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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

O «hackerismo» o «anonimato virtual» sinais da decadência da cidadania

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Na última reunião da Câmara Municipal do Barreiro, Bruno Vitorino, vereador do PSD, numa intervenção no período antes da ordem do dia, insurgiu-se contra uma página produzida por uns energúmenos que, a coberto do anonimato, dedicam-se a fazer aquilo que é conhecido na giria por crónicas de «esgoto social».
Pelo que disse o autarca, ali, ofendem as pessoas pessoas, fazem ataques de carácter, enquanto exaltam outras personalidades da vida local.
Nunca os li. Acho que, também, já fui um dos premiados, pelos seus escritos, segundo comentaram comigo alguns amigos.

Não sei o que escreveram, nem me interessa. Nunca liguei a anónimos. Cartas anónimas, no tempo das cartas, conheci tantas. Blogues anónimos, no tempo dos blogues, conheci tantos. Tudo que é anónimo para mim é escória. Podem engolir o que escrevem e vomitar.

Pelo que disse Bruno Vitorino, aquilo é feito por um grupo profissional e bem organizado.
Também, pelos comentários que vou lendo parece que é um grupo com um pensamento estruturado, sabem o que estão a fazer, os alvos são estudados, porque têm objectivos politicos, ou motivações para captar as atenções, só atacam quem lhes pode dar visibilidade, ou quem pode ser «líder de opinião» nas redes sociais.
Mas, as vitimas, de forma inocente caem na esparrela e comentam, fazendo o que eles querem – falem bem ou mal de mim, é preciso é que falem de mim. Isso é tão velho.

Por essas razões, estive indeciso se devia escrever, ou não, este texto, mesmo não dando qualquer referência ao nome dos ditos e ditas. Afinal, este texto vai aguçar a curiosidade dos que desconhecem o famigerado serviço de marketing politico.

Não os cito, porque não merecem ser citados. Só merece ser citado e referenciado quem tem corpo, alma e dignidade.
Bem fez Bruno Vitorino, na sua brilhante intervenção, ignora-los por completo. A lama como outras coisas é para pessoas com rosto desviarem-se.
Dar-lhes crédito, era dar-lhes importância.

Mas, nada disto me admira. Isto já vem de longe. Já conheci estas coisas noutros tempos.
No século XX eram cartas anónimas, comunicados sem assinaturas, bafiosos, podres, que, por vezes, denunciavam os lutadores pela liberdade à Policia Politica.
Nos tempos da democracia, começou a era dos blogues anónimos, também foram uma marca de combate social, de baixa politica, que, muitas vezes, tresandava a “esterco social”. Alguns ficaram famosos, não pela qualidade, mas pela mixórdia intelectual.

No Barreiro, este tempo de usar o anonimato fácil, que a internet permite, começou a ser usado, com uma nova dinâmica, há dois ou três anos, antes das últimas eleições autárquicas, atingindo o seu ponto máximo em plena campanha eleitoral. Foi tenebroso.
Eram e são dezenas de perfis falsos, usados com as mais diversas funções, ou para dar muitos likes, patilhar, fazer correntes de apoio a figuras locais, ou para fomentar ódios de estimação – fomentando a chamada teoria do inimigo comum - ou, até, promovendo campanhas de difamação organizadas, com temas seleccionados para gerar «culpados», e, igualmente gerar os «inimigos do progresso».
Mas, ao mesmo tempo erguiam-se bandeiras e criavam-se ilusões, apontando o nascimento de salvadores, novas gerações, portadores de ideias e sonhos que lançavam as sementes de um mundo novo, contra os velhos caducos do século XIX. O conflito de gerações foi intencionalmente gerado como elemento, de clivagem social.

