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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Avô dá-me um abracinho!

 

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Há dias que cansam, cansam pelas palavras, que nem são palavras, são sons inertes feitos das escórias do tempo. Aquelas coisas que se repetem, que banalizam, que não ajudam a pensar cidade, a sentir cidade, a pensar cordialidade, a sentir relações humanas, a ter no coração palavras a pulsar que permitam tocar por dentro o quotidiano, nas diferenças, no erguer os dias com essa força criadora que nasce na energia das diferenças.

Hoje foi um desses dias. São aqueles dias que me ocorre ao pensamento a obra «Górgias», de Platão.
 
E, ao recordar, penso que há coisas que afinal, não é preciso explicar, nem para elas é necessário procurar explicações, estão explicadas, ditas e reditas. São aquelas palavras feitas de retórica, mera retórica, de mundos perfeitos, os mundos que se erguem em perfeições únicas, de pensamentos únicos. Os mundos que são eles o principio e o fim, o começo do mundo, o big bang, que faz, depois, sentir a realidade feita de vazios, mas cheia de sons inertes. Retórica, mera retórica. Sim, lendo Górgias, percebe-se.
Hoje foi um desses dias, em que as palavras inúteis tocaram os meus nervos. Fiquei com as palavras livres a circular no meu sangue de esperança. Há sempre uma esperança, mesmo nos dias de céu amarelo, coberto de areias do Saara, e, o sol a espreitar, feito luar, a gritar, como centelha que dá brilho ao dia e semeia a luz. Felizmente, há sempre uma luz.
 
A emoção desce devagar na superfície da pele numa raiva impotente perante uma guerra estúpida, agora, como em todos os tempos, neste mundo em que os senhores do mundo, determinam a morte, por geoestratégias, por poder, por submissões, por ganância, por mercados.
As lágrimas deslizam nos olhos ao olhar aquelas imagens que entram em casa e banalizam a dor, em explosões cirúrgicas.
E as valas abertas recebem os corpos que ontem sorriam, conversavam, brincavam com os filhos, beijavam, e, pensavam futuro. Agora estão reduzidos a escombros.
Há dias assim, que as coisas entram nos nervos e doem nos ossos, fazendo os pensamentos derreterem-se em lágrimas nos olhos, que contemos, disfarçadamente, com a ponta dos dedos.
 
E nestes dias, dias feitos de cansaço, de retórica, de guerra, de dor, ao fim do dia com o céu nublado de tons do Saara, no meu recanto, ao fim da tarde, cansado de palavras repetidas de ecos vazios.
Sento-me na sala, e, escuto uma voz, como se fosse a voz de um anjo, a beijar os meus nervos, ali, olhando para mim, olhos nos olhos, sim, porque isto é que é olhar olhos nos olhos, e falar com o coração, a minha Alice disse:
«Avô dá-me um abracinho», e correu para mim a abraçar-me. Apertando-me com ternura no seu coração.
Voltou de novo para o seu lugar, e voltou a dizer: «Avô dá-me um abracinho». E de novo, com mais força, ali, sempre, com um sorriso, a Alice voltou a abraçar-me. Com mais força, apertando-me com um carinho que tocou os meus olhos num mar de ondas.
E de novo, olhando fixamente, voltou a dizer: «Avô dá-me um abracinho». E, em mais um abraço, terno e caloroso, senti uma energia renovada a fluir, neste final do dia sem sol.
Três vezes sorriu. Três vezes me abraçou. Três vezes senti o seu coração. Três guardei dentro de mim estes instantes. Sorri.
 
E, por fim, a minha Alice, olhando, bem de frente, sorrindo, do seu canto, onda brota a sua energia de criança, voltou-se para mim, com olhar terno, com voz doce e suave, pela primeira vez na sua vida, disse: «Avô, gosto muito de ti. Amo-te!»
Olhei para ela abracei-a com os meus braços, com um brilho nos olhos, e, naquele instante senti que
um abraço não se pede, um abraço , recebe-se com a força de quem toca o coração, de quem quer dar o coração e partilhar a vida, olhos nos olhos – «Gosto muito de ti. Avô amo-te”.
Oh Alice, salvas-te o meu dia, pensei.
 
António Sousa Pereira
Lavradio - 16 de março de 2022

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