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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Uma semente que ajuda a fazer eternidade. Até sempre, Fernandinho!

 

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A vida é este caminhar rumo a esse encontro com a eternidade. Todos sabemos isso, ao longo do tempo que vamos percorrendo, essa, afinal, é uma realidade presente. Sim, procuramos esquecer, talvez ignorar, até que, um dia, essa realidade toca o nosso quotidiano, quando recebemos uma qualquer mensagem, aquela que transporta a noticia da partida de um amigo ou amiga.

Vivemos e vamos abraçando o tempo, todo o tempo que faz de nós, o que nós somos. O tempo não é um vazio. O tempo vivido só faz sentido quando vivido por dentro de laços, quando o construímos com laços humanos. Abraços. Brincadeiras,. Bocas. Risos. Provocações. Cumplicidades.
São esses os laços que nos ligam aos lugares, ao sitio, à terra, são esses os laços que nos levam a sentir que a nossa terra, é essa, a terra onde vamos construindo memórias, nos nervos, onde guardamos todos aqueles que nos fizeram encher o tempo não de palavras, mas de vivências reais.

É por isso, só por isso, que dói sempre, quando sentimos a partida de um amigo ou de uma amiga, porque, com eles partem memórias. Instantes. Contextos. É um pouco de vida vivida que rompe dentro do nosso tempo vivido.

Recordações. É isso as recordações. Os sonhos.
Hoje, recebi uma dessas mensagens, de forma inesperada, seca, como o som de um trovão a rasgar a mente, ou de um relâmpago a iluminar as memórias.
Partiu o Fernandinho. Vivemos cumplicidades. Partilhamos situações. Construímos esperanças. Acreditamos num mundo melhor, aqueles sonhos imensos de flores que floriram no canteiro de Abril. Ali, lado a lado, acreditando. Até gritando – “Fora com a canalha, o poder a quem trabalha”.
Fomos dos primeiros que, numa noite, num sótão, juntámos vontades para sonhar um mundo novo, então, com o PREC a fervilhar nos ossos. Era um desejo enorme de lutar pelo bem comum, sentido na força da palavra Liberdade.

O mundo mudou. A realidade transformou-se. Caíram muros. Romperam-se teias. Tomei opções diferentes, conscientemente, na certeza que me colocava do lado da barricada, ao lado dos mesmos de sempre, aqueles, ditos por Fernão Lopes como os «ventres ao sol», que nada têm a perder, só sonho para construir. Sofrem. Acreditam. Muitas gerações. Transformando.

Seguimos rumos diferentes, mas, o Fernandinho, nunca, mesmo nunca, deixou de partilhar comigo a amizade, o respeito. Uma vez ou outra, quando estava mais animado, lá vinha uma «boca», não de falta de respeito ou de ofensa, mas pura brincadeira acintosa, própria de quem guardava na memória, os tempos vividos.
Por fim, voltamos de novo a estar sentados na mesma barricada essa que apontava o eterno caminho de querer transformar o mundo. Afinal, o mundo é para transformar. Só quando transformamos evoluímos, construímos, fazemos futuro no presente.

É isso, cada um de nós constrói a vida de laços, esses laços que são afectos, esses laços que marcam os instantes partilhados, esses laços que são as bandeiras inscritas em recordações vividas, no estar em comum.
São, sim, são essas memórias que nós sentimos explodir pelos nervos, nestes instantes que sentimos um amigo partir. A tristeza toca os olhos. Ternamente.
São esses laços que rasgam as memórias do tempo. Os laços de súbito feitos em lágrimas de eternidade.

Recordo. E, ao mesmo tempo que uma mágoa faz doer o tempo por dentro do pensamento.
Agora, imagino-te a rir no outro lado, como quem está, ali, em pleno baile da SFAL, uma matrafona ruidosa, nos dias de carnaval . Gracejas. Toda a gente divertidamente dá sonoras gargalhadas a olhar com espanto para os teus gestos. Tu, em fato de banho feminino, no palco, ergues a perna, esticas os braços, com ar sereno, e, os ditos, espreitam de tal forma que os risos soltam-se até às lágrimas.
Recordo esses dias, e, aqui e agora, não deixo de esboçar um sorriso para ti, num fraterno abraço.
Recordo quando cantavas a Grândola, e, como adoravas o Zeca Afonso e o Adriano.

Recordo aquele dia, quando fizemos no teu Quintal – sempre com o carinho da Ti Natália e do Ti Jerónimo, como era habitual, tudo aceitavam, e, ali, fizemos um petisco, para dar um grande abraço de despedida ao Bento, que no dia seguinte partia para Angola. Essa guerra que, antes de Abril acontecer, nós contestámos. Sim, porque não descobrimos o amor à Liberdade com Abril.

Recordo, aquela noite, no ano de 1974, que viemos a pé da festa da Moita, e, junto à Academia de Alhos Vedros, estava um banco de madeira comprido, ali, mesmo paredes meias com o Banco Português do Atlântico – acho que era esse o nome – e, todos, os três ou quatro que viemos a pé divertidos, noite fora, com luar, sempre a cantar e a brincar, naquela irreverência da juventude, com o sangue na guelra, olhamos o banco e decidimos: «Vamos assaltar o banco!».
E, lá vai disto, pegamos no banco de madeira que por ali estava, se calhar onde o pessoal da Academia se sentava, e , com a nossa irreverência, trouxemos o banco para o Lavradio.
Acho que ainda hoje está no Quintal da casa dos teus velhotes. Dois seres lindos, amorosos, do mais puro que conheci como seres humanos, como apaixonados pelo Lavradio. O Ti Jerónimo homem de grande pureza que se sentia saltar do coração. A Ti Natália de uma simplicidade que floria no sorriso dos seus olhos. É ela que está naquele mural, por cima da tasca do Manel da Galega, no centro do Barreiro. Aquela rosto enigmático com o dedo junto aos lábios. Uma bela fotografia de Augusto Cabrita.
É verdade, falei contigo Fernandinho, de levarmos a Ti Natália ver o mural. Disse-lhe. Infelizmente, nunca o cumprimos.
A vida é isto. Vivemos. Partimos. Deixamos o que fomos, neste tempo que vivemos, como uma semente que ajuda a fazer eternidade.
Até sempre, Fernandinho!

António Sousa Pereira

«Cinco passos para fazer cidade. Cinco passos para fazer cidadania»

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A convite da minha conterrânea e amiga, Isabel Braga, voltei de novo à Escola Padre Abilio Mendes, para conversar com os alunos, com idades entre os 12 e 16 anos, sobre «Fazer Cidade – Fazer Cidadania», um encontro integrado nos objectivos da disciplina que aborda temas de «Cidadania» e «Multiculturalidade».

 

Se na primeira vez, cheguei lá, entrei, falei e partilhei de forma aberta, procurando transmitir os meus sentimentos e as minhas experiências sobre a vida, os caminhos, as pessoas, a cidade, os lugares, em suma, partilhando  com eles o meu olhar sobre o mundo, sobre o tempo vivido e sobre a comunidade, minha e deles, esta, onde construi a minha vida, e, como costumo dizer, aqui, esta terra, não é a minha terra – esta é a terra dos meus filhos.

Quando lhes pedi que levantassem o braço, aqueles que gostavam do Barreiro, como já escrevi apenas dois ergueram o braço e um movia a mão no ar como a querer dizer «assim,assim». Nesta turma, fiquei feliz quando, ao fazer a mesma pergunta, mais de 80 % ergueram o braço a afirmar o seu gosto pelo Barreiro, sendo mais residual os que não se manifestaram. Gostei.

