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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Obrigado Otelo! Ele encheu o Campo do Luso no Barreiro e o Pavilhão do Fabril

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Aquele foi um dia único que ficará inscrito na história do meu país, um dia inesquecível, um dia em que sentimos a Liberdade dentro dos nervos a pulsar no coração. Limpida. Nobre. Pura.

E, esse dia é, sem dúvida é indissociável de um nome – Otelo Saraiva de Carvalho.

Esse dia, que sentimos no cântico de «Grândola, Vila Morena». Esse dia que floriu num cravo que se tornou referência no mundo.
Um dia, nos anos 80, estava na Praça S. Marcos, em Veneza, Itália. Vários grupos de pessoas juntavam-se e entoavam cânticos dos seus países. Num desses grupos falei. Alguém, de imediato, apontou para mim e disse: «Grândola». E, ali, em coro, num cântico de linguagem polifónica, cantou- se «Grândola, Vila Morena».

O meu país livre de silêncio. O meu país que senti pulsar no coração, com orgulho, esse orgulho que nos faz sentir a nossa identidade.

Esse dia de Abril, esse Dia de Primavera, escrito com coragem de muitos, que se uniram numa vontade de derrubar o silêncio. A prisão. A censura. A guerra colonial. A miséria que emigrava em busca de melhores dias. Um pensamento único, triste e castrador.

O Dia 25 de Abril foi um dia dificil, de muito suor e angústia. E, ali, na linha da frente, a comandar, esteve sereno e nobre Otelo Saraiva de Carvalho.
Por esse facto, por essa memória, por essa verdade, Otelo tem o seu nome inscrito nas páginas da história do meu país. Vertical. Sem ambições. Puro.

Ele que sonhou com um país melhor, com um mundo melhor. Acreditou.
Talvez por isso, decidiu aceitar o convite de se candidatar à Presidência da República e, hoje, e aqui, quero recordar-vos que ele, na sua primeira candidatura, foi o escolhido na margem sul, em todos os concelhos da Península de Setúbal, derrotou Ramalho Eanes.
Ele encheu o antigo Campo do Luso Futebol Clube, o campo, as ruas envolventes, uma multidão em festa, cantando em eco pelas ruas do Barreiro: «Grândola, Vila Morena». Era um cântico por Abril. Era um cântico de esperança. Era um cântico de sonho. Eu votei Otelo.


Sim, nas eleições presidenciais seguintes, esse mesmo Barreiro, que tinha eleito Otelo, não lhe deu o voto, e, então, votou Ramalho Eanes, que, se não estou em erro, deve ter sido, até aos dias de hoje, quem em eleições presidenciais, maior votação recebeu no concelho do Barreiro, na ordem dos 80 % dos votos.

Ele encheu o Pavilhão do Grupo Desportivo Fabril do Barreiro, num jantar integrado nas comemorações dos 30 anos do 25 de Abril, em 2004, na gestão PS, liderada por Emidio Xavier. Que noite de festa!

Otelo Saraiva de Carvalho, não será apagado da memória, como diz um amigo meu a história é feita de factos, e, sem dúvida perante essa realidade, os factos que não são alteráveis. A sua página da história está escrita com nobreza. É, por esse dia que quero recordá-lo e prestar-lhe uma justa homenagem. Obrigado.
O 25 de Abril é indissociável de Otelo Saraiva de Carvalho. Um homem polémico. Um homem não consensual. Mas, isso, ninguém lhe pode retirar esse facto de ter sido o estratega das operações que conduziram à queda de um regime, que marcou o recomeço de um novo tempo da história deste canto à beira mar plantado.
Portugal, por muitos séculos ainda, na sua história será marcada pelo antes e de pois do 25 de Abril. O antes da fundação, passando pela epopeia da abertura às portas da modernidade da humanidade. O mar e a língua. E de novo, após o 25 de Abril, recomeçar neste cantinho da Europa, com os olhos no mundo.

Hoje, neste dia que foi a enterrar o estratega que conduziu à vitória a revolta militar que conduziu à derrota do regime caduco, senil e castrador, aqui deixo o meu fraterno abraço a Otelo Saraiva de Carvalho, a esse homem sonhador que nos restituiu a vida politica pensada, no Programa do MFA, em três palavras, que, mal ou bem, estão cumpridas: Descolonização, Democracia e Desenvolvimento.

