«Barreiro um lugar tão especial, de Comunidade e de Liberdade» . afirmou Susana Mourato Alves-Jesus
No Barreiro, uma cidade cuja memória é indissociável da caminhada da humanidade pela afirmação dos Direitos Humanos, da Dignidade e da Liberdade, na minha modesta opinião, o acontecimento que marcou o mês de Dezembro foi a sessão de apresentação da 2ª edição do livro “Direitos Humanos em Portugal: História e Utopia”, de Susana Mourato Alves-Jesus.

O Auditório Manuel Cabanas, na Biblioteca Municipal do Barreiro, recebeu no dia 13 dezembro, uma sessão vivida com muita emoção, com o suor a pulsar por dentro do coração.
A barreirense Susana Mourato Alves-Jesus, sentiu a alegria de viver, na sua terra natal, num lugar onde em adolescente estudou, aqui e agora, em dezembro do ano 2025, sentir-se rodeada de antigos professores, colegas, família, amigos, num encontro com a comunidade para divulgar a sua tese de doutoramento, impressa na sua obra “Direitos Humanos em Portugal – História e Utopia- Das origens à Época Contemporânea”.
Uma obra que, recorde-se no ano 2024, foi a vencedora do Prémio CTT - Correios de Portugal S.A. — D. Manuel I, atribuído pela Academia Portuguesa da História.
Uma sociedade mais desenvolvida
Sara Ferreira, vereadora da Câmara Municipal do Barreiro, na abertura da sessão sublinhou que “a apresentação deste livro faz todo o sentido”, neste espaço de “estudo e partilha de saber”.
Acrescentou que “os Direitos Humanos” é uma tema que diz muito “à nossa geração”, que deve procurar que sejam levados à prática no direito à educação, no direito à habitação, no direito à cultura, contribuindo para “uma sociedade mais desenvolvida”.
Obra fruto de uma investigação vasta
A professora Teresa Nunes, da Universidade de Lisboa, começou por referir que a obra “Direitos Humanos em Portugal – História e Utopia- Das origens à Época Contemporânea”, é fruto de uma investigação vasta, pormenorizada, resultado de um esforço imenso de análise de História Política, História do Direito, Filosofia e reflexão sobre “a dignidade da criatura humana”.
“Esta obra não é apenas um elencar de dados”, porque tem como caminho estudar a “evolução dos direitos humanos”
“É um trabalho absolutamente essencial para o estudo dos Diretos Humanos”, disse, acrescentando que “é um trabalho de história perfeito”, uma história que conversa com a realidade de cada época, na análise das causas, com rigor metodológico, análises científicas, muito bem escrita, que é um gosto ler, que ajuda o leitor a interpretar as conflitualidades entre Direitos Humanos e a afirmação da Liberdade.
Este lado do rio é local global
O Professor Doutor José Eduardo Franco, da Universidade Aberta, recordou que a obra «Direitos Humanos em Portugal – História e Utopia – Das Origens à Época Contemporânea», tem a marca de um rosto do Barreiro, “este lugar e esta terra com identidade própria”.
Foi nesta terra que nasceu Susana Mourato Alves-Jesus, aqui entregou-se ao conhecimento com paixão, aqui começou a sua alma de investigadora e entregou-se à sua vocação, cumprindo-se como herdeira de uma terra de trabalho.
Referiu que esta terra, que ele viu sempre “do outro lado do rio”, que alguns referiam como “um deserto”, ao longo de décadas ganhou identidade própria pela sua capacidade de superação, de atrair gente de muitos lados, de superar obstáculos.
José Eduardo Franco, sublinhou que “este lado do rio é local global”, que recebe as pessoas de vários países, de várias raças e identidades, sempre com solidariedade.
Recordou a experiência que viveu, com Susana Mourato Alves-Jesus, na Escola Secundária de Santo António da Charneca, que não é um espaço de exclusão, mas, pelo contrário, é um espaço de inclusão e de difusão dos Direitos Humanos.
O historiador salientou que a autora tem amor à sua terra e salientou que a terra está inscrita na sua identidade, na capacidade de valorizar a dignidade humana.
Direitos vão sempre sendo actualizados
A obra «Direitos Humanos em Portugal – História e Utopia – Das Origens à Época Contemporânea», é um trabalho que demonstra a vontade de uma investigadora que “gosta de descascar as palavras até ao osso”, é uma tese de doutoramento de qualidade, com muitas novidades, que ajuda a conhecer os direitos humanos, nos dias de hoje e perceber a doença do nosso tempo “o presentismo”, uma obra que alerta para uma visão alargada dos direitos, como Direitos da Natureza, Direitos do Ambiente, a importância de criamos a “casa comum”.
Uma obra que nos permite um olhar para os Direitos Humanos como uma realidade cognitiva e como os direitos vão sempre sendo actualizados.