 

Desta vez, procurando na mesma conversar de forma aberta e viva, tal como na conversa anterior, procurei apenas organizar uns tópicos, meras linhas orientadoras. Depois era falar. Assim foi, e, pelo que me apercebi, no final, vários disseram-me que gostaram – “foi fixe!”.

Neste dia, quando estava por ali, no exterior a aguardar o toque para o começo da aula, vivi, com alegria e, digo-vos, até com alguma emoção, a alegria de alunos da aula anterior, que nem os reconhecia, dirigirem-se até mim para dizer: “Obrigado pela sua conversa”, e, um deles sublinhar – “Gostei muito, tem que voltar de novo para conversar. Foi muito bom”.

Eles, digo-vos, encheram-me o ego. Há coisas na vida que valem mais, muito mais, que dinheiro, valem o sentir o tempo preenchido de sentimentos reais. Amor pela vida. Este prazer de sentir a vida pulsar no coração.

 

Mas, voltando à última conversa, quero partilhar aquelas que forma as ideias centrais, os tópicos orientadores da conversa. Escrevi no caderninho.

«Cinco passos para fazer cidade. Cinco passos para fazer cidadania»,  ou as «cinco pegadas do fazer cidadania».

E, o primeiro passo no fazer cidadania, esse passo que dá força para fazer cidade, força para fazer tudo o que cada um de nós é, fazer tudo o que cada um de nós contribui para fazer cidade – esse é o passo que se escreve com a palavra Liberdade. Somos seres livres. E somos seres livres quando respeitamos os outros, quando sentimos o prazer de saber, quando sabemos que a aprendizagem faz de nós seres livres. E lá fui, mergulhando em palavras e sentimentos.  A vida.

 

O segundo passo , esse, escreve-se com a palavra democracia. Ser democrata é saber confrontar ideias, é ter capacidade de diálogo, é respeitar as diferenças. Falei na força das ideias, a importância das ideias e dos ideias. Sendo livres, podemos escolher. A democracia faz-se vivendo as escolhas. Uma cidade é feita para todos, não é construída apenas para pessoas de um partido, ou de uma religião. Uma cidade é esse lugar onde cada um de nós é, como um eu e como um tu, sendo nós. Foi giro. Eles perceberam.

 

E, continuei para o terceiro passo neste caminhar no «fazer cidade» e «fazer cidadania». Recordei-lhes que nós somos seres únicos, mas somos seres que aprendemos a viver em comunidade. Uma cidade é uma comunidade, E fazer cidade é sermos solidários. É este o terceiro passo – a solidariedade. Somos solidários na escola, nas associações, na nossa rua, no nosso bairro. Essa uma marca do Barreiro – uma terra onde todos quase nos conhecemos uns aos outros. Já foi mais assim, no tempo que a fábrica marcava o ritmo dos dias.

Mas, para fazer cidade e para sermos cidadãos, temos que saber partilhar. A cidade somos todos.

Deliciei-me a falar de solidariedade. Não tinha nada pensado. Era o que chegava vindo da memória. Por isso recordei-lhes que pela solidariedade chegamos à memória, porque nós somos hoje o fruto dos homens e mulheres solidários que nos antecederam e legaram este mundo. Agora, nós temos que saber legar o mundo ao futuro. Isso é ser solidário.

Cada um de nós é um colibri, que leva a gota de água para apagar o incêndio da floresta.

 

E, continuei estes passos que escolhi para esta conversa, em outubro de 2019, dizendo-lhes que o quarto passo, escreve-se com a palavra criatividade.

Viver é ser criativo. Temos que sentir a vida todos os dias. Ser criativo é amar. Se criativo é acordar todos os dias e olhando o sol a brilhar nos olhos, sentirmos essa energia que nos leva a viver fazendo o que gostamos. Para fazer o que gostamos, temos que aprender a fazer, construir, inventar, criar, recriar. Seja como jogador de futebol. Seja como trabalhador de limpeza. Seja como médico. Seja engenheiro ou aquilo que for, ser criativo, é, saber que temos que aprender, aprender com os outros, saber reconhecer com humildade o legado que recebemos, ter a consciência que o nós não somos o começo do mundo, e, até que há mais mundo depois de nós. Nós temos que ter a alegria de criar e fazer um mundo um pouco melhor, construindo, embelezando – na música, na arte, na pintura, no teatro – afinal criar é dar luz e som à vida.

A criatividade é a força que renova a nossa liberdade, enriquece a democracia e fortalece a solidariedade.

 

E, é este o caminho que nos conduz ao quinto passo que se escreve com a palavra humanidade. Isso de sabermos que somos fazendo comunidade, mas ao fazermos comunidade estamos a dar o nosso contributo para sermos nós como parte integrante desse todo que é a humanidade, feita de diferenças de povos, de línguas, de identidades, mas, todos habitantes deste lugar único o planeta terra – o lugar que tempos que preservar e proteger. Fazer humanidade é dar um contributo local, para esse fazer combate global contra as alterações climáticas, pelas paz entre os povos.

Afinal, cada um de nós é único e, ao ser único é um «átomo« desse todo que se diz humanidade.

 

Estes foram os tópicos. Eles ali estiveram escutando e fazendo uma ou outra pergunta. Falei-lhes de Augusto  Cabrita e outros nomes barreirenses, até traulitei a «Canção do Mar» de Ferrer Trindade.

No final escutei os agradecimentos e, eles, devolveram o caderninho que esteve a circular para escreverem o que entendessem sobre o que retiravam desta conversa.

Prometido é devido, portanto aqui ficam as palavras escritas por estes jovens, sobre a cidade e a cidadania.

 

- Sem medo de ser livre

- Viver animado e feliz

-A vida é como um cubo mágico, demora mas resolves o enigma

- A vida é uma história que cada um conta

- Vive o hoje como se não houvesse amanhã

- Segue o teu caminho e sê feliz

- Só se vive uma vez, aproveita esse momento

- Aproveita cada dia ao máximo, nunca vais saber quando vais morrer.

- O tempo é relativo, quando nos apercebemos já é tarde.
- Vivi good

- A vida não é como um conto de fadas, ilude tanto, e no fim nada acontece.

- Só queria ser feliz

- Eu não gosto de ser aluno e também não gosto da escola

- A vida é como um jogo de escolhas, um passo em falso e acaba tudo

- Sê um com o outro

- A vida é como um dado, pode dar certo uma e outra vez, chega uma altura e acaba a tua vez.

-  Sê um, com a humanidade, porque sozinho não vais a lado nenhum.

 

Aqui fica o registo e o meu obrigado. As vossas palavras são importantes.

E, uma professora que foi assistir à aula, escreveu:

- A simplicidade está na liberdade, na humanidade. Obrigado pelo momento.

 

E, por fim, a motivadora destas conversas, que me desafiou para, neste século XXI, alguém que vem do século XX, falar com os jovens que já nasceram no século XXI, sobre cidade e cidadania. Registo e digo que foi giro.

Ela, também escreveu no caderninho e, portanto para fechar, aqui ficam as suas palavras;

“Igual a si mesmo, como sempre, o meu amigo Sousa Pereira aceitou o desafio de se deslocar à escola e falar de cidadania e multiculturalidade.

Obrigado Marafado!”

