Mas, pronto, são coisas. A ficção mistura-se com a realidade. O importante é fazer passar a tal mensagem, das décadas sem nada se fazer, do só pensar. Isto cansa.
Uma ideia repetida, uma frase sincopada, é uma técnica do marketing, que visa estimular sentimentos, levar ao consumo de produtos e valores. É por isso que uma ideia repetida entra no léxico, de tal forma, quando o seu uso é regular que se transforma numa banalidade, afinal, o importante é manter “em banho maria” aquela ideia repetida, até à exaustão, até se tornar num pensamento corrente e vulgarizado. Abandono. Décadas. Obra. Na vida, quando decoramos um texto, só por repetirmos o texto, não significa que estamos a exprimir um pensamento. Um texto repetido, sem contexto, é uma mera reprodução de texto, não são ideias, são reprodução de textos, slognas, ideias vazias, porque não são pensamento consolidado, são pensamento gravado no hipotalamo, que não é pensado. No teatro, por exemplo, um bom actor tem que decorar o papel da personagem, para vivenciar a personagem, de forma que a dicção seja sentida com energia, expresse os sentimentos da personagem. Quando não se sente o papel, por vezes recorre-se ao improviso. Só que a vida não é teatro. A vida real não é um filme, ou um guião de um video, é por isso, só por isso, quando a ficção está desligada da realidade, sente-se que o texto é apenas encenação, sente-se que é improviso.
Tudo isto vem a propósito de um folheto que entrou ontem na minha caixa do correio, que li, com muita atenção, embora convicto que ele é apenas um, dos muitos, que vou receber ao longo deste ano, neste período pré-eleitoral autárquico.
Li e fiquei emocionado com aquele nota introdutória do “espero” que se encontre bem, de saúde, com coragem para ultrapassar todos os desafios que se avizinham, esta nota, fez-me recordar as cartas que a minha avó me pedia para escrever ao meu tio quando ele estava a trabalhar em Matosinhos. Era sempre o mesmo texto: “Querido Filho, espero que estejas bem de saúde, nós por cá todos bem”. Senti esse carinho, esse afecto, mas, a porca torceu o rabo, quando, de seguida, fui motivado a envolver-me naquele “estamos juntos neste desejo e nas ambições que queremos para a nossa cidade”. Aí, parei para pensar, e recordei aquela anedota, alentejana, quando de repente faltou a luz durante um baile e, o alentejano, no meio da sala foi apalpado e gritou: alto e para o baile! Até porque, de repente, aquele que vinha sendo um texto de afectos, marcado por uma relação pessoal, passou para um plano diferente, marcado de distanciamento, institucional, passando do “espero” que devia ser seguido de um “venho informar”, para uma linguagem que se transformou em “CMB informa”. Fiquei pensativo, porque não se percebe como um texto de “eu”, sem mais nem menos, se transforma num texto de uma “entidade”. Isso é complicado. Mas, pronto, percebe-se. Freud, explica isso. Certo!
E continuando na leitura, comecei a sentir necessidade de escrever este texto, que, aqui e agora, nesta manhã de fevereiro, estou calmamente a escrever para partilhar com quem tiver a paciência de ler esta crónica.
O dito texto anuncia a obra da Avenida da Liberdade, muito desejada e reivindicada pelos barreirenses, acrescentando, mais adiante, que esta obra vai por ponto final num nó rodoviário que subsiste há décadas, numa das mais movimentadas artérias da cidade, onde circulam diariamente milhares de pessoas do Barreiro e de concelhos vizinhos. Leio e volto a ler e reler. É mesmo isto que estou a ler, belisco-me, para ter a certeza. E, como tenho este defeito de ter memória e porque o que se escreve, quando pensado não deve estar desligado da memória, ao meu pensamento chegaram várias imagens daquele espaço da cidade. A Rua da Recosta. Os aterros da doca. O quartel dos Bombeiros do Sul e Sueste. Recordei que, afinal. aquele dito nó rodoviário não tem décadas, bas só pensar que o viaduto foi inaugurado no ano de 2004, na gestão de Emidio Xavier. Há portanto 17 anos. E, que o Terminal Ferro-Rodo- Fluvial foi inaugurado em 1995. Há 26 anos. E também que a Avenida da Liberdade, como existe, actualmente, não tem largas décadas, porque, de facto, nem são assim tantas as décadas que passaram desde que foi derrubado o muro da Bomfim que, só então, permitiu ligar a Avenida do Bocage à Avenida da Liberdade. Mas, pronto, são coisas. A ficção mistura-se com a realidade. O importante é fazer passar a tal mensagem, das décadas sem nada se fazer, do só pensar. Isto cansa.
E, por dentro da minha memória ocorrem-me as imagens de sonhos. Tantos sonhos. Aquele de se construir uma «marina» na zona do Terminal Rodo Ferro-Fluvial, e transferir o Terminal para o território da Baía do Tejo, sonho equacionado no âmbito do Masterplan, proposto na primeira gestão PS, ou, até, igualmente, todo esse mesmo sonho, integrado em projectos na gestão CDU, no âmbito do Plano de Urbanização da Quimiparque e área envolvente, e, ao pensar nesses sonhos, interroguei-me se foram coisas para esquecer, se foi tudo para o lixo. Ee tudo isto, motiva mais que razões, para equacionar se esta obra, que agora vai avançar, faz sentido, justifica-se, ou, até mesmo se a sua programação resultou de alguma discissão de pormenor sobre o futuro desta zona do concelho. Uma zona que é estruturante, sim estruturante, porque integra o pensamento sobre as zonas ribeirinhas e o chamado corredor do Coina. Que discussão foi feita? Onde foi abordado este projecto, em reunião de Câmara, na Assembleia Municipal ? Esta obra em que estratégia se enquadra npo pensar cidade? É mesmo uma prioridade? É mesmo uma reivindicação da população barreirense?
Quando li que esta é a artéria mais movimentada da cidade? Interroguei-me. Será? Certamente deve ter movimento de manhã e ao fim da tarde, durante o dia está às moscas.
