milhões.
O Barreiro o que precisa é de milhões. Uma coisa tenho a certeza se me sair o euromilhões fica aqui a promessa pública, compro a Quinta Braamcamp e ofereço-a ao Barreiro. Isto é que amar o Barreiro, não deixar que estraguem e vendam a sua mais bela paisagem.
Não é deixar que ali construam um campo de futebol, isto, numa freguesia que tem o melhor campo de futebol do concelho que tem um enorme potencial de equipamento desportivo, dos melhores da região, que precisa, há décadas, de ser potenciado e valorizado como estruturante para a economia local, e, para o desenvolvimento desportivo.

O Hotel estou de acordo. Isso ou algo na área da restauração que contribuísse para humanizar o espaço. Isso era defendido pelo anterior executivo, liderado pelos tenebrosos comunistas, esses mesmos, que compraram a Quinta Braamcamp.

Mas, enfim, neste processo, o pior que foi feito ao Barreiro, foi ter sido colocada a discussão, e, assim vai continuar por mais algum tempo, como um problema de guerrilha partidária, de confronto PS contra o PCP e vice versa.
Isso, de facto, serviu para criar anátemas, para desviar a atenção das questões centrais – Qual o papel da Quinta Braamcamp no modelo de cidade que queremos construir? Faz, ou não, a quinta Braamcamp parte do corredor verde da zona ribeirinha do Tejo e Coina? Este PDM não presta, ou ele vai ser a justificação do conceito «habitação também é desenvolvimento». Agora é, porque, no tempo dos malfadados «comunas» ele era a base da cidade de betão.

Não se percebe esta pressa de querer vender a todo o vapor, sem que exista um visão estratégica de cidade. Este era um assunto que devia mobilizar a cidade para fazer cidade.
Será que apenas se pretende justificar, precipitadamente, o bluff eleitoral da «roda Gigante», pretendendo-se tapar esse buraco politico, ou que a dita roda possa vir a todo o custo, nem que para isso tenha que existir um muro de permeabilidade que vai destruir uma pérola do Tejo.

Um dia destes encontrei um amigo, e com ele conversei sobre esta matéria. No final concluimos se eles não fizerem nada da Quinta Braamcamp, não estragam.
Sim, é isso, se amam tanto o Barreiro, então, este espaço único, deixem-no estar, ele, faz parte da nossa identidade, da nossa relação com o rio. Foi por ali que se instalaram os primeiros pescadores. A Igreja de Nº Srª do Rosário estava, e, ainda está de frente para a Quinta Braamcamp, quase que toca na caldeira, agora verdejante, um sinal que ainda há uma esperança. E que se faça luz.
Sim é verdade, no mundo de hoje o que conta é o dinheiro. Esta venda é um sinal dessa opção de vida. Levem-me os aneis e deixem-me os dedos.
A «massa critica» vem para cá residir e, nós, os provincianos, ficamos felizes, com o aumento de IMI e com o «muro da permeabilidade».

A Quinta vai ter espaço públicos e parte do espaço agora vendido, ruas, arruamentos, esgotos, recolha de residuos, numa zona de risco, tudo depois, vai passar para o dominio público e da responsabilidade da autarquia. Quem vier a seguir que navegue sobre os problemas.
É assim vende-se e depois retorna o que não interessa ao privado, e não será para manter na sua alçada.

O conselho é que deixem estar a natureza ali a mexer e remexer. Cuidem do essencial e para isso há fundos europeus. Façam essa habitação de luxo para a tal massa critica, que alimenta as opções de gestão de urbanizações, optando pelos territórios da Baía do Tejo.

Se amam o Barreiro não o vendam! Não vendam a Quinta Braamcamp.
Sabem, como dizia o meu amigo, que até sabe do que fala, mas não fala: É isso não mexam, que não estragam!

Até já, divirtam-se

António Sousa Pereira

É frequente familias começarem a falhar o pagamento de empréstimos

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Pela manhã, regularmente a primeira coisa que costumo fazer é deslocar-me para comprar o jornal diário. Sou leitor do jornal «Público» desde a sua primeira edição, faz parte das minhas vivências diárias. Senti a partida de alguns cronistas, que me deliciavam matinalmente. Um deles recordo com saudade Eduardo Prado Coelho.
As minhas primeiras conversas matinais começam com o diálogo que estabeleço com as páginas impressas. Gosto de sentir nas mãos as páginas e folhear.
Vou lendo. Interrogando. Pensando. É uma conversa interior que permite, calmamente, sem preocupações. Estar ali, ler. Viver.

