Manuel Cabanas – Cidadão Honorário do Barreiro 120 anos do nascimento de um lutador pela Liberdade

Manuel Cabanas, natural de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António, é um ícone da cultura ferroviária, da resistência anti-fascista, um homem que dedicou à sua vida à conquista da Liberdade e da Democracia, que por essa luta foi preso sete vezes, pelo regime de Salazar.
Hoje, dia 11 de Fevereiro, é data que assinala o 120º aniversário do nascimento, deste homem que recebeu a mais alta distinção do concelho do Barreiro - «Cidadão Honorário».
Manuel Cabanas, que sempre amou a sua terra natal, nunca esqueceu o seu Algarve, é lá, em Cacela, que descansa, sentindo ao seu redor as ondas do Atlântico, num lugar que mantém viva a sua presença e a sua cultura.
Manuel Cabanas, ferroviário, viveu a sua vida adulta no Barreiro, esta terra que ele sempre amou e manteve sempre dentro do seu coração.
Fundador do PS
Uma figura que é um ícone da cultura ferroviária e da resistência anti-fascista. Um homem que se inscreveu nas memórias do Barreiro como um exemplo de vida, de dignidade e humanismo, para muitas gerações, que com ele partilharam os dias de luta contra o silêncio e o medo, e, também de aprendizagem na Escola Alfredo da Silva, onde leccionou.
Manuel Cabanas esteve envolvido no MUNAF, no MUD, na Campanha de Norton de Matos, na Campanha de Humberto Delgado ( tendo sido inicialmente um apoiante de Arlindo Vicente).
O Mestre Cabanas viveu 40 anos sem passaporte, situação que o impedia de ir ao estrangeiro, e, por essa razão, não esteve presente na reunião, em 1973, que fundou o Partido Socialista.
“Não assistiu à criação do PS, mas foi considerado um fundador do PS, sendo o militante nº 55.
Manuel Cabanas foi socialista toda a vida, um socialista de esquerda, um socialista combatente, um socialista de combate solidário” – disse, numa sessão no Barreiro, Almeida Santos, Presidente da Assembleia da República e líder histórico do Partido Socialista.
Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e Cidadão Honorário do Barreiro
Em 1983, também a Câmara Municipal do Barreiro decidiu homenageá-lo com o a distinção «Barreiro Reconhecido», na área das Artes e Letras.
Em 1985, Manuel Cabanas foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, no grau de comendador, pelo Presidente da República, General Ramalho Eanes.
Em 1991, foi agraciado pelo Presidente da República, Dr. Mário Soares, com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
Em 1991 foi condecorado com a Medalha de Honra do Distrito de Setúbal.
No ano de 1996, após a sua mrte, foi distinguido com o Galardão de Cidadão Honorário do Barreiro.
O ano do centenário do seu nascimento – 2002 - foi assinalado com um extenso programa promovido pela Câmara Municipal do Barreiro, com exposições e diversos eventos culturais.
Um homem receado por Salazar.
“Manuel Cabanas teve sempre ideais políticos, ele, era um produto do Barreiro, terra para onde veio viver com 20 anos. Foi um verdadeiro sindicalista, um homem receado por Salazar.
Aqui no Barreiro, Manuel Cabanas, assumiu a plenitude da sua consciência política, desenvolvendo uma actividade sindical com grande consciência e solidariedade” – afirmou Almeida Santos, numa sessão que decorreu no Barreiro, para prestar uma homenagem ao Mestre Cabanas, no 110º aniversário do seu nascimento.
“Manuel Cabanas esteve envolvido em todos os actos de rebeldia contra o regime da ditadura do Estado Novo”, disse Almeida Santos.
Um precursor na arte de ilustração. Um homem culto. Um autodidacta
Manuel Cabanas, muitos recordamos a trabalhar de forma apaixonada no Café Tico-Tico, na arte que cultivou ao longo da vida com ternura – a Xilogravura. Foi precursor na arte de ilustração. Um homem culto. Um autodidacta.
“Ele foi um artista, um homem de grande sensibilidade”, seu nome era elogiado e evocado, na Academia de Coimbra, como “o artista” – “o revolucionário”.
“Ele era um sábio. Frequentou a Universidade das suas próprias leituras, tinha a 4ª classe, mas era um homem de uma cultura vastíssima, ele sabia de história, de filosofia, de religião, de cultura política.
Ele adquiriu uma cultura que era invulgar em qualquer licenciado, o que tornava o diálogo com ele encantador. Sua arte são verdadeiras obras primas.” – referiu Almeida Santos, quando o Mestre Manuel Cabanas, foi homenageado no seu 110º aniversário, ao recordar longas conversas que manteve com o Mestre Manuel Cabanas, em Monte Gordo.
Barreiro deve muito a este homem
Após o 25 de Abril Manuel Cabanas foi eleito pelo Partido Socialista, deputado na Assembleia Constituinte, mas, após essa data, no Barreiro, por vezes, foi maltratado - “chegaram a chamar-lhe fascista, ele que foi um lutador pela liberdade”, recordou Almeida Santos.
“O Barreiro deve muito a este homem, ele adorou o Barreiro e o amor também se paga”, disse.
Manuel Cabanas e Vicente Campinas dois amigos
Tive a honra de partilhar momentos da minha vida com o meu conterrâneo Manuel Cabanas, guardo dele muitas recordações e obras que me ofereceu com amizade e ternura.
Foi através dele que conheci, a obra e o homem, o nosso comum conterrâneo Vicente Campinas, comunista, exilado em Paris, com quem Manuel Cabanas manteve sempre uma grande amizade. Sou disso testemunha.
O Ilustre Cidadão Honorário do Barreiro, o Mestre Manuel Cabanas, nasceu a 11 de Fevereiro de 1902, faz hoje 120 anos. Morreu aos 93 anos, no dia 25 de Maio de 1995, no hospital de Faro.
Nesta data, aqui fica esta abraço e o OBRIGADO ao Mestre da Vida, pelo seu exemplo de lutador, de criativo, de amante da Liberdade.
Ainda hoje recordo o eco daquela voz, que escutei no Teatro Cine, numa celebração do 5 de Outubro - Dia da República - a pedir um minuto de silêncio, em memória de Catarina Eufémia. Uma voz em luta pela Liberdade!
Nas costas do Ti’Manel, o GNR, vigilante, ficou impávido. Na sala cheia, a multidão ergueu-se num gesto único, em silêncio, que era, afinal, um grito: Viva a Liberdade!
António Sousa Pereira
Foto – Jornal do Algarve