Neste tempo de pandemia, não seria mais importante, por exemplo, pensar na revitalização da Rua Miguel Bombarda? Pensar o centro do Lavradio que está a degradar-se? Pensar a reconversão do Alto do Seixalinho? Renovar espaços de vivência quotidiana, para estimular a vida nas ruas, dar vida à cidade, melhorar a segurança, estimular o comércio local? Não, opta-se por reconverter uma zona para facilitar o acesso do carro particular e, diz-se, em simultâneo que vai motivar mais a atração pelo transporte público. Foram feitos estudos? Há algum inquérito que permita saber as eventuais opções dos utentes? Ou isto é mera conjectura!?
O que penso, afinal, é que esta obra é mais uma nesta azafama de demonstrar que se faz obra. O culto do obrismo. O culto da obra de fachada. Esta para inaugurar com pompa e circunstância lá para Setembro, mesmo em cima das eleições. Coincidência. Uma obra que se enquadra nessa «percepção» de planeamento, da cultura 2830, que fazer cidade é fazer rotundas, afinal, essas dão visibilidade e permitem a narrativa do «aqui à obra», do estamos a mudar a cidade. Quem se atrever a dizer o contrário, ou a ter opinião diferente, é um aziado, que se cultiva nas redes sociais, onde, em politica tudo é permitido. Clubite. Ofensa.
E, já agora, falar que ali vai nascer mais uma centralidade, numa zona de passagem, de milhares de pessoas do Barreiro e de concelhos limitrofes, é, mesmo pensar que as centralidades não são sitios para viver, são lugares para circular. É verdade, circular é viver. Esta concepção de cidade que as centralidades são pontos para sair e entrar – esta, na Quinta da Lomba – são ideias que estão subjacentes quando se refere que se vai transformar em mais uma entrada da cidade. Já agora, entrada e saída. Afinal, é nisso que se está a transformar o Barreiro numa cidade com entradas e saídas, desde que começou a queda do seu tecido industrial – desindustrialização, desferroviarização, descormecialização. E, até hoje, o país, não achou justo pagar ao Barreiro aquilo que o Barreiro lhe deu, como grande centro industrial. Continuamos, sem que exista uma luz ao fundo do túnel.
Mas esta comunicado, carta, oficio, vai certamente animar, hoje, a reunião da Assembleia Municipal, com as narrativas do costume - os senhores estão preocupados é com obra, que se faça obra, que se mude o que está ao abandono há décadas. E, pronto, cá vamos, felizes, transformado com esta lista de prioridades, com a criação de novas centralidades, como aquele crime no Campo do Luso. Claro, está melhor do que estava, não se aceitou foi discutir que podia ser melhor, criar uma verdadeira centralidade, numa das zonas de maior densidade populacional.
Pronto, aí temos, mais uma rotunda para circular e, neste caso, para facilitar de forma mais eficaz e rápida a vida ao transporte particular...e mais eficiente do ponto de vista do transporte público. É isso, o carro particular, o transporte público, transformar a cidade para que se possa circular com eficiência, eficácia, para sair e entrar, nas horas de ponta – de manhã e ao fim da tarde. Entretanto, os espaços da cidade que podiam ser revitalizados, esses, continuam, ao abandono. Divirtam-se!
O Barreiro precisa de emprego, precisa de atrair investimento.
Obrigado ao PSD, que faz trabalho de casa, podemos discordar, mas, tem uma agenda politica. Obrigado à CDU, que faz trabalho de casa, podemos discordar, mas, tem uma agenda politica. Sim, basta de balas de prata, populismo e demagogia.
Houve um tempo que possuir uma televisão, uma máquina de lavar, um carro, tudo isso era um luxo. Todos os produtos quando são novos no mercado, começam por ser um bem que só alguns têm acesso. Depois na medida que o mercado vai ficando preenchido ou, até, devido, às leis da concorrência, os produtos começam a vulgarizar-se, o acesso é mais prático, normaliza-se, assim, o que era um luxo, passa a ser uma banalidade, através da massificação. Foi assim com os rádios, as televisões, as máquinas de lavar, os carros, telemóveis, os computadores, os tablets. O que inicialmente era luxo, depois passa a ser uma necessidade de todos – um bem comum. O mesmo aconteceu nas duas últimas décadas, com a Internet, os computadores, os tablets, as linhas RDIS, o wireles, wi-fi, e, certamente irá acontecer com outros produtos que já estão a nascer e outros sendo inventados. Inicialmente são caros, portanto, nem todos terão acesso apesar de serem essenciais nas vivências da actualidade, que fazem este mundo em transformação.
Recordo como o acesso a um telemóvel era um luxo. Recordo como o acesso a um computador era um luxo. Recordo como, mesmo tendo telemóvel e computador, não se viajava pela internet com a facilidade dos tempos de hoje, porque os custos eram elevados. Eram custos elevados ao nível individual e mesmo ao nível empresarial, ou institucional Hoje banalizou-se. Hoje, tudo isto deixou de ser luxo e passou a ser uma ferramenta essencial, no mundo empresarial, as escolas, nas relações humanas.
Recordo quando, não há muito tempo, começou com mais intensidade o processo de instalação de computadores nas escolas. Em algumas escolas por acção do Poder Local – Câmara ou Juntas de Freguesia - outras das próprias escolas, com os seus recursos. Tanto que foi feito, eram os primeiros passos. A Câmara Municipal do Barreiro por exemplo, ali pelo ano 2015 e 2016, instalou em todas as bibliotecas das escolas da rede pública, computadores e rede wireless – essa que, então, tinha falhas constantes e até custos que não aconselhavam a usos exagerados. Sistemas que não avançaram por dificuldades financeiras. Há pessoas que não sabem o que é viver com dificuldades financeiras.
Por exemplo, ali pelo ano 2008, quando começou a moda do wi-fi nos cafés, ou espaços públicos, o Barreiro foi um dos concelhos que criou rede wi-fi no Mercado 1º de Maio. E isto, é assim, é natural, na medida que as tecnologias se tornam mais acessíveis e mais baratas, os produtos – hardware ou Software - vão se massificando e banalizando na vida quotidiana, nas empresas, nas escolas e nas instituições.
Neste sentido, se no passado foram dados passos na melhoria de recursos, hoje, é normal até, pela maior facilidade de condições de compra e de custos de utilização, que se decida melhorar e intervir nesta área. Sabemos até que há programas, de fundos comunitários, alguns recentes, muito recentes, que abrem caminho para melhorar e equipar serviços e escolas com estes recursos. Por essa razão, quem, nos dias de de hoje, dirige municipios, deve estar atento, utilizar financiamentos, e, fazer, aquilo que outros não fizeram, não porque não quisessem fazer, mas porque não existiam condições técnicas, nem financeiras.
