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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

A vida embrulhada em sorrisos

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A vida, para quem já sentiu isso, por vezes, obriga-nos a percorrer os dias por dentro de espaços vazios, cinzentos, esses lugares ou momentos, onde, até, o ar engravatado cheira a bolor, a água de colónia, daquela que tresanda e que se mistura com sorrisos escritos com rugas, de subserviência e de sobrevivência. Os corredores das lutas pelo ter, do jogar à defesa, do toma cuidado, do não te iludas, do nem tudo é o que parece.
É a vida real, pura e dura. Conquistas. Ambições. Ansiedades. Medos. Trocadilhos. Todos os «ilhos», que se dizem e desdizem. Não foi isso que eu disse. Não foi isso que eu quis dizer. Ponto final. Adjectivos. Interjeições. Interrogações vazias. Compassos de espera. Um grito no meio da praça de toiros. Eh, bonito! Eh, oi! Aplausos. Holofotes. Espectáculo.

É nesses instantes, momentos, que descobrimos o significado da palavra «poucochinho». O que é pensar poucochinho. O que é viver poucochinho.
Os dias que são «poucochinho» são dias que sufocam, encrostam-se nas rugas do ressentimento. Esmagam as emoções. Geram conflitos. Torturam o pensar.
O ressentimento é um pouco a forma de agir dos que vivem absorvidos por todos esses jogos e questiúnculas da sobrevivência, é, sem dúvida, essa, a marca de água que se inscreve no quotidiano dos antros do poucochinho, dos lugares e instantes onde vegeta a insalubridade do pensar. O tempo que se consome em busca do «cheque mate», do comer peões, cavalos, torres, ou, a dama. Mexer as peças. Colocar peças. A vida é combate. A vida é teatro. Não se vive, encena-se, protagoniza-se. Ilude-se. As relações humanas são cenas carregadas de intrigas, de enredos. Sim, é esse o palco desse lado da humanidade que, diariamente, vive o poucochinho. São frustrações. Sonhos congelados. Beijos irrequietos que condenam o amor, que matam o amor. São abraços que abafam a amizade. Uns sobem de uma forma. Outros descem no cair. É o salve-se que puder. Novelas. Filmes. Imagem.

Esses, os ditos, que vivem amarrados ao poucochinho, por vezes, sobe-lhes à cabeça um fluxo de sangue que os leva a imaginarem-se grandes. Poderosos. Olham ao seu redor com ar sobranceiro. Encaram o próprio sol com os olhos a luzir de vermelho tórrido. Imaginam-se pessoas importantes, azuis de sangue. Tudo depende dos seus arrotos, que são sentidos no silêncio das suas palavras vazias e repetidas. Clichés. Slogans.
Nunca esqueçam que há o poucochinho e há os promotores do poucochinho.
E, já agora, sublinhe-se que os poucochinhos nunca estão sozinhos, eles rodeiam-se sempre dos poucochitos.Os assalariados. É por isso que na «cultura do poucochinho», uma das linhas de força é multiplicar os «poucochitos», ou seja, criar mais ecos e escutas dos poucochinhos. Esses, os poucochitos proliferam nas redes sociais.

Os poucochinhos vivem enjaulados nas suas ambições, são canibais do pensamento, por isso, só por isso, cultivam quotidianamente o pouco e o pouquito. São poucochinho no agir, são poucochinho no pensar. Irritam-se. Nem sequer suportam a simples diferença, que existe, de facto, entre o «pouco» e o «um pouco mais». Basta-lhes o poucochinho.
Esta é a realidade, triste e sombria, de os todos os tempos, sempre que o «poucochinho» é a marca da época.
Os poucochinhos, afinal, têm um drama nas suas vidas. Não vivem. Não fazem. A única coisa que os move, que os faz acordar diariamente, é, isso, o fazer que vivem, e, o fazer pela vida. Embrulham-se em sorrisos. Sorriem, sorriem muito.
Sim, é poucochinho. Mas, é vida, e, se é vida, lá tem que ser...