 

Até outra. Acho muito giro e interessante ter estas conversas com alunos, porque, nos dias de hoje, cada vez é mais importante motivar cada um de nós a ser cidadão de corpo inteiro e não se deixar sucumbir nas redes sociais e nas ilusões que iludem, porque, afinal, ser cidadão é ser cidade.

Obrigado.   

 

S.P.

Por favor, não deixem morrer o «Pestarola»!

 

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No âmbito do Encontro de Culturas Ribeirinhas, que decorreu no concelho da Moita, visitei o Estaleiro do Mestre Jaime, ali, em Sarilhos Pequenos.

A «Muleta» lá estava, e, pelos vistos continua a aguardar que se concretizem as necessárias vistorias. Um barco frondoso que, no dia que começar a navegar nas águas do Tejo, vai ser uma referência ao nível das embarcações tradicionais.

A «Muleta» para além de ser um ícone do brazão do concelho do Barreiro, é um barco ligado às memórias da comunidade piscatória, segundo dizem, oriunda do Algarve, que em tempos remotos veio viver para esta margem do Tejo e dedicava-se à pesca na barra do Tejo, sendo a «Muleta» o barco que era a marca identitária desta comunidade.

A construção da «Muleta» foi uma aventura e uma decisão de amor ao Barreiro e ás suas memórias. Um dia muitos vão sentir o prazer de navegar no Tejo e, até, atracar em Lisboa, porque, finalmente, isso é possível graças ao empenho e dedicação da comunidade náutica da Moita, da Marinha do Tejo e da Câmara Municipal da Moita.
A Câmara Municipal do Barreiro, entretanto já assinou o protocolo, sobre esta matéria com a APL.
E, pelo que tem sido dito, também está em fase de conclusão o acordo sobre o cais de acostagem da «Muleta», aqui no Barreiro, através do diálogo que tem sido mantido pelo actual executivo municipal com as entidades.

Mas, na verdade, o que motivou esta nota, foi ter reparado que no Estaleiro do Mestre Jaime, ali, está,o varino «Pestarola», abandonado, quase como que sobre ele tenha existido decisão de o condenar á morte. Tudo na vida tem um tempo. E tudo que nasce morre.
Mas, uma das grandes decisões politicas e culturais do Poder Local, nas zonas ribeirinhas do Tejo, é dar um contributo para valorizar as tradições e as embarcações tradicionais – o bote, o catraio, o varino. O Barreiro devia ter uma linha de pensamento direccionada para esta vertente, que, de facto, está patente na construção da «Muleta», mas devia estar também na recuperação do «Pestarola».

O orçamento não deve ser uma fortuna tão grande, certamente, são tostões, num orçamento de 55 milhões.

Nos tempos de hoje, que tanto se fala em ambiente e valores identitários, é triste ver o nosso «Pestarola» ali enterrado no cemitério.
Será que na Assembleia Municipal do Barreiro, não há força politica para exigir a recuperação do «Pestarola»?

Quando olhei o «Pestarola» naquele estado de abandono, que, certamente, agora, para ser recuperado será uma intervenção global, fiquei triste.

Viajei no Tejo no varino «Pestarola». Senti o prazer de escutar as ondas a bater no casco. Deliciei-me com as velas a a rasgar o vento. Senti o Barreiro e as memórias da sua comunidade piscatória.

Poderão dizer – nem sei – que o varino aquele estilo não era uma embarcação tradicional do Barreiro. Não sei. Mas sei, isso sei, que parta mim, e para algumas gerações e até mesmo para muitas crianças e jovens do fim do século XX e principio do século XXI, o «Pestarola», faz parte das vivências da comunidade barreirense e sua ligação ao rio Tejo.

Por favor, não deixem morrer o «Pestarola»!
O «Pestarola» já está inscrito nas memórias e na cultura ribeirinha do Barreiro.

S.P.

 

Uma conversa sobre «cidade» e cidadania» na Escola Padre Abilio Mendes «Isto é triste ninguém gosta do Barreiro»

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Hoje, pela manhã, estive na Escola Padre Abilio Mendes, do Agrupamento de Escolas Augusto Cabrita, a conversar com alunos do 7º e 8º anos, sobre o «Fazer Cidade» e «Fazer Cidadania».

Quando no começo da conversa perguntei aos alunos quem gostava do Barreiro, e, para ficar com uma ideia pedi que colocassem a mão no ar, para meu espanto, ergueram dois braços e outro, estava no ar, remexendo, naquele gesto de quem diz «assim,assim».

Quando no começo da conversa perguntei aos alunos quem gostava do Barreiro, e, para ficar com uma ideia pedi que colocassem a mão no ar, para meu espanto, ergueram dois braços e outro, estava no ar, remexendo, naquele gesto de quem diz «assim,assim».

Os restantes talvez na ordem dos 35 ou 36 alunos, claramente expressavam o ar de quem não gosta do Barreiro.
Disse-lhes que a primeira coisa que nos pode motivar a viver a nossa cidadania é gostarmos e conhecermos o local onde vivemos – a nossa casa, a nossa rua, a nossa escola, a nossa terra.
“Só gostamos ou amamos aquilo que conhecemos”, comentei.
Disse-lhes que uma das coisas melhores que o Barreiro tem são as pessoas, sairmos de casa e encontrarmos um amigo em cada esquina.
O Barreiro é uma terra feita de pessoas vindas de muitos lados, do Algarve, do Alentejo, do Minho, e, também de Angola, de Cabo Verde, da Guiné, do Brasil, da China, da Ucrânia.
Procurei despertar o gosto pelo Barreiro, convidei-os
a olhar a paisagem da Avenida da Praia.


Fui falando com eles e senti que despertava os olhares curiosos, em alguns rostos registei emoção nos seus olhares.
Entreguei, no começo da conversa, um cadernito, e pedi-lhes, para escreverem uma frase sobre este nosso encontro, a forma como, no dia-a-dia, sentem a vida, como sentem esta nossa conversa. Uma frase que lhes apeteça que exprime os seus sentimentos.
Nem todos escreveram, mas, alguns aceitaram responder ao desafio, aqui ficam alguns frases, escritas, hoje, numa escola do Barreiro, por jovens que no geral não gostam desta terra onde vivem.

Frases de alunos da Escola Padre Abilo Mendes
Barreiro – 24 de Outubro de 2019

«As pessoas criticam sem saber o que as outras pessoas pensam»

«Quer conhecer verdadeiramente uma pessoa? Repare como ela te trata quando não precisa mais de ti.»

«Tomem banho todos os dias. Porque estão a cheirar mal»

«Isto é triste ninguém gosta do Barreiro»

«Eu gosto de ver e desenhar animes. Também gosto de ler mangás»

«Bom professor. Estimo como trabalha»

«Sê quem és»

«Segue o teu sonho»

«Gosto da minha vida»

«Ninguém é feliz sem ter boas memórias»

«Eu adoro o Barreiro. Nós temos que ajudar o sitio onde vivemos. Uma delas é ser boa pessoa»

«Só queria ser feliz»

«Eu prefiro um amigo verdadeiro, como a minha familia, do que um amigo falso»

«Talento é uma coisa que não se ganha, sem todos os sentimentos»

«Gosto da minha condição de vida»

«Eu gosto de ser quem sou. Há pessoas que não gostam de mim, mas eu não ligo. Gosto da minha vida.»