Recordo, por exemplo, na Câmara Municipal do Barreiro, foi realizado um imenso investimento, na gestão de Pedro Canário, na aquisição de computadores, na formação dos recursos humanos, para melhorar a rentabliidade e a operacionalidade dos serviços. E que custos para a época. Não havia wi-fi nesse tempo.
Avançamos dez anos no uso de tecnlogias digitais
Entretanto, é importante recordar, que os tempos de hoje, a pandemia do COVID, como, um destes dias, referia um especialista do Instituto Superior Técnico, numa acção promovida pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, veio dar um contributo para avançarmos uma década no uso das tecnologias digitais. Por exemplo o teletrabalho, que, previa ser uma prática empresarial dentro de uma década, estes tempos de confinamento, motivaram o seu desenvolvimento acelerado, o mesmo aconteceu com o ensino, onde foram dados passos na implementação das aprendizagens através de plataformas digitais, dinamizando-se o ensino à distância, colocando-se a necessidade imperiosa de fazer investimentos, adquirir computadores, instalar sistemas wi-fi, isto era inadiável. Avançamos no tempo aceleradamente. Tivemos que avançar aceleradamente.
Soube ontem no decorrer da reunião da Assembleia Municipal do Barreiro que, dando continuidade ao que tinha sido feito antes, de instalar wi-fi nas Bibliotecas de todas as escolas do concelho, agora, neste mandato, foi o processo alargado às salas de aulas. Muito bem, é de louvar.
Mas, decidi escrever este texto porque fiquei admirado, nem percebi, qual a ligação que existia entre este investimento, e, aquilo que estava em debate, o importante documento estratégico apresentado pela CDU, acerca do pensar o futuro do Barreiro, e, a proposta do PSD para que seja debatida uma ideia para fazer face aos efeitos da pandemia.
Fiquei a pensar e entendi, afinal, é sempre a mesma cassete, aquela narrativa que encontramos o Barreiro estagnado, sem inovação, ainda existia REDE RDIS nas escolas, e, só agora foi mudada, e, coisa e tal, não fizeram nada pelo Barreiro. Cansa mesmo. E depois a avaliação do documento da CDU com sendo uma espécie de «bala de prata». E que a CDU está sempre à espera que sejam outros a resolver os problemas. E que, agora, não há «bala de prata», há trabalho, porque os outros não resolvem os nossos problemas. E, depois da CDU levar, levou o PSD, que se atreveu a afirmar que a CMB não percebe o tempo que aí vem, e, quem se atreve a dizer uma coisa destas só tem um nome – populista e demagogo, sendo, até, subtilmente empurrado para as mãos da extrema direita. Fico admirado, porque o PS Barreiro tem um acordo politico com o PSD Barreiro. Como é que um partido de esquerda não tem coragem de rasgar o acordo que assinou com um partido que, pelo dito, nos dias de hoje, está quase nas mãos da extrema direita, é populista e demagogo. Ou isto é filme para video. Ou então é muito estranho. Não diz a bota com a perdigota.
E, depois, seguiu-se o rol do ranking. Somos dos que fizemos mais investimentos no âmbito do combate ao COVID, reconhecido pelo Tribunal de Contas. O segundo concelho que mais investiu no distrito de Setúbal. Mas, não são explicados, nem esclarecidos quais são ditos investimentos, nem em que áreas, nem com que objectivos, nem sequer se há alguns resultados. Isto, aliás, já foi perguntado na última reunião de Câmara, esperemos que existam respostas na próxima sessão da Assembleia Municipal do Barreiro. Se os investimentos forem todos como aquele que está apontado para o Movimento Associativo -122 mil euros. É de bradar ao céus. Os 70 mil para a cultura esses vieram das bandas da AML.
Afinal, quando numa reunião da Assembleia Municipal do Barreiro são apresentados documentos, com visões partidárias, certo, mas que pelo seu conteúdo merecem reflexão de todos, envolvimento nas diferenças, então, se a opção é eliminá-los do debate, com a conversa que estamos em tempo pré-eleitoral. Não vamos lá.
Puxar de balas de prata, de populismo e demagogia para fugir ao debate, é muito estranho. Por isso gostei de Isidro Heitor, esse sim, disponível para dar o corpo às balas. Vamos ao debate.
E, penso, penso mesmo, que é urgente que se faça reflexão sobre matérias de relevo para o concelho. É preciso envolver todas as forças politicas. Não com é ficar pela cassete - mandem contributos. É preciso discutir, com opções, com as diferenças. Debater ideias, ir para além da banalidade, não fizeram nada – a bala de prata, o populismo, a demagogia. É preciso mobilizar os politicos, os empresários, os dirigentes associativos, as escolas, as instituições, para fazer desta crise uma oportunidade. É preciso coragem! Reduzir o debate politico a adjectivações - – balas de prata, populismo, demagogia - é não olhar a história, é não sentir o concelho que somos, é estar adiar, por receio do confronto com seriedade, a importância de fazer pensamento estratégico.
O Barreiro precisa de ter voz, uma voz, muitas vozes, que motivem o governo central a colocar o Barreiro na sua agenda – a Baía do Tejo, o território ferroviário, a Mata da Machada, a centralidade de Coina na Península, a ponte Barreiro Seixal, e, mesmo não sendo para o tempo da «bazuka», não desistir da TTT, porque não inicialmente ferroviária. O aeroporto, seja a opção Montijo, Alcochete ou Beja, não impede nada disto, antes pelo contrário, exige que se pense o planeamento do território com esta agenda, e, essa agenda, é nossa no plano do pensar cidade, mas é do (s) governo(s) e, quase tudo isto, só o fazemos com os outros. Sim com os outros.
O Barreiro precisa de emprego, precisa de atrair investimento. Obrigado ao PSD, que faz trabalho de casa, podemos discordar, mas, tem uma agenda politica. Obrigado à CDU, que faz trabalho de casa, podemos discordar, mas, tem uma agenda politica. Sim, basta de balas de prata, populismo e demagogia. Por este andar, temos w-fi nas escolas e uma cidade sem luz ao fundo do túnel. Divirtam-se!