Hoje, a manchete alertava para o aumento de familias a pedir ajuda, perante o incumprimento no pagamento de prestações.
Referia-se que entre Janeiro e Setembro cresceram o número de pedidos de apoio e cresceu a “infidilidade financeira”, que é dito ‘são cada vez mais frequentes’.
O aumento de rendas altas, nos centros das cidades, levam familias a não pagar o crédito ao consumo. Mas, acrescenta-se que o fenómeno já se estende às periferias, é frequente as familias começarem a falhar o pagamento de empréstimos, sendo de destacar os atrasos dos empréstimos relacionados com prestações da habitação. Empréstimos sobre empréstimos, para manter a vida, ou a aparência de vida.E, por fim, surgem as penhoras de ordenados e de outros bens.
Leio. Penso. Pois, foi assim que tudo começou, naqueles tempos antes da entrada da troika. O crescendo de situações desta natureza, definida depois nas teses – ‘os portugueses vivem acima das suas posses’, são o sinal de um futuro anunciado.

Vou caminhando. Na escola do ensino básico, escuto os gritos das crianças brincando, saltitando, felizes, alheias aos movimentos da vida e da história. Sim, aprendi isso vivendo, a história está a fazer-se todos os dias.
Olho a parede da escola e reparo que as pinturas feitas pelos pais, tenho a ideia que foi numa das jornadas do Dia B, desapareceram, a nova pintura tapou os trabalho que, pelo que soube na altura, foi feito com carinho e uma grande paixão pelos pais.
Enfim, reparou-se o telhado e retirou-se o amianto. Colocou-se o alpendre na entrada. Muito bom. Pintou-se a escola. Aquelas pinturas, pelos vistos, estavam ali a mais. Incomodavam ? Eu gostava, gostava acima de tudo por terem nascido do amor e voluntariado de pais, de querem dar cor e alegria ao espaço do recreio. Estava giro. Era naif e criativo.
Mas, enfim, é talvez, a tal ‘modernidade’ que desconstrói o passado e faz nascer um futuro inócuo, sem a presença dos sentimentos que nascem no coração.
Quando ali passava olhava aqueles desenhos infantis e sentia as suas cores misturadas nas crianças a saltitar. Agora sinto o silêncio das imagens apagadas. Faz-me lembrar aquela pintura que foi pintada num Dia Mundial da Criança, na Piscina Municipal do Barreiro e, um dia, igualmente, por um critério de ‘modernidade caviar’, em vez de recuperar, decidiram apagar, destruindo a memória e uma das primeiras obras de arte urbana existente no Barreiro, que, por acaso, o seu autor foi Rogério Ribeiro, um dos grandes nomes da Arte Portuguesa contemporânea.

Pela rua de mão dada lá vão, o pai e a mãe da Elsa. Sorriem, Cumprimenta-mos. Um abraço e um beijo. Tudo bem. Trocas breves de palavras. Afinal são momento destes que nos fazem sentir o território onde vivemos, como parte da nossa consciência, donde viemos, o que somos. É isto que somos. Sim, é isto que somos, humanos de sorriso no rosto. Gente com história e memória, gente que fez esta terra chegar aqui, com filhos e netos e muita esperança. Vale a pena encontrar rostos que nos fazem sorrir e sentir que somos.

Uma das coisas que, por razões da actividade de jornalismo local que mantenho, diariamente vou tomando contacto com as redes sociais. Por vezes é interessante, outras vezes é arrepiante.
Na verdade, se há espaço onde a desconstrução social e da sociabilidade é uma marca da vida quotidiana é por ali, especialmente, no facebook, onde proliferam perfis falsos, anónimos, ou semi-anónimos, cuja ‘virtude’ é difamar e caluniar.
Há mesmo quem pense que estas redes sociais vieram para retirar espaço ao jornalismo, por isso existem agências que são pagas para manter páginas, vocacionadas para o ‘terrorismo urbano’. São a voz das estratégia dos donos. Eles não vivem, sobrevivem.
Não os costumo ler, nem lhes passo cartão. Mas sei que existem, pelo que, por vezes, os meus amigos vão comentando.
Os amigos não percebem e dão-lhes troco. O que eles querem é que falem deles, falem bem, ou falem mal, falem deles, só assim se sentem vivos. Eles são faciopatas!

Há uma grande diferença entre as redes sociais anónimas e o jornalismo local. O jornalismo tem rostos, está sujeito ao cumprimento de regras deontológicas, é um dos pilares da democracia.
Até já, divirtam-se!

António Sousa Pereira

 

Palavras

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As palavras não são grades,

onde prendes teus sentimentos.

 

As palavras não são grades,

onde escondes teus pensamentos.

