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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

A resiliência é mais forte que a resistência.

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Nestes dias, ao fim da tarde, sinto a noite anoitecer, ainda o tempo é vespertino, então, imagino o sol a deitar-se nos meus olhos, e, numa viagem por dentro dos pensamentos procuro despertar as palavras inscritas no quotidiano.

Hoje, pela manhã, numa troca de palavras com uma amiga, ela comentava a azáfama, as múltiplas tarefas em curso, e, como estava assoberbada de trabalho. Comentei que, nestas circunstâncias, o melhor é ter calma, muita calma: sentir, pensar, fazer. É isso, a calma, ajuda a descansar e dar passos fazendo, serenamente. Sorrindo.

E, naquela troca de palavras, acrescentei que nestas situações de trabalho, de exigências temporais, de metas a cumprir, o essencial não e a resistência, mais sim a resiliência.

A resiliência é mais forte que a resistência.

A resistência é um combate pela vida. A resiliência é o amor à vida. 

A resistência acaba em vitória ou derrota. A resistência é um pensamento dualista, de luta entre prós e contras, que se procuram anular, os bons e os maus. A resistência finda no dia que o combate, considera, que a luta findou. Um erro. A luta nunca finda. A luta que finda encerra os sonhos. Mesmo que se vista com outros, ditos, sonhos.

 

Mas, a resiliência não vence, nem perde, é um legado, uma energia que é nossa e continua para além daquilo que aguentamos, somos nós e outros, uma cadeia intemporal, feita de memórias, presentes e futuros. Contradições. Teses. Antíteses. Sínteses. A resiliência é dialéctica. A resiliência é a permanente procura de mudança, transformação, construção do futuro, que está, sempre, quer queiram, quer não queiram, dentro de si, grávido de passado e de presente.

A minha amiga, naquela troca de palavras disse-me: «Resiliência quer dizer superação mesmo no limite da quase destruição». Sorri.

E respondi: Resiliência é a luta pela Dignidade. Resistência é a luta pela liberdade. A dignidade é, ela mesma, as portas e as janelas abertas…à liberdade.

É por isso, que considero a que a palavra resiliência é mais forte que resistência. A resistência é a luta pela liberdade e pela dignidade. A resiliência é, ela própria dignidade, a respirar liberdade. Resiliência é Verticalidade.

A resiliência é Galileu, perante inquisição, murmurar: “E ainda assim se move”, ou, por exemplo, Gomes Freire de Andrade, perante a morte afirmar: “Felizmente há luar”. Eles, estão vivos, inscritos nas utopias e sonhos da humanidade.

A resistência é uma luta diária. Um dia de cada vez.

A resiliência é o viver todos os dias. É o viver um dia todos os dias.

Com a resiliência os nossos dias ganham sentido, para lá do tempo, por isso, resistimos, existimos, persistimos, caímos, e, somos, sempre todas as palavras que dão conteúdo ao tempo que vivemos.

Sim, eu sei, cantei e canto: “Há sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não!”.

Isto era e será sempre quando os totalitarismos silenciam, e resistir é não silenciar.

Mas, na democracia, quando de forma subtil, emergem os bons e os maus, flui o pensamento a preto e branco, gera-se a cultura da indiferença, cultiva-se a servidão, silencia-se discretamente com sorrisos, então, só há uma forma de caminhar e sentir o futuro vivo no presente, e, isso é ser resiliente.

Como diz na minha amiga: Resiliência quer dizer superação mesmo no limite da quase destruição.

Mesmo com a consciência plena, como dizia o poeta – Ser poeta todos os dias também cansa!

 

António Sousa Pereira

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