A execução do projeto “Comunicação Digital de Proximidade”, aprovado no âmbito do Orçamento Participativo Portugal 2017, que resultou da minha candidatura, agora, vai permitir a promoção da literacia mediática através de formação e apoio na produção de conteúdos digitais e será dinamizado nas bibliotecas municipais e através de estúdio móvel multimédia para formação, nomeadamente junto de escolas e movimento associativo.
Em Setembro de 2017, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, foram divulgados os 38 projectos aprovados no âmbito do primeiro Orçamento Participativo Portugal.
Entre os projectos aprovados, estava aquele que foi resultado da candidatura de António Sousa Pereira - COMUNICAÇÃO DIGITAL DE PROXIMIDADE, que foi contemplado com o valor de 90 mil euros. Um projecto que apresentei no Auditório Municipal Augusto Cabrita, no «Encontro Participativo», aberto para todos que quiseram apresentar ideias.
O Orçamento Participativo Portugal abrangeu a totalidade do território português, integrando grupos de propostas de âmbito territorial diferenciado. Foram selecionados 600 projectos ao nível nacional, nas diferentes regiões. Na região de Lisboa e Vale do Tejo foram aprovadas 7 projectos, entre eles o dedicado à COMUNICAÇÃO DIGITAL DE PROXIMIDADE, que, na altura da entrega dos diplomas aos projectos aprovados, foi merecedor de um elogio por parte da Ministra da Modernização Administrativa, por ser único nesta área.
O PROJECTO - «COMUNICAÇÃO DIGITAL DE PROXIMIDADE» visava a criação de um veículo, devidamente equipado com computadores e tablets, para percorrer a região - colectividades e bairros, disponibilizando a utilização dos recursos e ensinando a importância da comunicação digital. Ensinar, MOTIVAR, DAR A CONHECER A COMUNICAÇÃO SOCIAL E LIVROS. Uma nova biblioteca itinerante , não de livros, mas de formação digital a Internet de proximidade. Tinha um período de concretização: 18 meses e um orçamento 90 000,00 €.
Por um lado estava entusiasmado, com o projecto, por outro lado sentia que ia ter um imenso trabalho para viver os meus dias, numa acção que seria mitigada de muito voluntariado e amor na sua concretização e ligação às comunidades. Não vou falar das reuniões. Nem das variações do que surgiram para o projecto. Nunca desisti. Enfim, depois de voltas e voltas, para que o projecto se concretizasse, um dia após mais uma reunião, contactei a AMRS – Associação de Municipio da Região de Setúabl. Sofia Martins aceitou o desafio. O importante era, fosse de que forma fosse, que o projecto fosse implementado na região de Setúbal. Ainda bem que a AMRS aceitou o repto.
Cedo percebi que a minha ideia inicial, não seria concretizada. Cedo percebi que nunca seria o protagonista do projecto. Mas, cedo percebi que fosse com quem fosse, até ao limite, os 90 mil euros tinha que vir para a margem sul. E vieram. O resto é vida.
Foi o reconhecimento do longo percurso de trabalho em rede das Bibliotecas da Região de Setúbal, que levou a DGLAB a aceitar a minha proposta e eleger a AMRS, e a sua Rede Intermunicipal de Bibliotecas da Região de Setúbal, como parceiro ideal para a implementação deste projecto.
O projeto Comunicação Digital de Proximidade permitirá dar ênfase às questões da literacia mediática, cada vez mais evidenciadas pelo papel insubstituível que a comunicação tem nos dias de hoje.
Na última reunião da Câmara Municipal do Barreiro foi aprovado o protocolo com a AMRS para avançar que o terreno avance. O mesmo foi feito numa recente reunião da Câmara Municipal da Moita. O mesmo vai acontecer nas diversas Câmaras da região de Setúbal
A execução do projeto “Comunicação Digital de Proximidade”, aprovado no âmbito do Orçamento Participativo Portugal 2017, que resultou da minha candidatura, agora, vai permitir a promoção da literacia mediática através de formação e apoio na produção de conteúdos digitais e será dinamizado nas bibliotecas municipais e através de estúdio móvel multimédia para formação, nomeadamente junto de escolas e movimento associativo.
Hoje, neste ano 2021, em plena pandemia, ao tomar conhecimento que este meu sonho está sendo concretizado, quero reconhecer o empenho da AMRS por ter aceite o meu desafio. Não foi o que sonhei, mas é um sonho lindo, este de ver nascer algo que começou num desejo enorme de contribuir para alargar a vivência da democracia e abrir caminhos para desenvolver conhecimentos digitais, aproximando o mundo digital dos cidadãos.
Valeu a pena acreditar, não desistir. Estou feliz. Estou mesmo muito feliz por ver nascer este projecto nas Bibliotecas Municipais.
Este processo para mim é uma experiência de vida que confirma aquela frase de Walker Elliot: «Perseverança não é uma corrida longa, são muitas corridas curtas, uma após outra”.
Esta uma vitória para a região de Setúbal, tantas vezes estigmatizada. Se a minha região ganhou eu ganhei.
Estes tempos de confinamento não nos proporcionam vivências quotidianas, encontros com a cidade, vivenciar o espaço urbano.
Um dia, lá longe, nos anos 80, no decorrer de uma visita de estudantes de arquitectura ao Barreiro, registei na memória alguns conceitos sobre o pensar cidade e o fazer cidade. Uma das coisas que aprendi é que o espaço urbano é continuidade da nossa habitação, que nós fruímos do espaço envolvente das nossas ruas. E este, foi um tema que veio para as conversas no decorrer da visita à Cidade Sol, um modelo de urbanização, que nasceu após o 25 de Abril, sendo na época, referenciado como exemplo, do construir cidade moderna, do fazer novas centralidades, do urbanizar com qualidade de vida. A habitação continuava na sua envolvência, com zonas verdes e de lazer, com ruas que deixavam entrar o sol, uma urbanização com os olhos num modelo de cidade inovador e de futuro.
A visita à Cidade Sol, contrapunha-se a outras visitas que os mesmos alunos, anteriormente fizeram a outras zonas do concelho, urbanizadas antes do 25 de Abril, nomeadamente na Verderena e Alto do Seixalinho, onde no espaço urbano os prédios cresceram como cogumelos, sem preocupações de criar zonas de estacionamento, nem espaços verdes, com uma enorme densidade populacional, sem ligações ao rio, sem preocupações de pensar que a nossa habitação prolonga-se no espaço envolvente.
