Há dias que cansam, cansam pelas palavras, que nem são palavras, são sons inertes feitos das escórias do tempo. Aquelas coisas que se repetem, que banalizam, que não ajudam a pensar cidade, a sentir cidade, a pensar cordialidade, a sentir relações humanas, a ter no coração palavras a pulsar que permitam tocar por dentro o quotidiano, nas diferenças, no erguer os dias com essa força criadora que nasce na energia das diferenças.
Hoje foi um desses dias. São aqueles dias que me ocorre ao pensamento a obra «Górgias», de Platão.
E, ao recordar, penso que há coisas que afinal, não é preciso explicar, nem para elas é necessário procurar explicações, estão explicadas, ditas e reditas. São aquelas palavras feitas de retórica, mera retórica, de mundos perfeitos, os mundos que se erguem em perfeições únicas, de pensamentos únicos. Os mundos que são eles o principio e o fim, o começo do mundo, o big bang, que faz, depois, sentir a realidade feita de vazios, mas cheia de sons inertes. Retórica, mera retórica. Sim, lendo Górgias, percebe-se.
Hoje foi um desses dias, em que as palavras inúteis tocaram os meus nervos. Fiquei com as palavras livres a circular no meu sangue de esperança. Há sempre uma esperança, mesmo nos dias de céu amarelo, coberto de areias do Saara, e, o sol a espreitar, feito luar, a gritar, como centelha que dá brilho ao dia e semeia a luz. Felizmente, há sempre uma luz.
A emoção desce devagar na superfície da pele numa raiva impotente perante uma guerra estúpida, agora, como em todos os tempos, neste mundo em que os senhores do mundo, determinam a morte, por geoestratégias, por poder, por submissões, por ganância, por mercados.
As lágrimas deslizam nos olhos ao olhar aquelas imagens que entram em casa e banalizam a dor, em explosões cirúrgicas.
E as valas abertas recebem os corpos que ontem sorriam, conversavam, brincavam com os filhos, beijavam, e, pensavam futuro. Agora estão reduzidos a escombros.
Há dias assim, que as coisas entram nos nervos e doem nos ossos, fazendo os pensamentos derreterem-se em lágrimas nos olhos, que contemos, disfarçadamente, com a ponta dos dedos.
E nestes dias, dias feitos de cansaço, de retórica, de guerra, de dor, ao fim do dia com o céu nublado de tons do Saara, no meu recanto, ao fim da tarde, cansado de palavras repetidas de ecos vazios.
Sento-me na sala, e, escuto uma voz, como se fosse a voz de um anjo, a beijar os meus nervos, ali, olhando para mim, olhos nos olhos, sim, porque isto é que é olhar olhos nos olhos, e falar com o coração, a minha Alice disse:
«Avô dá-me um abracinho», e correu para mim a abraçar-me. Apertando-me com ternura no seu coração.
Voltou de novo para o seu lugar, e voltou a dizer: «Avô dá-me um abracinho». E de novo, com mais força, ali, sempre, com um sorriso, a Alice voltou a abraçar-me. Com mais força, apertando-me com um carinho que tocou os meus olhos num mar de ondas.
E de novo, olhando fixamente, voltou a dizer: «Avô dá-me um abracinho». E, em mais um abraço, terno e caloroso, senti uma energia renovada a fluir, neste final do dia sem sol.
Três vezes sorriu. Três vezes me abraçou. Três vezes senti o seu coração. Três guardei dentro de mim estes instantes. Sorri.
E, por fim, a minha Alice, olhando, bem de frente, sorrindo, do seu canto, onda brota a sua energia de criança, voltou-se para mim, com olhar terno, com voz doce e suave, pela primeira vez na sua vida, disse: «Avô, gosto muito de ti. Amo-te!»
Olhei para ela abracei-a com os meus braços, com um brilho nos olhos, e, naquele instante senti que
um abraço não se pede, um abraço , recebe-se com a força de quem toca o coração, de quem quer dar o coração e partilhar a vida, olhos nos olhos – «Gosto muito de ti. Avô amo-te”.
. Somos uma cidade feliz? Ou somos uma cidade triste?
Um pensamento que se tem cruzado nas minhas reflexões é que somos uma cidade que, para além dos efeitos da troika, da pandemia, ainda, não superamos – o stress da crise pós-desindustrialização.
Nos finais dos anos 80, quando começam a emergir os primeiros sinais da desindustrialização do concelho do Barreiro, começou a nascer uma nova realidade na vida local, que vai crescendo ao longo dos anos 90, com a “descormecialização” e com a inversão da pirâmide demográfica , o envelhecimento e a perda de população.
A construção da linha ferroviária na Ponte 25 de Abril, inaugurada em julho 1999, abre o caminho para o crescimento urbano dos concelhos do Almada, Seixal e Sesimbra, e o processo de «desferroviarização» do concelho do Barreiro.
