Há cerca de um mês atrás encontrei o Arménio, ali, perto do Luso Futebol Clube, disse-me que estava triste porque tinha morrido uma amiga dele, uma camarra, como ele, que são aquelas pessoas que fazem parte da história pura do Barreiro, gente que se olha, olhos nos olhos, com respeito pelas diferenças e sem distinções sociais.
Conheci o Arménio na sua missão de empregado de mesa, no Restaurante «O Colega», na Avenida Henrique Galvão, naqueles almoços tertúlia, onde tudo se discutia, nos tempos que fui Chefe de Redacção e Director do «Jornal do Barreiro». Também o encontrei no Joaquim dos Petiscos. Um homem de trabalho que se fazia por si mesmo.
Um profissional sempre com um sorriso nos olhos, simpático e brincalhão.
Ficou como senha, entre nós, aquela canção que ele a brincar, entre os caracóis e o pão torrado que tardava, usava para distrair e com ironia: “Ai que sarilho, ser pai de um filho, vai ser João, como o patrão”. E ria, a bom rir.
Um empregado de mesa, que rodopia entre clientes, ouve muitas histórias, observa, e, silencia o diz-que-diz-se, que faz parte do quotidiano. O Arménio era isso, um bom profissional, um homem discreto e de uma grande pureza e simplicidade.
Sempre, fosse onde fosse, que me cruzasse com o Arménio, cantávamos em coro: “Ai que sarilho, ser pai de um filho…”. E depois, um cumprimento de amizade partilhada.
Soube hoje, pelas redes sociais, que morreu o Arménio, e com ele, sinto que parte mais um pouco deste Barreiro Camarro, que respeito e que aprendi a guardar na minha memória, mais por estórias contadas, mas, também de estórias vividas. Esse Barreiro da Nª Srª do Rosário e do Rio Tejo, da Rua Aguiar que se estende até ao Alto de S. Francisco, um lugar génese de uma identidade.
Morreu o Arménio, aos seus familiares e amigos os meus sentimentos.
É isso, até sempre Arménio: Ai que sarilho ser pai de um filho…
Hoje dei comigo a pensar em tempos idos, naqueles dias que não tinha horas para dormir, que saltava de uma actividade para outra, sem pensar em mais nada, se não sentir o prazer de fazer, construir, criar, sonhar e amar a vida. Viver. Nesses tempos, vivia os dias com uma intensidade que me deliciava no fazer, no pulsar do quotidiano. O importante era sentir a cidadania, a vida activa e os resultados das ideias transformarem-se em acção.
A minha ambição era viver e sentir a vida, era, e, digo-vos continua a ser, e, acreditem, espero que nunca deixe de o ser, para mim o mais belo da vida foi sempre fruir a vida, abraçar o tempo que vivo com o coração, viver todo o tempo com o tempo a galgar os meus nervos.
E na medida que o tempo passa, cada vez mais sinto, afinal, neste tempo que existimos, neste aqui e agora, por cá estamos, e registamos que tudo se esvai, por isso, o belo é sentir o sabor da vida, o mais belo da vida é ser. Ser como quem sente a eternidade.
É por isso que gosto de envelheSER. Manter sempre viva, em sorrisos, a alegria de viver, sempre com um sorriso, que me anima, perante todos os desafios e adversidades.
Hoje, pela manhã, recordei os tempos idos, nesse ritmo de dormir. O tempo para dormir é sempre indispensável. Descansar e retomar energias.
Nunca fui pessoa de dormir muito, mas, contraditoriamente adoro dormir, e, talvez, por essa razão quando adormeço é mesmo para adormecer. Sempre dormi pouco nas corridas do dia-dia. Mas, depois, aos sábados ou domingos, por vezes, dormia, horas e horas, até sentir os ossos acordar numa tranquilidade silenciosa.
E foi por essa razão que, hoje pela manhã, pensei nesses tempos idos. Que bela soneca. Acordei como se fosse um sábado ou domingo, daqueles de outros tempos. Acordei com os ossos a sorrir, esticando os braços como quem quer agarrar o sol. Uma tranquilidade matinal de ternura.
