Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Os dias cheios de palavras!

IMG_2677.JPG

É uma alegria enorme, essa, sentirmos os dias cheios de palavras. As palavras que nascem vivas numa simples de troca de olhares, palavras que florescem nos sorrisos, palavras humedecidas nos lábios, vestidas de vermelho, essas que falam no silêncio do azul dos olhos – sorrindo.
As palavras podem ser tulipas. As palavras podem ser rosas. As palavras podem ser cravos. As palavras são tudo o que nós quisermos, sempre que as palavras são a energia de nós mesmos, esses sons que gritam, e, afinal, são eles que nos acordam para sonhar e, mais que sonhar, pra viver vivendo.
Viver o sabor das palavras, não é viver a amargura das palavras.

As palavras são o vento norte, esse que arrasta as folhas, ali, na Avenida da Praia, o lugar que pode ser o ponto de encontro com tudo o que nós somos, fomos ou desejamos ser, esse lugar mitico, que abre as portas ao mundo – o Tejo.

É isso, os dias estão cheios de palavras. As palavras que nos fazem pensar e sentir, sempre que rasgam os caminhos dos nervos, ecoando por dentro das memórias, porque nós não somos memória. Nós somos memórias.
O problema ao longo dos séculos é esse, sim, esse, quando querem que sejamos memória, uma memória, ou quando alguns só têm memória, são nesses momentos que as palavras se transformam em silêncio. Reduzem-nos a uma memória.
Na vida, não basta ter memória. É preciso ter memórias, e, essas, as memórias, afinal, são aquelas que sentimos vivendo, fazendo, com os outros. Nós só vivemos com os outros.
E, digo-vos, viver com os outros é viver e sentir as palavras. Todas as palavras.
A minha memória não é a tua memória. A tua memória não é a minha memória. É por isso, apenas por isso, que fico com medo e temo aqueles que querem impor a sua memória como a memória, que simboliza a verdade, essa, que todos temos que aceitar como verdade. Quando querem que as suas recordações, sejam as minhas recordações. Uma cidade é uma eternidade de recordações, vivenciadas e partilhadas.

As memórias que forjam verdades, que querem vender verdades, que acham que ter opinião é submeter à vontade do poder – comer e calar. Essas são as memórias do caminho único. Cansei-me.
Estou mesmo cansado das memórias que apontam o mundo perfeito. São tantas que até já fazem doer as memórias reais , que guardei nos nervos.
Nunca acreditei em mundos perfeitos. Mas, é verdade, tenho que confessar. Cheguei a acreditar, candidamente falando, que, lá longe, como diz a canção, estava a nascer uma cidade junto ao rio, a florir em nascentes. Sonhos.

Hoje, digo-vos, já deixei para trás tudo isso, hoje, à tarde, em conversa com umas amigas, dizias-lhe vivi desejando sempre ser feliz, a partilhar os dias querendo ser feliz, sonhando, por vezes que era possivel mudar o mundo, e, disse-lhes – agora, cada vez mais, só quero isso, apenas isso, ser e viver feliz.

Deixo a missão de construir o mundo perfeito aos vindouros. E, sei,cada vez mais, que nos tempos de hoje esse mundo perfeito, feito de coisas perfeitas, são coisas de videos, ambições, visões, coisas de marketing para criar ilusões. Depois, a vida real, o que conta é vender e comprar. Viver agora. Fazer já.
A memória começa no nascer do sol e morre ao por do sol. Um dia de memória de cada vez, e basta. É este o tempo da modernidade, do pós industrialização.

Sim, é verdade, os dias estão cheios de palavras, e, nós, por vezes passamos dias e dias, muitos dias, sem tocar o seu sabor, sem comer os seus sons.

A alegria, a grande alegria é quando nós sentimos as palavras saltar na nossa frente, naquelas lágrimas que deslizam, através dos lábios a tremelicar, ou quando as palavras deslizam nos dedos, cruzam por dentro do peito, tocam os nervos e ficam guardadas no coração. Essas são as palavras que escrevem a palavra amizade. Dignidade.
Essas são as palavras que percorrem o tempo, por dentro de todo o tempo vivido – escrevem-se amor, escrevem-se saudade, escrevem-se presente, escrevem-se viver.

Hoje, encontrei duas amigas. Estivemos por ali a trocar palavras. Falamos da vida. Falamos de amor. Falamos de sonhos. Falamos de nervos. Falamos de palavras. Falamos de gente de palavra e de gente sem palavra. Falamos de gente que é gente e gente que faz a cidade. E todos nós somos cidade, quando nos olhamos.
Comentámos a gente sem rosto, que diz que é, mas não é, porque não tem ética, nem moral. Nem sabem o que é lutar na clandestinidade, para abrir as portas à Liberdade, e depois falam de máfias. Tristes.
Falamos de pessoas com ideias e valores que lutam por essas ideias e valores.
Falamos de pessoas que afirmam ter ideias e valores e que afirmam lutar por tudo, mas afinal, para eles não contam ideias, nem valores. Usam palavras de rancor. Usam palavras vazias, palavras que ficam gastas pela repetição, pelo esgotamento. São palavras que vivem de fantasmas.
Iludem, mas são palavras gastas. São palavras pavovlianas. Estas palavras morrem dentro de si mesmas. Não são palavras que se dizem, nem são palavras que se sentem.
Essas são palavras da retórica. Górgias explicou isso muito bem, há milénios, antes de Cristo.

E estou para aqui a escrever tudo isto, com palavras que cantam nos meus nervos, tudo isto fruto de encontros, de conversas, de sentir que os dias estão cheios de palavras.
Pela manhã, alguém que tem os olhos de amêndoa, ao ver-me, disse: “Estava à sua espera, para sentir algum colorido neste meu dia a preto e branco”.
Depois as palavras transformaram-se em tulipas.
Ao fim da tarde, entre as gotas que polvilhavam a rua com o cheiro de terra a sangrar, afaguei o gato branco, que mirava os meus olhos, em silêncio.

Mas, de facto, este texto não tinha nascido se, ali, no Forum Barreiro, não tivesse sentido as palavras a saltar das memórias. Palavras, brotando do tempo, por dentro do coração, com saudade de ausências.
As palavras essas que nos dão certezas que, nos dizem, silenciosamente, que não há nada mais belo que viver, caminhar e sentir - olhos nos olhos – como, na realidade, para ser feliz, estar feliz e viver feliz, só há um caminho, esse, de sentirmos que a vida, toda a nossa vida, é tudo o que nós somos...sendo.
Foi isso que senti naquela conversa com duas amigas, numa tarde, de vida real, de memórias, onde senti que a vida só faz sentido quando...os dias estão cheios de palavras!

António Sousa Pereira

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

COMUNICAÇÃO SOCIAL

AUTARQUIAS

ESCOLAS

EMPRESAS

BLOGUES DO BARREIRO

ASSOCIAÇÔES E CLUBES

BLOGUES DA MOITA

SAPO LOCAL

PELO DISTRITO

CULTURA

POLITICA

TWITTER

FACEBOOK ROSTOS