António Sousa Pereira

Sorrisos que se deitam no Tejo

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Chegar ao fim da tarde, escutar o dia a descer, entre o chilrear dos pássaros. Uma tela. Uma canção. Um movimento.
Sentar-me. Ter tempo para ler. Ter tempo para estar. Ter tempo sem pressa de ter tempo. Tempo para sentir o tempo. Tempo para fazer dentro do sol e do luar que marcam a roda do tempo. Tempo para sentir o calor do sol pintar os meus olhos de azul, amarelo e vermelho. Tempo para escutar a chuva num cântico a desfolhar os vidros baços. Tempo para tocar o tempo com o olhar, tic, tac, tic, tac.
Tempo para sentir os pormenores a fluir nos nervos. Um olhar. Um som. Um sorriso. Olhar os olhos escondidos. Pensar os olhos escondidos. O colorido, castanhos, azuis, verdes. Os olhos que comunicam em silêncio. Olhar uma pomba de asas abertas a rasgar o azul da tarde.
Sentir o dia despedir-se. Sentir a noite num gesto de ternura a abraçar o entardecer. Beijar o nascer de cada dia ao som de Vangelis. Sonhar. Tempo para procurar o silêncio dentro do silêncio, como quem mergulha num oceano de sonoridade ausente. Divertidamente.
Sentir que o tempo, todo o tempo me pertence, e que estou vivo dentro do tempo. Sem angústia de conquistas. Sem o peso do medo que leva ao maniqueísmo. Sim, estar vivo no tempo que vivo.
Ah! Que prazer sentir todo este tempo como parte integrante de tudo o que sou, de tudo o que fui, de tudo o que não sei que serei, tranquilamente.
Hoje, pela manhã, deliciei-me no voo de uma gaivota, enquanto ollhava o Tejo.
Uma borboleta cruzou o meu olhar. Pensei como a vida é frágil, tão frágil, que basta uma borboleta cruzar-se no nosso olhar e tudo pode mudar. Muda o rumo do olhar, uma mudança, ténue, suficiente para mudar o nosso lugar no tempo, no pensamento.
O encanto da vida está neste sentir o tempo, como quem sente as ondas a tocar as margens do rio. Um sopro de vento.
Estou sentado junto ao Tejo. Observo as ondas a beijar a margem. Sinto o cheiro da maresia. Fecho os olhos e viajo no tempo aos meus tempos de criança, quando me sentava junto às margens do Guadiana. O rio da minha infância.
Estou aqui, em Maio, junto ao Tejo. A maré está cheia, nesta manhã, de sábado, dezasseis.
Observo. Penso na diferença entre a maré cheia e maré vazia. Na maré cheia não se vê o que está por baixo, o lodo, as correntes que trazem saudades do mundo, até, as memórias de naus que navegaram rumo a Ceuta ou Timor, enquanto a maré vazia coloca na frente do nosso olhar, o lodo, a ausência de correntes, os barcos parados, as velas erguidas sem navegar, e, até, ali, vemos os homens que escavam no lodo, numa luta diária pela sobrevivência.
Olho o Tejo. Lisboa. O Cristo rei escondido entre as nuvens. Navego com o olhar.
É talvez, por tudo isto que gosto de viver o tempo e dá prazer fazer tempo, que é mais, muito mais, que consumir tempo. Ali, com o meu olhar desbravo palavras, escritas nas entrelinhas do silêncio. Pensamentos nascem na sonoridade do silêncio dos dias. Sento-me. Ergo-me. Estico os braços.
É mesmo lindo sentir o tempo fluir nos braços deslizando em sorrisos que se deitam no Tejo.

António Sousa Pereira

A vida cumpre-se na saudade que abraça.

 

 

 

 

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A palavra «saudade» é aquela que, todos dizem, é nossa, genuinamente nossa porque ela transporta dentro de si um sentimento muito próprio da nossa cultura e da nossa identidade.
Agostinho da Silva, afirmava que tinha saudade do futuro, parece contradição, porque, todos nós associamos a palavra saudade a uma recordação, a qualquer coisa que vivemos e temos desejo de voltar a viver, ou um lugar que está num canto do nosso coração e sonhamos, um dia lá regressar, para «matar saudades».
Afinal, «matar saudades» é rejuvenescer dentro do reencontro, com o que fomos e com o que somos. Ter saudades do futuro, é ter saudades do sonho que sonhamos, é ter saudades de ser, de nos realizarmos sendo.