A longo de anos foram gastos pela Câmara Municipal do Barreiro, em diferentes gestões, ainda hoje isso acontece, e vai continuar a acontecer, de tal forma foram os logradouros, os espaços envolventes a prédios, que os patrões da construção civil deixaram ao abandono. Como sei o imenso trabalho de Juntas de Freguesia e da Câmara, ao longo de anos, e os milhões gastos, nestes mais de 40 anos após o 25 de Abril, na recuperação valorização de logradouros, na construção de arruamentos e passeio, sinto, indignação quando, nos dias de hoje, fala-se de um concelho ao abandono, fala-se que hoje é que à obra, como querendo apagar todo o imenso trabalho de muitos homens e mulheres que, nestes anos, deram contributos e, até, permitiram criar condições para a reflexão e o pensamento sobre o fazer cidade possa, deva, dar saltos qualitativos, para que não se comentam os mesmos erros, principalmente esse de não se pensar a cidade como um espaço de cidadania, sim, só pensando o espaço urbano com algo que é continuidade da nossa habitação, proporciona que possamos fruir o espaço urbano.
Ora tudo isto vem a propósito do discurso muito em voga de centralidades e de transformações que se vão registando no espaço urbano, que, em nada coincidem com este pensar a cidade como lugar de fazer e viver cidadania. Um espaço urbano para fruir a cidade.
Tudo isto ocorreu-me a propósito de dois espaços públicos que são, hoje, tema de conversas nas redes sociais, que gera trocas de adjectivos. Os substantivos, esses, não existem. Ou seja, a substância das conversas, por imperativos dos tempos que vivemos, passam para a mera adjectivação, atingindo níveis da banalidade e ofensas.
Um espaço é o estacionamento criado na zona da Rua Miguel Pais. Estive a visitar. Não gostei da opção. Não gostei que na reconversão de uma zona ribeirinha se optasse por dar lugar ao automóvel. Se me perguntarem se como «parque de estacionamento», está, ou não, melhor que estava, claro que está. Aliás está melhor como parque de estacionamento, e, até, melhor que se naquele local, com um acrescento de aterro tivessem sido construidos os prédios que estavam previstos que só não avançaram devido ao 25 de Abril, numa discussão que, tanto quanto sei, começou na Comissão Administrativa de tal forma, pelo que apurei, até foi consultado o falecido Gonçalo Ribeiro Telles, que terá expressado um grande apreço pelo facto dos barreirenses quererem combater o betão na zona ribeirinha de Alburrica. Uma opção que envolveu pessoas de diferentes matrizes ideológicas, num acção pioneira na defesa de valores ambientalistas e de ligação da cidade ao rio. Depois, bom depois muitos sabem a história. Uma história que devia ser escrita, essa da cidade e o rio, com tantas estórias, que davam uma tese de doutoramento. Por isso, não gostei da opção tomada. Aquele espaço merecia um olhar de um arquitecto paisagista, merecia coragem politico, merecia que fosse pensado que a habitação tem continuidade no espaço urbano. Está melhor que estava. Está. Já podia estar há muitos anos. Mas, se após tantos anos das lutas que levaram a evitar a construção de prédios, chegar a esta solução, é mesmo de quem não pensa a cidade e só anda a correr atrás do «obrismo».
A outra obra é aquela Rua Verde, que liga visa ligar o Parque Catarina Eufémia e o centro da cidade ao rio, um ideia que foi equacionada pelo arquitecto catalão Joan Busquet, no âmbito do projecto do Forum Barreiro, da reconversão da Avenida Alfredo da Silva, da implementação do REPARA, visando implementar o conceito de ligação da cidade ao rio, fazer do rio um ponto de encontro com a centralidade urbana. Gostei do conceito, logo quando o mesmo foi apresentado, e, aguardava com algum interesse o resultado final da intervenção naquela artéria, de forma a percepcionar a forma com podia ser vivido este conceito de «rua verde» - a rua que leva o centro da cidade para a zona ribeirinha, motivando a passear, proporcionando uma visão de centro que se prolongava para o rio através dos passadiços. A intervenção naquela rua, para dar vida e afirmar este conceito merecia uma atenção e uma intervenção modelar, estruturante, porque ela é isso, uma via estruturante do pensar e fazer cidade, do pensar e viver a cidade e o rio. Não havia pressa. O importante era fazer uma obra de futuro. Mas, há sempre um mas, esta cultura da actual gestão – do aqui há obra – só pensa em obrar e, foi feito aquele «mamarracho pintado de verde». É uma obra que não passa de obra de «fachadismo». Não gosto. Gosto do conceito. Não gosto do resultado. E disse. Esta é a minha opinião. Tenho o direito a ter opinião. E como não alinho na anestesia do silêncio, nem quero ficar sufocado, nesta cultura do obrismo. Aqui fica o meu pensamento. Já agora acrescento, que esta «politica do obrismo» - do aqui há obra, do culto da obra – tem sufocado o debate sobre a cidade que temos e a cidade que queremos. A discussão que hoje se faz no pensar a cidade em torno do «culto da obra» é uma mera manobra de diversão, para estimular os bons e os maus, os que fazem obra, os que não fizeram obra. É uma discussão que banaliza a discussão, numa frase síntese - «está melhor do que estava», nem permite que se pense – “podia estar melhor que aquilo que ficou”. É este o nível a que se chegou no pensar e fazer cidade. Entretanto não há revisão do PDM, não há pensamento estratégico. O que se faz é mera herança do que estava negociado, pré- negociado, pré-estudado, estudado, e, pelo que se diz, até parece que estamos a renascer das cinzas. Continuamos isolados. Sem empregos. Com os antigos espaços ferroviário e industrial, em pousio. Um concelho com um potencial adiado. Enfim, vamos ver como vai aguentar, no pós pandemia, o nosso tecido económico, feito de gente que arregaça as mangas e trabalha...