 

Podes escrever a palavra amor,

podes escrever a palavra saudade.

 

As palavras não são grades,

quando escreves com dignidade.

 

As palavras não são grades,

ritmos de morte ou de vida,

elas, quando nascem no teu ser,

são sonho, energia, até…poesia!

 

António Sousa Pereira

Só quem luta, sente renascer o dia!

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Do fundo do tempo, lá longe, lá, onde meus sonhos erguia, lá do fundo do tempo, escuto um cântico rasgando os nervos, feito em lágrimas de alegria.

Sento-me, aqui, na noite, no silêncio, esse, onde fico a pensar, nos passos, nos gritos, nas ondas do mar, no vento, em tudo que em mim, lá longe, bem longe, em poemas erguia, uma esperança escrita em sonhos, flores a nascer na Primavera.

 

Lá no fundo do tempo, em ecos de penumbras, escuto as palavras de Allende, os protestos contra o napalm do Vietname, os cânticos de liberdade, as armas, os barões, o pensamento escrito no “branco do branco” areal, as minhas mãos nas tuas mãos, abrindo as curvas da escuridão, na descoberta do corpo, talvez por dentro dos sons de nós, e, desfolhando em gritos, nas bandeiras caídas em Alcácer Quibir, um Império, o meu Portugal, que chorava em toques de melodias que quebravam o silêncio fechado em grades. Resistindo.

 

Lá no fundo do tempo, até onde me leva o pensamento, encontro essa energia, que me fez caminhar, num combate comigo próprio, sempre em busca da Liberdade, e, sempre, por dentro dos dias, do tempo, ingenuamente, com a criança que transporto dentro do coração, caminhei, acreditando, nisso, apenas nisso, que é preciso viver cada dia, fazendo de cada dia um caminho, após outro caminho, na busca de caminhos, caminhos que são esse caminhar, entre o sol e o luar, incansavelmente, com resiliência, batendo com força no peito, esse lugar, onde cada um de nós guarda os segredos, esses segredos, que nos movem: sim, apesar de tudo ela move-se. A vida.

 

Sim, se viver é andar, se viver é seguir o tempo com a força, com a alegria, com as mãos enrugadas de terra, o suor a rasgar os pensamentos, viver com criatividade e liberdade, é, certamente, viver com todos esses sonhos que emergem de longe, lá longe, e, aqui, agora, sentir como o cavador, cada dia, como quem lança sementes à terra, sorrindo, para ver a vida florescer, renascer, em flores e frutos. Sonhando.

 

Sim, só semeando, conseguimos dar vida à vida e, em cada dia, sentir nascer a vida e outra vida, porque nós, somos, sempre as sementes que lançamos no tempo que percorremos. É por isso, só por isso, que as amizades forjadas no sangue, se inscrevem no tempo, porque fazem parte das nossas lutas, que fomos e somos. Lutando.

 

Lá longe, bem longe, escuto aquela voz a cantar, na margem do rio, ali, onde ao fim da tarde sopra sempre o vento norte, e grita: Luta, porque, só quem luta, sente renascer o dia!  

 

António Sousa Pereira

Pensar a ponte Hong kong – Macau de 55 Km e Barreiro – Seixal de 400 metros

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A noticia que corre as páginas da imprensa mundial, nos dias de hoje, é sobre a inauguração da ponte Hong kong – Macau, numa distância de 55 Km, com um túnel debaixo de água com cerca de 6Km.

Pelo que fomos lendo, a China avançou para este projecto não com uma visão local, mas com uma visão global, pois, de facto é salientado que um dos grandes objectivos deste projecto estruturante é promover a mobilidade e criar entre aqueles territórios – Macau, Hong Kong, Zhuhai – uma região que no futuro se afirme como “um gigante tecnológico” que possa rivalizar com Silicon Valley, nos Estados Unidos.
Um dos grandes objectivos desta ponte, refere-se, é, na verdade, aproximar Hong Kong e Macau de 11 cidades chinesas.
O percurso entre Hong Kong e Zhuhai, que demorava 4 horas, passa a ser feito em 30 minutos.
Esta noticia faz pensar se, no mundo de hoje, a competitividade, de facto, já não é entre cidades, mas sim, na verdade, entre regiões, essas, com capacidade de atrair empresas para os territórios, pela fluidez de mobilidade terrestre e, naturalmente, ás ligações aéreas.
A competição no mundo de hoje, reside no potenciar regiões metropolitanas, cuja escala não é local, nem internacional, é na sua influência no mundo e a forma como se colocam nessas estratégias de competitividade.