Eu hei-de ser, pensam alguns, e investem tudo de si, nesse querer ser, nessa saudade que pode ser bela, pode ser um desafio e, até, pode ser uma tortura quando temos saudade do que nunca seremos, apesar de o querermos ser. Ansiedade. Angústia.
Ter saudades do futuro é ter a paixão por sermos apenas o que somos, construindo o que somos. Viver fazendo.
A palavra saudade não se escreve com medo, não se escreve com receios. A palavra saudade não tem medo, não tem receios.

A palavra saudade é a ponte entre a nossa interioridade e a nossa eternidade, entre a nossa finitude e a nossa infinitude. A palavra saudade é o nosso silêncio, é a nossa ausência, é o nosso grito.
A palavra saudade é ternura, é sonho, é amor. A palavra saudade é o desejo de regresso, como canta o poeta cantor – eu quero voltar para os braços de minha mãe.
A palavra saudade pode ser o desejo de partida, porque a saudade é sempre o que está e não está, é o beijo dado e o beijo por beijar, é o abraço dado e o abraço por dar, é o momento único que marca todos os começos, inesquecível, ou, o momento único de todos os pontos finais, que fica gravado nos nervos.
Guardo saudade do que vivi, daqueles instantes únicos que se inscreveram nos nervos e no coração, marcas que ficam na construção da vida vivida, mas, digo-vos, também sinto saudades de tudo o que vivo e tudo que quero viver, porque, acreditem, ter saudade de tudo o que queremos viver, é ter saudades de partir para tudo o que queremos construir e ser.
A beleza da palavra saudade é que ela, por um lado, está presente no passado que já nasceu, em tudo que fomos, e, está aqui, neste hoje que somos, mas, ela, simultaneamente está grávida de futuro. É por isso, talvez só por isso, que saudade nunca se identifica com mentira, porque saudade só existe com a verdade do ser que fomos e somos - ideologia, valores, ética, estética. Liberdade!
A beleza da palavra saudade reside na sua simplicidade, essa, que a vida cumpre-se em cada instante na saudade que abraça.

António Sousa Pereira

 

Inventar o novo a partir do velho

 

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Falar do antigamente é diferente do pensar com o antigamente. Falar do antigamente é viver preso ao antigamente, ao era tão bom, ao foi tão bom, ao naquele tempo é que era...
Falar do antigamente pode ser uma mera catarse, um remoer, um reviver não vivendo, é um querer ter e estar de volta ao que já não existe, ou já foi...
Pensar o antigamente é mergulhar por dentro do vivido, é aprender com o vivido, é colher lições do vivido, é reinventar o vivido, é saber que pelo pensar sentimos, reformulamos, contamos com a experiência do vivido para reconstruir o presente e no presente fazer nascer futuro.
Pensar o antigamente é saber que tudo já foi inventado, que há formas humanas de agir e ser que se estendem ao milénios de vida humana.
Pensar o antigamente é sentir a alegria – a eureka – de nessa viagem ao antigamente verificarmos que coisas que vivemos hoje, são idênticas a outras que vivemos no antigamente, nós continuamos e a beleza do pensar reside de nós continuarmos a inventar futuro com o pensar no antigamente. A lição da história. O encontro com o antigamente que se forja pensar na memória, essa fonte de reinvenção do presente e do futuro.
Pensar com o antigamente é inventar o novo a partir do velho, porque em todos os tempos o velho faz nascer o novo dentro de si, o velho trás o novo dentro de si, o belo da vida é descobri-lo e renascer. Ah, mas talvez por isso, por vezes há novos que ficam velhos cedo demais, não porque pensam com o antigamente, mas porque falam e vivem no modo do antigamente. Tácticas. Jogos. Guerra dos Tronos.