Pilar na valorização dos Direitos Humanos
Fui convidado pela investigadora para, no decorrer da sessão apresentar um «A(nota)mento, foi para mim uma honra, o convite que me foi formulado. Já editei no Rostos o texto que li, aqui, apenas registo esta nota que dirigi à Susana – “Sabes, o teu nome já está inscrito, na história da dignificação da humanidade, e, obviamente, no nosso país, este Portugal da cultural global. És um pilar no estudo e na valorização dos Direitos Humanos, na academia portuguesa, no país, no teu Barreiro, e, na energia das utopias que fazem futuro. Obrigado.”
Devolvendo à terra também parte do que me deu
Susana Mourato Alves-Jesus, encerrou a sessão. Notava-se que estava emocionada. Notei uma lágrima a espreitar no seu sorriso. Agradeceu a todos e sublinhou – “É com muita honra e muita alegria que me encontro hoje aqui convosco”, e viver “a oportunidade de apresentar esta obra numa terra e numa biblioteca que me diz tanto. apoio do município a este livro representa para mim, mais do que um apoio institucional, um valor simbólico. Foi no Barreiro que fiz toda a minha formação escolar, desde a 1.ª classe ao 12.º ano, pelo que me senti no dever de partilhar convosco este trabalho, devolvendo à terra também parte do que me deu.”
Pensar e o viver os direitos, mas também os deveres humanos
A investigadora, salientou que “a problemática dos direitos humanos interpela-nos. Entendemos que compreender o sentido dos direitos vai muito para além do seu uso na linguagem e nas práticas do nosso quotidiano. Por isso, neste livro, procurei aprofundar criticamente o tema, de modo a contribuir, de alguma forma, para uma consciencialização dos seus dilemas, entre as teorias e as práticas, entre o pensar e o viver os direitos, mas também os deveres humanos.”
Barreiro, em busca de utopias
Susana Mourato Alves-Jesus, agradeceu “ a todas e a todos quantos acompanharam com cuidado e atenção este processo longo de investigação, de análise, de reflexão, de escrita e de vida”.
Foi com emoção que disse – “recordo em particular a minha Mãe, a D. Edite, que tinha uma loja de louças, vidros e decorações, ali em baixo na Rua da Recosta, e o meu Pai, Sr. Domingos, que foi subindo a pulso nos CTT Correios de Portugal. Assim que casaram, em 1964, vieram da Beira Baixa profunda, primeiro para Lisboa, e depois, no início dos anos 70, para o Barreiro, em busca de utopias. Nesta terra crescemos, e hoje é com imensa alegria que vos agradeço a todas e a todos aqui presentes.”
Barreiro um lugar tão especial
“Mesmo por último, queria muito que as professoras aqui presentes Teresa Cunqueiro e Júlia Batista se levantassem. Foram minhas professoras. A professora Teresa foi minha professora de Moral deste o 7.º ao 12.º na mítica Escola Alfredo da Silva (tantas vezes carinhosamente referida como Alfredo da “Selva”). Numa disciplina de âmbito católico, foi a professora Teresa quem pela primeira vez nos levou em visita de estudo à sinagoga e à mesquita em Lisboa. A professora Júlia foi a minha professora de Latim do 10.º ao 12.º ano, e em 3 anos apenas fez com que alguém acreditasse tremendamente que o latim era o futuro – e foi! Acabou por talhar as minhas escolhas depois de concluído o ensino secundário.
Queria que hoje aqui representassem toda a comunidade escolar do Barreiro, que tem acompanhado de forma brilhante tantas gerações de alunos e alunas.
Nesta terra, onde crescemos com amigos de todos os feitios, percebemos que isso é que torna também o Barreiro um lugar tão especial, de Comunidade e de Liberdade”, disse.
Tempos em que brincávamos na rua até à meia-noite
“É nas escolas deste concelho e através das professoras e dos professores que neles têm tão empenhadamente trabalhado, que têm crescido gerações de crianças e jovens também comprometidos com o futuro e também com os direitos humanos.
Não esqueço o entusiasmo inicial, também pelo projeto Dignipédia Global, que o agrupamento de escolas Santo António desde logo demonstrou e que todos os outros agrupamentos de igual modo seguiram.
Hoje, na pessoa destas duas professoras, gostaria muito de terminar estas palavras, devolvendo ao Barreiro o muito que vivi e cresci por cá (desde os tempos em que brincávamos na rua até à meia-noite ou mais! até aos tempos do Largo dos Penicheiros, do El Matador, da Vinícola e do DNA – os entendidos vão entender), mas em especial o muito que temos aprendido por cá, pela mão das escolas públicas deste Concelho.”, recordou Susana Mourato Alves-Jesus.
E, está dito, e repito esta sessão que brotou do amor ao Barreiro, um amor que toca os nervos, que está inscrito no tempo, que floresce numa memória que é passado, presente e futuro, é o fruto de um trabalho de grande dimensão, quer no plano académico, de investigação histórica, ou na valorização da cidadania, essa energia que fez do Barreiro a voz de poetas e de homens e mulheres que amaram a Liberdade e sonharam futuro, foi sem dúvida, para mim, o acontecimento histórico do mês de Dezembro de 2025.
António Sousa Pereira