Tudo o resto faz parte da tribalização, do sistema que foi sendo contruído – este que somos, este o estado a que chegámos.
Obrigado Otelo!

António Sousa Pereira

15 horas na Urgência do Hospital do Barreiro Uma situação inadmissível e desumana

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A experiência é a melhor lição de vida, depois, sobre o vivido, podemos reflectir, e, na verdade, através do pensar, retirarmos as lições, e, para tal, teremos que saber separar o trigo do joio.


Vem isto a propósito da situação que vivi no Serviço de Urgência no Hospital do Barreiro, onde estive a acompanhar à minha Lurdes, que devido a dores e dificuldades de andar, teve necessidade de recorrer ao Serviço Nacional de Saúde.
 

Foram cerca de 12 horas de espera até ser atendida e cerca de 15 horas, desde a chegada ao Serviço de Urgência, até ao regresso a casa. Uma noite completa, ali, a desesperar. Eu, e outros familiares na rua, pelos recantos, numa imagem degradante e desumana, dado que não é possível entrar, nem estar na sala de espera, e, sublinhe-se, não existe uma alternativa no espaço exterior. O meu carro esteve tranquilo no Parque de Estacionamento, pagou pela dormida 6 euros, pela noite, porque como pelas 9 horas fui a casa e regressei ao Hospital, depois, esse período matinal foram mais 5 euros. Nem me incomodo com essa verba, dado que no meu país tudo se paga. Mas ao menos, nesta situação complicada, que vivemos. podiam criar uma zona provisória, uma tenda, em colaboração com a Protecção Civil, para que os familiares pudessem aguardar, sem ter que estar por ali, sentados no chão e nos muros. É muito triste. Fica o apelo.

Eram 21 horas e 12 minutos do dia 22 de julho, quando chegámos à Urgência. O movimento não parecia nada de anormal. Na zona para onde são encaminhados os utentes referenciados pelas doenças no âmbito respiratório, também não era grande o número de pessoas. Sim, depois foi avolumando pela noite dentro, com a chegada de ambulâncias, quer num lado, quer no outro. Mas no lado das doenças respiratórias pelas três ou quatro da madrugada já estava vazio.

Um dos guardas da empresa que presta o serviço de segurança, pelas duas da manhã, comentava : “Esta é uma noite calminha”.
Mas, sendo calminha, o facto, é que a partir da meia noite, era raro ser chamado algum utente para ser atendido.

O tempo parou na Sala de Espera.
Estavam talvez umas oito pessoas, um idoso em cadeira de rodas, uma senhora embrulhada num lençol, e, outros utentes a aguardar pela sua vez. Dois ou três desistiram, foram para casa. Talvez pelas quatro da madrugada. Os outros seis lá ficaram toda a noite, até às 9 da manhã, quando de novo começaram a chamar alguns daqueles utentes, porque entretanto, outras urgências passavam à frente e, na realidade, a Sala de Espera, de novo, voltou a encher, numa constante a partir, talvez, das sete da manhã.
Uma noite sem dormir. Eu lá fui até ao carro. A Lurdes, ali, a aguentar. Os outros, aquele idoso, na cadeira de rodas, aguentaram, em silêncio, sem protesto. Foi muito desumano. Seis pessoas uma noite inteira. E familiares na rua nos muros da urgência. Naquela que, afinal, foi dito, por quem vive o dia-a-dia – “uma noite calminha”.

Ao iniciar este meu texto ocorreram-me duas ideias que acho importante voltar a sublinhar, ao reflectir sobre esta situação, é importante, separar o trigo do joio. Não devo, nem devemos a partir deste contexto da incapacidade de resposta do Serviço de Urgência do Hospital do Barreiro, confundir a árvore com a floresta.
Tenho um grande respeito pelo Hospital do Barreiro. As situações que ali já vivi, pessoalmente, e por muitas situações que tenho escutado, o Hospital do Barreiro tem profissionais competentes, dedicados de grande qualidade. Os serviços de uma forma global são eficientes e eficazes. Conheço alguns profissionais que vestem a camisola do Hospital do Barreiro, onde trabalham, com grande paixão, porque fazem o que gostam, e sentem no coração a importância do Serviço Nacional de Saúde. Dão tudo de si pela vida e na luta contra a morte. Amam a profissão.
A todos os profissionais, mesmo os do Serviço de Urgência, onde já vivi, por dentro, a energia que colocam para dar respostas, de uma forma intensa 24 horas por dia, numa rotação incansável, com a vida à flor da pele. Todos eles são resilientes e lutadores. Vão, por vezes, para além dos limites humanos. Choram e sorriem. São humanos.