A vida é um instante. Um som. Um grito. Uma lágrima. Uma dor. Um sorriso. Um beijo. Um abraço. Um som de violino. Uma decisão. Um olhar. Uma luz. Uma montanha. Um rio. Um lago. Uma serra. Uma floresta. Uma praia . Uma noite de luar. Um hamburguer. Uma sopa de cação. Uma rua. Uma ponte. Um teatro. Uma brisa. Um neblina matinal. Os dedos a dançar no corpo de veludo. Um sol pôr a deitar-se nas águas de um rio ou a esconder-se nas curvas de uma montanha. Um amo-te! Um vai à merda! Um Tic Tac.
A grandeza da vida. A sua grandeza é ser única. Os nossos lábios. Os nossos olhos. As nossas mãos. Os nossos sons. A nossa consciência. As nossas dores. As nossas loucuras. A nossas paixões. As nossas lutas. As nossas caminhadas. O nosso tempo. O nosso pensar. O nosso somos. Somos, nós e os outros. Mas, só nós construímos esse tempo único, esse intervalo, que vai entre o pensar, parar, correr, voltar a parar, cair, erguer, decidir, recomeçar, escutar os sons, olhar a luz. Acreditar. Escrevemos a vida com as nossas mãos. Escrevemos a vida com os nossos passos. Serenamente. Nascemos nus e nus partimos. Somos.
Vivemos ou sobrevivemos. Viver é sentir a beleza que floresce na ternura da Primavera.
O belo. O luar. O sol. O azul. A gaivota. O perfume. O sabor. A leveza do tempo.
O som. O violino. O piano. A guitarra. O saxofone. A poesia. Sentir na vida a paixão de um poema. A cor. A tela. A arte. A natureza. Ser.
Sobreviver é sentir as dores nos olhos no tédio que rasga o nevoeiro. O relógio. O trepidar na estrada. O barco. O autocarro. O estacionamento. A rua sem jardim. A superfície comercial. A ausência. A solidão. O tempo que pesa nos ombros. A vivenda. A importância que damos aos sermos importantes. O penacho. A experiência. Existir.
A meta final é a integridade. Esse encontro com a interioridade, esse sentir que nos dá paz, tranquilidade. Esse sentir que valeu a pena, que vale a pena, que, afinal, o belo da vida é isso que somos. Um momento. Uma decisão. Um instante. Totalidade que abraçamos no coração.
. Celebram-se hoje – dia 11 de Fevereiro – 119 anos do nascimento de Manuel Cabanas.
Colocar o quadro do Mestre Manuel Cabanas, de autoria do Kira, no Auditório Manuel Cabanas, na Biblioteca Municipal do Barreiro, é uma merecida e justa homenagem ao Mestre Manuel Cabanas. Dois amigos abraçados, num espaço de saber, cultura e de vivências democráticas.
Da ideia à realidade. Este um exemplo real. São as ideias que se transformam em práticas humanas. São as ideias que dão vida real aos sonhos. Um sonho realizado é uma ideia que se concretiza.
A ideia surgiu, simples, sem pretensões, essa, apenas com o desejo de juntar vontades, motivar um grupo de pessoas que se disponibilizassem a dar o seu contributo e, todos juntos, procederem à aquisição do quadro do Mestre Manuel Cabanas, de autoria do pintor Kira, para oferecer à Câmara Municipal do Barreiro. A ideia estava lançada.
A associação VULTOS DA NOSSA TERRA, aderiu ao projecto, motivou-se, e, nesse juntar vontades, foi lançado o repto ao jornal «Rostos» de gerar, através da concretização desta ideia, a dinamização de uma acção civica e cultural, promovendo-se uma campanha de crowdfunding ( uma angariação pública de fundos) visando a aquisição do quadro iconográfico de Manuel Cabanas.
O processo decorreu célere, dinâmico, com grande envolvimento da associação VULTOS DA NOSSA TERRA, e, concretizou-se o objectivo, tendo através da campanha sido obtida a verba de 2.225,00 €, depositados na conta do pintor Kira. Foram 46 os participantes.
Recorde-se que o valor total necessário para aquisição do quadro estava acordado em 2.000,00 €. A importância foi superada e está encerrada a campanha pública de recolha de fundos. O quadro é de todos. Agora será efectuada a entrega ao municipio.
A ideia que foi motivadora deste projecto visava sugerir à autarquia que este quadro do Mestre Manuel Cabanas, pudesse ser colocado no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro, ao qual recentemente foi atribuído o nome do Mestre de xilogravura, autodidata e republicano português, lutador antifascista, humanista, Mestre Maçon, democrata e membro fundador do Partido Socialista.
Mestre Manuel Cabanas, algarvio, natural de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António, fez do Barreiro a sua terra. Sempre teve o Barreiro nos cantos mais nobres da sua interioridade. Amava o Barreiro e os barreirenses.
O Mestre Kira e o Mestre Manuel Cabanas foram amigos daqueles que ao longo da vida, nos dias que conviveram, partilharam as dores, as esperanças, as paixões pela cultura, pela arte e pela criatividade.
Colocar o quadro do Mestre Manuel Cabanas, de autoria do Kira, no Auditório Manuel Cabanas, na Biblioteca Municipal do Barreiro, é uma merecida e justa homenagem ao Mestre Manuel Cabanas. Dois amigos abraçados, num espaço de saber, cultura e de vivências democráticas.
Hoje, dia 11 de Fevereiro, o Mestre Manuel Cabanas assinalaria o seu 119º aniversário. Daqui a um ano esperemos estar a celebrar o seu 120º aniversário.
Tive a honra de conhecer o Mestre Manuel Cabanas, com ele partilhar conversas, aqui no Barreiro e na nossa terra natal. Um homem integro que sempre respeitei e que sempre me abraçou com amizade, um homem que me alertou para os perigos, antes de Abril acontecer, um homem que me ensinou a sentir a força da Liberdade, aquela que foi a grande causa da sua vida. Um homem que sabia o valor das diferenças, foi através dele que conheci, antes do 25 de Abril, outro conterrâneo nosso – Vicente Campina, comunista, então no exilio. Eram grandes amigos. Partilhavam a luta «contra o cerco». Foram homens como estes que abriram o caminho para aquele dia «puro e limpo» que vivemos em Abril.
Hoje, que o Mestre Manuel Cabanas celebraria os seus 119 anos. Aqui fica o meu obrigado pessoal, e do jornal «Rostos», a todos os que participaram na campanha, e, naturalmente, uma referência muito especial à forma apaixonada e voluntária como a associação VULTOS DA NOSSA TERRA, contribuiu para tornar real este sonho de dar um abraço e homenagear o Mestre Manuel Cabanas.