Depois começou o dia, as coisas que nos acontecem que enchem o tempo que vivemos.
Numa esquina da vila, lá vi uma senhora sentada no chão, a fazer crochet e das suas mãos saiam umas giras bonequinhas. Vejo-a por ali, há vários dias, sempre na mesma esquina, horas, sentada a lutar pela vida.
Hoje decidi meter conversa. Parar. Perguntei-lhe o preço das bonequinhas. Ela disse-me e sorriu para mim, comentando : “Você conhece-me”. Olhei e não reconheci. Disse-me quem era e comentei o nome de familiares. Sim, sou.
Perguntei-lhe se era sem abrigo. Comentou que não. Tenho casa. Foram tempos difíceis. Comentou – “mas está quase a passar”, disse-me.
Então não desista, comentei, e acrescentei – “Sabe, José saramago tem um romance com o título: Levantados do chão! Levante-se”.
“Tem que ser, disse-me ela, e com um sorriso interrogou: “Não é essa a vida dos portugueses?” E sorriu.
Segui o meu caminho. Pensando na vida, nas vidas.
E, ao fim do dia cá estou a escrever estas palavras pensando numa mulher, sentada na esquina da cidade, na luta pela vida, sentada no chão e com um sorriso afirmando: Está quase a passar.
Isto, no dia que acordei com os ossos a sorrir e o passado a mergulhar nos meus nervos. Sorri.
Ontem, naquele encontro habitual da Tertúlia de «Os Leças», no final do almoço, fui surpreendido com um bolo para assinalar o 21º aniversário do jornal «Rostos». Foi uma agradável surpresa.
A Tertúlia de “Os Leças” é um ponto de encontro, todas as segundas feiras, que conta com a participação de quem quiser aparecer, ali, é sempre bem vindo “quem vier por bem” e, o lema, podia escrever-se “trás outro amigo também”.
Enquanto vamos almoçando as conversas são como as cerejas, fala-se de tudo, desde a Guerra da Ucrânia, passando pela vida política nacional ou local. Recordam-se estórias dos tempos idos, quer de antes, quer de depois do 25 de Abril. Rimos. Galhofamos. Provocações nunca faltam. Fala-se de tanta coisa, que, por vezes, a conversa aquece, mas, uma coisa é certa, a linha central daquele ponto de encontro é o respeito pelas diferenças.
São pessoas de diferentes opções políticas ou ideológicas. Uns conhecem-se há algumas décadas. Outros mais recentemente. Alguns conheceram-se por ali, uns chegam, outros partem. Não há obrigatoriedade de cumprir presença. Vai quem quer e quando quer, mas, todas as segundas feiras, lá está sempre a funcionar aquela Tertúlia. Um esmerado serviço de cozinha. Um esmerado serviço de apoio. Voluntários, que se juntam ao líder Alfredo Gonçalves, que, hoje, como ontem, continua a fazer do associativismo a forma mais bela de dar vida aos seus dias.
Ah, é verdade, só existe uma obrigação a cumprir, afinal, a ideia da Tertúlia partiu dele, por essa razão todos se levantam quando entra na sala, no verdadeiro respeito pelo Presidente Honorário da Tertúlia – Mário Durval.
Neste tempo que vivemos, cada vez mais marcado pela ausência de diálogos, que as redes sociais afastam-nos do salutar convívio de conversar a olhar – olhos nos olhos – a Tertúlia de «Os Leças» é um exemplo vivo da importância do comunicar e, pessoas com pensamentos diferentes, percursos de vida diferentes, por vezes, até, com conflitos ou divergências no passado, são capazes de sentar-se na mesma mesa, conversar, discutir, confrontar até memórias do passado, mas, o respeito e a tolerância, fica como marca desta realidade, que se vive num contexto associativo.
Talvez por isso, tem vindo a cimentar-se a ideia de por ali na Tertúlia cada um trazer um tema, que seja motivo de debate e, quem sabe, até o ponto de partido para abordagens mais profundas, sendo um contributo para fazer democracia e participação na vida do concelho.
