No Café Bar da SFAl, lá está o velho Relógio, vindo do século passado, está parado no tempo. Lá vai o tempo que o Ti' Amândio, lhe dava corda, e, mesmo quando parava, ele um excelente profissional de relojoaria, calma e serenamente, resolvia o problema e o «tica, tac,» voltava a marcar o compasso do tempo.
Mas ali está o relógio. Belo, a dizer-nos que o tempo ali não tem tempo, porque é eternidade, nas memórias inscritas, de muitas gerações. O café Bar da SFAL tem tantas estórias inscritas no seu espaço, que o tempo ali, é todo o tempo que quisermos. Para mim, é o lugar que abriu as portas à minha integração nesta comunidade. E, o lugar, onde olhei e, nos olhámos, pela primeira vez, olhos nos olhos. Sorrimos. E crescemos naquele espaço na descoberta da nossa interioridade. O eu e o nós. O eu e o tu. Não é Lurdes Pereira?
Hoje, sentei-me a beber o meu café matinal, por baixo do relógio. Sim, nesta manhã, optei por dar um passeio até ao «centro da vila». Ali, na SFAL, enquanto saboreava o café, divertia-me, rindo à gargalhada com texto de Miguel esteves Cardoso, no jornal Público, aquela «conversa de merda« Um texto sobre xixi e urinar. Mijo e mijar. Que ensinamos às crianças que não se diz mijar, mas fazer xixi. E pela vida inteira nunca mais mijamos, apenas fazemos xixi. Um texto onde ele explicava. Que temos a palavra «cagar», mas não existe cago como substantivo Eufemismo, disse. Salamaleques, comentava. Escreveu sobre fezes. E sobre esta temática esclarecia que ao falar em fezes e defecar, é preferível dizer «evacuar» ou «obrar». Eu lia e ria à gargalhada. Ria principalmente com «obrar». A Cândida que, entretanto, escutou a minha leitura, teatral do dito texto, para a Irene, o Isidoro e o Pequitio. Interrogava, com um ar incrédulo: "Isso vem no jornal !?".
Eu ria a bom rir. A Irene ria a bom rir. O Isidoro galhufafa. O Pequito sorria, apenas sorria. Eu até pensei, isto é cáca...gente! Sai a rir, pensava na definição de «obrar», que, segundo o Miguel Esteves Cardos, é «pôr os intestinos a funcionar». Na rua caminhava a rir sozinho. Divertido.
Café Bar da SFAL Lavradio - Barreiro 25 de maio de 2021
A vida é assim um caminhar para a eternidade, é de lá que viemos é para lá que caminhamos, tudo afinal é isso, apenas isso, um permanente tornarmo-nos eternos. Somos esse corpo, carne, sangue, nervos, água, essa matéria legada de outra matéria, que se transforma, vida que se faz vida, morte que se faz morte. E depois, somos matéria que pensa, essa a grande diferença, uma matéria que sente, que chora, que ama, que sorri, que se apaixona, que mata, nesse confronto do ter e o ser, que se faz, sempre e sempre, eternidade.
No calor dos dias, no turbilhão das angústias, ignoramos, desconhecemos, essa energia vital que transportamos, essa energia da mente, essa energia do sol, essa energia que uns dizem karma, outros ternura, eu, prefiro chamar-lhe fraternidade. Afinal ser fraterno é ser com o outro, é o eu ser tu, é o seu ser nós. Um abraço. Um beijo. Um sorriso. Apenas um sorriso.
Hoje, pela manhã, eu escrevia que com o tempo, pela experiência, aprendemos, ou vamos aprendendo, a sentir a diferença entre um sorriso e sorrir.
Um sorriso aquece o coração. Um sorriso dá um brilho único ao olhar. Um sorriso apaixona. Sorrir é um cumprimento. Sorrir é um olá Sorrir pode ser apenas, sim apenas, um pestanejar dos olhos. Uma ilusão de óptica. É vida. São os chamados sorrisos - estilo «ossos do oficio». Ficam com cara de plasticina. É o chamado sorrir no vácuo. O sorrir manipulador. O sorrir da «Noblesse oblige». Ouve um tempo que eu acreditava no Pai Natal. O tempo dos mitos também é um tempo de aprendizagem e de descoberta.