«Vive a vida ao máximo aproveita cada momento como se fosse o último»

«Na minha vida eu tenho que aproveitar cada segundo, porque cada segundo pode ser diferente»

Foram estas as palavras que eles escreveram no caderninho que vou guardar, como recordação desta conversa, hoje, que se celebra o Dia Mundial da Igualdade. O Dia que foi fundada a ONU. O Dia da Revolução de Outubro, na Rússia. O dia que nasceu Ramalho Ortigão, o autor da obra «As Farpas».
Uma conversa sobre o contributo que cada um pode dar para fazer cidade. E, também, que fazer cidadania é viver cada um construindo os seus projectos de vida, pois, cada um ao ser cidadão, dá o seu contributo no fazer cidade. Vivemos partilhando. Vivemos respeitando as diferenças. É isto a democracia, que se faz com Liberdade.

No final, demos todos as mãos, alunos professores e eu próprio junto deles e demos um grito enorme, aquele que todos devemos dar ao acordar, como forma de abrir o coração à vida – BOM DIA!

No final, alguns daqueles jovens, rapazes e raparigas, passaram por mim e comentaram – Gostei de o ouvir, ou, foi muito bom, adorei, disse uma menina e deu-me um beijo.
Vou guardar este beijo e as vossa frases, Espero que tenha despertado o gosto pelo Barreiro e dar-vos força para estudar, porque é no saber que começa o fazer cidadania.

«Eu adoro o Barreiro. Nós temos que ajudar o sitio onde vivemos. Uma delas é ser boa pessoa», fica a mensagem, neste dia, que faz parte da história da humanidade, em busca de um mundo melhor.

S.P.

«Somos Cidadãos» ou “Somos Palhaços»!

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Fui ao Cinema no Forum Barreiro, ver o filme «Jocker». O mundo de hoje em tempo real. O mundo de todos os tempos em tempo real. Enquanto via o «Jocker» pensava como vivemos entre duas opções ou «Somos Palhaços» ou «Somos Cidadãos». Quando somos palhaços disponibilizamos o nosso tempo para prestar serviços a outros, e, um dia, qualquer dia, por qualquer acaso, lá ficamos no desemprego. Somos despedidos. Somos colocados numa prateleira. Se não cumprirmos, deixamos de receber as contrapartidas. É vida. Lá vem a depressão. A neurose. Uns superam. Outros não aguentam.

Ali, naquele filme está, também, a realidade do Estado, que deixa de prestar serviços à comunidade, devido a cortes orçamentais. Os cidadãos são números. Os números é que contam. As pessoas são também contabilizadas em despesa. Nunca têm valor quando são receita. Os números. O orçamento. A desumanização. A degradação.

Ali, podemos, igualmente, ver o uso que a comunicação social faz da vida de cada um, o que conta são as audiências. Os jogos. A força da imagem no mundo de hoje é tenebrosa. Ilude. Os filmes dentro do filme da vida. O imaginário e o real. As ilusões. As visões.

Ali, podemos, objectivamente, observar as manifestações que arrastam multidões, por causas geradas, nesses movimentos que produzem opinião induzida. Umas vezes por um mundo melhor. Outras apenas pela cultura dominante. Somos levados. Um mundo cada vez mais de causas. O ambiente. O dinheiro. As armas. A droga. O sexo. Manipulação. Racismo. Xenofobia.

Ali, afinal, vemos como um palhaço de hoje, ou um palhaço de ontem, pode ser herói, aqui e agora, e, depois, o canalha de amanhã. E vice versa. Tudo é transitório quando se vive apenas para atingir objectivos – a casa com vista para um qualquer rio, o carro que proporciona a comodidade das distâncias. O importante é sobreviver por objectivos. Um mundo neurótico. Frustrações. Provar o que se é, e o que se não é. Ironia. O jocker está adormecido dentro daquilo que não somos.

Um filme que é uma imagem viva, imponente, que nos conduz ao mundo suburbano, que nos faz navegar pelas margens da cidadania, que nos transporta por dentro da mais violenta agressividade, apenas porque sim, agredir, faz parte do estar, do domínio do outro(a).
Uma viagem por dentro dos conflitos sociais, que nos leva a sentir náusea pelo comportamento dos novos ricos, que se acham senhores da cidade.
Ali vemos a cidade marginal, a violência contra a mulher, o cosmopolitismo que desumaniza. Terra sem rostos. O grito que se escuta nas ruas é, tristemente, expresso na imagem deslumbrante que nasce naquele movimento da história, onde, afinal - «Somos Palhaços!»

Um filme onde tudo conta, para dar a dimensão deste mundo neurótico e disfuncional.
Um filme onde a mensagem é feita luz. Escuridão. Penumbra. Cor. Musicalidade. Som. Riso. Solidão.
A guerra pela sobrevivência. Uma violência que existe, mas que ignoramos. O quotidiano.

Um filme que dá uma imagem perturbadora da força da solidão, da luta psicológica, dos passos que se inscrevem silenciosamente da psicose à neurose.
O drama de cada ser humano. O drama que cada ser humano pode travar consigo mesmo, quando sente que está só, desenraizado, e a sua vivência quotidiana atinge os limites do silêncio. A falta de amor. O vazio.

Tudo isto podemos desbravar, pensar, sentir, nas imagens e na narrativa do filme «Jocker».
É um filme soberbo na musicalidade, nos efeitos, na fotografia, na interpretação. Faz pensar, e tudo o que faz pensar, faz sentir.
Um filme que nos toca e obriga a pensar o que é fazer cidade, o que é fazer cidadania.

Este filme é, sem dúvida, uma viagem por dentro dos tempos de hoje, e dos tempos de sempre, porque, afinal, o mundo não é diferente. A angústia que se regista no confronto entre cada «eu» e cada «nós». Conflitos.
Ao longo da vida as estórias e histórias repetem-se. Mudam cenários. Mudam actores. Mudam os meios de comunicação. Mudam os textos e os contextos.
Mas, na história de cada um individualmente, que faz parte da história da humanidade, há sempre uma verdade que permanece, aquela dita por Ortega y Gasset – o homem é ele e as circunstâncias.

O filme «Jocker» é essa lição que demonstra como a realidade de cada um e todas as vivências, são fruto dos acasos, das circunstâncias, das necessidades, forja-se nas realidades epocais – no espaço e no tempo. Somos comunidade. Somos eu, na comunidade.
Essa é a lição que existe, real, naquele filme e na história que todos vivemos.
A história do tempo, esse que vivemos, hoje, esta actualidade, que, com os nossos actos e palavras contribuímos para fazer e mudar. Participando.

Toda a história é real, quer essa onde nós somos os protagonistas, quer a história que podemos inventar colocando outros como protagonistas.
Toda a história começa na nossa cabeça. Haverá um dia que havemos de recordar. Sentir a felicidade ou a tristeza. Valeu a pena ou vivemos um tempo perdido. Fica a interrogação.

É um pouco isso, no fim, todos queremos ser heróis. Todos queremos ser construtores da história. Todos temos o nosso «jocker». Um «jocker» que pode ser neurótico, esquizofrénico, criativo, vitima do tempo, impotente perante todas as adversidades, ou ser um jocker sonhador. Lutar. Há vida para além da violência, que marca todos os tempos. A história demonstra-o.
Somos quando tomamos a decisão de ajudar a fazer a história da cidade. Fazendo história que se inscreve e não história que se esquece. Volátil.
É isso, cada um escolhe a sua opção: «Somos Cidadãos» ou “Somos Palhaços»!