Afinal, a principal ambição dos participantes nesta Tertúlia é sentirem e viverem o direito de partilhar ideias, conversar, dar sentido real à palavra democracia. Porque a democracia é o confronto de ideias.
É, talvez, por isso, gosto de marcar presença e estar por ali, na conversa, a degustar os sabores, e sentir a beleza da liberdade “está a passar por ali”.
Mas, a razão de hoje escrever esta nota tem a ver com o facto de ontem, na Tertúlia, ter sido surpreendido com um bolo de aniversário e um momento de fraternidade cantando-se os parabéns ao Jornal «Rostos».
As velas foram apagadas por Jorge Fagundes, o veterano da Tertúlia e Colunista do Jornal Rostos. Estavam ainda presentes outros dois colunistas do jornal Carlos Alberto Correia e Mário Durval.
Foi um gesto que quero aqui, publicamente agradecer, porque uma das coisas mais belas da vida que nos dá energia e força é sentirmos à nossa volta um pouco de gratidão. Obrigado.
Jorge Duarte, um dos habituais membros da Tertúlia, no meio daquela euforia das velas e dos parabéns, voltou-se para mim e agradeceu o trabalho de décadas que pessoalmente, tenho dedicado ao jornalismo no concelho do Barreiro, sublinhou que admirava-se como é que eu aguentei e resisto tanto tempo.
Oh Jorge, foi por paixão, por amor, por fazer o que gosto, e, por sentir que presto um serviço cívico, e, também, acima de tudo, porque há leitores que sentem a importância deste projecto, e o seu papel na valorização da cidadania e no fazer cidade.
Obrigado, Jorge, pelas tua palavras, sabes, senti o que disseste e guardei num cantinho do meu silêncio interior.
A vida é simples. São coisas simples, principalmente aquelas que enchem o dia de fraternidade que, emergem como sinais e dão força para manter uma forma de estar e viver a comunidade.
Obrigado pessoal da Tertúlia de «Os Leças». Afinal, o «Rostos» atingiu 21 anos também com o vosso contributo e solidariedade.
Agradeço a Vera Silva o convite que me formulou para estar, hoje e aqui, a partilhar a apresentação do seu livro «Meditar e Educar – um guia para pais e professores». É uma honra. Obrigado.
Começo por sublinhar que após ler, de forma apaixonada, o livro de Vera Silva, optei por deixar as suas palavras ficarem, no silêncio, a percorrer o meu sangue, a tocar os meus nervos, e, com elas deambulei por vários dias, espreitando por dentro das janelas que se abriam perante o meu olhar, numa imensa diversidade de temas que estão semeados nas suas páginas, escritas com ternura e nas quais sente-se o pulsar do coração.
Este é um livro que nos faz sentir a vida, o pulsar da vida, que nos motiva a fazer uma viagem por dentro da criança que está dentro de nós, e, como dizia Platão, que permanece sempre dentro de nós.
Um texto que nos faz pensar o tempo, que faz sentir o tempo, que alerta para a importância do tempo, como percurso de aprendizagem permanente, o tempo que contribui para a nossa constante mudança, o tempo que se faz semente, que se faz flor, que se faz fruto, como dizia Hegel. A dialética da vida.
O tempo que é evolução, que é desenvolvimento, que é crescimento. O tempo que nos encoraja a descobrir o nosso próprio caminho, dando um sentido à vida, superando diversos estádios, e citando Vera Silva – do impulsivo ao emocional, do sensorial-motor à socialização, do pragmático ao cultural, todo o tempo que vivemos e nos forja a personalidade.
Todos nós desde crianças aprendemos a toda a hora, é nesse aprender que nos erguemos como seres individuais e construímos a nossa própria história, como sublinha Vera Silva.
É através do tempo, que se faz aprendizagem, é através do tempo que da criança se faz o alicerce do adulto, semeando a auto-estima.