Usaram técnicas de análise de «estudos de opinião», de avaliação de conteúdos das redes sociais, para conhecer as «percepções» e a partir desses estudos, colocaram perfis falsos e alguns verdadeiros – as ideias têm que ter actores – a propagar preconceitos, estigmas e a difundir esses sentimentos. O lixo. As ervas. O abandono. A degradação.
Por exemplo, o lixo junto aos contentores, sacos colocados e fotografados no meio da estrada, eram tema constante, de critica, sendo apontado até à exaustão o mau serviço público prestado pela Câmara. Depois, passado o período eleitoral, as mesmas situações, referenciadas pelos mesmos, atrás ditos, passaram a ser comentadas, nas redes sociais, como um efeito da falta de cultura e civismo dos cidadãos.
Isso, ou por exemplo as fotografias das ervas nos passeios, que eram uma vergonha, que as juntas de freguesia não tratavam, mas agora, os ditos hackers, sublinham que é um problema que resulta das alterações climáticas, dificil de resolver.
Enfim, é esta guerrilha, foi esta guerrilha que fez a realidade virtual nas redes sociais, que está na origem da criação das páginas denunciadas por Bruno Vitorino.

Mas, voltando ao assunto que motivou este texto, pretendo sublinhar que a realidade dos tempos de hoje, é que, na verdade, vivemos cada vez mais em dois mundos paralelos – o mundo real e o mundo real-virtual das redes sociais.

O parecer sobrepõe-se ao ser. Nas redes sociais sucumbimos ao excesso de «informação», somos iludidos por meias verdades.
É preciso muita força interior, muita convicção de ideias e valores para não deixarmos o «nosso eu», ser engolido pelo tsunami das redes sociais.
Nos dias de hoje, se nos descuidamos essa máquina e, aqueles, que usam de forma permanente como estratégia e realização de ambições pessoais, ou de grupos, eles, desfazem o nosso «eu central», desconstroem a realidade, inventam verdades, e usam toda a criatividade para condicionar as nossas opções e a nossa liberdade de escolha. A democracia virtual é uma ilusão.
O mundo não é apenas feito de bons e maus, esses gerados pelos técnicos da nova era internet. Há também os mediocres, os suficientes, os excelentes, os péssimos.

Na medida que a sociedade se vai desestruturando no modelo do «fazer cidadania», e, vai nascendo o modelo da «cidadnia virtual», as redes sociais assumem um papel dilacerante do nosso eu de cidadãos activos e condicinam a nossa vontade. Somos enganados. Somos engulidos. Somos fustigados. Somos iludidos, tudo isso, principalmente por gente anónima e sem escrúpulos. Famintos do poder.

Eles não fazem isso de forma inocente, eles fazem isso porque querem esvaziar a cidadania activa, desviar da participação interventiva – aquela feita olhos nos olhos, aquela que defendi numa acção que, um dia, fui convidado para falar sobre associativismo.
Eles querem centrar o fazer cidadania num mundo virtual, com perfis falsos, com anonimatos, misturados com alguns verdadeiros.
Sabemos, até, que alguns verdadeiros, são daqueles que se autoclassificam de grande nível intelectual, usam uma linguagem dita ideológica – são muito diferenciados, uns falam de «muros ideológicos», outros de «pureza ideológica». Há para todos os gostos.

Os bukldogs das redes socias, esses então, não passam de hackers ao serviço dos donos. Gostam de desempemhar esse papel, agridem, só usam adjectivos, são narrativas sem substaância – repetivas, sempre com a mesma argumentação do pior dos mundo. É uma forma de taparem o tédio das suas vidas, ou até de esquecerem os seus dramas pessoais. Serve-lhes de catarse. Os buldogs inventam mentiras. Gostam de prestar bom serviços aos donos.

A «cidadania virtual» estimulada insere-se numa estratégia que visa dinamizar projectos de intervenção direccionados para a «gestão da opinião». Uma opinião boa. Quem não está por nós está contra nós. É como antes do 25 de abril, ou como no tempo do PREC.
O objectivo é desumanizar a vida da cidade, por isso, só por isso, é que se escondem no anonimato.
As redes sociais contribuem para alargar a influência de grupos minoritários – 50 ou 60 militantes de um partido, ou de uma causa, são geradores de energias que catalisam para além, muito para além, da sua importância real na vida comunitária.
Uma coisa é ter face com rosto. Discordamos. Sabemos quem está a falar e as suas opções. Outra coisa é estar escondido e querer ser o paladino da verdade.

