15 horas na Urgência do Hospital do Barreiro Uma situação inadmissível e desumana

A experiência é a melhor lição de vida, depois, sobre o vivido, podemos reflectir, e, na verdade, através do pensar, retirarmos as lições, e, para tal, teremos que saber separar o trigo do joio.
Vem isto a propósito da situação que vivi no Serviço de Urgência no Hospital do Barreiro, onde estive a acompanhar à minha Lurdes, que devido a dores e dificuldades de andar, teve necessidade de recorrer ao Serviço Nacional de Saúde.
Foram cerca de 12 horas de espera até ser atendida e cerca de 15 horas, desde a chegada ao Serviço de Urgência, até ao regresso a casa. Uma noite completa, ali, a desesperar. Eu, e outros familiares na rua, pelos recantos, numa imagem degradante e desumana, dado que não é possível entrar, nem estar na sala de espera, e, sublinhe-se, não existe uma alternativa no espaço exterior. O meu carro esteve tranquilo no Parque de Estacionamento, pagou pela dormida 6 euros, pela noite, porque como pelas 9 horas fui a casa e regressei ao Hospital, depois, esse período matinal foram mais 5 euros. Nem me incomodo com essa verba, dado que no meu país tudo se paga. Mas ao menos, nesta situação complicada, que vivemos. podiam criar uma zona provisória, uma tenda, em colaboração com a Protecção Civil, para que os familiares pudessem aguardar, sem ter que estar por ali, sentados no chão e nos muros. É muito triste. Fica o apelo.
Eram 21 horas e 12 minutos do dia 22 de julho, quando chegámos à Urgência. O movimento não parecia nada de anormal. Na zona para onde são encaminhados os utentes referenciados pelas doenças no âmbito respiratório, também não era grande o número de pessoas. Sim, depois foi avolumando pela noite dentro, com a chegada de ambulâncias, quer num lado, quer no outro. Mas no lado das doenças respiratórias pelas três ou quatro da madrugada já estava vazio.
Um dos guardas da empresa que presta o serviço de segurança, pelas duas da manhã, comentava : “Esta é uma noite calminha”.
Mas, sendo calminha, o facto, é que a partir da meia noite, era raro ser chamado algum utente para ser atendido.
O tempo parou na Sala de Espera.
Estavam talvez umas oito pessoas, um idoso em cadeira de rodas, uma senhora embrulhada num lençol, e, outros utentes a aguardar pela sua vez. Dois ou três desistiram, foram para casa. Talvez pelas quatro da madrugada. Os outros seis lá ficaram toda a noite, até às 9 da manhã, quando de novo começaram a chamar alguns daqueles utentes, porque entretanto, outras urgências passavam à frente e, na realidade, a Sala de Espera, de novo, voltou a encher, numa constante a partir, talvez, das sete da manhã.
Uma noite sem dormir. Eu lá fui até ao carro. A Lurdes, ali, a aguentar. Os outros, aquele idoso, na cadeira de rodas, aguentaram, em silêncio, sem protesto. Foi muito desumano. Seis pessoas uma noite inteira. E familiares na rua nos muros da urgência. Naquela que, afinal, foi dito, por quem vive o dia-a-dia – “uma noite calminha”.
Ao iniciar este meu texto ocorreram-me duas ideias que acho importante voltar a sublinhar, ao reflectir sobre esta situação, é importante, separar o trigo do joio. Não devo, nem devemos a partir deste contexto da incapacidade de resposta do Serviço de Urgência do Hospital do Barreiro, confundir a árvore com a floresta.
Tenho um grande respeito pelo Hospital do Barreiro. As situações que ali já vivi, pessoalmente, e por muitas situações que tenho escutado, o Hospital do Barreiro tem profissionais competentes, dedicados de grande qualidade. Os serviços de uma forma global são eficientes e eficazes. Conheço alguns profissionais que vestem a camisola do Hospital do Barreiro, onde trabalham, com grande paixão, porque fazem o que gostam, e sentem no coração a importância do Serviço Nacional de Saúde. Dão tudo de si pela vida e na luta contra a morte. Amam a profissão.
A todos os profissionais, mesmo os do Serviço de Urgência, onde já vivi, por dentro, a energia que colocam para dar respostas, de uma forma intensa 24 horas por dia, numa rotação incansável, com a vida à flor da pele. Todos eles são resilientes e lutadores. Vão, por vezes, para além dos limites humanos. Choram e sorriem. São humanos.
É por isso que não devemos uma vezes aplaudir e outras denegrir, passando de bestiais a bestas.