É da criança que se faz adulto que sentimos o tempo como uma permanente aprendizagem, na busca de um sentido para a vida, e, na descoberta da felicidade.
Um caminho que se faz com quedas, com lágrimas, um caminho que se faz vivendo todas as sensações e emoções, um caminho que se faz nessa totalidade – corpo e mente - essa realidade que faz de nós seres únicos, que nos dá essa condição humana, feita sempre do «eu» e o «outro», do «nós» e os «outros». Somos seres sociais.
Foram estes sentimentos que fui saboreando ao ler as páginas de Vera Silva. Senti as suas palavras, lendo e relendo, porque, na verdade este livro é para ler e reler, é um guia de relações humanas, é um manual de práticas contemplativas, que une a teoria à prática. Um livro onde descobrimos uma linguagem corporal e uma linguagem verbal. Um livro onde somos desafiados a pensar, a descobrir, o que nos rodeia, um livro que nos motiva a pensar que cada ser humano é um ser diferente, e, que, afinal, é essa diferença que permite a evolução da sociedade.
Um desafio para os professores para que façam da sala de aula um lugar de aprendizagem pela experiência, pela relação com os outros. A sala de aula como espaço de integração social saudável. Uma janela aberta ao mundo, sublinha Vera Silva.
Um desafio para os pais, para que sintam que a educação dos seus filhos é uma transmissão de saberes, de descoberta de caminhos, e que a missão de educar é encorajar a continuar em busca de caminhos. Educar pelo exemplo.
Um desafio a utilizar a meditação como um recurso de partilha, de conexão de sinergias, de viver experiências na primeira pessoa.
Na verdade, quando pensamos, meditamos sobre algo, controlamos a respiração, sentimos uma sensação de bem estar, mergulhamos no nosso interior. A meditação fortalece a vontade. A prática da meditação proporciona à mente momentos de contemplação e ao corpo relaxamento. A meditação permite sentir a energia do presente,
Vera Silva coloca desafios aos pais, aos avós, aos professores, à família, à escola, encorajando todos a utilizar de forma positiva a ferramenta da meditação para melhorar as capacidades psicológicas, gerir a informação das vivências quotidianas de forma criativa, e, desta forma, ajudando à descoberta do corpo, das emoções e do ser social.
Digo-vos, senti um enorme prazer ao percorrer as páginas, senti uma imensa alegria porque este livro é uma riqueza de experiências, de reflexão, de exercícios. O corpo humano vivido por dentro de uma experiência meditativa.
É uma leitura que nos enriquece como seres humano, que ajuda a sentir o ritmo da vida, que permite escutar o silêncio do tempo, neste tempo, que vivemos a correr atrás dos ruídos do tempo.
Esta obra proporciona a abordagem de uma diversidade de temas, e, na realidade, na sua leitura, cada um de nós, pode encontrar pistas de reflexão que vão ao encontro do nosso pensar, que estejam de acordo com a nossa forma de estar, de sentir e de pensar o mundo. É um verdadeiro manual de sociabilização.
O seu conteúdo ajuda a gerir o nosso eu, ou a gerir o nosso eu social, como diria Freud – o ego e o super ego.
Vera Silva escava o terreno de muitos temas, abre imensos caminhos, permite pensar a criança, a família, a escola, o tempo, a aprendizagem, os afectos, a comunidade, a felicidade, a gestão de conflitos, a violência, a harmonia, a paz, a humildade, a inclusão, a exclusão, a espiritualidade, entre outros temas, por essa razão, dentro desta diversidade de assuntos, dou comigo a interrogar-me : afinal qual o tema central desta obra?
E, por fim, ali, na página 103, de repente dou comigo a fixar os olhos e a mente, em palavras que fizeram pulsar os meus nervos, e, até, uma lágrima tocar o meu coração:
“Eis que a magia acontece: as duas células encontram-se e fundem-se. A partir daí, o corpo da mãe é o universo do ser que está a ser gerado, então este é o primeiro meio onde realiza as primeiras aprendizagens”.