No ano anterior, em 1998, já tinha sido inaugurada a Ponte Vasco da Gama, que criou as condições para o crescimento urbano de Montijo, Alcochete e Palmela, este, que nos censos de 2021, foi dos concelhos, ao nível nacional, que obteve maior crescimento demográfico. Estes dois factos, vão afectar aqueles que eram os “terceiros patrões” na história económica do concelho do Barreiro – depois da ferrovia e da CUF, forma os patrões da construção civil.
Estes factos contribuíram, de forma decisiva para profundas mudanças no tecido social, nas relações comunitárias, na coesão social, no desenvolvimento do território e no pensar o planeamento. As tradições locais, as raízes familiares, a vida associativa, a comunidade escolar, e, a acção do Poder Local, foram importantes para criar uma cultura de resiliência e esperança.
Um concelho que pouco a pouco ficava “órfão” de um passado que marcou gerações, de uma cidade com vida própria, que se misturava com as novas realidades de crescimento urbano dos finais dos anos 60 e anos 70 – dormitórios de Lisboa - e uma cultura operária, com formação, com trabalhadores qualificados – na química, na metalomecânica, na ferrovia – assim como um tecido empresarial local, de pequenos e médios comerciantes, que eram eles mesmo, com os seus nomes ou suas empresas marcas de referência – Tininho, Guinot, Soares, Matos, Bonança, Moderna, Transmontana, e, tantos, tantos outros.
Este concelho começou a navegar em busca de um novo futuro. A primeira matriz estratégica mais consolidada e sem grande discussão com a comunidade foi o Plano Director Municipal, que ainda está em vigor, aprovado em Dezembro de 1993, que teve por base uma concepção de concelho-cidade, que apontava para um crescimento populacional que pode atingir os 200 mil habitantes, colocando o crescimento do concelho no seu Parque habitacional e naquilo que o mesmo possa atrair. O exemplo mais objectivo desta visão é a Urbanização dos Fidalguinhos, ou zonas no Alto do Seixalinho, embora, existam outras referências, muito diferentes de ocupação do solo como é o caso das urbanizações na freguesia de Palhais e Coina. Depois andamos a discutir Masterpaln, o Terminal Multimodal de Contentores, apenas semeamos esperança, porque, nada disto depende exclusivamente da nossa realidade local.
Isto tudo, para introduzir um tema que de há muito me inquieta, no plano da reflexão sobre a vida da cidade e do concelho, quer quando penso o papel da vida associativa no manter a coesão social, quer pela perda de laços que ligavam as famílias e a comunidade, em torno da cultura da fábrica, ou, num sentimento do viver a vida local com relações de proximidade. Esta reflexão tem me motivado a pensar a importância da Saúde Mental e estratégias de saúde mental, que, devia ser direccionada para prática de prevenção e promoção da Saúde Mental, e, menos no tratamento da doença. Os recentes acontecimentos da troika, que deixou marcas em muitas famílias, numa cidade com a população envelhecida, tal como nos finais dos anos 80, com o desemprego, situações de fome e crises familiares. Também os tempos de pandemia de isolamento e solidão, de dramas sociais que ficaram gravados na vida de muitos, problemas que ficam como raízes de dor, tristeza e incerteza.
Tenho reflectido sobre tudo isto, e, até, mantido algumas conversas, com pessoas que intervêm na vida social, procurando sentir o pulsar da vida local, a sua resiliência, a sua esperança. Tenho colocado a pergunta: Somos uma cidade feliz? Ou somos uma cidade triste? Um pensamento que se tem cruzado nas minhas reflexões é que somos uma cidade que, para além dos efeitos da troika, da pandemia, ainda, não superamos – o stress da crise pós-desindustrialização.
Somos uma cidade que vive, hoje, como nos finais dos anos 80, nos anos 90 e no começo do século XXI, em busca de si mesma, e com o imobiliário no seu horizonte de crescimento, que não significa desenvolvimento. E, obviamente, continua faltar emprego, há centenas de famílias que dependem do RSI, há crescimento de situações de violência doméstica, há pessoas em situações de sem abrigo, crescem o número de crianças e jovens que são acompanhados ao nível da Saúde Mental, e, estes, não são problemas que afectam apenas, ou só, famílias carenciadas, são as próprias classes médias, com carências económicas, com separações familiares, e, tudo isto gera muitas situações de pessoas que vivem com fragilidades emocionais. É por essa razão que tenho vindo a reflectir sobre a Saúde Mental, a manter conversas sobre este tema, e vou acompanhar com muito interesse o Ciclo de Conversas sobre esta temática, porque considero ser este um tema central para pensar e fazer cidade e cidadania.
Na verdade, quando pergunto: Somos uma cidade feliz? Ou somos uma cidade triste? Todos acreditam que “temos potencial” para ser uma cidade feliz. Eu também acredito, mas, como dizia o poeta…sonhar todos os dias também cansa.