Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Eu gostava tanto de ver os teus primeiros passos

127763255_10220581484665684_2358879804910347134_o.

 

Este tempo vai ficar gravado nos ossos do pensamento. É um tempo que faz sentir a solidão, como coisa real, que toca os nervos. Os desejos de partilhar ficam bloqueados, ali, no patamar da porta de entrada e saída para o mundo. É isso, que sentimos, lá fora a cidade!
Este é um tempo que dói pela ausência de um beijo, de um abraço, de um carinho, hoje, até dói sentir a ausência da sobranceria, do pedante – o tal que é uma pessoa importante, muito importante. Faz falta sentirmos o pulsar da comunidade.
 
Ficamos deprimidos. Ficamos presos na solidão. Chegam as noticias. Tristes. A estatística da morte. A morte diária que mata a vida, de tal forma que, até, alterou as médias estatísticas da esperança de vida. É um tempo que mata, mata a vida de morte matada, e, mata a vida de morte vivida. A vida é para viver em comunidade. Nós somos com os outros. A ausência da comunidade é a morte do nosso outro lado da vida. O estar e o ser.
Este tempo mata-nos por fora e mata-nos por dentro. Leva-nos o corpo, de amigos que partem sem uma partilha solidária do adeus. Leva-nos a mente quando nos rouba os beijos e abraços, os sons das palavras e o brilho dos olhos. Absorve-nos.
 
Faz-nos falta sentir a vida o bater no coração, ao meio da tarde, ou no começo da manhã, escutar, sorrisos, apontar os olhos com o dedo, misturado as nossas energias no sabor de um café, ou numa cerveja. Gritar – “eu não gosto de esperar!”.
Estar ali, fumando, ou não fumando, sentindo no espaço as palavras misturadas em ruídos. Gritos. A mãe que adverte o filho. O namorado que toca suavemente os dedos, sorrindo. Sim, faz falta esse calor humano. Sentir os nervos. Irritar. Sorrir. Piscar o olho. Dar enormes gargalhadas.
 
A vida comunitária nas redes sociais é insonsa, o beijar nas redes sociais não tem o sabor dos lábios, um abraço nas redes sociais não faz sentir o corpo a tocar no corpo, aquele aperto nos ossos que dá a energia partilhada, não provoca emoção, nem sentimos aquela centelha que faz abrir os olhos em sorrisos. Até as lágrimas nas redes sociais, são secas de sal e carinho.
 
Nas redes sociais os sentimentos fogem pelas margens das palavras, escondem-se nos intervalos do logaritmos, não têm olhar, não têm o som da voz, e, por vezes, nem têm rosto, são híbridos. As redes sociais são apenas meros geradores de saudade.
É por isso que a vida perde sentido quando damos sentido demais ao que se diz, ao que se comenta nas redes socias, porque falta-lhes humanidade. As redes sociais sufocam os sentimentos e, contraditoriamente, são elas, neste tempo de solidão, que permitem abrir as portas ao mundo. Escutar os silêncios do mundo.
 
Este é um tempo, que nos dá tempo, tempo para parar, tempo para mergulharmos por dentro do que somos, olharmos a nossa interioridade, sentir o tempo pulsar no coração e viajar por dentro do pensamento. Tranquilamente. Um tempo que permite tocarmos quem está ao nosso lado. Reencontrar. Redescobrir. Renascer.
Vamos sentido que a vida continua, que o mundo apesar de tudo não pára – ela, a terra, continua a girar.
 
Um destes dias recebi as imagens da minha Alice, a dar os primeiros passos. Soube tão bem ver aqueles passos, sólidos, de peito erguido a dar a primeira caminhada, a descobrir a sua autonomia. E fiquei a olhar, a rever, repetidamente, aquelas imagens e a pensar: «Eu gostava tanto de ver os teus primeiros passos». Fechei os olhos. Sorri.
 
Recebi outras imagens, afinal, é isto que as novas tecnologias permitem, nas quais ela olhava, serena e calma as próprias mãos, olhava uma mão e dizia: «mã», olhava a outra e dizia «mã». A descoberta do corpo. A aprendizagem das palavras. Este tempo rouba-nos estes momento únicos que não se repetem, dos primeiros passos partilhados, dos primeiros sons, que chegam em vídeo, mas o vídeo, não é a mesma coisa, não tem perfume, não tem sabor, não permite agarrar a Alice, como quem pega uma flor, e dizer-lhe, ternamente, ao ouvido: Linda conseguiste, já andas!
É isso - Eu gostava tanto de ver os teus primeiros passos!
 
António Sousa Pereira

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

COMUNICAÇÃO SOCIAL

AUTARQUIAS

ESCOLAS

EMPRESAS

BLOGUES DO BARREIRO

ASSOCIAÇÔES E CLUBES

BLOGUES DA MOITA

SAPO LOCAL

PELO DISTRITO

CULTURA

POLITICA

TWITTER

FACEBOOK ROSTOS

Em destaque no SAPO Blogs
pub