E um pouco adiante, Vera Silva, acrescenta – “tudo o que a progenitora sente – as alegrias e as tristezas, os medos, a paz e o amor – o bebé também sente”.
Nesse instante senti que o tema central desta obra escreve-se com a palavra AMOR.
Senti a magia, senti que este livro pode ser sintetizado numa frase, que é uma viagem - “Do silêncio do útero à descoberta do silêncio interior”.
O silêncio da magia da palavra amor, o silêncio da magia da meditação, o silêncio da magia da aprendizagem, o silêncio da magia da criatividade, o silêncio da magia que nos transporta ao encontro do tempo que vivemos e nele descobrirmos o silêncio interior, esse lugar único, que nos dá a nossa personalidade.
O silêncio interior do útero onde tudo começa, ao nosso silêncio interior onde nós somos, esse lugar onde não mentimos, não iludimos, afinal, o lugar onde o nosso coração se unifica com o corpo, com a mente e com a vida – é essa a beleza do AMOR.
Quando meditamos e descobrimos o silêncio da nossa voz – o grilo falante – sentimos o sublime da vida, como escrevia o poeta, Fernando Pessoa – “Só nós somos sempre iguais a nós próprios”.
Este ensaio de Vera Silva, coloca desafios ao nível da psicologia, da pedagogia, da antropologia, da sociologia, da teologia, da filosofia, ele, é um manual de práticas, é um poema, um hino à vida, um cântico à harmonia, páginas que ajudam a viver o tempo, por dentro do tempo, e, também a aprender a viver a ausência do tempo. A Paz.
É por isso, que dou comigo a pensar a importância de ter algum tempo para mim. Ter algum tempo para o outro. Não desperdiçar o tempo e aprender a viver em paz e harmonia. É isto a meditação.
Viver é amar o tempo que vivemos, é guardar todo o tempo que vivemos com a ternura da voz da criança que existe sempre dentro de nós e, é ela, a sorrir, que faz sentir o pulsar da palavra AMOR.
Foi lindo, nesta obra, sentir dentro de mim o tempo de criança, sentir, até, o tempo que a criança não tem, porque a criança não tem noção de tempo, e, neste pulsar entre o coração e mente, usufrui a plenitude do momento presente. Libertando-me no silêncio. É isso, não é Vera?
Por essa razão, vou seguir o conselho de fechar os olhos, sentir os aromas, escutar os sons, sentir o pulsar do coração e num meditar entrelaçado com a palavra AMOR, abraço um desafio futuro : As Cartas que eu vou escrever à minha neta!
Obrigado por esta lição de vida. Pela energia criativa que exige de nós acção. Um desafio de amar a vida. Um desafio de viver a magia do amor.
Por isso, Vera, para encerrar partilho consigo este poema de António Gedeão:
Este é o poema do amor
O poema que o poeta propositadamente escreveu só para falar de amor,
de amor, de amor, de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor, amor, amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que, tantos se, tantos lhe, tantos tu, tantos ela, tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
O caminho-de-ferro no Barreiro - História e Memória Social
de Rosalina Carmona
Senti um grande orgulho por estar ali, num dia e na hora de jogo de Portugal, num campeonato mundial de futebol, ao sentir uma sala cheia, com mais de uma centena de pessoas, e, dar o meu contributo na apresentação do livro "O caminho-de-ferro no Barreiro - História e Memória Social", de Rosalina Carmona.
Ali, naquela sala que, precisamente, neste mês de Dezembro, no ano de 1922, foi adquirida pelos ferroviários do Barreiro e passou a designar-se “Casa dos Ferroviários”. Que bela homenagem à cultura ferroviária assinalando este centenário, com este dia de história e cultura.
Reproduzo o texto integral da minha intervenção no decorrer da apresentação do livro, hoje, dia 10 de dezembro de 2022.
O caminho-de-ferro no Barreiro - História e Memória Social
de Rosalina Carmona
Barreiro – Da tecnologia ao imobiliário
Boa tarde,
Num dia e hora de jogo de Portugal, num campeonato mundial de futebol, estar aqui, de facto, só por amor ao Barreiro, ao prazer de pensar a história, e, ao desejo de expressar a gratidão ao trabalho da historiadora Rosalina Carmona.
