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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Crónica do Palácio - Acerca do “fazer obra” e “fazer cidadania”

Crónica do Palácio<br>Acerca do fazer obra e fazer cidadania Sou de opinião que será neste terreno, nesta matriz de fazer politica com cidadania, que se sentirá a diferença, e encontrará os rumos para o Barreiro e para o Distrito, com muita influência na vida do país.

Se perdermos o comboio do “fazer cidadania” que não pode estar desligado de um “modelo de distrito” ou “modelo de cidade”, estamos a contribuir para abrir um fosso e criar um guetto, em vez de construirmos a região motor do país.

 

A Tertúlia do Palácio proporciona um encontro semanal, às sextas feiras, sendo o espaço onde um grupo de amigos do Barreiro, aproveita a hora de almoço, no Restaurante Palácio Alfredo da Silva, para troca opiniões, divertir-se e tecer os mais diversos comentários sobre a vida local.
Uns são socialistas, outros sociais democratas, outros do bloco de esquerda ou comunistas e, também, há os que não têm partido.
São, nas suas formações académicas de áreas como engenharia, direito, medicina, antropologia, psicologia, filosofia ou sem qualquer formação académica, mas, homens ligados ao desporto, ao associativismo, artes plásticas, enfim, todos eles com intervenção na vida da cidade, cidadãos que sentem a cidade e gostam de viver no Barreiro.
Todos eles com uma forma de estar que têm, em comum, por objectivo partilhar ideias, comungar um ponto de encontro, para brincar, dialogar, ironizar e olhar os dias com um sorriso.
Ninguém está ali com objectivos de criar “um partido político”, ou pretende promover “uma nova religião”, nem sequer pretende ser “um grupo de opinião” ou “clube de reflexão”. É um mero ponto de encontro com Rostos.
Há uns que são regulares. Há outros que vão passando de vez em quando. Há dias que estão seis, sete ou oito. Outros dias estão doze, treze ou mais.
Aliás, sublinhe-se, ninguém tem o compromisso de estar sempre presente. Estar ali é uma atitude de quem quer desfrutar o prazer de conviver. Nada mais...

A minha boneca é melhor que a tua

Há dias que as conversas são animadas. Há dias que as conversas são meras circunstâncias do dia a dia, um olhar sobre o quotidiano. Falar mal, de cada um nós mesmos, também ajuda a divertir.
Mas, vem esta Crónica do Palácio, hoje, a propósito de um tema que esteve sobre a mesa, na última sexta –feira – entre o “fazer obra” e o “fazer cidadania”.
Veio para a conversa essa discussão estéril que, pelos vistos, nos dias de hoje está muito em voga na vida politica local.
Quem foi que fez mais obra? O PCP em 30 anos ou o PS em quatro anos? De quem é a obra “y” é do PCP ou do PS?
Assim, uma discussão que no dizer do Mário Durval, tem um pouco a ver com aquela conversa de crianças : “A minha boneca é melhor que a tua!”

“Propaganda Politica” ou “Marketing politico”

Mas, já agora, nesta conversa, quando conduzida para o nível da apreciação das obras, dizia Mário Durval que eu começo a ficar tenso.
E, começo, de facto, porque estou consciente que vivo nesta terra já vai a caminhar para os 40 anos e vivi muita coisa. Senti na pele muita coisa.
Em primeiro lugar quero afirmar e reafirmar que acho uma injustiça ( independentemente das razões ideológicas) que se afirme que os comunistas no Poder Local no Barreiro, só destruíram o Barreiro.
O Jorge Fagundes, socialista,que foi vereador no primeiro executivo eleito, após o 25 de Abril, confirmou algumas coisas que referi na conversa da Tertúlia do Palácio – as Lixeiras de Coina, a inexistência de um sistema de recolha de resíduos sólidos urbanos, a deficiente rede de abastecimento de água ( em muitas zonas do Barreiro, nas horas de ponta, não era possível tomar banho, e havia falta de água).
Mas, mais, recordo que na grande maioria das ruas do concelho, não existiam passeios, nem por vezes ruas pavimentadas.
Uma cidade herdada de uma pulverização de construção civil, antes do 25 de Abril, sem rei nem roque.
Só com a construção do depósito elevatório do Alto da Paiva foi melhorado o abastecimento de água ao concelho.
Existiam zonas sem saneamento básico e sem água de abastecimento público.
Foram milhares e milhares de contos – contos, escudos – enterrados por todo o concelho para melhorar as condições e a qualidade de vida.
O Barreiro, apesar de tudo o que se diz, em termos de planeamento urbanístico foi uma cidade que deu passos pioneiros no país. Assisti a visitas, de várias turmas de alunos de Arquictetura, que vinham ao Barreiro para avaliar no terreno uma determinada realidade urbanística e depois eram confrontados com as estratégias correctivas.
Ouvi vários professores, que nada tinham a ver com os comunistas, sublinhar as perpectivas pioneiras, em termos de propostas de elaboração do PDM, com base nas “unidades operativas”, um projecto da responsabilidade dos serviços municipais.

