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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Eramos três jovens sonhadores

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O meu amigo José Caria, faleceu ontem no Hospital do Barreiro, onde estava internado.
José Caria, em 1990, foi eleito presidente da Câmara Municipal de Montijo, pela CDU. Foi igualmente vereador, e, há vários mandatos que exercia o cargo de Deputado na Assembleia Municipal de Montijo, eleito pelo PS.
 
José Caria, desde 2009 que escreve com regularidade artigos de opinião no jornal «Rostos», integrando a equipa de Colunistas.
Além de Colunista, José Caria, tinha um carinho muito especial pelo jornal «Rostos», fruto de uma relação de amizade que mantinha comigo, que forjamos nos tempos da nossa vida militar, em Leiria, amizade que fomos cultivando e mantendo, sempre, ao longo da vida.
 
Nesses dias antes do 25 de Abril, na vida militar, partilhávamos os mesmos sentimentos contra a guerra colonial, o amor à Liberdade, o desejo por um mundo melhor, o prazer de fazer das palavras poemas.
Recordo as noites que passeámos pelos jardins de Leiria, junto ao Lena, a falar de poesia, de Liberdade, de sonhos de juventude. A cantar Zeca Afonso, em silêncio. Os jantares que aqueciam o coração. Eramos três loucos de alegria e amor ao futuro – eu, ele e o Niza, que jogou futebol na Quimigal/CUF, que também já partiu para a eternidade. Eles vão encontrar-se e divertir-se. Um dia, certamente, lá estarei com eles, vamos conversar, e, de certeza vamos cantar e sorrir.
 
Tenho guardada, num recanto das memórias do tempo vivido, aquela toalha da mesa do jantar, da nossa última noite em Leira, que aconteceu na véspera do 16 de Março de 1974. Uma toalha branca, com marcas de vinho tinto e café, com frases e poemas que fomos, inventando deliciosamente, ao longo da noite, com os nervos à flor da pele. E no final saímos pela noite de braço dado a festejar a vida.
 
Recordo esses dias e sinto uma lágrima romper os meus olhos, uma farpa de saudade nos nervos, um grito no coração, a pensar no que sonhamos, no que fomos, no que não fomos. Mas vivemos amando a vida.
Recordo os nossos abraços, os nossos sonhos, a nossa amizade, que começava no nosso olhar de cumplicidades. Quando ia ver jogar a Quimigal mandava bocas ao Niza, ou quando ele integrava equipa de futsal, nos Torneios do Jornal Daterra, as nossas eternas picardias. Que força humana eram os nossos encontros, e abraços, que emergiam com a energia forjada nas noites de solidão, tristeza e amor ao futuro.
 
O poema era voz, era alavanca, era força no coração e na garganta, o poema onde se escrevia o nosso sonho que floria com a palavra esperança. E floriu em Abril. Que tu amavas Caria. Que nós amávamos.
Eu acho que é isto a verdadeira amizade. Aquela que se inscreve nos nervos da memória. Um tempo partilhado e vivido com o sangue a pulsar os nervos.
 
Depois de Leira, partimos cada um para o seu lado, mas, quando nos encontrávamos, o nosso abraço era forte, tão forte que apertava os ossos, por que a amizade forjada no suor dos pensamentos e na paixão pelos sonhos, é, sempre um sentimento que fica no coração para a eternidade.
Fui ao teu casamento. Editei uma noticia no Jornal Daterra. Quando foste eleito Presidente da Câmara Municipal de Montijo, convidaste-me para ser teu assessor na área de Informação. Declinei o convite. E pouco tempo depois tu deixavas a função de presidente.
 
Ao longo da vida, aqui ou acolá, fomos partilhando os dias. Estiveste ao meu lado. Eu estive ao teu lado. Foste sempre uma voz activa que enriqueceu os conteúdos do Jornal Rostos. Eras um homem inteligente, que gostavas de investigar, de colocar o preto no branco. Não escrevias em vão, escrevias com sapiência. A tua terra Montijo devia prestar-te uma justa homenagem. Tu mereces, porque viveste a vida a dar e a amar.
 
Eras um poeta. Hoje, fui à minha estante de livros de poesia e trouxe comigo, para aqui, no meu cantinho, o teu livro – Momentos – editado em 1985, e percorri as páginas, para conversar contigo, para te saudar, e descobrir no silêncio da noite a energia das tuas palavras: “Há um amanhã, em cada esquina de esperança”. Ali onde tu escreves:
 
Grito-te
respiro-te à distância
que nem lutando
sonha
com as mãos calejadas
pela esperança
mil vezes traído, castrada,
comungo-te
na altura - tempo
deste país
a cheirar a ontem…
 
O Caria partiu. O meu amigo Caria partiu. Eramos três, antes de Abril acontecer, nas noites duras de solidão, de raiva calada nos dentes, ali, no Castelo de Leiria, no RAL 4, a sonhar, a amar o futuro a viver a Liberdade. Eramos três, jovens sonhadores. E na noite fria abraçamos o tempo, que se fez memória. Vocês já partiram. Um dia hei-de partir. Uma coisa, tenho a certeza, os três vivemos, a alegria daquele dia que escrevemos no coração – 25 de Abril, que sonhamos e, afinal, vivemos. Foi lindo.
Amigo Caria, até sempre!
 
António Sousa Pereira
 
Nota – O seu corpo será velado ma Capela da Moita, realizando-se Missa de Corpo Presente amanhã, sexta-feira, dia 4 de agosto, pelas 13h30. O funeral realiza-se às 14h15, para o Cemitério Municipal do Pinhal do Forno.

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