A diferença entre falar do antigamente e pensar no antigamente, é que no falar está o trauma, a cristalização, é uma espécie de arterosclerose do pensamento, é um viver recauchetado, enquanto, de facto, no pensar o antigamente está o recomeçar cada dia, cada instante da vida, com essa consciência da importância de fazer a ponte entre a teoria e a prática. Saber que pensar é renascer, é renovar. Saber que viver não é uma receita de marketing, um desenho calculista do encher futuro. De repente tudo muda.
Falar do antigamente é sentir a idade nos ossos.
Pensar o antigamente é sentir a frescura do pensamento dentro dos nervos da idade.
A diferença entre o falar do antigamente e do pensar o antigamente, está que no falar no antigamente sente-se o tédio nos dias, a tristeza, a amargura, a frustração – vive-se com o passado nos olhos, enquanto, na verdade, no pensar o antigamente está o sentir a alegria do tempo vivido, o amor pela vida, o gozo de tudo o que se viveu, com paixão e emoção, fazendo e sendo – pensar no ser.

É por isso, que o mais belo na vida, quando chegamos a uma certa idade, é que já vivemos tanta coisa que, por vezes, basta pensar o antigamente e pensamos – eu já vi este filme.
Sabem quando chegamos a uma certa idade, tranquilamente, a pensar o antigamente, mais, muito mais que a falar no antigamente, sentimos essa coisa que se escreve e vive – Liberdade.
Acordamos, olhamos o espelho e não sentimos a nossa idade, porque pensamos o antigamente como o lugar onde esta a semente do que fomos e somos, e, olhando o espelho sentimos que na vida, o melhor, é sempre o futuro e o que nele está por descobrir, ali, presente, em cada nascer do sol.
Bom Dia!

António Sousa Pereira

A maquilhagem dá segurança

 

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O maquilhagem é um subproduto da produção da imagem. Mas, a maquilhagem é também essencial para dar credibilidade à imagem.
Quem vive da construção de imagem não pode prescindir da maquilhagem, que faz de si o que não é – não passa de um ilusão visual, uma projecção no espaço e no tempo.
E, claro, o maquilhado não pode prescindir dos maquilhadores. Os servos do senhor. Os súbditos. Os vassalos. Afinal, é todo este cenário de produção que dá aos seus dias a dimensão de sétima arte. Um mundo imaginário. Um mundo de ficção.
Na verdade, quando alguém necessita de recorrer à maquilhagem para produzir uma imagem de si mesmo, ou não tem confiança em si mesmo, ou carece da maquilhagem para ganhar autoconfiança.
De certa forma é a maquilhagem que lhe dá segurança, talvez, até, seja uma necessidade imperativa para se sentir importante, porque é essa máscara que ajuda a construir uma personagem, um herói, um actor, que nasce em grandes planos, com ângulos de imagem escolhidos – “vê lá qual é o meu melhor ângulo”.
Sim, a maquilhagem dá-lhe uma sensação de superioridade. Deve ser emocionante, nos bastidores, aquele instante que alguém lhe coloca no rosto o creme, nesse instante, deve sentir-se como uma estrela, um grande líder, um timoneiro. Um Batman. Um Super Homem.
É, talvez por isso, que depois, na vida real, adora viver o clima permanente de heróis e vilões, o mundo dos western. Isso faz parte da criação da imagem. A vitima. O herói.
A maquilhagem ajuda a sentir essa emoção única de viver entre a ficção e a realidade. É traumatizante. Mas, se dá para viver, lá tem que ser, a vida não é para viver é para sobreviver. E, sempre se ouviu dizer e sabe-se que, em sétima arte, quem não mata é morto.
Dever ser giro, entrar em cena, com o suor a correr nos olhos e imaginar-se o Zorro que combate os maus da fita. Ali, de armas em punho, a gritar por dentro – “venham eles, dou cabo deles!».
Em suma, a maquilhagem é para construir uma imagem, uma imagem é cada vez mais essencial para vender um produto. Um produto tem um valor. A imagem tem um valor. A vida é um mercado.
É isso vivemos num tempo que o que conta é a maquilhagem, a ilusão...a gestão de vendas, a gestão de imagem, é por isso, só por isso, que a ficção, por vezes, se confunde com a realidade.

S.P.

Isso é que é lindo.

