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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

O meu país é o Hotel Califórnia

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O meu país é o Hotel Califórnia, cada cidade é um corredor por onde todos caminham em gestos de futuro por sonhar, sem caminho para andar, quando todos sabemos que a vida só se faz caminhando. Escutam-se os gritos dos profetas, em silêncio. As luzes iluminam a noite, em penumbras, que convidam a ficar, escondido, na mansidão do luar. Os dias são pintados de escuridão que abre brechas no sol.

O meu país é o Hotel Califórnia, aqui, uns são materialistas sonham com um bom carro, com a vivenda, ou, porque não, um barco e uma boa motorizada. Nada melhor que um bom espaço para beber um copo, conversar e sentir os nervos explodir para além da rotina que trucida os dias. Uns gostam de dançar. Outros gostam de beber as utopias. Entre gritos e copos nascem ideias deslumbrantes. Projectos que, sonham, isto vai valer milhões. Negócios. Mercados. Consumo. Tudo perfeito sem surpresas.

O meu país é o Hotel Califórnia. Quem foi preso? Interroga-se no café. São todos iguais! Banaliza-se. Escutam-se alibis. Em todos os tempos, os alibis são iguais. Repetem-se. Todos descansam se existir um culpado. O importante é encontrar um culpado. Entretanto, convém uma distração provisória.  Pode ser o Benfica – Sporting. A malta diverte-se, inventa canções, anedotas. Uma galhofa. É imensa a criatividade para criar conversas que banalizam a vida real, essa que se esconde por de trás dos milhões. Eles é que sabem viver. A indiferença flui entre gargalhadas.

 

O meu país é o Hotel Califórnia, pela manhã uns acordam rumo à outra margem da vida real, para juntar tostões que possam alimentar os filhos, pagar as rendas de casas, e a prestação do carro ou do cartão visa. A dita justiça, essa que se perde ao longo do tempo, prende mais um, os jornais contam com manchetes para a primeira página, os telejornais garantem audiências. Lá vão os jornalistas para os directos, à porta de casa, no Tribunal. Tudo normaliza. Uns saem com caução, outros com pulseira electrónica. Aguardemos. Até um qualquer dia, com outro qualquer caso. A história repete-se.

O meu país é o Hotel Califórnia, onde o silêncio se transforma em voz da esperança. Uma terra de banquetes. Bons vinhos. Saborosos e divinos sabores. Existe sempre um cartanito que compra a vida.

O meu país é o Hotel Califórina, onde há vidas que se esvaem em nervos derramados nas lutas diárias, entre as filas de trânsito, onde, por vezes, uma rotunda dá mais 15 minutos de vida, dizem. Outros desesperam nas filas de autocarro ou acotovelam-se nos barcos, entre as duas margens. Há mesmo quem desespere nas urgências do Hospital, onde a ansiedade cresce, enquanto se aguarda que alguém dê atenção ao pai, ou mãe, envelhecidos que aguardam uma análise, um rx, e, talvez possam sair passadas horas, para regressar a casa e dias depois voltar, o cansaço repete-se, de forma ingrata. A vida é sempre ingrata! A cidade envelhece! O país envelhece! Os avós sempre são uma ajuda para levar os filhos à escola ou creche, ainda bem, logo hoje que há greve dos professores.

 

O meu país é o Hotel Califórnia, por vezes, como somos uma democracia há eleições e, sempre, com rapidez e eficácia, as sondagens divulgam que tudo vai ficar, mais ou menos na mesma. Uns dizem que a vitória é para esquerda. Outros anunciam que a direita vai vencer. Os bons e os maus. Depois há os muito maus, e também os muito bons. Chove. Faz sol. Anoitece. Nasce o dia. Uns anunciam que vai descer o IRS. O IUC que estava anunciado vai cair. O orçamento tem folga. A divida pública, está controlada, e, lá a europa, piscam o olho, dizendo que está ainda um pouco acima da barreira dos 100. É preciso baixar. Está uma vela acesa na porta de cada cidade à espera do milagre das verbas do PRR.

Na minha cidade, onde tudo é fabricado, todos sabemos que está tudo melhor cóqueestava. O imobiliário domina a esperança, nesse sonho de jardins e quimeras que nascem a quinze minutos de Lisboa, uma nova massa critica anunciada. A cidade que se afirma como um corredor de passagem para a outra margem, um hotel, sem regresso. Uma cidade que não olha para dentro de si, porque apenas quer ser cidade-espelho da outra margem.

 

O meu país é o Hotel Califórnia, escrevo enquanto, os meus nervos sussurram-me ao ouvido, em eco a palavra Abril, em miragens, enquanto escuto  esse sons que emergem da memória dos anos 70. O Hotel Califórnia, um deslumbramento dentro do olhar, esse lugar  onde, um dia, sonhamos futuro, talvez construir a cidade da utopia, marcada pela diferenciação, com orgulho na memória – que, nos dias de hoje, se quer apagada. Afinal agora nasce tudo igual, fabricado, em cadeias de consumo. Escuto este som, que entra nos olhos, pelo outro lado do silêncio, como se fosse uma centelha que ilumina o som da voz que dorme dentro de mim, um silêncio que escuto quando falo sozinho. É nesses instantes que regresso à Rua Estreita, a azinhaga da minha infância, e descubro o valor da escuridão do silêncio. Hoje, quando ao escutar os timbres da guitarra, a saltar nos dedos, numa sonoridade que abria brechas de palavras nos meus lábios, sinto que viajo pelo silêncio do tempo, talvez pelo misticismo da Arrábida, onde o mar beija a terra e o céu encontra o sol e o luar. Calo-me na solidão. Medito. Adormeço no meu país – o Hotel Califórnia.

 

António Sousa Pereira

16 de Novembro de 2023

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