Agora, o desejo é que o município do Barreiro receba fraternalmente este quadro do Mestre Manuel Cabanas – um quadro com história - adquirido, por cerca de meia centena de barreirenses, todos contribuindo de forma voluntária, por amor ao Barreiro e por reconhecimento à arte e á cultura - bem expressa nestes dois nomes Manuel Cabanas e Kira. Obrigado.
António Sousa Pereira
Nota - A entrega do quadro irá ser feita, em data a aprazar, a qual será previamente divulgada através do jornal ROSTOS, na sua edição online.
Este tempo vai ficar gravado nos ossos do pensamento. É um tempo que faz sentir a solidão, como coisa real, que toca os nervos. Os desejos de partilhar ficam bloqueados, ali, no patamar da porta de entrada e saída para o mundo. É isso, que sentimos, lá fora a cidade!
Este é um tempo que dói pela ausência de um beijo, de um abraço, de um carinho, hoje, até dói sentir a ausência da sobranceria, do pedante – o tal que é uma pessoa importante, muito importante. Faz falta sentirmos o pulsar da comunidade.
Ficamos deprimidos. Ficamos presos na solidão. Chegam as noticias. Tristes. A estatística da morte. A morte diária que mata a vida, de tal forma que, até, alterou as médias estatísticas da esperança de vida. É um tempo que mata, mata a vida de morte matada, e, mata a vida de morte vivida. A vida é para viver em comunidade. Nós somos com os outros. A ausência da comunidade é a morte do nosso outro lado da vida. O estar e o ser.
Este tempo mata-nos por fora e mata-nos por dentro. Leva-nos o corpo, de amigos que partem sem uma partilha solidária do adeus. Leva-nos a mente quando nos rouba os beijos e abraços, os sons das palavras e o brilho dos olhos. Absorve-nos.
Faz-nos falta sentir a vida o bater no coração, ao meio da tarde, ou no começo da manhã, escutar, sorrisos, apontar os olhos com o dedo, misturado as nossas energias no sabor de um café, ou numa cerveja. Gritar – “eu não gosto de esperar!”.
Estar ali, fumando, ou não fumando, sentindo no espaço as palavras misturadas em ruídos. Gritos. A mãe que adverte o filho. O namorado que toca suavemente os dedos, sorrindo. Sim, faz falta esse calor humano. Sentir os nervos. Irritar. Sorrir. Piscar o olho. Dar enormes gargalhadas.
A vida comunitária nas redes sociais é insonsa, o beijar nas redes sociais não tem o sabor dos lábios, um abraço nas redes sociais não faz sentir o corpo a tocar no corpo, aquele aperto nos ossos que dá a energia partilhada, não provoca emoção, nem sentimos aquela centelha que faz abrir os olhos em sorrisos. Até as lágrimas nas redes sociais, são secas de sal e carinho.
Nas redes sociais os sentimentos fogem pelas margens das palavras, escondem-se nos intervalos do logaritmos, não têm olhar, não têm o som da voz, e, por vezes, nem têm rosto, são híbridos. As redes sociais são apenas meros geradores de saudade.
É por isso que a vida perde sentido quando damos sentido demais ao que se diz, ao que se comenta nas redes socias, porque falta-lhes humanidade. As redes sociais sufocam os sentimentos e, contraditoriamente, são elas, neste tempo de solidão, que permitem abrir as portas ao mundo. Escutar os silêncios do mundo.
Este é um tempo, que nos dá tempo, tempo para parar, tempo para mergulharmos por dentro do que somos, olharmos a nossa interioridade, sentir o tempo pulsar no coração e viajar por dentro do pensamento. Tranquilamente. Um tempo que permite tocarmos quem está ao nosso lado. Reencontrar. Redescobrir. Renascer.
Vamos sentido que a vida continua, que o mundo apesar de tudo não pára – ela, a terra, continua a girar.
Um destes dias recebi as imagens da minha Alice, a dar os primeiros passos. Soube tão bem ver aqueles passos, sólidos, de peito erguido a dar a primeira caminhada, a descobrir a sua autonomia. E fiquei a olhar, a rever, repetidamente, aquelas imagens e a pensar: «Eu gostava tanto de ver os teus primeiros passos». Fechei os olhos. Sorri.
Recebi outras imagens, afinal, é isto que as novas tecnologias permitem, nas quais ela olhava, serena e calma as próprias mãos, olhava uma mão e dizia: «mã», olhava a outra e dizia «mã». A descoberta do corpo. A aprendizagem das palavras. Este tempo rouba-nos estes momento únicos que não se repetem, dos primeiros passos partilhados, dos primeiros sons, que chegam em vídeo, mas o vídeo, não é a mesma coisa, não tem perfume, não tem sabor, não permite agarrar a Alice, como quem pega uma flor, e dizer-lhe, ternamente, ao ouvido: Linda conseguiste, já andas!
É isso - Eu gostava tanto de ver os teus primeiros passos!
Ontem, a convite da minha amiga Isabel Braga, entrei numa «tertúlia zoom», na qual participaram antigos alunos do Externato de Vila Real de Santo António, a minha terra natal. Não fui aluno do Externato. Recordo quando as suas instalações eram na «avenida», ali, em frente ao «Café Empurre», e, mais tarde passaram para «zona do farol», junto à Escola do Ensino Primária dos «moços», mesmo por trás da Cantina.
Achei estranho o convite de Isabel Braga, ela, também vilarealense, antiga aluno do Externato. Mas sendo de Vila Real, disse-me, talvez apareça alguém seu conhecido. Venha conversar. E lá estive.
La na terra, os meninos e meninas do Externato eram pessoas de outra classe social, talvez possa ter convivido com alguns, mas, não recordo, eu era do pessoal da Rua da Espanha (uma espécie de Rua Aguiar, no Barreiro).
Mas, deixando para trás esses pormenores, quero registar como foi agradável ter participado nesta «tertúlia».
Nestes tempos de confinamento, na verdade, tudo o que seja possivel realizar para estimular os afectos, abrir portas de diálogo, esses, são sempre momentos que permitem respirar e sentir o pulsar do mundo. A alegria de sentir que todos somos humanos.