É por isso que não devemos uma vezes aplaudir e outras denegrir, passando de bestiais a bestas.
Portanto, as situações que vivemos, como aquela que vivi ontem deve merecer a reflexão. Admito que os profissionais de serviço esgotem, que atinjam situações limite, perante um contexto pandémico, numa região onde de dia para dia os números voltam a ser assustadores, numa região envelhecida, que naturalmente gera mais fluxo de utentes para os serviços de urgência.
Mas isto é um problema que tem quer resolvido, e, na verdade, só pode ser resolvido com mais recursos humanos. E, tem que existir uma gestão atenta aos fluxos de forma a evitar os excessos que, pelo que ouvi, estão a acontecer de forma permanente. Várias pessoas disseram-me – “Estiveste doze horas, então não bateste o meu record”.

O deixa andar nos tempos de espera parece estar instalado como inevitável no actual contexto. E quando uma situação anormal, passa a ser a normalidade, algo está mal no reino da Dinamarca.
E, naturalmente, são estas situações de normal anormalidade que contribuem para a imagem degradante do Serviço Nacional de Saúde, para que se confunda a árvore com a floresta e não se separe o trigo do joio.

A verdade é que temos profissionais de qualidade, temos boas instalações, temos boas práticas. Temos um Hospital de referência.
O que falta? Talvez pensar como reforçar os Cuidados Primários de Saúde – em Alcochete, Moita, Montijo e até no Barreiro - com apoios de retaguarda de serviços de urgência que contribuam para evitar o excesso de deslocações ao Hospital do Barreiro.
Ou, reforçar a importância da Urgência do Hospital do Barreiro, dando-lhe plenas e mais capacidades para ter condições de responder a toda a sua área regional – Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo.

Avaliar os recursos humanos e, se neste período, é tempo de merecidas férias a trabalhadores que tudo dão de si e vestem a camisola do SNS, com o coração a pulsar nos nervos, então que se criem condições atempadas para que existam respostas.

Estou meramente a especular. O que sei é que a situação que vivi e que vi, seis portugueses viver, naquela noite, e, sei que, de facto, é hoje uma realidade diária no Hospital do Barreiro, esta é uma situação inadmissível e desumana. Será tudo isto normal? Será que tudo isto já está aceite e adquirido como inevitável?

Os efeitos da pandemia sobre o SNS, vieram demonstrar a importância positiva deste sistema para o país e, agora, não é tempo de baixar os braços, é tempo de reforçar e dar passos em frente, construir futuro. O pior ainda está para vir.

A Península de Setúbal carece com urgência que se unam vontades politicas e técnicas para que se avalie o papel do SNS na região, as suas capacidades regionais, a sua dependência de Lisboa, a abordagem da sua rede hospitalar, que deve ser valorizada nos seus três polos – Almada/ Barreiro/ Setúbal – e para este reforço desta rede é importante a construção da Ponte Barreiro Seixal.
E depois deste nível macro da rede hospitalar é preciso avaliar uma rede intermédia – que pode passar pelo Hospital do Seixal e Hospital Montijo, como áreas de intervenção e triagem sub regional.
Esta é uma matéria que tal como a NUT II ou NUT III, deve merecer dos politicos da região, pensamento politico e acção politica. Basta de silenciamento. É urgente debater o SNS na região, e, já agora os autarcas que silenciam o debate destas matérias na vida das suas comunidades são coniventes com o silêncio.

