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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

50 anos do fazer jornalismo no concelho do Barreiro.

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No dia de hoje, no ano de 1973, ao fim do dia, numa conversa, ali, na Rua Miguel Bombarda, no centro do Barreiro, onde estava localizada a sede social dos JJB – Jogos Juvenis do Barreiro, fui convidado pelo meu amigo António Aires, para assumir a missão de Editor do Boletim «Continuando», que era o boletim de informação dos JJB, editado em stencil. Nesse tempo, eu integrava a Comissão de Redacção e Informação dos JJB. Aceitei o desafio, sem olhar para o lado e sem rede para me sustentar numa qualquer queda.

 

O Boletim dos JJB, tinha o título «Continuando», como para ser uma forma de contradizer o título de uma revista que a PIDE – Policia politica - publicava que tinha o título «Continuidade».
Era o escrever nas entrelinhas, o combater nas entrelinhas. É sempre assim que se consegue combater o poder arrogante e que não sabe viver com a democracia. As ditaduras cultivam o silêncio, só gostam de se ouvir a si mesmas.

Foi assim que comecei uma bela aventura, feita de emoção e paixão. Escrever textos. Fazer reportagem. Paginar. Policopiar. Distribuir. Nós eramos tudo – eu, o Aires e o Graça. Editores. Jornalistas. Tipógrafos. Tudo feito com voluntariado. Tudo feito dom amor à comunidade. Tudo feito com respeito pelo futuro. Aqueles eram tempos lindos. Sonhávamos Liberdade. Sonhávamos democracia. Sentíamos um orgulho, é isso orgulho, de afirmar a palavra Barreiro. Ela significava Liberdade. Solidariedade. Viver a cidadania de corpo inteiro.

O Jorge Morais, que era o responsável pela informação e redacção do Boletim do JJB, tinha iniciado de forma mais activa a sua missão de jornalista no «República».
De certa forma, acabei por assumir nos JJB o espaço que ele deixou em aberto. Eu era completamente leigo. Um aprendiz, no escrever e no fazer, porque nisto da escrita e do jornalismo, sem dúvida, é mesmo caso para dizer que vive-se a cultura da “aprendizagem ao longo da vida”. Foi isso que sempre fiz, sempre procurei aprender e descobrir, a vida é um permanente caminho de descoberta.

Recordo que naquele tempo, já estava a exercer a função de Correspondente do Barreiro do jornal «O Setubalense”.
O jornalismo, o desejo de viver o jornalismo estava no meu sangue. Não havia escolas. A tarimba era o lugar de aprendizagem. Os JJB foram, um pouco, parte da minha tarimba.

Os JJB foram para mim a primeira porta onde vivi, por dentro, o fazer e viver associativismo, aqui no concelho do Barreiro. Esse prazer de partilhar a vida construindo mundo com os outros.

O António Aires era o responsável pela comunicação e para mim foi sempre o meu apoio solidário. Ensinou-me a gatinhar e depois a andar. Motivou-me a escrever textos para o jornal «República» e também para o jornal «Noticias da Amadora», jornais onde de facto, nesse ano de 1973, iniciei colaborações regulares.

O ano de 1973, marca sem dúvida, os meus 50 anos do fazer jornalismo no concelho do Barreiro.
Esses dias, esses tempos, deram-me a conhecer que era a censura. O corte de títulos ou frases.
Um exemplo de um título de um artigo que foi publicado no «Noticias da Amadora». Eu escrevi : “Jogos Juvenis do Barreiro – o desporto do povo para o povo”, a censura cortou – “o desporto do povo para o povo”.

Recordo que, um dia, a censura cortou, no Noticias da Amadora, um pequeno artigo de reflexão sobre o papel da mulher nas transformações da sociedade. Então, decidi enviar o mesmo texto, sem qualquer alteração para o Jornal do Barreiro, onde tinha começado a colaborar, e, para meu espanto foi publicado integralmente, sem qualquer corte pela censura. Coisas

Tenho gratas recordações dos JJB, não só por me ter feito apaixonar de forma activa pelo mundo do jornalismo, como abrir-me as portas para experiências humanamente enriquecedoras, que nunca esquecerei.

Tenho gratas recordações dos JJB, de homens de grande verticalidade, de homens e mulheres com quem cultivei amizade e respeito. O Zé Picoito. O Valdemar Nogueira. O José Carlos Correia. O António Aires. O Sebastião Pássaro. O Delgado. O Eduardo Quaresma. O Graça. O Candeias e a esposa.
E tantos outros nomes, que agora não me ocorrem, que mantiveram o sonho de Augusto Valegas, esta experiência única, que foi um exemplo para o país, que se espalhou pelo país, e, serenamente, lutou, com orgulho e silenciosamente, contra a vontade dos apoiantes da Mocidade Portuguesa, que sempre pretenderam fazer dos JJB, um movimento ligado à MP. Sempre recusado.

Um património imaterial que faz parte dessa memória da resistência e luta pela democracia e Liberdade, de dignidade humana, que se escreveu, muitas vezes no país e no mundo com a palavra- Barreiro.
Os JJB era uma família que começava na organização e estendia-se às colectividades, aos campos de jogos. Gente que dava as mãos, unia esforços e arregaçava as mangas para manter em actividade, durante os meses de Verão, centenas de jovens em actividades desportivas, das mais diversas modalidades – atletismo, futebol, basquetebol, natação, e, para além do desporto promoviam-se actividades culturais – pintura, desenho, poesia.

Um mundo que se agitava, vivo, com verbas irrisórias, sem apoios públicos, mas que estava dinâmico, afirmando-se como um exemplo de luta e resistência.
Aquela festa de encerramento na sede do GDR «Os Leças», antes do 25 de Abril, tendo como convidado para proferir uma palestra o Mestre Manuel Cabanas, a anteceder a actuação do Grupo Coral dirigido pelo Maestro Lopes Graça. Ali, com a festa a meio, chegou, entrou e sentou-se na plateia o presidente da Câmara Adragão. Foi lindo.

Tanta emoção vivi e escrevi com os JJB. Ficou gravada na minha memória aquela festa no centro da cidade, então Parque Oliveira Salazar, onde se escutaram os sons do sonho, que escutaram na voz de Manuel Freire, dando colorido às palavras do poema de António Gedeão:

Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança

Foram tantos acontecimentos, uns atrás de outros, que marcaram o ano de 1973, tantos, tantos, uns acasos, outros gerados, que transformaram a minha vida e determinaram muito do que fui vivendo, vivi, e continuo a viver… este amor a viver Liberdade e sentir que o jornalismo foi, é, e será sempre uma energia que no presente faz futuro.

António Sousa Pereira

 

 

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