Dito isto, quero agradecer este amável e inesperado convite de Rosalina Carmona, para estar aqui, neste dia, ao seu lado, neste começo da segunda década do século XXI, para comentar o seu livro, que nos faz reviver a epopeia deste território, desde os tempos do século XIX, e, também nos proporciona uma viagem por dentro do século XX, até aos dias de hoje, aqui e agora, numa luta contra o tempo, na qual a Rosalina não abdica de estar e, por essa razão, não deita a toalha ao chão, pois procura tudo fazer para dar o seu contributo com o objectivo de salvaguardar e preservar um património histórico, único, assumindo esse desígnio, quer como Historiadora, quer como cidadã. É essa energia que está inscrita na sua obra: “O Caminho-de-Ferro no Barreiro – História e Memória Social”.
Costuma-se dizer que só se ama aquilo que se conhece, pois a minha amiga Rosalina, conhece, por dentro dos nervos, esta história ferroviária, esta cultura ferroviária, este legado civilizacional, que ela transporta por dentro do seu coração de forma pura e apaixonada. Sente-se isso ao ler o seu livro.
Rosalina, procura fazer-nos compreender os pormenores, desde as várias categorias profissionais, passando pelo mundo das ideias, vivendo tudo com paixão e escolhendo um lado da história, que para ela, é indissociável da luta de classes e no seu percurso de vida, a vida de uma mulher de luta e trabalho, que se fez, por si mesma, levantando-se do chão, para assumir de cabeça erguida a consciência de uma jangada de pedra. Os seus ideais e sonhos de querer construir um mundo que se faz no presente, com o legado de gerações que nos antecederam.
Como um dia escreveu Marc Bloch: “Não afirmemos que o bom historiador é alheio a paixões”, Bloch refere, que o “historiador escolhe e aparta”, porque “analisa” entre a “diversidade dos factos”.
Rosalina Carmona, escolhe, interpreta e valoriza, assumindo uma “unidade de consciência” na sua viagem pela história. É uma opção.
A nossa historiadora do Barreiro ferroviário, refere na sua obra, por exemplo, que este espaço, aqui, onde estamos, há precisamente 100 atrás, neste mês de Dezembro, no ano de 1922, ele adquiriu a designação de “Casa dos Ferroviários”, realizando-se nesses dias um sonho da família ferroviária barreirense.
E, portanto, não tenho dúvidas, que esta é uma bela forma de assinalarmos este centenário, estarmos, aqui, neste dezembro de 2022, a apresentar esta obra de Rosalina Carmona.
Na verdade, assim estamos, também, nos dias de hoje, a escrever uma página da história da cultura ferroviária do Barreiro e do país, neste século XXI.
Neste tempo que o Barreiro devia estar atento e, na realidade, não deixar que as coisas aconteçam e ficarmos apenas à margem da história, assim como quem diz – a ver os comboios passar. Como aconteceu nos anos 90 – nomeadamente a partir de 1999 – quando o vimos passar ao longe, na ponte 25 de Abril.
Esta investigação histórica de Rosalina Carmona permite-nos ter a visão da importância dos caminhos de ferro no Barreiro, não apenas para a História Local, mas também para a História de Portugal.
Foi nos anos do século XIX, que Portugal deu os primeiros passos na criação de uma rede ferroviária, assumindo a ferrovia como uma marca de uma mudança civilizacional, rasgando novos caminhos, que visavam superar a sua dimensão puramente agrícola, nesse tempo, sem dúvida, o Barreiro estava na linha da frente da modernização e da inovação do país.
Os dois primeiros troços ferroviários no país são – Lisboa até ao Carregado; e Barreiro para o sul do país, recorda Rosalina Carmona.
Desde esse tempo, o Barreiro passou a integrar o nó da centralidade ferroviária, em torno de Lisboa. E viu nas margens do Tejo, nascer um património único no país - uma Estação Ferro Fluvial, que devia ser preservada, de forma a ser parte de uma história tecnológica e cultural de Portugal, da Europa e do mundo.