A situação dramática que se vive nos dias de hoje nas urgências é preocupante, é desumana.
Não é com bodes expiatórios que se resolve a situação. A culpa não é de tarefeiros, ou do cansaço dos médicos, dos enfermeiros, ou de outro pessoal, nem mesmo das gestões hospitalares.
A culpa se queremos um culpado, é, de há muito, da inexistência de uma estratégia para o SNS na região, que vai da rede dos Cuidados Primários à Rede dos Cuidados Hospitalares, e, cada vez mais por uma rede de Saúde Pública que aposte no promover saúde, em vez de valorizar a doença – melhorando recursos humanos e alargando as valências e condições técnicas. Envolvam os profissionais. Escutem os utentes. Façam politica, não politiquice.
Discutam como se estivessem a discutir uma NUT da Saúde.

Apesar de 15 horas de espera, que aguentei na rua, e, das situações desumanas que vi, aqui fica o meu Obrigado ao SNS, fazem o que podem, num país que, afinal, continua indeciso sobre que sistema de Saúde que quer como dominante – Privado ou Público.
E depois é isto que vemos. E vamos continuar a ver...

“Porque não foste ao Hospital da Luz, tem ortopedista na urgência?!”, perguntou-me uma amiga.
“Não fui, porque ainda acredito nas capacidade do Hospital do Barreiro”, respondo.

António Sousa Pereira

Foto - O lugar de espera dos familares.

 

As celebrações dos 500 anos que estão inscritas no território do concelho do Barreiro

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Faz hoje - 8 de Julho -  24 anos que nesta cidade, Barreiro, foi vivido um momento histórico de dimensão nacional.

A Marinha escolheu esta terra, plantada à beira Tejo e Coina, para celebrar os 500 anos da partida da Armada de Vasco da Gama, de Belém, em Lisboa, rumo à India, que aconteceu em 8 de Julho de 1497.

Uma epopeia relatada no «Roteiro da Viagem que em Descobrimento da Índia pelo Cabo da Boa Esperança fez D. Vasco da Gama em 1497", escrito por Álvaro Velho, do Barreiro. Que outros dizem de Alcochete.

Por essa razão, há 24 anos atrás, no dia 8 de Julho de 1997, nos 500 anos da partida de Vasco da Gama rumo à India, o Barreiro viveu com pompa e circunstância essa efeméride. A terra do autor desse manuscrito referido como o «Diário de Bordo». Razão que motivava José Caro Proença a defender que Álvaro Velho tinha sido o primeiro jornalista português. O repórter da viagem de Gama.

Mas, será que o Barreiro teve assim tão grande importância na epopeia dos Descobrimentos, e, cá estamos de novo a voltar a essas coisas da história e das estórias.
De facto de uma forma ou outra o território que hoje pertence ao concelho do Barreiro na época pertencia a Alhos Vedros, o Barreiro era um lugar de menor importância quer administrativa, quer no plano económico. E mesmo quando o Barreiro recebeu a «Carta de Vila», em 1521, o território onde provavelmente existiam actividades de apoio à epopeia maritima, nada tinha a ver com o Barreiro.
Não sou eu que o digo, são historiadores, que investigaram com documentos e factos. António Gonçalves Ventura – com tese de Mestrado e tese de Doutoramento que abordam estas matérias – com obras publicadas que permitem perceber e entender esta realidade histórica e epocal.

Uma coisa é o território do actual concelho do Barreiro integrar os Fornos de Cerâmica da Mata da Machada, os descobertos, e os que estão por descobrir. Outra coisa era naquela época dos descobrimentos essa zona «industrial« nada ter a ver com o Barreiro.

Significa isto que o Barreiro não deve valorizar este facto de no seu território actual estar inscrita alguma pegada dos descobrimentos. Claro que não. Pode e deve, por essa razão, naquele tempo que o Barreiro para alguns não existiu foi, na verdade, aqui, nas margens do Tejo e Coina que a Marinha e Portugal, assinalaram os 500 anos de uma data que faz parte da história da humanidade - 8 de Julho.

Pelos vistos, não é só de hoje que se comemoram 500 anos de história de factos inscritos neste território que hoje é o concelho do Barreiro. É que há mais história que a história que se quer reescrever, a história que se quer apagar e a história que está por escrever.

Era giro, por exemplo, pensar o que era o Barreiro, nesses anos 90 do século passado. O que se dizia do PDM. A cidade do betão, que naquele tempo era, agora já não é, enfim. Os sinais da desinsdustrialização que começavam a ferir a comunidade, os estudantes que ainda saiam à rua. A implosão das chaminés da Quimiparque. Tanta coisa. Para uns era o fim da história. E, afinal, há tanta história que ainda está por escrever.
É tudo. Fico por aqui, é só para recordar que há muitos 500 anos a celebrar no território do concelho do Barreiro. Até Coina celebrou 500 anos de Foral.

