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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Se eu tivesse um cão, talvez fosse feliz!

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Ele acorda pela manhã, sente cócegas no umbigo, esse lugar, que ele coça sempre, diariamente, quando bebe uma cerveja, sentindo que ela, a dita, desce pelo ésofago, afinal, acaba por ser o consolo de todas as suas desventuras.

Acorda. Abre a janela, que se abre para a cidade de betão, olha um gato a saltar na distância, livre, e um pássaro que voa rasgando o azul da manhã, livre.

Abre a boca, ainda ensonado. Tenta respirar. Ele não respira pelos pulmões, porque pelos pulmões só respiram os que sonham e acordam a sorrir. Ele respira com os nervos, porque acorda a respirar ética. Abre os olhos. Sente a ética nos sons que ecoam pelo esofago, assim incandescente a fervilhar e transformar-se num arroto matinal, que o faz de novo coçar o umbigo.

 

Sai da janela, percorre o corredor da sua solidão matinal. Os dias repetidos. A sobrevivência. Cansaço. Vive com a ética colada ao pijama. Ele sabe que a ética, para além de sangue e nervos, tem que ser a arma que lhe dá personalidade. Um homem sem ética é como um cão sem dono.  

Entra na casa de banho, senta-se eticamente, sim, porque só quem tem a ética colada ao corpo, sabe como deve sentar-se, eticamente, de forma a evitar os inesperados ruídos matinais, que perturbam a sua intensa criatividade.

 

Mas, ele, afinal. é indiferente ao que possam pensar, tem uma certeza, naquele recanto a sua imaginação é infinita. É ali, que, diariamente, ele sabe que pode sentir-se um gato ou um pássaro. Pode saltar. Pode voar. Sonha, sonhos únicos. Livre, livre, livre...

É aquele o momento, único, na vida quotidiana, que apesar de estar eticamente bem sentado, ele esquece a ética que molda o seu pensar e forja a imagem que tem de si mesmo e quer manter perante o  mundo. Parecer mais que ser, basta!

 

É nesse instante, quando ele, por segundos, ignora e esquece a tal ética profunda que, na verdade, a sua vida real, autêntica, emerge em explosões. Sente-se livre. O seu pensamento confunde-se com a sonoridade dilacerante, que rasga a solidez do seu corpo húmido e flácido.

Ali, de súblito, ele sente explodir e explodir-se, por momentos a palavra ética dilui-se nos sons em sucessivas explosões. Ele sabe, que a velocidade do som é menor que a velocidade da luz. Eticamente a luz é para esquecer, isso é coisa de iluminados.

O que conta é o som. Abre os olhos. Respira.

Ali, sente que o cheiro dos seus sons em ebulição, vão solidificando e geram os seus pensamentos únicos.

A felicidade é isto, pensa, quando atinge o auge da fluidez da sua auto-sonoridade e os sons fundem-se com a criatividade. Uma felicidade única, que o faz sentir  como um ser único. Irrepetível. Poeta. Jornalista. Politico. Comentador. Ele é de tudo um pouco, a unidade na diversidade. Dialéctica pura e cristalina.  

Afinal, só um ser único, criativo como ele, é, na verdade, um ser que pode, naquele recanto, tal como na vida, sentir a sonoridade da ética, e fazer da ética uma arma, um cântico e um poema.

Parafraseando o poeta : “com ética se faz a paz, se faz guerra, com ética tudo se faz e se desfaz, com ética se faz o som, se faz a luz, se faz as trevas, com ética, faz-te à vida, porque com ética tu és capaz!”   

 

Sai da casa de banho, feliz, eticamente feliz. Volta a olhar a rua da cidade de betão, e, ali, da sua janela, olha a distância e pensa : “Se eu tivesse um cão, talvez fosse feliz!”

 

S.P.

 

Nota- Qualquer semelhança desta estória com a realidade é pura coincidência. Não tem mesmo destinatário na vida real. 

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