Aliás, o estuário do Tejo que tem uma riqueza patrimonial, material e imaterial – de edificados e natural - devia ser declarado património mundial da humanidade.
Afinal, como dizia o poeta, o meu poeta Fernando Pessoa – “pelo Tejo vai-se para o mundo”.
E digo-vos, o lugar que o Barreiro devia estar a ocupar, de novo, neste século XXI, num tempo que a Europa, afirma querer e está a investir como prioridade neste sector, com o objetivo principal de criar um espaço ferroviário europeu único, um sistema de redes ferroviárias à escala da União Europeia, o Barreiro devia estar na primeira linha para ocupar um lugar nessa rede de futuro.
Num tempo que o Conselho Europeu aprovou, por exemplo, como estratégia para o sector ferroviário, o objetivo de duplicar na União Europeia os comboios de alta velocidade até 2030, que, o mais que pode acontecer se ficarmos em silêncio, é de novo ficarmos a ver passar comboios.
E, também, num tempo, como salienta Rosalina Carmona no seu livro que o “Plano Nacional Ferroviário está em desenvolvimento”, perante tudo isto, na realidade, ainda mais se justifica dar força, salientar e afirmar a importância histórica da cultura ferroviária do concelho do Barreiro.
Considero que esse legado histórico, essa cultura, afirmada na obra de Rosalina Carmona, é essencial para quem queira olhar estrategicamente para o futuro do Barreiro e nesse futuro dar importância ao sector ferroviário.
Afinal, um dia, inevitavelmente, vai avançar a construção da Terceira Travessia do Tejo, nem que seja só com a vertente ferroviária, e, o Barreiro ou está preparado para esse futuro, ou fica, apenas, deslumbrado na sua visão de cidade imobiliária.
Também, por este facto, esta obra de Rosalina Carmona é, neste contexto e nesta actualidade, uma pedrada no charco do silêncio que demonstra a ausência de uma estratégia, ou de pensamento sobre a importância da ferrovia e o seu papel no futuro do Barreiro.
É urgente, é necessário, é preciso equacionar num pensamento estratégico sobre a ferrovia e o Barreiro, unir esse pensar estratégico com uma visão de modernidade, e, obviamente, com um pensar cultural valorizando o nicho ferroviário que faz parte do património histórico do Barreiro. Este é um grito que se sente nesta obra de Rosalina Carmona.
Sim, esta realidade epocal, nacional e europeia, emergente, hoje, neste século XXI, é mais um contexto que nos motiva a sentirmos um grande orgulho do trabalho de investigação da história ferroviária do Barreiro patente nesta sua obra.
Quando lemos estas páginas da história ferroviária do concelho do Barreiro sentimos que esta história local, é, sempre, indissociável da história ferroviária do país. O Barreiro está na história ferroviária de Portugal.
Por tudo isto, repito, sentimos o desejo de expressar a gratidão à historiadora – também à mulher e cidadã - pelo seu trabalho de investigação, e, por, através do seu trabalho, nos proporcionar uma viagem pela memória e pelas memórias, ao mesmo tempo que nos coloca no centro do pensar e reflectir sobre os caminhos do fazer futuro.
“O que faz de um qualquer número de pérolas um colar é o fio invisível interior que as une – que as liga numa certa ordem, segundo determinada configuração”, afirmou António Sérgio, na sua reflexão sobre história, historiadores, cronistas e documentos históricos, para concluir que “o fio de ideias” que liga “uma interpretação da história”, não é mais que aquilo que ajuda a “compreendê-la”, a “uni-la inteligivelmente”, com uma “visão de unidade”, como “um único” que ajuda a “compreender o passado” e a “forjar espíritos construtores de futuro”.
Esta matriz de olhar para a história e para a investigação histórica, foi, de certa forma, a posição onde me coloquei ao longo da leitura e reflexões que desbravei na obra: “O caminho-de-ferro no Barreiro - História e Memória Social”, de Rosalina Carmona.
