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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

A distância entre pensar Barreiro e pensar ‘barrerinho’

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A nossa vida pulsa no pulsar que nos envolve. A paisagem integra os nossos sentimentos. Nas ruas estão inscritas memórias. Habituei-me a ‘tocar com os olhos da memória’ as emoções que estão vivas nos lugares, esses, onde inscrevo os meus passos.
Estou numa idade, que só me apetece viver, divertir-me, sorrir. Olhar a luz das manhãs e sentir que estar vivo é mais, muito mais, que acordar e existir.
Hoje, pela manhã, fui dar um passeio junto ao Tejo, de mão dada com a Lurdes, lá fomos, sentindo a maresia, o vento, e, até escutámos aqueles ‘gritos estridentes’ de gaivotas.
O Tejo é lindo. Caminhamos pelas margens e sentimos o silêncio. Lisboa, na outra margem, brilhante e terna.

Encontrei no seu rodopio diário o ‘Má Raça’. É ali o seu território, junto à Piscina Municipal, na muralha do Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita, e, nos últimos dois anos, também, ali, naquela ‘praça’ da Quinta Braamcamp que se abriu ao mundo e ao Tejo.
O Má Raça faz parte da paisagem. O Tejo faz parte da sua vida.
Tudo que nos toca emocionalmente traduz-se em pensamentos, quando temos raízes e essas raízes contam mais, muito mais que, pensar um milhão de euros.

O Má Raça estava por ali, com o seu boné de marinheiro, dando voltas, naquele local onde esteve instalado o palco das Festas do Barreiro, os limites da Quinta Braamcamp.
Um território que, afinal, graças à decisão unânime – CDU, PS e PSD - na Câmara Municipal do Barreiro foi adquirido e faz parte do dominio público.
Mas, pelos vistos, dizem – ‘para bem do Barreiro’ - está previsto que vai ser vendido, no âmbito de uma operação imobiliária. Aquele território, hoje público, vai passar de novo para o dominio privado. Agora, certamente, pelo que se sabe, não por decisão unânime, mas por decisão do PS e PSD.
Mas, pasme-se, consta que depois, quando o novo e futuro proprietário apresentar uma proposta de urbanização, este território, irá voltar de novo ao dominio público.

Olho o Má Raça. Dou a mão à Lurdes e sigo o meu caminho, sorrindo. Isto só dá mesmo para sorrir.
E não escrevo o que penso. Fico pelo pensar. Espero que ao menos, ainda exista liberdade de pensar.
Volto, na distância, a observar o Má Raça, ele continua a passear naquele recanto, onde outrora existiram muros.
É verdade, tenho mais de quarenta nos de vida no Barreiro, e, na realidade, sempre ali conheci um muro. Só nos últimos dois anos recordo, de facto, o muro não tem sido reconstruído, após as Festas do Barreiro. Valeu alguma coisa a CMB ter comprado a Quinta. Até imagino que, ali, pode nascer o nosso Terreiro do Paço.

Enquanto vou dando o meu passeio. Olho a outra margem. Daquele lugar observo o Terreiro do Paço. O centro do poder. O lugar onde começou a cair a monarquia. O lugar onde começou a cair o salazarismo. O poder é sempre o poder.
Os lugares, são sempre o que lá está e o que lá esteve, nunca sabemos é o que vai lá estar – são memória e são presente.
O futuro está sempre por escrever e fazer, mas, quando escolhemos no presente, as nossas escolhas abrem o caminho de futuro. Por isso o futuro escolhido, está escolhido.
Acredito que para pensar e sentir uma cidade é preciso pensar e sentir o que está inscrito na paisagem e nas pessoas que fazem a paisagem.
Por isso é belo, pensar e sentir cidade e viver cidadania. Sendo. Fazendo.

Volto para o carro. Olho o ‘Má Raça’ e pergunto-lhe: “Qual é o caminho para o Barreiro?”. Ele sorri. - "Não tem nada que enganar. Vá sempre em frente e vai ver que daqui a pouco está no Seixal!”.
Olho, de novo, aquele recanto sorrindo.
Apetece-me mesmo sorrir. Não sei se é sorriso triste, se de mera irreverência. Lá vou sorrindo.
Aqui é a Quinta Braancamp - hoje do dominio público, amanhã vai ser de novo privada, e, depois volta de novo ao dominio público. Neste ir e vir, a Câmara Municipal do Barreiro, encaixa um milhão de euros.

Olho o Má Raça e sinto o seu sorriso vivo e natural. Olho o Terreiro do Paço, ali em frente. Penso. Limito-me a pensar. O melhor é ficar é pelo pensamento, ‘sinta quem lê’.

Meto-me no carro. Vou até à Universal, aquele espaço de gente simpática no Bairro Operário. Gente de trabalho. Dos resilientes que vão mantendo a cidade com alguma vida. Brinco com a Marina. Converso com a Lili. Faço uma festa no Gabriel, que se prepara para nascer.
Volto à rua. “Dê-me uma moedinha”, diz o utente da Persona.
O Bairro Operário. O velho Bairro Operário, desse Barreiro feito de vizinhanças. O Barreiro que agora está anunciado é, na verdade, aquele que vai ter vida ‘à noite’, e, portanto, não se vai comparar com o Parque da Cidade. Fico de novo a sorrir. Também gosto de sorrir. Retórica. Górgias.

Estou por ali, e, aproveito para visitar o Kira, no seu novo espaço de criatividade. Passo junto à Escola Profissional Bento Jesus Caraça. Os alunos dão vida ao bairro. Potencial. Isto é potencial. Enfim.
O Kira continua a sonhar. Um sorriso de grande senhor, que resiste, resiste... existe porque sonha. Só deixamos de existir, quando deixamos de sonhar.
Quando o nosso sonho se resume a pensar milhões e a vida se resume aos euros. Retornos. Lá se vai o potencial.
E, afinal, até, é, quando se vai a visão, lá se vai a ambição, em suma, nada mais nos resta que essa realidade de ficarmos reduzidos a um parque de merendas, um campo de futebol, um parque infantil. Vendemos os aneis e ficamos felizes porque não nos levam os dedos.
Isto é afinal a distância que vai entre pensar Barreiro e pensar ‘barrerinho’. Pensar ‘Barreirinho’ é pensar um lugar onde se regressa após um dia de trabalho - o dormitório, o lar doce lar, das tais 180 habitações. Pensar Barreiro é pensar um lugar com visão, ambição...é isso com Rodas Gigantes, e, afinal acreditar que temos mesmo potencial para ser referência na região.

É que pensar o ‘Barreiro na AML’, sem dúvida, é muito diferente de pensar o ‘Barreiro da AML’. Uma única letra muda o ‘conceito’ de pensar e fazer estratégia no pensar e fazer cidade.
É assim, sempre assim foi, tem sido assim, década após década, o meu país vai hipotecando o futuro de sucessivas gerações.
Até já divirtam-se!

António Sousa Pereira

 

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