A nossa história na comunidade, é a história que fazemos. Há a história que outros fazem. Há história daqueles que vão ao nosso lado. Até, os mortos fazem história ao nosso lado, por dentro da memória.
Tudo é o tempo. Tudo é a circunstância. Tudo é essa temporalidade. É isso que somos – uns optam por construir, outros por desconstruir.

O filme «Jocker» pode ser um bom tema de reflexão para aqueles que vivem dramas existenciais, que colocam a violência fisica ou verbal, como modo de fazer cidade.

Até amanhã, divirtam-se!

António Sousa Pereira

O «hackerismo» o «anonimato virtual» sinais da decadência da cidadania

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Na última reunião da Câmara Municipal do Barreiro, Bruno Vitorino, vereador do PSD, numa intervenção no período antes da ordem do dia, insurgiu-se contra uma página produzida por uns energúmenos que, a coberto do anonimato, dedicam-se a fazer aquilo que é conhecido na giria por crónicas de «esgoto social».
Pelo que disse o autarca, ali, ofendem as pessoas pessoas, fazem ataques de carácter, enquanto exaltam outras personalidades da vida local.
Nunca os li. Acho que, também, já fui um dos premiados, pelos seus escritos, segundo comentaram comigo alguns amigos.

Não sei o que escreveram, nem me interessa. Nunca liguei a anónimos. Cartas anónimas, no tempo das cartas, conheci tantas. Blogues anónimos, no tempo dos blogues, conheci tantos. Tudo que é anónimo para mim é escória. Podem engolir o que escrevem e vomitar.

Pelo que disse Bruno Vitorino, aquilo é feito por um grupo profissional e bem organizado.
Também, pelos comentários que vou lendo parece que é um grupo com um pensamento estruturado, sabem o que estão a fazer, os alvos são estudados, porque têm objectivos politicos, ou motivações para captar as atenções, só atacam quem lhes pode dar visibilidade, ou quem pode ser «líder de opinião» nas redes sociais.
Mas, as vitimas, de forma inocente caem na esparrela e comentam, fazendo o que eles querem – falem bem ou mal de mim, é preciso é que falem de mim. Isso é tão velho.

Por essas razões, estive indeciso se devia escrever, ou não, este texto, mesmo não dando qualquer referência ao nome dos ditos e ditas. Afinal, este texto vai aguçar a curiosidade dos que desconhecem o famigerado serviço de marketing politico.

Não os cito, porque não merecem ser citados. Só merece ser citado e referenciado quem tem corpo, alma e dignidade.
Bem fez Bruno Vitorino, na sua brilhante intervenção, ignora-los por completo. A lama como outras coisas é para pessoas com rosto desviarem-se.
Dar-lhes crédito, era dar-lhes importância.

Mas, nada disto me admira. Isto já vem de longe. Já conheci estas coisas noutros tempos.
No século XX eram cartas anónimas, comunicados sem assinaturas, bafiosos, podres, que, por vezes, denunciavam os lutadores pela liberdade à Policia Politica.
Nos tempos da democracia, começou a era dos blogues anónimos, também foram uma marca de combate social, de baixa politica, que, muitas vezes, tresandava a “esterco social”. Alguns ficaram famosos, não pela qualidade, mas pela mixórdia intelectual.

No Barreiro, este tempo de usar o anonimato fácil, que a internet permite, começou a ser usado, com uma nova dinâmica, há dois ou três anos, antes das últimas eleições autárquicas, atingindo o seu ponto máximo em plena campanha eleitoral. Foi tenebroso.
Eram e são dezenas de perfis falsos, usados com as mais diversas funções, ou para dar muitos likes, patilhar, fazer correntes de apoio a figuras locais, ou para fomentar ódios de estimação – fomentando a chamada teoria do inimigo comum - ou, até, promovendo campanhas de difamação organizadas, com temas seleccionados para gerar «culpados», e, igualmente gerar os «inimigos do progresso».
Mas, ao mesmo tempo erguiam-se bandeiras e criavam-se ilusões, apontando o nascimento de salvadores, novas gerações, portadores de ideias e sonhos que lançavam as sementes de um mundo novo, contra os velhos caducos do século XIX. O conflito de gerações foi intencionalmente gerado como elemento, de clivagem social.

Usaram técnicas de análise de «estudos de opinião», de avaliação de conteúdos das redes sociais, para conhecer as «percepções» e a partir desses estudos, colocaram perfis falsos e alguns verdadeiros – as ideias têm que ter actores – a propagar preconceitos, estigmas e a difundir esses sentimentos. O lixo. As ervas. O abandono. A degradação.
Por exemplo, o lixo junto aos contentores, sacos colocados e fotografados no meio da estrada, eram tema constante, de critica, sendo apontado até à exaustão o mau serviço público prestado pela Câmara. Depois, passado o período eleitoral, as mesmas situações, referenciadas pelos mesmos, atrás ditos, passaram a ser comentadas, nas redes sociais, como um efeito da falta de cultura e civismo dos cidadãos.
Isso, ou por exemplo as fotografias das ervas nos passeios, que eram uma vergonha, que as juntas de freguesia não tratavam, mas agora, os ditos hackers, sublinham que é um problema que resulta das alterações climáticas, dificil de resolver.
Enfim, é esta guerrilha, foi esta guerrilha que fez a realidade virtual nas redes sociais, que está na origem da criação das páginas denunciadas por Bruno Vitorino.

Mas, voltando ao assunto que motivou este texto, pretendo sublinhar que a realidade dos tempos de hoje, é que, na verdade, vivemos cada vez mais em dois mundos paralelos – o mundo real e o mundo real-virtual das redes sociais.

O parecer sobrepõe-se ao ser. Nas redes sociais sucumbimos ao excesso de «informação», somos iludidos por meias verdades.
É preciso muita força interior, muita convicção de ideias e valores para não deixarmos o «nosso eu», ser engolido pelo tsunami das redes sociais.
Nos dias de hoje, se nos descuidamos essa máquina e, aqueles, que usam de forma permanente como estratégia e realização de ambições pessoais, ou de grupos, eles, desfazem o nosso «eu central», desconstroem a realidade, inventam verdades, e usam toda a criatividade para condicionar as nossas opções e a nossa liberdade de escolha. A democracia virtual é uma ilusão.
O mundo não é apenas feito de bons e maus, esses gerados pelos técnicos da nova era internet. Há também os mediocres, os suficientes, os excelentes, os péssimos.

Na medida que a sociedade se vai desestruturando no modelo do «fazer cidadania», e, vai nascendo o modelo da «cidadnia virtual», as redes sociais assumem um papel dilacerante do nosso eu de cidadãos activos e condicinam a nossa vontade. Somos enganados. Somos engulidos. Somos fustigados. Somos iludidos, tudo isso, principalmente por gente anónima e sem escrúpulos. Famintos do poder.

Eles não fazem isso de forma inocente, eles fazem isso porque querem esvaziar a cidadania activa, desviar da participação interventiva – aquela feita olhos nos olhos, aquela que defendi numa acção que, um dia, fui convidado para falar sobre associativismo.
Eles querem centrar o fazer cidadania num mundo virtual, com perfis falsos, com anonimatos, misturados com alguns verdadeiros.
Sabemos, até, que alguns verdadeiros, são daqueles que se autoclassificam de grande nível intelectual, usam uma linguagem dita ideológica – são muito diferenciados, uns falam de «muros ideológicos», outros de «pureza ideológica». Há para todos os gostos.

