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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

A eternidade

Hoje, ao olhar na distância o pôr-do-sol, pensei, sobre o que fica deste dia que acabei de viver.

Os encontros com amigos. As conversas. Os sabores. O sabor do sal. O ritmo permanente do mar. A ternura da areia a moldar-se nos meus pés. O caminhar de mãos dadas entre as ondas. Os mergulhos. E, aquele momento único, quando escutei o silêncio enorme, perdido nas sombras dos meus olhos fechados, junto ao eterno Atlântico.

Abri os olhos, então, descobri na distância uma tela de tons de azul, «degradée», pintada entre o mar e o céu, a perder-se no horizonte, ali, onde uma vela cruzava o tempo feito de uma imensa memória.

No final de cada dia, o que fica, é, aquilo que guardamos nos nervos. O que fica é aquilo que fomos, sendo.

A nossa vida é, um pouco, como um dia que vivemos. Um dia há o pôr-do-sol.

No final, o que fica será a nossa eternidade – aquilo que fomos, fazendo. O que dissemos ficará, apenas, no silêncio perdido na imensidão das ondas que vagueiam no espaço.

O que fizemos, o que construímos, o que legámos, o que vincámos com o nosso tempo vivido, o que contribuímos para acrescentar ao mundo mais mundo, tudo isso, será a marca do tempo que fomos. Por essa razão, só o que fomos, será a nossa eternidade, tudo o resto serão invenções. Nada apagará aquilo que fomos, sendo, fazendo.

A nossa eternidade, será a eterna recordação das marcas gravadas na vida – aquilo que fizemos, sendo.

É por isso, só por isso, que o tempo que temos para ser é este tempo que vivemos.

Depois, seremos, ou não, eternidade se o tempo, todo o tempo que por aqui vagueámos, foi tempo de construção, registos inscritos do que fomos fazendo, ou, apenas, traços nos dias, de um tempo em que matámos o tempo apenas existindo.

A eternidade será a recordação do que fomos. Só nos inscrevemos na eternidade fazendo!

E para que a eternidade seja e possa ter a dimensão da nossa vida, isso, de facto, só atingimos vivendo.

Senti, isso, ao olhar o silêncio enorme nas ondas do  Atlântico, ali, ao ver Portugal a navegar nas ondas e a imaginar os velhos do Restelo, tristes, e medonhos a repetir os eternos estribilhos da decadência.Sorumbáticos.

É por isso, que o mais lindo da vida é sonhar e fazer tudo para o nascer dos sonhos.  Já vivi essa experiência de ver os sonhos nascer e, ao mesmo tempo, escutar os velhos do Restelo a falar da decadência, enquanto os sonhos se erguiam, e se inscreviam na vida, fazendo eternidade.

É por isso, é mesmo por isso, que os sonhos são a porta aberta à nossa eternidade.

Sempre assim foi, sempre assim será…

 

S.P.    

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