Sonhar e fazer vida!

Eu não nasci para morrer enquanto estou vivo, é por isso, só por isso, que sinto as palavras rasgar o ventre, aí, onde tudo começa a germinar e a pulsar o coração.
Eu não nasci para morrer de morte morta, essa, feita de fantasmas que atemorizam, escondida nos nervos, e que fazem o homem morrer, ao transformar-se em silêncio, catavento, mero servo, obediente, criado de serviço, submisso, castrado de Liberdade.
Não. Eu sou dessa gente que escreve, que sente, que vê, que ama a vida e vive. Essa gente que não engole as palavras, nem espera enriquecer com os sons, esses que arrefecem as emoções, aquecem os passos, saltitando nas bermas de caminhos por construir, sempre por construir.
Não nasci para subir à custa do silêncio, nem quero construir os meus dias enterrando os meus sonhos de homem livre – como dizia um amigo meu que já partiu – quero estar, aqui e agora, com essa forma de estar nos dias, sempre a pensar ao contrário, do outro lado, daquele onde a vida sangra. Ser diferente, porque é nas diferenças que o mundo se transforma e a democracia floresce.
Sempre que senti os meus lábios presos de solidão. Abri uma janela para sentir o vento gelar os meus olhos, abrindo os braços e gritar, sim, apenas gritar aquela flor que está no meu coração – Liberdade!
É por isso que, mais que morrer no quotidiano vazio, submisso – ideologicamente perfeito de todas essas perfeições que fazem o poder – eu quero estar, aqui, neste lado, que me permite sonhar e fazer vida!
António Sousa Pereira