Hoje visitei o Mestre Kira . Uma pessoa que admiro pela sua imensa criatividade, pela sua resiliência, pela sua permanente paixão pela vida. Um Mestre da cor, da luz, das sombras, da ironia, do sublime, do equilíbrio, da ternura, da paciência, do caminhar poeticamente pelos dias. Sorrindo. Chorando. Amando, é pelo amor que ele abraça os dias. A vida para ele, é tudo o que é humano, humanamente humano. Telúrico. Magnânimo. O Mestre Kira. Sim, foi um encontro, hoje, em Maio, ao fim da tarde, no seu Atelier, ali, no Bairro Operário.
Estive hoje á tarde no Quartel dos Bombeiros Voluntários do Barreiro – Corpo de Salvação Pública. Recordei as tantas horas de luta e suor para chegar a este Quartel. Campanhas de Recolha de fundos. Campanhas de associados. Cedência de terrenos. Da Rua Almirante Reis até chegar a este novo Quartel foram muitos os que deram de si, de forma voluntária.
Esta é uma Corporação que faz parte da história de voluntariado e solidariedade que fez do território do concelho do Barreiro uma referência nacional nos séculos XIX e XX. Este ano comemora 90 anos.
Recordo o Manuel Feio, o comandante que me motivou para me inscrever como associado, e, afinal, o tempo passou e nunca tive a honra de receber o Diploma de 25 anos de associado. Nem sei quantos anos de associado tenho, mas as quotas, essas já estão pagas até ao final de 2021. O cobrador quando entra no prédio já vai gritando: Sousa Pereira. É um bom homem, divertido. Há anos que desempenha esta sua função. Uma coisa curiosa raramente é reconhecida a entrega e dedicação destes homens ou mulheres que palmilham os cantos da cidade. Recolhendo euro a euro, essas verbas que são um pequeno contributo para dar vida ao associativismo.
A do Polis é um lugar onde, é bem visível, para quem tem memória, onde s cruza o trabalho de diversos executivos autárquicos, do sonho à realidade, do pensar ao fazer. Ali estão inscritas muitas horas de trabalho de técnicos e políticos que sonharam cidade e a sua relação com o rio. Aquele é um lugar onde o Mestre Augusto Cabrita, ao passar nas margens do Coina, dizia: "Este é o nosso lago de Montreal". É um lugar onde, sem ilusões, é possível sentir o muito caminho percorrido para transformar e fazer cidade. Gosto de sentir ali viva e forte a palavra Barreiro, localizada precisamente no limite do território da cidade e no começo do território da Vila de Santo André. Paro a olhar e penso : como o Barreiro mudou. Como eu conheci ali a «Caldeira do Alemão», ainda nos anos 80 a entrar nos 90, e, também, no tempo que era inexistente a ligação até à Avenida da Liberdade, essa, já concluída na primeira década deste século XXI. Tanta coisa mudou. De diferentes gestões. Um exemplo que a cidade mexe, mesmo parada no tempo, ao abandono, no dizer de alguns futuristas sem memória, afinal transforma-se. A realidade é a realidade. E, só é possível fazer o que se faz nos dias de hoje, porque antes, outros, pensaram, sonharam, construíram e legaram futuro. É vida.
Mas, sempre assim foi e sempre assim será, as cidades, como as pessoas, que vivem tempos de perda de identidade, que andam à procura de um outro caminho, porque, na verdade, por vezes, não sabem para onde vão, nem sabem de onde vieram. Estão aqui coimo resíduos de intemporalidade. Essas cidades, e essas pessoas, não guardam dentro de si a energia que as podia fazer sentir o passado, vivo, a emergir no presente, é por isso, só por isso, que essas cidades e algumas pessoas dessas cidades falam em desconstruir e raramente falam em reconstruir. A actualidade é a verdade única – não há antes, nem depois. Ali, no Polis, senti o antes, senti o presente, e, senti, até que há um depois, que se vai prolongar pela Copacabana, dando futuro a esse «corredor do Coina», uma marca única que se estende até à Mata da Machada e, para a outra margem, unindo o Barreiro ao Seixal. Que pena a ponte pedonal ter sido travada. Já estava construída e imponente a ligar as duas margens. A fazer identidade na diversidade. Enfim...