E, como acontece sempre quando abrimos o nosso coração ao diálogo, a conversa tornou-se numa viagem por dentro de memórias e estórias. Recordações. Não reconheci nenhum dos participantes, com excepção de Isabel Braga, que, tal com eu, há muitos anos fez do Barreiro a sua terra, a terra dos seus filhos.
Dizer, que Isabel Braga, para além da sua actividade profissional de professora na Escola Secundária Augusto Cabrita, é, uma apaixonada por fotografia, uma criativa, que faz dos seus olhos objectivas, sim, porque um fotógrafo tem que sentir que a objectiva é a continuidade da sua forma de olhar o mundo, como dizia Henri Cartier-Bresson – “fotografar, é colocar na mesma linha, a cabeça, o olho e o coração”.
Isabel Braga desde que a conheço é uma agitadora, uma construtora de pontes, uma animadora, uma criativa, é, mesmo, como se diz na minha terra: «uma marafada».
Gosta de juntar pessoas. Gosta de conversar. Gosta de agitar. Não gosta de águas paradas. Não se incomoda com o politicamente correcto. O importante é fazer. Agir.
E, esta, afinal, foi mais uma das suas agitações, o seu desejo de reencontrar amizades, juntar o passado com o presente. Vasculhar nas memórias. Sentir que todos somos aquilo que o tempo faz de nós, nas alegrias e nas tristezas, em todo o tempo que vivemos em comum.
A conversa da «tertúlia do externato» foi um momento para recordar pessoas da minha infância – o João «Pechinha», o Roque, o Vargas. Foi um percorrer pelos espaços da vila, porque falámos de ruas, e, na verdade, as ruas da minha terra, como certamente as ruas de todas as terras, são ruas e lugares com rostos, são ruas e lugares com memórias, com estórias.
Em todas essas memórias e estórias está inscrita um pouco da nossa personalidade do que fomos, do que somos, porque todos vamos construindo a vida com os outros, nos sitios que se inscrevem no tempo que percorremos. A vida.
Na conversa, recordámos os nomes de barcos – o Agadão, a Conceiçãonita, a Maria Rosa, o Tufão. Falámos da Fábrica do Parody (onde trabalhou a minha mãe, a minha tia e a minha avó). Recordei lugares da minha infância. A Avenida da República, onde abria a porta a olhar o Guadiana. A minha Rua da Espanha, o Largo da Bica. Onde cultivei amizades para a vida. Falámos de pessoas e de lugares. Soube de pessoas que já partiram. Falou-se do Cine Foz, do Manuel Cabanas e, até, do Adragão.
Recordei os dias, antes de Abril, quando no Glória, uma velhinha colectividade, à noite, no Bar, com outros conterrâneos cantava as canções de Zeca Afonso e do Adriano. Um nome que ficou na memória, desse tempo, foi o meu amigo Camarada. Ele, que nas primeiras férias em Vila Real, após o 25 de Abril, fiquei a saber que era um dos fundadores do então PPD. Era homem bom, com quem sempre mantive uma amizade, porque os amigos, se são amigos, sabem respeitar- se nas diferenças. Esta é, acredito, a força de uma cultura democrática.
Um dos participantes na tertúlia que está a viver em Viana do Castelo, deu a conhecer as suas lindissimas aguarelas de Vila Real. Belas. Davam uma bela exposição. As autarquias – junta ou câmara – deviam proporcionar que este projecto se concretizasse. Divulgavam a criatividade de um arquitecto vilarealense e a sua visão estética sobre os lugares da «vila-cidade». Uma terra é feita das memórias dos seus lugares.
O engraçado é que dos participantes na tertúlia, só um estava em Vila Real, os restantes estavam em diversos pontos do país, esses, que foram sendo comentados, assim como outros, que cada um foi inscrevendo nas suas vidas – Faro, Beja, Vidigueira, Barreiro, Viana do Castelo. E as terras onde estão os filhos Barcelona ou Amesterdão.
Em todo esses lugares tinham recordações, estórias para contar e memórias. Um pouco a vida de professores que, ontem como hoje, sempre se fez de terra em terra, semeando saber.
Em certo momento, entrou na tertúlia um neto, sentou-se no colo da avó, e, naturalmente, não podia faltar a minha Alice, que ontem, ontem mesmo, deu os seus primeiros passos sozinha. Ela também entrou na Tertúlia a caminhar para o futuro.
Sim, igualmente, entrou o livro bilingue - «Fé/ Faith» - com as belas fotografia e citações, uma obra de Isabel Braga.
Em suma, foi uma conversa agradável. Fica inscrita. Era giro, numa próxima tertúlia, outros participarem, estas tertúlias permitem recordar, comunicar, entrar pela memória. Recordar faz bem aos nervos e estimula o pensamento.
No mundo de hoje, acreditem, cada vez mais dominado pela ausência de rostos, este diálogo, mesmo virtual, é necessário e importante, para promover afectos, gerar diálogos, partilhar a vida, que é para viver e não para consumir.
Enquanto aqui existimos, neste nosso tempo, que é a nossa vida, só faz sentido encher os dias comunicando, construindo, estreitando laços de fraternidade. Sorrir.
A todos aqueles que comigo, lutaram e contribuíram, para deixar um mundo melhor.
A todos que partilharam comigo os dias sonhando, acreditando, que a amizade não é um momento, mas é algo que se grava no coração. Um beijo, Um abraço. Uma ternura.
A todos que fazem parte da minha vida!
E, no tempo que vivi, para além de algumas amizades únicas, que sabem quem são - estão num cantinho de silêncio e ternura - sei como era impossível ter vivido todo este tempo que vivi, apaixonado pelos dias, todos os dias, se não tivesse sempre ao meu lado, nas horas duras e de quebra de sorrisos, aquele alento, aquele aroma, aquele amor e carinho da minha Lurdes, do meu Miguel, da minha Rita, da minha Marta, da minha Alice, da minha Xana, do meu Neves...sim, o novo apêndice também entra neste carinho que faz brilhar os olhos - o Alexandre.
Obrigado à vida. Adoro viver. Amo a vida.
Tudo o que vivi ensinou-me a encontrar o sublime. A cor. A luz. O som. Os valores que dão energia aos dias - Liberdade, Criatividade, Fraternidade!