Na verdade, quando nas redes sociais esses grupos se escondem no anonimato, é, sem dúvida, porque sabem que têm pouca credibilidade social, ou porque nunca nada fizeram pela comunidade, ou porque não passam de uns aprendizes de feiticeiros. Precisam de máscaras para iludir.
Eles sabem que as suas caras reais, não tem a cotação social, nem lhes daria crédito de serem agentes fazedores de opinião, é por isso, só por isso que se escondem no anonimato.
É por isso, só por isso que fazem ataques ao estilo talibans aos que não se escondem e não temem ter opiniões. Ignoram que ter opinião não é ter a verdade.
Eles são a verdade, querem ser a verdade, a única verdade. O pensamento único, aquele que sempre destruiu a democracia e castrou a liberdade.
É isso que eles são castradores da democracia.

Este hackerismo não passa de uma doença infantil da democracia, gente que quer ser á custa de outros. Grande Bruno Vitorino. Boa lição de democracia.
Para discordar do Bruno Vitorino não preciso de usar o anonimato. Digo-lhe olhos nos olhos.

É o infantilismo dos «hacker politicos«, porque eles são politicos - mesmo que meros servos - que os motiva a atacar personalidades que eles invejam, ou que os seus tutores invejam e temem, porque são pessoas com opinião e verticalidade social. O que lhes falta.
Eles não sabem o que é isso, vivem de joelhos e lutam pela sobrevivência. Coitados e coitadas.

Sim, estes hacker anónimos que Bruno Vitorino denunciou, não passam de pseudo- doutores(as), que vivem subservientes a grandes líderes. Há no mundo muitos exemplos desta realidade do mundo virtual - Trump, Bolsonaro, Putin...acrescentem os que quiserem, são cada vez mais no mundo.
É isto que está a levar a democracia, democraticamente para o silêncio.

Estes «hackeres», afinal, são meros lacaios, prestam um serviço de vassalos, rastejam na imundicie do fazer politica.
Um dia os seus tutores, quem sabe, vão apresentar-lhes a factura daquilo que, já hoje, recebem para cumprir este servil e submisso papel de escória da comunidade. . É a lei da sobrevivência.
É verdade, sim é verdade, vi alguns dos tempos dos blogues serem triturados, pelo seu comportamento desta natureza.

E, obviamente, não dão a cara, porque se o fizerem cai-lhes completamente a máscara de democratas que acham que são, que fazem passar na vida real.
Aliás, eles estão convencidos que são o suprasumo do viver democrático, são a barricada que se opõe a outras barricadas. Não percebem que todos os que usam esses esquemas são todos iguais.
Todos os anónimos são iguais, não uns mais iguais que outros. Metem nojo. É uma canalhice moral.
Enfim, parece que vale tudo para justificar a sobrevivência..

Este hackerismo, afinal, só ataca quem lhes pode meter o dedo na ferida, quem os denuncia, quem não os teme, quem os enfrenta. Sejam jornalistas. Sejam cidadãos ao nível individual. Sejam cidadãos que vivam causas.
Eles atacam o carácter porque sabem que são pessoas de carácter que não temem olhar olhos nos olhos, se eles, tiverem a coragem de dar a cara.
Eles não sabem o que é o carácter, não sabem o que é ética. Acham que são protagonistas da ética, quando promovem a cobardia. Se ao menos fosse uma luta clandestina com um nome, uma dimensão ideológica. Não são nada, nem aquilo que eles dizem defender merece, por dignidade e humanismo, que eles apreçam na praça pública a dizer que são defensores daqueles valores. Isso é humilhante.