Um concelho pioneiro

Recordo o trabalho pioneiro que foi dinamizado pelo Comandante Encarnação Coelho, na elaboração de um Plano de Emergência Externa da Quimigal-Quimiparque, que permitiu, em termos nacionais lançar o repto para a elaborção de Planos Municipais de Emergência, porque nada existia no país. Isto, fruto de um trabalho de uma gestão comunista, onde o pelouro era de um vereador socialista, João Pintassilgo.
Recordo as ruas esventradas, na Miguel Pais, na Avenida do Bocage e em tantos outros locais, para colcocar rede de saneamento.
E tanto haveria para referenciar. Num concelho, sempre sem dinheiro, com os Transportes Colectivos que absorvem parte do orçamento e sem a devida indemnização compensatória.
Até, nesta matéria o concelho foi pioneiro, promovendo um seminario sobre transportes, onde foi lançado o repto da criação da Comunidade Metropolitana de Transportes.
E, já esqueceram o que eram as Oficinas dos TCB’s e a obra que foi construída.
Para além de que, é preciso não esquecer, as grandes empresas do concelho pagavam os seus impostos em Lisboa.

O Barreiro foi uma nulidade?

É por esta razão que fico tenso, quando escuto discursos acusativos que nada foi feito neste concelho e que 30 anos de gestão do PCP foram uma nulidade.
Será que aqueles que andaram pelo PCP e agora estão no PS sentem mesmo que a sua vida de autarcas, ou de técnicos de mão do poder comunista, foram actividades que exerceram em plena nulidade?!
E, já agora, no mandato que o PCP/CDU perdeu as eleições para o PS, esse foi daqueles que o PCP mais obra realizou e, ainda por cima, deixou no terreno propostas em aberto que acabaram por ser as obras que marcaram o mandato do PS, caso do AMAC, ou o Centro Comunitário do Lavradio, ou o Mercado de Coina, ou o Mercado de Santo André. Não foi por mero acaso que Emidio Xavier, e bem, convidou Pedro Canário, para os actos inaugurais.

Casa onde não há pão...

Numa Câmara onde o dinheiro não abunda, será sempre assim – haverá uma obra ou outra que marca o mandato e outra fica em marcha para o mandato seguinte.
Penso que, em tudo isto, o importante valorizar é que de facto, com os recursos existentes, podendo existir debate sobre as prioridades, o Poder Local do Barreiro contruibui ao longo de décadas para transformar e melhorar a vida local, faça-se esta justiça a todos os autarcas que têm gerido os destinos do concelho.
Esta discussão do “fazer obra” já está demonstrado na prática que não é tudo.
O PCP fez obra e perdeu as eleições.
O PS fez obra e perdeu as eleições.
Então, qual é a questão central que leva o eleitorado a mudar de opinião?
Foi este o tema que esteve em debate na Tertúlia do Palácio – “fazer obra” ou “fazer cidadania”.