António Sousa Pereira

Vamos assinalar os 125 anos do município do Barreiro

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Fui hoje comprar os dois livros editados pelo município do Barreiro que foram divulgados no Feriado Municipal, um sobre a passagem dos 500 anos de atribuição de «Carta de Vila», em 1521, à então «Vila Nova do Barreiro».
O outro com o contributo de diversos autores visando proporcionar uma visão criativa-artística sobre o futuro – 1521/2021/ 2521.
 

Quanto ao livro relacionado com a «Carta de Vila», como diz um amigo meu, historiador – “não há duas histórias, só há uma”.
E, por essa razão, continuarei a repetir que as comemorações não são dos 500 anos do município do Barreiro, com o território, tal qual o conhecemos nos dias de hoje, porque o município do Barreiro – este que vai do Lavradio a Coina, do Alto do Seixalinho a Santo André, da Vila Chã a Santo António, da Quinta da Areia à Penalva, da Telha a Casquilhos, da Quinta do Torrão a Palhais, e por aí fora, esse município nasceu no dia 13 de Janeiro de 1898.
Em 1521 nem sequer existia o conceito de município, aplicado às vivências politicas da época ( embora a origem do conceito remonte á cultura romana, segundo me esclareceu um historiador). A «Vila Nova do Barreiro» recebeu a «Carta de Vila», e, nisso concordo, sendo a génese do(s) concelhos do Barreiro, que foram nascendo e morrendo.
Querer assinalar os 500 anos do município do Barreiro, ao assinalar a efeméride de um território que há 500 anos estava reduzido a menos da área da actual cidade, é querer atribuir a este actual municipio uma data de nascimento que não lhe pertence, quando nessa época que nasceu o lugar do «Barreiro» era, segundo os historiadores, um território pobre e sem dimensão económica na região.
O concelho de Coina, com Carta de Foral, nascido em 1516 era mais importante na época que o lugar do Barreiro, que, sublinhe-se, foi valorizado com a atribuição da «Carta de Vila».

Refira-se que naquele tempo, há 500 anos, não existia o conceito «município» que só nasceu com o municipalismo, nos anos da Monarquia Constitucional. Por isso o logotipo da efeméride é um erro histórico. Podem dizer que existia «Câmara» e «vereadores», sim, mas, em rigor histórico, não era município, e, de facto, não se deve confundir «foralismo» , com «municipalismo».
Mas isso é coisa para historiadores, tal como, essa discussão sobre «Foral» e «Carta de Vila», ter ou não ter equiparação a «Foral», no seu enquadramento politico- jurídico institucional no mundo do «foralismo».

Uma das coisas que devia ser objectivo de quem quer celebrar as efemérides da «história local», na minha simples opinião, era, na verdade, aproveitar estas efemérides para por ponto final a muitos mitos que foram sendo inscritos na dita «historiografia local», por exemplo, esclarecer a pouca influência que o lugar «Barreiro» teve na epopeia dos descobrimentos, que é diferente da importância que teve, sem dúvida, o território que actualmente integra o município do Barreiro, e teve um papel de relevo na dita epopeia, território que na época pertencia a Alhos Vedros.

Uma coisa é assinalar os 500 anos da Vila Nova do Barreiro, mesmo concelho, outra coisa é assinalar os 123 anos do municipio do Barreiro, este que somos, em toda a sua dimensão actual nascido no século XIX.
É isso, dentro de dois anos o município do Barreiro vai assinalar os seus 125 anos, uma efeméride a festejar – 2023.
Porque é essa, sim é essa, efeméride que assinala uma identidade territorial, aquilo que somos – concelho e município.
Uma identidade territorial que é mais que o Código Postal 2830, que na verdade é o código postal do território que envolve a área geográfica da «Vila Nova do Barreiro». Essa sim a vila, hoje cidade, celebra- 500 anos.

O municipio do Barreiro celebra 125 anos em 2023. Vamos festejar!