Leio esta notícia, nem sei porque razões, ou sei, talvez, por razões meramente subjectivas, dou comigo a pensar Barreiro e a pensar Área Metropolitana de Lisboa.

Penso Barreiro, porque sinto que este concelho, desde há décadas que está aqui, metido num canto, como se fosse um gueto da Península de Setúbal e da Área Metropolitana de Lisboa, quando, na verdade, ao nível territorial é uma centralidade.
Isto, porque não há uma ponte que permita que exista uma ligação rodoviária, rápida e eficaz, que ligue o Barreiro ao Seixal, e, desta forma dar massa critica aos dois concelhos.
Era a construção de uma ponte com cerca de 400 metros, que ligava os dois concelhos, evitando que as populações tenham que percorrer os actuais 16 quilómetros.
António Costa prometeu que poderia avançar com o Programa Portugal 2020. Está prometido. Mas se o assunto ficar no silêncio se não existir capacidade politica de reivindicar esta ou outra solução. Assim vamos continuar.

Depois, penso o que dizia Álvaro Mateus, quando se falou da mudança do novo aeroporto de Lisboa, previsto para a OTA, e, depois apontada para o Campo de Tiro de Alcochete.
Dizia que, era potenciar um aeroporto que iria contribuir para dar dimensão à AML - competir com Madrid – e, de facto, alargando a sua influência na margem sul, assim, nesta margem, nascendo, a tal cidade aeroportuária para dar a Lisboa, dimensão metropolitana e europeia.
E, naturalmente, neste contexto, avançar TTT, nem que fosse só ferroviária, pois ela faz parte do plano ferroviário nacional.
Em suma, era pensar Lisboa até Sines, uma Lisboa que devia, escutei depois, por outros, ser pensada de Peniche até Sines.

Afinal, isso, era dar a Portugal essa tal dimensão de plataforma Atlântica, afirmando-se com ligações até à Estremadura de Espanha, como “uma região no mundo”, de ligação à América, África, sendo aqui a porta da Europa.

E, de facto, foi isto que pensei hoje, ao ler esta noticia, e, imaginei que o Barreiro, era um lugar, um lugar central, neste pensar a AML e Portugal no mundo.
Porque afinal, no futuro, Portugal ou se pensa nesta competitividade mundial, ou ficamos assim, como um recanto para ser visitado…com o turismo, como a ponta de lança da nossa economia.

S.P.

 

És um rio

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És um rio onde mergulho, em ondas. És um rio onde navego, em movimentos.
És um rio onde flutuo, em beijos. És um rio onde viajo, em sonhos.
És um rio entre margens, um leito de nervos, onde me deito, em gritos de silêncio, rasgando o luar, por dentro das estrelas que fazem eternidade.

 

És um rio, feito de sangue, um abraço, sem fronteiras, nem limites, entre os ossos.
És um rio, um espelho, onde a paisagem, emerge a brilhar, com todas as cores, riscos no tempo, esses, que fazem nascer sorrisos, telas e poemas.

 

És um rio onde um moinho, transforma a vida. És um rio esse lugar onde uma gaivota, rasga o azul, para tocar o recomeço de um dia, renascendo a sorrir. E tu, ali, entre as margens, sorris.

 

És um rio, sempre a sorrir, por dentro dos dias, bem dentro do tempo, todo o tempo, aquele, que é, afinal o tempo de um rio que corre, vindo da nascente mais pura, essa fonte onde tudo começa, sempre, esse rio feito de amor.
És um rio, que se faz no tempo, primeiro é riacho, e, depois, em ti, desde criança, jovem, mulher, mãe, és um rio que se faz ribeiro, rasgando socalcos, abrindo brechas, construindo caves, fazendo sapais, lagoas e rasgando as margens até ao oceano. Vivendo a vida, sim porque a vida só é bela, quando se vive a viver.
És um rio, de loucura intemporal, a gritar na noite, de branco a sorrir, um rio feito ribeiro, e, afinal, sendo ribeiro, esse ribeiro que és tu, e, sim, só porque és tu, é teu, esse rio, feito ribeiro, é, pois, o rio mais belo. Um rio, que é um riso. Um rio que é um sorriso.

 

És um rio, e não há rio mais belo, que um rio, esse, que é um ribeiro a nascer dentro do teu querer e ser, aí, no coração, feito de todo o tempo que foste, rasgando os temporais, sorrindo nas bonanças e navegando sempre entre as ondas – a sorrir, sempre a sorrir.
O rio que és, o rio que fomos. O rio que somos. Um rio. Um mar. A vida.
Afinal, a vida é bela!

 

 

António Sousa Pereira
9 de Outubro de 2018

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