Uma nova forma de viver e fazer cidade

O PS ganhou as eleições não foi porque o PCP não tenha feito obra – reconheça-se que o Parque da Cidade foi uma obra importante, que não valeu ao PCP/CDU.
O PS ganhou as eleições porque lançou o repto de uma nova forma de viver e fazer cidade.
O PS ganhou as eleições porque colocou em discussão uma “ideia de cidade” ( diga-se que muito já conceptualizada no PDM).
O PS ganhou as eleições porque lançou uma proposta de mudança – uma nova cidadania com os barreirenses.
Os eleitores acreditaram porque estavam cansados de algum “autismo” do PCP/CDU e sentiam necessidade de respirar novos ares.
O PS ganhou as eleições porque criticando a gestão do PCP/CDU apresentou um discurso inovador e pela positiva – “fazer cidadania – o melhor do Barreiro são os barreirenses”.
Não foi na obra que o PS ou o PCP falharam e desiludiram os barreirenses. Foi no modelo de cidade. Na proposta e modo de viver a cidadania.
O PCP derrotou o PS, porque “abriu os olhos” e sentiu que uma cidade se constrói com os cidadãos, sejam comunistas, socialistas, sociais democratas, bloquistas, democratas cristãos ou sem partido.
O PS no poder esqueceu esta linha estratégica do “fazer cidadania”, optou pelo “marketing politico”, pela criação de “redes de influência” na vida cultural e associativa, copiando, neste caso, os modelos desgastados do PCP/CDU.
Por esta razão, defendi na Tertúlia do Palácio que o que está em causa no nosso futuro próximo, não é quem fez obra, se esta obra é de x ou de y, o importante é sermos capazes de discutir e aprofundar o modelo de cidadania, que devia ser exemplar para uma cidade que foi uma referência de luta pela liberdade e pela democracia, antes do 25 de Abril.

Nem só de obra vive uma cidade

“Nem só de pão vive o homem”, assim como nem “só de obra vive uma cidade”.
Uma cidade é feita de pessoas, com diferenças, que se respeitam e lutam pelos seus valores, com ética.
Os eleitores escolhem. Os eleitores conhecem.
Os eleitores saberão na hora própria escolher aqueles que merecem mais crediblidade – pelo rigor.
O debate politico deveria ser centrado no “fazer cidadania” e no “projecto de cidade”, tudo o resto, são meras guerrilhas urbanas, que podem fazer “politiquice” mas não fazem da “politica”, uma causa nobre ao serviço da cidade.

O futuro do distrito de Setúbal

E já agora, este, é, igualmente, o problema que se coloca nos próximos tempos ao Distrito de Setúbal.
São muitos os desafios. Ninguém ignora que o Distrito foi ostracizado durante décadas.
Agora, pela frente estão muitos projectos que vão mudar a face do distrito e a sua importância na vida do país.
Por essa razão, a discussão do Distrito também tem que passar por esta realidade, do “fazer cidadania”, no mobilizar os cidadãos e os agentes sociais e económicos para a construção desse futuro.
Se perdermos o comboio do “fazer cidadania” que não pode estar desligado de um “modelo de distrito” ou “modelo de cidade”, estamos a contribuir para abrir um fosso e criar um guetto, em vez de construirmos a região motor do país.
Esta é a responsabilidade dos políticos, construir uma cidade e uma região sem exclusões.
Por isso, penso que no futuro sairá vencedora, pelas próprias dinâmicas sociais e empresarias que estão em marcha, a força politica que melhor for capaz de criar condições para se construir uma sociedade aberta.
A força politica que for capaz de afirmar lideranças credíveis, com ideias e com valores.
A obra, essa será feita, assim hajam recursos. Assim o Poder Central compreenda que no distrito de Setúbal está muito do futuro do país no século XXI.
Sou de opinião que este terreno, esta matriz de fazer politica com cidadania, será o espaço politico onde se sentirá a diferença, e, naturalmente, se encontrarão os rumos para o Barreiro e para o Distrito de Setúbal, com muita influência na vida do país.
Pois, Mário Durval, é talvez por isso que fico tenso, porque sinto a politica descer a níveis que incomodam e tenho medo que isto, nesta região, se transforme numa qualquer Secília.
Nem Portugal, nem o país merecem que sigamos esse caminho, dando razão, de novo, ao conhecido discurso de Eça de Queirós.
Até para a semana...e pelos vistos estamos muito de acordo!

António Sousa Pereira

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