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Todas as biografias davam um filme, porque todas as biografias são a história de uma história de vida. Percursos. Contextos. Aventuras. Desventuras. O medo. O sonho. Todas as biografias são a prova, real, sem tirar nem por, de uma vida vivida. Não são um vazio. Não são uma incerteza. A maravilha de uma vida é ela ser uma lição de vida, dentro da lição de vida que é a história da humanidade, ou a história de uma comunidade. Somos nós e os outros. Somos eu, somos tu e somos nós.
Afinal, a história de cada ser humano é sempre temporal, é sempre epocal. É uma história que se inscreve no tempo que vive. Um caminho. Uma corrida. Uns consideram que é uma maratona. Outros uma corrida de cem metros.
Há presenças na história que são frágeis, sucumbem com o tempo, secam com o tempo, esvaem-se no tempo. Não passam de biografias de rodapé.
Há presenças na história que fazem história, que ficam na história, como diz a canção, que ficam na história da gente, são presenças únicas, que nos enriquecem e enriquecem o tempo que vivemos. Aprendemos sempre uns com os outros, aprendemos fazendo, aprendemos errando. A vida é uma aprendizagem.
É por isso que, na história que todos nós vivemos, há histórias que significam o amor, e, há histórias que significam a dor. É por isso, só por isso, que todas as biografias davam um filme. Uma tragédia. Comédia. Drama. Policial. Terror. Jogos. Poder. Amor. Guerra. Em suma, umas meras ficção, feitas de maquilhagem, texturas, ambição, rancores, outras feitas de ternura, paixão, amor...cada um escolhe o filme que gosta e faz o filme da sua vida. Tudo tem a ver, dizem, com o foco, o desistir ou a ambição. É vida...
O importante é quando, um dia, qualquer dia, ao olhar para o filme da sua vida, e, nele, encontrar-se com o personagem principal, nesse instante, ao olhar os diferentes planos e sequências, toda a montagem final, possa sorrir e pensar : Gosto deste filme, afinal fiz a minha vida, pelo que sou...sendo! Isso é que é lindo.

António Sousa Pereira

 

O meu último reduto para sonhar Com as palavras – Liberdade. Paz. Solidariedade.

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É este mundo que eu acredito. É este mundo que eu quero ajudar a construir.
Um mundo que se escreve com as palavras – Liberdade. Paz. Solidariedade.

Um mundo de cidadania que respeita as diferenças. Um mundo que olhe para um exemplo de uma unidade na diversidade, esta Europa de povos, de cidades, de respeito pelas diferenças.
Um mundo onde o ser humano não sufoque o outro ser humano, pela ganância, pelo dinheiro.
Um mundo com uma cultura que respeite os Direitos Humanos, os Direitos da Natureza, o direito à diferença, sem raiva, sem ódio, onde o a democracia seja o caminho de construção e não de destruição.
Um mundo de Liberdade.

Um mundo que queira aprender, e, com essa aprendizagem, não voltar a cometer os erros da história, de estigmas, de perseguições racistas, de morte de milhões, de destruição.
Um mundo que olhe as memórias de Anne Frank. Um mundo que olhe as memórias Auschwitz.
Um mundo que sinta com a energia que nasce do quadro de Guernica.
Um mundo de Paz.

Um mundo que seja solidário, essa solidariedade que nasce nas relações de vizinhança, no fazer cidade e fazer cidadania.
Uma solidariedade que nasce nessa afirmação de uma cultura que abriu as portas à globalização, que fez nascer mundo, que fez pensar mundo, com raízes no pensamento filosófico grego, com a matriz da cidadania inscrita no fazer cidade romano, com um sentir e pensar mundo que se estende num pensar cósmico judaico-cristão.
Num viver que foi crescendo, transformando, ligando o pensar ao fazer, separando o espiritual do temporal, fazendo humanidade, fazendo a ideia ser matéria.
Um mundo solidário.

Sei, sim sei, que muito está por fazer, sei porque quem o faz é o ser humano. Um ser humano que é, hoje e sempre, o homem e as circunstâncias.
Mas, sei que nesta história, destes povos, que hoje constituem a União Europeia há muito saber acumulado e uma riqueza enorme de saberes e diferenças que são a sua energia e força criadora.
Acredito na Europa.

Ainda acredito na Europa, é, talvez, o meu último reduto para sonhar com as palavras – Liberdade. Paz. Solidariedade.
Sei que há neste espaço a Hungria. Sei que está a Polónia. Sei que está a Alemanha, e, até a Inglaterra que saltou para o lado. E a França que ilumina o seu centro. Sei que o euro tem feito sucumbir, muitas vezes, a solidariedade e o humanismo que são a marca da cultura europeia. Sim, sei.