Porque na realidade esta é uma obra recheada de factos históricos, de pesquisa, de “muitas pérolas” com um “fio condutor”, que proporciona um legado de pistas de interpretação sobre o papel e o contributo dos caminhos de ferro para este espaço geográfico, nas margens do Tejo, frente a Lisboa, um território que tem na sua paisagem urbana inscrito um património ferroviário, um legado, que marcou o Barreiro, como comunidade, ao longo de várias gerações, dando-lhe uma dimensão especifica que integra as suas vivências humanistas, ao longo dos séculos XIX e XX, sendo essa uma marca da sua identidade.
Um património civilizacional, porque é um legado de sucessivas gerações, quer físico, quer intelectual, é por isso que esta obra de Rosalina Carmona, tem dentro de si, muita matéria para uma abordagem ao nível da sociologia, da antropologia, do planeamento do território e sócio-cultural do Barreiro na região.
O património ferroviário do Barreiro tem dentro de si uma mais valia, que pode abrir portas, ele mesmo, a um turismo cultural dos caminhos de ferro, colocando o Barreiro na Rota Europeia do mundo ferroviário.
Este é, sem dúvida, um património que carece de ser pensado, defendido, valorizado e preservado.
A obra de Rosalina Carmona permite-nos sentir que a história deste lugar Barreiro se escreve com um antes, e um depois, do seu tempo ferroviário. Que seria do Barreiro sem Miguel Pais?, interroguei um dia.
A ferrovia é o tempo histórico que abre a porta a um novo tempo da então Vila piscatória e marítima, moleira, agrícola, salineira, para um tempo de uma nova realidade económica – da cortiça à indústria química, têxtil, metalomecânica.
Uma nova realidade que transporta dentro de si uma nova dimensão social e cultural, e, na verdade é decisiva para a história industrial do país.
Uma história de desenvolvimento demográfico e humanista, que traz consigo o desenvolvimento pela instrução, com a formação escolar, ou pelas dinâmicas associativas e cooperativas.
O caminho de ferro é um fenómeno económico, social, cultural, que dá ao Barreiro uma nova identidade, levando-o para um tempo novo feito da sua diversidade – marítimo, rural, urbano e industrial.
Pelo Caminho de Ferro chegam matérias primas, chegam pessoas, chegam ideias, e são lançadas as sementes de uma terra que se faz CUF, que se faz CP, que foi a marca da “revolução industrial”, a qual é indissociável da “revolução de ideias”.
Sim, é tudo isto, que dá ao Barreiro - unidade, identidade e memória. Tudo isto faz do Barreiro uma terra de gente culta e solidária.
É preciso dizer bem alto, que uma cidade que não preserve a sua identidade, que não compreende o seu passado, que, neste caso, desista de dar ao seu património ferroviário uma importância cívica e cultural, e apostar na sua classificação, se desiste do seu passado, é uma cidade que desistiu de manter viva a sua importância e a sua dimensão histórica, na sua própria história e na história do país.
Digo-vos, seria bom e era merecido que fosse escutado este «grito de Ipiranga» inscrito nesta obra de Rosalina Carmona.
Este seu trabalho faz parte integrante do seu contributo para arrancar a ferros a Classificação do Património Ferroviário, que se arrasta desde 2009.
Será que este «grito de Ipiranga» vai ser escutado? Interrogo-me e interrogo. Os interesses imobiliários. A estratégia do PDM em vigor…as coisas que fazem esta cidade na sua realidade, aquela cidade que mais que pensar-se e fazer-se, interroga-se e gere-se no viver as circunstâncias, o imediatismo, ou as futilidades de um imaginário daqui a 500 anos.
Enfim, são tantas as interrogações e incertezas, que ao chegar ao final da leitura deste trabalho de Rosalina Carmona pensei, apenas, sim, apenas pensei, associar a minha voz às suas palavras e gritar: Por favor, dignifiquem a cultura ferroviária do Barreiro!