António Sousa Pereira

De Beethoven ao Barreirense – uma cidade de talentos

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Ontem, pela manhã, comecei o dia, por mero acaso a escutar a obra de Beethoven – Missa Solene - e deliciei-me na tranquilidade existente naquela harmonia, ritmo e musicalidade, entre entre os instrumentos e a voz humana. Divinal. Como sou leigo, fui ao mundo do Drº Google, onde tudo está e fiquei a saber que, há precisamente um século, o enorme compositor criou esta sua obra através da qual procurou expressar a sua forma de sentir a relação com Deus e com o mundo.

Aprendi que Beethoven, apesar de religioso manteve ao longo da sua vida um pensamento independente influenciado pela corrente filosófica iluminista e racionalista, colocando como núcleo central do seu modo de estar e ser o amor à Liberdade.
Beethoven era um amante da natureza e foi através dela que expressou o seu encontro com a ideia de Deus. Um panteísta que associava a essa forma de sentir o mundo e o divino aos seus ideias de Liberdade e Fraternidade.
Esta sua obra – Missa Solene – dizia ele que “vinha do coração” e “volta ao coração”. É, sem dúvida, uma obra sublime. Apetece fechar os olhos e sentir os sons entrar nos ossos. Festejar a vida por dentro da sonoridade que, de facto, toca o coração.
.
E foi assim, neste encontro melodioso e espiritual que comecei o meu dia de hoje, 5 de Julho, a data em que nasceu a ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado, a partir de uma célula adulta, segundo escutei na antena 2, quando circulava rumo ao Barreiro – da zona 2835 para a zona 2830 - por dentro do território da antiga CUF.
Viajava e recordava que por aquela rua entrava diariamente, na minha motorizada ou a pé, rumo à fábrica de Zinco Metálico, onde exerci funções como operário, nos anos 80. Os lugares e os sitios têm memórias, as nossas e de outros que nos antecederam. Memórias feitas de cheiros, estórias e pessoas, vindas de muitos lados.

Quando regressava da Redação do Jornal Rostos, encontrei umas amigas que comentavam estes tempo que vivemos de incertezas e dúvidas. Este vírus. Uma delas brincava que não era atingida porque respirou os cheiros da CUF. Eu comentei, que, nesse caso eu estou imunizado, porque na fábrica onde trabalhei tinha que andar de máscara por causa dos ácidos na atmosfera, totalmente poluída. Rimos. Vamos rindo, mas ele vai fazendo mossa, e batendo ás portas. Nessa altura sentimos que não é para brincadeiras.

Na rua encontrei o Costa Mano, estava radiante, com a vitória do Futebol Clube Barreirense e a sua subida ao Campeonato de Portugal.
“Não pensava, nos tempo de hoje, ainda sofrer tanto a ver um jogo de futebol. Nem a seleção nacional.”, comentava, com um grande sorriso, onde transbordava a felicidade, de uma esperança, que não finda, uma fé que tudo vence, um valor mais alto ainda, um só nome barreirense.

No jornal anuncia-se que o Metro Ligeiro vai crescer a sua rede até Odivelas e Loures. É isso Lisboa continua pensar-se para Norte. E nós a vê-los passar. Calados. Caladinhos.
Por aqui, há um empresário que comenta, junto a pessoas importantes, que podem fazer coisas importantes, que uma cidade só cresce se tiver emprego, se atrair empresas, e, de facto uma cidade para atrair empresas, tem que ter boas acessibilidades e ganhar escala territorial. Ponte Barreiro Seixal. Melhores transportes fluviais. Silêncio.

Ficamos felizes com slogans, agora é a «Fábrica de Talentos», esta a última novidade estratégica. Uma nova onda. Dá para curtir. A malta gosta muito de curtir. Ora o o potencial. Ora o talento. Filmes. Agora, é o fabricado no barreiro, os novos tempos, a fábrica de talentos. Uma terra onde não há emprego. E onde não há emprego não há pão. E onde não há pão, o talento esvai-se nos dedos. Enfim é vida.

E as redes de promotores nas redes sociais, vão entrar em acção. A mensagem tem que colar, é preciso repetir, muitas vezes, até à exaustão. Como é que não viram isto durante mais de 40 anos e, só agora, os talentos abandonados vão saltar para fazer futuro. Sim, e não é um futuro qualquer, começa agora a ser construído o Barreiro que teremos daqui a 500 anos. Agora digam que não à estratégia.