Mas, hoje, nestes tempos que estamos a viver de cânticos nas varandas, de combate a um inimigo comum, este é um tempo que pode ensinar a abrir novos caminhos. Sonhar. Ainda sonho.
É por isso que senti no meu coração a força e o simbolismo das comemorações do 1º de Maio. Humanismo.
É por isso que acredito que a cidadania não se constrói cultivando o ódio, não respeitando as memórias, espicaçando inimigos de estimação, pela ambição do poder pelo poder.

Acredito que a Europa, e que esta, tem que ser capaz de cumprir o seu papel e ser uma referência, neste mundo, cada vez mais marcado pela globalização que, hoje, é mais mundialização.
É por isso que, enquanto sentir que a Europa, onde, com todos os defeitos e virtudes o meu país se inscreve, esta também uma conquista de Abril, cá estarei na barricada da luta pela Liberdade, pela Paz, pela Solidariedade.

António Sousa Pereira

As voltas que a vida dá

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Na vida nada é fácil. Tudo é conquista. Tudo é caminho. É tão difícil viver, como é belo viver. Há dias de temporal, tu sabes isso. Há dias de bonança, assim é. A vida é uma viagem de incertezas. É assim em cada dia que começa, ele, afinal, não é mais que isso, uma incerteza. O nosso dever é dar vida ao dia, encher o dia de vida. Fazer vida. Fazer vida é diferente de viver vida. Nunca esquecer. Só se vive o que se faz, o resto é estar, ir, aguentar...é o tal um dia de cada vez, é o tal foco, é o tal não desistir.
A vida que se agarra ao não desistir, é uma vida feita de slogan e clichés. Há uma diferença muito grande entre o ‘não desistir’ com o foco de viver ou sobreviver, e, aquele ‘não desistir’ que se faz, fazendo vida, resistindo, acreditando, sonhando.
É a diferença entre o ser e o estar. É a diferença entre o ser e o parecer. É a diferença entre a harmonia e a angústia. É a diferença entre a paixão e a ilusão. É essa a diferença entre o viver e o fazer vida.
A vida é a nossa viagem a atravessar o tempo, o nosso tempo. Somos nós que o vivemos.
O belo da vida, não está nos momentos fáceis, o belo da vida está nos momentos difíceis, são esses que exigem de nós, que puxemos lá do fundo todas as nossas energias. Os dias de combate são os dias mais enérgicos. São dias com valores e ideais.
São esses momentos que nos levam a sentirmos a nossa condição humana – nós e os outros. A tristeza. A pobreza. A alegria. A riqueza. O feio. O belo.
Fazer vida, é caminhar, assim, olhos nos olhos. Olhar olhos nos olhos, não é um olhar com sobranceria, nem de dono do mundo, assim como quem está a enfrentar adversários.
Não rapaz! Olhar, olhos nos olhos, é olhar o outro com respeito. É sentir que o nosso eu se completa quando é um tu. Só quando olhas como um tu, sentes a energia, o calor humano, a beleza, a paixão, desse olhar profundo, que toca a condição humana – olhos nos olhos! É aquele olhar íntegro, carregado de sonhos, esperança e amor .
Sabes, é aquele olhar que sentimos pela manhã, ali, no começo do dia, quando caminhamos pela rua da cidade, olhamos uma gaivota no céu azul, ou mesmo no céu nublado, e, naquele instante os nossos olhos voam, voam, e, lá dentro uma voz interior nos diz, suavemente: Vive, voa, voa!
É, nesse instante, acredita, que sentimos o nosso olhar, voar numa melodia única, misturada no som das vozes que são o eco das nossas raízes – a nossa cultura, a nossa identidade. E lá vamos, levados na harmonia de um voo de uma gaivota. Livres.

Quando somos livres, é mais fácil perceber e observar a vaidade do ser humano. Escutarmos os gritos de solidão. Vermos o espectáculo dos rostos angustiados. Registarmos os sorrisos forjados de sobrevivência.
Quando somos livres, até viajamos pelos escombros da memória. E, nesses instantes, nessa viagem por resíduos, damos gargalhadas sonoras, principalmente, quando pensamos, as voltas que a vida dá, e, nesse instante...sorrimos.