Os bukldogs das redes socias, esses então, não passam de hackers ao serviço dos donos. Gostam de desempemhar esse papel, agridem, só usam adjectivos, são narrativas sem substaância – repetivas, sempre com a mesma argumentação do pior dos mundo. É uma forma de taparem o tédio das suas vidas, ou até de esquecerem os seus dramas pessoais. Serve-lhes de catarse. Os buldogs inventam mentiras. Gostam de prestar bom serviços aos donos.

A «cidadania virtual» estimulada insere-se numa estratégia que visa dinamizar projectos de intervenção direccionados para a «gestão da opinião». Uma opinião boa. Quem não está por nós está contra nós. É como antes do 25 de abril, ou como no tempo do PREC.
O objectivo é desumanizar a vida da cidade, por isso, só por isso, é que se escondem no anonimato.
As redes sociais contribuem para alargar a influência de grupos minoritários – 50 ou 60 militantes de um partido, ou de uma causa, são geradores de energias que catalisam para além, muito para além, da sua importância real na vida comunitária.
Uma coisa é ter face com rosto. Discordamos. Sabemos quem está a falar e as suas opções. Outra coisa é estar escondido e querer ser o paladino da verdade.

Na verdade, quando nas redes sociais esses grupos se escondem no anonimato, é, sem dúvida, porque sabem que têm pouca credibilidade social, ou porque nunca nada fizeram pela comunidade, ou porque não passam de uns aprendizes de feiticeiros. Precisam de máscaras para iludir.
Eles sabem que as suas caras reais, não tem a cotação social, nem lhes daria crédito de serem agentes fazedores de opinião, é por isso, só por isso que se escondem no anonimato.
É por isso, só por isso que fazem ataques ao estilo talibans aos que não se escondem e não temem ter opiniões. Ignoram que ter opinião não é ter a verdade.
Eles são a verdade, querem ser a verdade, a única verdade. O pensamento único, aquele que sempre destruiu a democracia e castrou a liberdade.
É isso que eles são castradores da democracia.

Este hackerismo não passa de uma doença infantil da democracia, gente que quer ser á custa de outros. Grande Bruno Vitorino. Boa lição de democracia.
Para discordar do Bruno Vitorino não preciso de usar o anonimato. Digo-lhe olhos nos olhos.

É o infantilismo dos «hacker politicos«, porque eles são politicos - mesmo que meros servos - que os motiva a atacar personalidades que eles invejam, ou que os seus tutores invejam e temem, porque são pessoas com opinião e verticalidade social. O que lhes falta.
Eles não sabem o que é isso, vivem de joelhos e lutam pela sobrevivência. Coitados e coitadas.

Sim, estes hacker anónimos que Bruno Vitorino denunciou, não passam de pseudo- doutores(as), que vivem subservientes a grandes líderes. Há no mundo muitos exemplos desta realidade do mundo virtual - Trump, Bolsonaro, Putin...acrescentem os que quiserem, são cada vez mais no mundo.
É isto que está a levar a democracia, democraticamente para o silêncio.

Estes «hackeres», afinal, são meros lacaios, prestam um serviço de vassalos, rastejam na imundicie do fazer politica.
Um dia os seus tutores, quem sabe, vão apresentar-lhes a factura daquilo que, já hoje, recebem para cumprir este servil e submisso papel de escória da comunidade. . É a lei da sobrevivência.
É verdade, sim é verdade, vi alguns dos tempos dos blogues serem triturados, pelo seu comportamento desta natureza.

E, obviamente, não dão a cara, porque se o fizerem cai-lhes completamente a máscara de democratas que acham que são, que fazem passar na vida real.
Aliás, eles estão convencidos que são o suprasumo do viver democrático, são a barricada que se opõe a outras barricadas. Não percebem que todos os que usam esses esquemas são todos iguais.
Todos os anónimos são iguais, não uns mais iguais que outros. Metem nojo. É uma canalhice moral.
Enfim, parece que vale tudo para justificar a sobrevivência..

Este hackerismo, afinal, só ataca quem lhes pode meter o dedo na ferida, quem os denuncia, quem não os teme, quem os enfrenta. Sejam jornalistas. Sejam cidadãos ao nível individual. Sejam cidadãos que vivam causas.
Eles atacam o carácter porque sabem que são pessoas de carácter que não temem olhar olhos nos olhos, se eles, tiverem a coragem de dar a cara.
Eles não sabem o que é o carácter, não sabem o que é ética. Acham que são protagonistas da ética, quando promovem a cobardia. Se ao menos fosse uma luta clandestina com um nome, uma dimensão ideológica. Não são nada, nem aquilo que eles dizem defender merece, por dignidade e humanismo, que eles apreçam na praça pública a dizer que são defensores daqueles valores. Isso é humilhante.

São esquizófrénicos, ao viverem o «eu real» e ao viverem o «eu virtual», são de certeza pessoas com neuroses ou psicoses. Ao viverem a vida entre o anonimato e uma vida real, só podem ser psicopatas.

Certamente o anonimato diverte-os. É infantil. Brincam às escondidas, é essa a realidade psicológica. Gozam esquizófrenicamente, principalmente quando estão sentados, ao lado das vitimas que eles caluniam, e, ali, numa atitude de sociopata, deliciam-se a viver a reacção das vitimas. Se soubesses que fui eu que escrevi aquilo de ti.. coitados.
Eles vivem na vida real, mais ou menos real, com o «eu real», à mesa do café a falar, por vezes até batendo com as mãos nas costas da vitimas, ou dando-lhes beijos.

Em suma, é esta a forma de fazer cidadania e fazer politica no século XXI, este hackerismo é o que alimenta as agendas locais, como se viu até já é assunto de uma reunião de Câmara. Nunca isto desceu tão baixo.
O hackerismo é o carvão que vai, amanhã, alimentar as caldeiras das estratégias politicas. Enquanto se discute estas barbaridades, estas fulanizações, não se discute a cidade, nem se pensa futuro.

Fico apenas com uma dúvida, se estes construtores do hackerismo, à noite, quando estão sós, sentem, ou não, suares frios, por saberem que não passam de uns vermes ao serviço de forças superiores, que lhes dão umas migalhas, talvez, com a promessa que “um dia vais ocupar o meu lugar”, ou, um dia vou dar-te um lugar privilegiado.

Em suma, este «hackerismo« que faz a vida dos tempos de hoje, é um dos sinais mais visiveis da decadência, da desumanização da sociedade.
No Barreiro é um exemplo real que emerge na vida de uma cidade, no seu processo de pós-desindustrialização, cidade sem emprego, cidade envelhecida, cidade sem projecto, cidade sem visão, cidade que não sabe para onde vai, cidade que se entretém em «jogos virtuais», em «manobras de diversão» de pseudo confrontos de bons e maus, porque esta é uma forma de autoflagelar-se e fazer a catarse.

Está a ficar para trás o tempo do Barreiro, vila ou cidade, onde a intervenção civica se escrevia, por exemplo com a palavra ETRI, ou quando os estudantes das escolas do ensino secundário enchiam as ruas da cidade.
A cidade que vivia a politica com intensidade, com paixão, com irreverência, com cidadania activa, com confrontos, por vezes mesmo com excesso de agressividade. Esse era o tempo que o Barreiro era terra de emprego, na CUF, na CP, no comércio local. Uma cidade viva. Uma cidade dormitório, onde a habitação tinha continuidade na vida associativa.
Foi Barreiro. Esse foi o Barreiro.
Agora é, cada vez mais, «barreirinho». O «barreirinho» que em vez de ideias em confronto, destila ódio. O pior ainda está para vir. Sempre ouvi dizer quem lança ventos, colhe tempestades. Os sinais já surgiram nas recentes legislativas. Continuem a colocar lenha na fogueira. Continuem a gerar estigmas.