Portanto, as situações que vivemos, como aquela que vivi ontem deve merecer a reflexão. Admito que os profissionais de serviço esgotem, que atinjam situações limite, perante um contexto pandémico, numa região onde de dia para dia os números voltam a ser assustadores, numa região envelhecida, que naturalmente gera mais fluxo de utentes para os serviços de urgência.
Mas isto é um problema que tem quer resolvido, e, na verdade, só pode ser resolvido com mais recursos humanos. E, tem que existir uma gestão atenta aos fluxos de forma a evitar os excessos que, pelo que ouvi, estão a acontecer de forma permanente. Várias pessoas disseram-me – “Estiveste doze horas, então não bateste o meu record”.
O deixa andar nos tempos de espera parece estar instalado como inevitável no actual contexto. E quando uma situação anormal, passa a ser a normalidade, algo está mal no reino da Dinamarca.
E, naturalmente, são estas situações de normal anormalidade que contribuem para a imagem degradante do Serviço Nacional de Saúde, para que se confunda a árvore com a floresta e não se separe o trigo do joio.
A verdade é que temos profissionais de qualidade, temos boas instalações, temos boas práticas. Temos um Hospital de referência.
O que falta? Talvez pensar como reforçar os Cuidados Primários de Saúde – em Alcochete, Moita, Montijo e até no Barreiro - com apoios de retaguarda de serviços de urgência que contribuam para evitar o excesso de deslocações ao Hospital do Barreiro.
Ou, reforçar a importância da Urgência do Hospital do Barreiro, dando-lhe plenas e mais capacidades para ter condições de responder a toda a sua área regional – Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo.
Avaliar os recursos humanos e, se neste período, é tempo de merecidas férias a trabalhadores que tudo dão de si e vestem a camisola do SNS, com o coração a pulsar nos nervos, então que se criem condições atempadas para que existam respostas.
Estou meramente a especular. O que sei é que a situação que vivi e que vi, seis portugueses viver, naquela noite, e, sei que, de facto, é hoje uma realidade diária no Hospital do Barreiro, esta é uma situação inadmissível e desumana. Será tudo isto normal? Será que tudo isto já está aceite e adquirido como inevitável?
Os efeitos da pandemia sobre o SNS, vieram demonstrar a importância positiva deste sistema para o país e, agora, não é tempo de baixar os braços, é tempo de reforçar e dar passos em frente, construir futuro. O pior ainda está para vir.
A Península de Setúbal carece com urgência que se unam vontades politicas e técnicas para que se avalie o papel do SNS na região, as suas capacidades regionais, a sua dependência de Lisboa, a abordagem da sua rede hospitalar, que deve ser valorizada nos seus três polos – Almada/ Barreiro/ Setúbal – e para este reforço desta rede é importante a construção da Ponte Barreiro Seixal.
E depois deste nível macro da rede hospitalar é preciso avaliar uma rede intermédia – que pode passar pelo Hospital do Seixal e Hospital Montijo, como áreas de intervenção e triagem sub regional.
Esta é uma matéria que tal como a NUT II ou NUT III, deve merecer dos politicos da região, pensamento politico e acção politica. Basta de silenciamento. É urgente debater o SNS na região, e, já agora os autarcas que silenciam o debate destas matérias na vida das suas comunidades são coniventes com o silêncio.
A situação dramática que se vive nos dias de hoje nas urgências é preocupante, é desumana.
Não é com bodes expiatórios que se resolve a situação. A culpa não é de tarefeiros, ou do cansaço dos médicos, dos enfermeiros, ou de outro pessoal, nem mesmo das gestões hospitalares.
A culpa se queremos um culpado, é, de há muito, da inexistência de uma estratégia para o SNS na região, que vai da rede dos Cuidados Primários à Rede dos Cuidados Hospitalares, e, cada vez mais por uma rede de Saúde Pública que aposte no promover saúde, em vez de valorizar a doença – melhorando recursos humanos e alargando as valências e condições técnicas. Envolvam os profissionais. Escutem os utentes. Façam politica, não politiquice.
Discutam como se estivessem a discutir uma NUT da Saúde.
Apesar de 15 horas de espera, que aguentei na rua, e, das situações desumanas que vi, aqui fica o meu Obrigado ao SNS, fazem o que podem, num país que, afinal, continua indeciso sobre que sistema de Saúde que quer como dominante – Privado ou Público.
E depois é isto que vemos. E vamos continuar a ver...
“Porque não foste ao Hospital da Luz, tem ortopedista na urgência?!”, perguntou-me uma amiga.
“Não fui, porque ainda acredito nas capacidade do Hospital do Barreiro”, respondo.
António Sousa Pereira
Foto - O lugar de espera dos familares.