São esquizófrénicos, ao viverem o «eu real» e ao viverem o «eu virtual», são de certeza pessoas com neuroses ou psicoses. Ao viverem a vida entre o anonimato e uma vida real, só podem ser psicopatas.

Certamente o anonimato diverte-os. É infantil. Brincam às escondidas, é essa a realidade psicológica. Gozam esquizófrenicamente, principalmente quando estão sentados, ao lado das vitimas que eles caluniam, e, ali, numa atitude de sociopata, deliciam-se a viver a reacção das vitimas. Se soubesses que fui eu que escrevi aquilo de ti.. coitados.
Eles vivem na vida real, mais ou menos real, com o «eu real», à mesa do café a falar, por vezes até batendo com as mãos nas costas da vitimas, ou dando-lhes beijos.

Em suma, é esta a forma de fazer cidadania e fazer politica no século XXI, este hackerismo é o que alimenta as agendas locais, como se viu até já é assunto de uma reunião de Câmara. Nunca isto desceu tão baixo.
O hackerismo é o carvão que vai, amanhã, alimentar as caldeiras das estratégias politicas. Enquanto se discute estas barbaridades, estas fulanizações, não se discute a cidade, nem se pensa futuro.

Fico apenas com uma dúvida, se estes construtores do hackerismo, à noite, quando estão sós, sentem, ou não, suares frios, por saberem que não passam de uns vermes ao serviço de forças superiores, que lhes dão umas migalhas, talvez, com a promessa que “um dia vais ocupar o meu lugar”, ou, um dia vou dar-te um lugar privilegiado.

Em suma, este «hackerismo« que faz a vida dos tempos de hoje, é um dos sinais mais visiveis da decadência, da desumanização da sociedade.
No Barreiro é um exemplo real que emerge na vida de uma cidade, no seu processo de pós-desindustrialização, cidade sem emprego, cidade envelhecida, cidade sem projecto, cidade sem visão, cidade que não sabe para onde vai, cidade que se entretém em «jogos virtuais», em «manobras de diversão» de pseudo confrontos de bons e maus, porque esta é uma forma de autoflagelar-se e fazer a catarse.

Está a ficar para trás o tempo do Barreiro, vila ou cidade, onde a intervenção civica se escrevia, por exemplo com a palavra ETRI, ou quando os estudantes das escolas do ensino secundário enchiam as ruas da cidade.
A cidade que vivia a politica com intensidade, com paixão, com irreverência, com cidadania activa, com confrontos, por vezes mesmo com excesso de agressividade. Esse era o tempo que o Barreiro era terra de emprego, na CUF, na CP, no comércio local. Uma cidade viva. Uma cidade dormitório, onde a habitação tinha continuidade na vida associativa.
Foi Barreiro. Esse foi o Barreiro.
Agora é, cada vez mais, «barreirinho». O «barreirinho» que em vez de ideias em confronto, destila ódio. O pior ainda está para vir. Sempre ouvi dizer quem lança ventos, colhe tempestades. Os sinais já surgiram nas recentes legislativas. Continuem a colocar lenha na fogueira. Continuem a gerar estigmas.

O que parece é que «hackerismo» quer fomentar uma nova cidade, sem participação, sem activismo, um cidade que se transforma num dormitório, e, para estar animada, consome, festas e festarolas. O associativismo que faz cidade e cidadania esse que seja resiliente. Aguente.
O hackerismo é o sinal da decadência, da perda da cidadania solidária.
É a cidade do parecer e não do ser, é, talvez por isso que gostam de dizer que são, porque, no fundo, lá no fundo da consciência, não são – o que os move não é o ser, é o ter...

Cá por mim, como sou um optimista-pessimista acredito que, por aqui, ainda há gente que luta, que é resiliente, e pode dar um contributo para evitar essa estratégia de desconstruir a cidade que fomos e que somos, fazendo cidade, fazendo cidadania.
Obrigado, Bruno Vitorino, pela coragem de denunciar!.

António Sousa Pereira

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