O que parece é que «hackerismo» quer fomentar uma nova cidade, sem participação, sem activismo, um cidade que se transforma num dormitório, e, para estar animada, consome, festas e festarolas. O associativismo que faz cidade e cidadania esse que seja resiliente. Aguente.
O hackerismo é o sinal da decadência, da perda da cidadania solidária.
É a cidade do parecer e não do ser, é, talvez por isso que gostam de dizer que são, porque, no fundo, lá no fundo da consciência, não são – o que os move não é o ser, é o ter...

Cá por mim, como sou um optimista-pessimista acredito que, por aqui, ainda há gente que luta, que é resiliente, e pode dar um contributo para evitar essa estratégia de desconstruir a cidade que fomos e que somos, fazendo cidade, fazendo cidadania.
Obrigado, Bruno Vitorino, pela coragem de denunciar!.

António Sousa Pereira

Somos os afectos que enchem as veias!

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Há uma idade que é a idade que nós conluímos que somos, sim, é isso, apenas somos. É a idade na qual, acreditem, nada, mesmo nada, na verdade, temos que provar seja o que for, nem a nós próprios, nem aos outros. É idade do ser. Maturidade.

A idade do ser, é aquela idade que sentimos, que está chegando o tempo de viver a plenitude do tempo. Vivendo os silêncios. Iluminando as cores. Serenidade.
A idade da “consciência do ser”, não tenho dúvidas, é muito diferente da idade da “consciência do estar”. Viver o “estar” é muito diferente de viver o “ser”. É isso que separa a harmonia da angústia.
A “consciência do estar” tem ritmo, agita-nos, pressiona-nos, move-nos, por vezes nem temos tempo para saborear o sol, ou mergulhar os olhos no luar.
A “consciência do ser” gera afectos, ternura, sentimos harmonia no colorido dos dias, tocamos os sabores com os olhos, mergulhamos nos aromas com os lábios. Somos.

É por isso que “estar” não é “ser”. O “estar” causa stress, obriga-nos a deambular por dentro dos dias. Colocamos o foco. Não vivemos, focamos. É essa a labuta do quotidiano. Sorrimos para cultivar imagem de felicidade. Erguemos bandeiras. Imaginamos causas. Propagamos a ética. O estar é muito exigente, é um combate pela sobrevivência. Estamos rodeados de adversários. O estar é combater. Na empresa. Na escola. Na associação. Na cidade.
Há mesmo quem diga que, só deixa de estar quem desiste de combater. No estar, nunca há vitórias antecipadas.
É por isso que estar, nessa “consciência do estar”, muitos, ao longo das experiências de vida, sabemos, para eles, não há amigos. Há companheiros de luta. Parceiros de combate. Adversários. Os “amigos” são as circunstâncias.
Aliás, há mesmo aqueles que no estar, tornam-se peritos, discretos, de usar e deitar fora. Kafkianos. Dizem-se, até, verticais, coerentes.
É por isso que na idade do estar, nunca somos, ou, quando somos, somos esquizofrenicamente. Somos parecer. Somos imaginação. Somos estratégia.

Muito diferente, acreditem, é esse tempo quando atingimos a idade do ser, a “consciência do ser”. Essa é a idade do somos. É uma idade que, até, nos permite pensar às avessas. Não sobrevivemos, vivemos. Unimos as ideias, as palavras, ao viver. Como alguém dizia, é, esse, o tempo que deixamos de pensar como vivemos, para passar a viver como pensamos.
A idade do ser é a idade do tempo vivido, de todo o tempo vivido. Somos o que realizámos. Somos as raízes dos pensamentos plantados com acções. Não somos imaginação. Somos realidade vivida. Somos todas as certezas que construímos. Somos tudo o que ficou pelo caminho. Somos sonhos adiados. Somos sonhos perdidos. Somos, até, tudo o que negámos. Somos o que fomos. Somos paixão na acção. Somos ser no fazer. Somos amizade sentida. Somos amor no coração. Somos. Ponto final.
Somos os beijos guardados. Somos os afectos que enchem as veias, esse lugar, onde pulsa todo o tempo, por dentro do tempo – a alma, a mente, o espírito.
Somos o que vivemos. A idade da “consciência do ser” é linda. É mesmo linda.
Sentir o “ tempo do ser”, é tocar na própria respiração, é sentir nos nervos o instante, único, esse, misturado nos sons de Chopin. Aqui e agora.
Paramos, olhamos para trás e pensamos : Valeu a pena todo o tempo que vivi! Gostei de viver. Gosto de viver. Sou tudo o que sou, orgulhosamente. Feliz.
Chegar à “consciência do ser”, viver o “ser”, é encontrar o belo nos dias, é mergulhar no sublime, por dentro de todo o tempo vivido.
Ser, aqui e agora, a totalidade. Nada perturba. Nada incomoda. Viver, isso, apenas isso, viver. Fluindo. Sentir que somos o tempo, todo o tempo, esse, que é feito da semente, raiz, folha, flor e fruto.
Neste tempo do ser, na verdade, descobrimos que já não podemos voltar para trás, que já não queremos voltar para trás, que já não desejamos voltar para trás, apenas, o que nos move é ser - o que somos. Um silêncio imenso.

O encontro com o ser, é o encontro com o cidadão de corpo inteiro, é o encontro com o ser Liberdade, é o encontro com o ser Criatividade, é o encontro com o ser Solidariedade. A vida.
Ser eu, tu, nós. Ser. Mergulhar por dentro do ser que somos- sorrindo. Ser, afinal, essa vontade que nos move, ser essa energia que vivemos quotidianamente e faz nascer futuro, todos dias, sendo eternidade!
Até amanhã, divirtam-se!

António Sousa Pereira

Um abraço é um poema

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Tenho por hábito, sempre que se proporciona, registar pormenores das vivências diárias. Acho giro viver cada dia como sendo uma página, entre as muitas, que se escrevem e se transformam na narrativa que é a nossa vida. A nossa vida é um discurso real. Um discurso real que vai para além muito para além dos likes, dos interesses de circunstância, dos calculismos, dos jogos.
A vida vai-se sendo construída, por todos nós, todos os dias, em todos os actos.

A beleza da vida está nesse sentimento que ela nos proporciona, dando a alegria, real, de ligarmos o discurso à vida real. Esse sentimento, podem crer, nada tem a ver com os sorrisos melancólicos. Aqueles sorrisos que são um sinal de sobrevivência. Os sorrisos que a «Noblesse oblige». Os sorrisos eleitorais. O problema é que esses sorrisos, por vezes, são traumáticos, causam stress e angústias.

No decorrer dos dias, vou anotando, sempre que posso, registo, comento comigo mesmo, divirto-me, por vezes dou grandes gargalhadas, principalmente, quando novos actores, voltam a entrar em cena com os mesmos papeis. Eles nem são actores reais, desempenham papeis. Eles são a vida e as circunstâncias. Sobreviver é preciso.

São, sem dúvida, os factos da vida real, esses, que me permitem sentir as palavras por dentro das palavras. As palavras que nascem na vida. As palavras que nascem nas memórias. Recordo. Vivo.
A vida é mesmo uma narrativa. Um romance. Uma comédia. Um filme.