António Sousa Pereira

Respeito. Solidão. Esperança.

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O belo da vida é ter 67 anos e continuar a sentir florir no pensamento poemas dourados. Palavras que dão força ao dia. Palavras que fazem parte da consciência. Acordar e sorrir. Acordar e sentir as palavras a rasgar a aurora, hoje, tal como antigamente, ditas e escritas no pulsar do coração.
Acordar tranquilamente. Acordar serenamente.
Acordar e pensar, um homem pode perder a esperança na humanidade, inquietar-se, incomodar-se, por observar os caminhos que vão sendo percorridos, numa contradição asfixiante, que se sente quotidianamente, ao pensar como foi imensa a evolução cientifica e tecnológica, mas, como continuamos tão humanamente humanos. Gorgianos. Sofistas. Mitológicos.

E, é, neste perturbador e criativo tempo que vivemos, quando acordamos, abrimos os olhos e escutamos os pássaros, sentimos que é a própria natureza, que abre a porta à esperança, porque ela renasce com cada nascer do sol.
É isso, pensamos, a esperança nunca morre, porque a esperança existe viva e pura, enquanto existir amor. A esperança é o lugar onde o amor está semeado, e, nesse lugar cresce e renasce. Para uns esperança pode ser fé. Para outros esperança é apenas esperança. É a diferença entre o crer e o querer.
Acordamos e pensamos, que, afinal, hoje, como ontem, haverá sempre mais humanidade que, aquela que sucumbe perante o deus dinheiro, aquela que cultiva o ódio, e cultiva a desumanidade. Choramos. Acreditamos.

E, talvez, ao mergulhar nestas palavras apetece-me, aqui e agora, prestar a minha gratidão a Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República; a António Costa, Primeiro Ministro, a Assembleia da República e à CGTP- IN, por terem percebido a importância para a vida de um país e de um povo, neste tempo de COVID, de confinamento social, neste tempo em que a esperança ecoa nas ruas ao som de um trompete que pela noite toca a Avé Maria, de Schubert, ou que nas varandas se canta a Grândola para evocar a força da Liberdade. Um tempo que os nossos mortos partem em silêncio. Num tempo que os abraços tocam apenas os olhos.
Sim, quero agradecer o terem proporcionado, com seriedade e transparência, a comemoração de um dia, que, diga-se, não é um dia qualquer, é um dia que faz parte da história da humanidade, nesse seu percurso em busca de um mundo melhor, de melhores condições de vida, um mundo que até pode estar inscrito na Enciclica Rerum Novarum, como nos movimentos mutualistas e cooperativistas, que pela luta, pelo crer e pelo querer, escreveram a palavra esperança, com sangue e luta que levou a história até ao Dia 1º de Maio.

Foi impressionante. Aquela fotografia da Agência Lusa, faz-nos sentir uma profunda emoção. Uma imagem que vai perpetuar este tempo de COVID 19. É uma imagem que vale mil pensamentos, sejam pró, sejam contra.

Olhei aquela imagem e pensei três palavras – Respeito. Solidão. Esperança.
Ninguém consegue ficar indiferente. Toca o coração. Emociona. Faz pensar.
Uma imagem que tem esperança. Uma imagem que tem solidão. Uma imagem que tem calor humano. Uma imagem que tem tristeza.
É uma imagem linda, mesmo linda, mesmo linda. Um registo que fica para nossa memória futura. Uma imagem que faz pensar, pensamentos com lágrimas.
Um registo de um tempo de solidão, de um tempo de amor e de esperança. A esperança que é amor.
Obrigado por terem erguido a bandeira da esperança.
Olhei e pensei, é isso, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não. Pois, e, é por isso, que a esperança nunca morre.

António Sousa Pereira

A comédia das visões – no centro a Quinta Braamcamp

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O problema da acção politica nos dias de hoje é que em vez de ideias e ideais, estes valores foram trocados por «estudos de opinião». Por essa razão o confronto de ideias e principios foi substituido por coreografias de confrontos de percepções.
A politica é feita de visões que não são visão de coisa nenhuma, são uma procura de dar resposta ou projectar para a opinião pública, uma eventual visão dos sentimentos recolhidos a partir de estudos de opinião pública. Explora-se os sentimentos do senso comum. Propaga-se os sentimentos do senso comum. Estimulam-se conceitos para dar credibilidade ao pensar do senso comum. Cria-se o inimigo comum.