Comecei o dia a escutar Beethoven, divinal, solene, e, agora que vou descansar sinto o coro entrar nos meus nervos e penso - « Paz na terra aos homens de boa vontade».

António Sousa Pereira

O RIO DA TUA TERRA - BARREIRO

À minha Alice

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O teu Tejo é o teu rio,
das tágides e poemas,
das maravilhas e ternura,
das crianças a nadar e a sorrir,
dos pescadores em busca de vida.
 
O Tejo é a estrada para a outra margem,
que, por enquanto, só tem ir e voltar.
 
O Tejo da tua terra,
liga Portugal ao mundo,
que nele navega e sonha,
além, com esperança...
 
No rio da tua terra Alice,
estão memórias e estórias,
gaivotas e flamingos.
e um futuro por descobrir.
 
O Tejo da tua terra é poema,
é canção, é fado e vento norte,
é a porta à espera de abrir a margem,
que liga as duas margens,
e ser mais que miragem...
 
Alice, o rio da tua terra,
o Tejo, dos poetas, é azul,
é verde e até castanho,
pintura, fotografia,
crónica, reportagem,
paisagem e varanda.
 
O rio da tua terra Alice,
é belo como tu,
tem a beleza e a pureza,
que toca no coração.
 
Amor!
 
É por isso, só por isso,
que o Tejo é a minha Catedral,
onde descanso o olhar,
onde me deito a pensar,
onde flutuo a sorrir.
 
Alice beija o Tejo,
afaga-o com as tuas mãos,
toca nele o brilho do sol e do luar.
 
Se aprenderes a amar o Tejo,
aprendes a amar a vida,
com a natureza a tocar por dentro,
de ti, bem dentro, lá dentro,
onde pulsa o teu coração!
 
António Sousa Pereira
Barreiro
4 de Julho de 2021

Porque hoje é sábado...

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Quando fecundamos o tempo,
com amor que nasce nos olhos,
sentimos as palavras florir,
sentimos as palavras na memória,
esse lugar onde a quimica se faz,
uma chama azul de todas as cores,
azul petróleo, bébe, céu, mar,
que é Tejo, é Coina, é esperança!
 
Quando fecundamos a vida,
com paixão e criatividade,
sentimos todas as fantasias,
que nascem na imaginação,
esse lugar onde os neurónios,
semeiam raízes de ternura,
abraçam a plenitude do ser,
passado, presente e futuro.
 
Nesse instante feito de palavras,
ditas, porque pensadas com amor,
sentidas com o pulsar do coração,
então, só então, do tempo e da vida,
desse tempo de raiz no pensamento,
aí, só aí, nascem todas as palavras puras,
que não são corrente de engrenagem,
que não são algoritmo de produção,
que não desenhos de futuros ignorados,
daqui a 500 anos, ou de 500 anos passados,
que não são peças de quimeras,
que não são fábricas produtoras de ilusões,
e, por isso, não querem ser talentos sem futuro.
 
Sim, nesses instantes quando sonhamos,
tudo o que sonhamos no tempo e na vida,
quando dobramos o ciclo do tempo,
gritamos essa verdade de dentro dos nervos,
cansados de estórias feitas de imagens virtuais,
cansados de estórias feitas de pontes por construir,
cansados de mudanças por conquistar,
cansados de comédias de Esopo. Ilusões.
 
Na memória sentimos,
que a paixão só é verdade,
quando une, sem excluir,
quando faz, sem desconstruir,
quando não confunde coragem
com uma linha de montagem,
quando não confunde vontade,
com uma gesta de ambições,
quando no amar e fazer cidade
floresce o sol e o rio que somos,
tudo o que fomos e queremos ser,
tudo o que podemos ser , sem calar,
aventureiros nas diferenças,
homens, mulheres, crianças,
trabalhadores e empresários,
gente que gosta de lutar,
gente que acredita no sonhar,
gente que faz história com memória.
 
Sim, gente que tem memória e história,
gente desta cidade que se faz,
no seu fazer, que é fazer humanidade!
 
António Sousa Pereira
3 de julho de 2021

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