Escrever que gostamos de um abraço, forte, aquele que se sente no peito a mergulhar dentro do peito, isso, acreditem, só é possível sentindo. Um abraço que nos une por dentro de memórias. Um abraço que se eterniza. Eu. Tu . Nós.
Um abraço virtual não passa de um abraço virtual, não tem cheiro, nem sensação.
Um abraço para ser escrito em palavras, para ser fonema soletrado, cântico trinado, luz a rasgar a penumbra, esse abraço, vibrante, terno, só é possivel quando ele toca as fissuras do cérebro, percorre as estradas dos braços e mergulha, ali, nesse local que uns chamam mente, outros até dizem ser a casa da alma.
Esse abraço único, vivo, que nasce nos lábios a sorrir e aperta os nós do coração, esse abraço – não tem preço, não tem subserviência, não tem ideologia, é o abraço da eternidade. É o abraço poema!

Acreditem, é na vida real que nós sentimos a vida a florir, em abraços que são nervos de saudade.
Aquele abraço que marca o fervor dos dias. Aquele abraço que se escreve com a palavra amizade.
Estes abraços amigos, que não pedem nada em troca, são abraços que se respeitam nas diferenças, que não cultivam o ódio, que forjam a tolerância e o respeito. Esses são os abraços que fazem cidade.
Eu gosto destes abraços, sem neuroses e sem os dramas de esquizofrenias do poder.
Sim, gosto dos abraços que inspiram palavras, que são sementes, que são cidade e marcam no fazer cidadania.

É por isso, apenas por isso, que registo, acontecimentos que fazem o quotidiano. Registo, porque a vida é para viver e registar.
Há coisas que ignoro, talvez por defeito de tempo vivido, de tantos encontros e desencontros, esses todos, imensos, que ao longo de muitos anos me permitiram conversar e dialogar com tanta gente, com gente com tantos sonhos de tanta dimensão, que me permite estar aqui, ao fim da tarde, tranquilamente, a escrever delicadamente, sem ambições, apenas com o prazer de partilhar emoções, essas que fazem a vida real.
Já vi, ao longo da vida, desde o século XX, em práticas reais, tantos senhores «nobres», «solenes», «justos», «democratas», «snobes», «pedantes», erguer o queixo acima do ombro do outro, que, neste século XXI, quando observo a solenidade de excelências doutorais, a tocar com os olhos no asfalto, afasto-me, porque aprendi que um homem deve, sempre, desviar-se.
Nessas circunstâncias paro a olhar e limito-me a sorrir. Registo, naturalmente registo.
Afinal, a vida é uma aprendizagem. Um abraço é uma lição. E, sem dúvida a natureza humana é a natureza humana.
Par que conste, este texto, é um registo de registos por dentro dos dias...é mesmo!
Até já, divirtam-se!

António Sousa Pereira

Saúde Mental no Barreiro - 30 anos é muito tempo...OBRIGADO!

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Hoje pela manhã, estive no Hospital do Barreiro assistindo à sessão dedicada a comemorar o Dia da Saúde Mental, e, simultaneamente, os 30 anos do Serviço de Saúde Mental no Barreiro.
Dou comigo a pensar que o Centro de Saúde Mental Barreiro / Montijo foi criado no ano de 1989, tempos dificeis, tempo das bandeiras negras nas ruas da cidade, tempos de grande crise económica que marcavam de forma acelerada o processo de desindustrialização na região de Setúbal.

A crise da indústria naval. A crise da indústria corticeira. A crise da indústria textil. A crise da indústria quimica. A crise da indústria metalomecânica.
Crises que arrastavam outras crises, afectando o comércio local, a restauração. Filhos e operários que viviam em dignidade e com qualidade de vida, que exerciam profissões de mão de obra especializada, de repente sentiram a fome entrar em suas casas.
Foi o desemprego. Foi o viver na condição de DLD – desempregado de longa duração. Foram as reformas antecipadas. Foram as autarquias a absorver mão de obra, criando serviços para realizar obras por administração directa. Foi a Igreja, com o seu Bispo Vermelho, D. Manuel Martins, a clamar, dando voz aos sem voz.

Sim, foi nesse tempo, marcado de suicidios - fisicos ou morais - que, aqui no Barreiro, para servir especialmente os concelhos do Barreiro, Moita e Montijo, que viviam esse drama do fim da industrialização que, foi decidido criar uma equipa do Hospital Miguel Bombarda. Escutava e pensava, na vida nada acontece por acaso.

E escutava que uma das marcas desse serviço, nascido aqui no Barreiro, era desenvolver a sua acção numa vertente comunitária- o modelo de psiquiatria comunitária, com dinâmicas multidisciplinares que envolvia,entre outras, a área da assistência social.
Uma experiência piloto que, foi, dito, o trabalho realizado na Peninsula de Setúbal, foi modelo para o país.
Talvez por essa mesma razão, o Barreiro era exemplo e referência – caso de estudo, no país, e até em congressos internacionais.

E, pelo que fui escutando, nas entrelinhas, sempre foram muitas as dificuldades. A psicologia e a psiquiatria, uma espécie de parentes pobres na área da saúde. Resistiram e afirmaram o serviço, por amor, com amor.
Foram profissionais resilientes, lutadores, apaixonados pela profissão, que colocavam sempre o utente no centro do fazer quotidiano.

Talvez, esteja por inventariar, num mundo que só funciona por estatisticas, quantas familias contaram com a intervenção destas equipas e conseguiram com o apoio destes profissionais, superar a crise e outras crises que marcam a vida da região, principalmente dos concelhos do Barreiro e Moita, porque, o Montijo, com a construção da Ponte Vasco da Gama, encontrou novos caminhos.

E, nós, no Barreiro, vivemos esse tempo, que ainda se projecta nos dias de hoje, na decadência do edificado, na perda de qualidade dos espaços públicos, da crise do comércio. Uma cidade que continua ainda, neste século XXI, sem rumo, que, agora de novo parece que volta a acreditar na sua eterna galinha dos ovos de ouro – o imobiliário.

Escutava aquelas emoções de quem viveu e vive, por dentro, as batalhas em palavras contidas, nesse sonho e luta de manter um serviço que tem contribuido para sanar as depressões de uma cidade depressiva. Ontem e hoje, na busca de caminhos.
Escutava e pensava : Sim, 30 anos de serviço prestados à comunidade, e, por tudo o que deram (isto, não tem nada a ver com o contributo de outros serviços que também merecem o reconhecimento), mas, hoje e aqui, quero dizer, publicamente que, sem dúvida, já é tempo da comunidade – o Barreiro, a Moita e o Montijo, puxarem um pouco daquilo que cada um tem dentro de si, essa memória inscrita no tempo, e, com todas as palavras, dizer aos criadores do Serviço de Saúde Mental e, também, aos que, aqui e agora, mantém activo, o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar do Barreiro- Montijo, e, a Unidade de Psicologia, a todos os que lá exercem ou exerceram a sua actividade, desde psiquiatras, psicólogos, terapeutas, enfermeiros e pessoal auxiliar, eles, as equipas, com toda a dedicação, esforço e paixão pela comunidade, dizer-lhes isto, apenas isto – OBRIGADO. Estamos reconhecidos pelo vosso amor e entrega à comunidade.
Eu digo-vos – 30 anos é muito tempo...OBRIGADO!

António Sousa Pereira

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