É um pleno vazio de ideias e de conceitos, o que existe são ilusões de óptica. Mas, estas ilusões de óptica não são acasos, são a forma de explorar as emoções. Gerir emoções é mais prático que gerir ideias. Ideias exigem capacidade de diálogo. Emoções basta ficar pelo conflito futebolistico. Os maus e os bons. Os que querem a união e os que só querem a desunião. Tudo «fait divers».
Não existem ideias, não existe estratégia, existem as visões, projectos avulso, desligados de um modelo de cidade, de uma visão estratégica.
Definem-se palavras chave para em torno delas fazer politiquice, palavras simples que são repetidas, usando para tal diversas técnicas, e que são introduzidas umas vezes de forma subtil, e, outras de forma intencional – os culpados do atraso, o abandono da cidade, o potencial versus a mudança, o envelhecimento da população, a fuga dos jovens, o atrair investimento privado versus muros ideológicas, os que falam e não fazem, os que fazem e não falam, os que não desistem. Nas redes sociais as claques envolvem-se em guerrilhas, também isso não é acaso, faz parte da comédia politica.Enquanto decorre esse campeonato desvia-se a atenção do pensar cidade e do fazer cidadania.

Na vida real é um pouco isto, o que se passa em torno da Quinta Braamcamp. Parece que este é o tema central do futuro do concelho.
Tudo começou com o lançamento da ideia de construção de uma roda gigante, que não foi promessa foi uma visão. A roda gigante já vinha grávida da decisão de vender a Quinta de Braamcamp. Tudo o resto é cenário. Não há qualquer ideia concreta para o território, a base são as ideias antigas plasmadas no PDM. Não há qualquer mudança. As ideias que marcam são sempre as ideias antigas. A visão anunciada era apenas uma visão de óptica. O video.

Agora já não há roda gigante. Agora, até já é a crise COVID que, mais do que nunca justifica a venda da Quinta de Braamcamp. Foi a isto que chegámos.
E como a visão tem que continuar a ser uma dimensão estruturante para «vender a ideia», da venda da Quinta de Braamcamp como uma inevitabilidade, agora a roda gigante já caiu, e, naturalmente, já está outra opção no terreno, a construção de uma «torre de observação» da vista de Lisboa.
E, para colocar a cereja em cima do bolo, é preciso dizer que esta «torre de observação», vai ser quase como a varinha de condão que vai fazer renascer, tal como Fenix, o conceito cidade das duas margens. Enfim, é vida, é politica.

Entretanto, enquanto nos divertimos a discutir a ilusão dos milhões da Quinta de Braamcamp, a criação de emprego, o hotel – finalmente o Barreiro vai ter um hotel - e um campo de futebol. Enquanto andamos nisto. Uma verdadeira gestão de emoções – os bons que querem o desenvolvimento, e, os maus que são os culpados de 40 anos de atrasos. Enquanto andamos neste encher balões. O mundo pula e avança.

A verdade é que passados dois anos nada se sabe da evolução do PDM, não se conhece uma linha de pensamento estratégico para o concelho – é tudo flops.
Não se exige ao governo que tome decisões sobre o território da Baía do Tejo. Não se sabe quando vamos deixar de estar num guetto, sem ponte para o Seixal, ou outras acessibilidades essenciais ao nosso futuro.
E, a verdade, agora, perante a crise actual, esta seria uma altura óptima para o Barreiro se colocar na linha da frente no apontar para a criação da tal cidade de duas margens e promover o nosso potencial – Lisbon.
Enfim, ficamos felizes, afinal, nesta crise, nós, até já estamos à frente com um projecto de investimento de 60 milhões, que vai construir o «Barreiro Novo».

Afinal só temos que dar os parabéns à CDU, por ter feito o PDM que está em vigor e justifica a construção de 185 fogos na Quinta Braamcamp, e, também obrigado à CDU por ter comprado a Quinta Braamcamp que nos vai salvar da crise COVID.
É isto...a comédia das visões.

António Sousa Pereira

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