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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Beijo nos lábios vermelhos de Abril – o sabor da palavra Liberdade

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Nestes 45 anos de Abril, hoje, não vou recordar o 25 de Abril de ontem, quero afirmar o 25 de abril de hoje, aqui e agora, nesta terra, que não é minha, mas que é a terra dos meus filhos, onde, nos tempos idos, na noite escura descobri o sentido da palavra Liberdade.

Recordo, por exemplo, nos anos 90, quando na minha actividade profissional, numa das actividades marcadas para as comemorações do 25 de Abril, uma iniciativa era uma conversa sobre o 25 de Abril, tendo como convidado José Saramago. Quando falei ao telefone com o escritor, convidando-o para uma conversa no âmbito do 25 de Abril, ele respondeu que não vinha, porque estava cansado de conversas sobre o 25 de Abril.
Então, disse-lhe que o tema da conversa era :”O sabor da palavra Liberdade”.
De imediato, José Saramago respondeu – “podem contar com a minha presença”.
Gostou do tema. E marcou presença no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro, onde falou “sobre o sabor da palavra Liberdade”, conversa que, pelo facto de ter sido gravada, foi, posteriormente editada num brochura, e, se fosse escutada, nos dias de hoje, era muito actual. Um dos temas centrais da conversa foi a Europa.

 

Recordo isto, apenas para dizer, isso mesmo, que hoje, neste ano de 2019, 45 anos após o 25 de Abril não quero falar do passado, porque esse passado não deixou saudades, desse tempo o que fica na minha história e na história de todos nós, é, essa herança que, afinal, continua presente, e, escreve-se com a palavra «Democracia» e vive-se com a palavra «Liberdade».

Foi isso que sugeri a José Saramago, conversar sobre o «sabor da palavra Liberdade», essa liberdade que beijo nos lábios vermelhos de Abril – o sabor da palavra Liberdade, que pulsa no coração, aí, onde floresce a energia que dá vida à vida.

 

A nossa responsabilidade individual, neste 25 de Abril do século XXI, é sermos, cada um de nós, um pássaro Colibri, que transporta no bico a gota da Liberdade, para apagar as chamas do ódio, da intolerância, dos estigmas.
A nossa responsabilidade é sermos capazes de olhar por cima, como pássaro que voa e mantém em atitudes, em acção, no fazer, esse valor recebido naquela madrugada de Abril – a Liberdade!

Não há Liberdade sem tolerância.
Não há Liberdade quando se cultiva o ódio.
Não há Liberdade quando em vez de discussão há ilusão.
Não Liberdade quando a publicidade é quem define as regras da felicidade.

 

Não há Liberdade quando os tais três “Dês» que deram dimensão politica ao 25 de Abril, não se afirmarem como linha de pensamento politico e modelo de gestão da polis.
Quando olho para trás sinto que esses três dês, felizmente, com erros e virtudes, foram cumpridos e continuam a ser uma linha de acção para fazer futuro.

O «dê» de Democracia, que está viva, porque democracia é confronto de diferenças, debate de ideias, afirmação de valores, lutar por aquilo que se acredita. Ela está aí é preciso dar-lhe força.
Sim, é verdade que há quem em nome da democracia espalhe o ódio à democracia, cultive a afronta e o populismo. Isso é a luta pelo poder, apenas pelo poder, esse poder que se conquista com outdoor’s, marketing, ilusões, floreados, inimigos de estimação. Mas, isso, até o mundo está a viver experiências dessas.

 

O «dê» da descolonização. Foi cumprido. Portugal voltou a dar novos mundos ao mundo. E, nos dias de hoje´, é essencial valorizarmos a multiculturalidade e a diversidade como elementos de enriquecimento da comunidade. Somos essa terra feita de muita gente, vinda de muitos lados. 

 

O «dê» do Desenvolvimento, só a má-fé, o populismo fácil, o ódio pode negar como Portugal se transformou e evoluiu após o 25 de Abril, como, de facto, em cada cidade, graças à acção do Poder Local as terras sofreram profundas transformações e melhorou a qualidade de vida.
Ainda muito está por fazer, mas havia tanto caminho para andar. Basta olhar para trás e sentir.

É por tudo isto que, não quero falar do 25 de Abril de ontem, quero falar do 25 de Abril de hoje, que se pode escrever com a palavra «Braamcamp», em tudo o que uma discussão séria sobre este tema pode motivar para viver cidadania e fazer cidade.

 

Que se pode escrever com a palavra «Alburrica», com tudo o que a vida real nos pode motivar a sentir e ter percepção da cidade que somos, essa feita de passadiços e de moinhos, de praias, de destruição e de renovação, num reencontro constante entre o que fomos e somos. Porque a cidade é de todos e para todos.

 

Que se pode escrever com a palavra Barreiro, terra que está inscrita na memória de um país que morreu no Tarrafal, foi silenciado em Peniche ou Caxias, e, sempre foi exemplo de resistência e amor à Liberdade.
Esse Barreiro feito por homens e mulheres forjados na luta, que, honraremos, se soubermos manter viva nesta terra a chama da Liberdade e o saber da Democracia.


Hoje e aqui, enquanto os meus braços o permitirem, cá estarei, com o meu pequeno contributo, procurando, neste mundo onde as ideias são subvertidas por slogans, onde os valores são calibrados por spots publicitários, em cada dia, manter viva uma voz que dê voz aos silenciados.
O meu pequeno contributo neste mundo, de populismo em crescendo, onde o importante é parecer, é, afinal, tal como o Colibri, procurar ser uma gota de Liberdade e Democracia, que são o contrário do ódio e da arrogância.

Agora, na verdade, espero nos 50 anos de Abril, estar cá e continuar a cantar a Liberdade e a viver Democracia.

 

António Sousa Pereira

Em Coina reviver Abril no coração - “25 de Abril, sempre!” gritaram numa só voz

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Hoje à tarde estive no CATICA, em Coina, convidado para conversar com os idosos sobre o 25 de Abril.
São emoções muito fortes, que arrancam lágrimas, estar ali, no meio da sala, a conversar com uma geração que viveu e viu nascer Abril.
Sinto, sinto mesmo, que as minhas palavras mergulham por dentro do tempo e tocam as memórias, guardadas de um tempo gravado, com sonhos, no coração.
“O meu tio esteve no Tarrafal. Recordo o dia, era eu criança, quando foi levado para a prisão. Eu vi, ele entre dois policias. Levaram-no até à Estação. Esteve preso no Aljube, em Caxias, e, por fim foi para o Tarrafal”, recorda, emocionada uma senhora, que comigo cantou em coro a Grândola Vila Morena, e, com um grande sorriso nos olhos aplaudiu, efusivamente, no final da leitura dos poemas.
“Quem foi o seu tio?” – interroguei. “Carlos Sovela”, respondeu.

Por ali, estive a conversar sobre aquele dia, que está presente nos nervos de muitas gerações, pelos mais diversos motivos.
“Eu não estou contra o 25 de Abril. Mas o 25 de Abril tirou-me tudo o que eu tinha. Eu estava em Moçambique, um dia chegaram junto da minha casa mandaram-me sair a mim e minha família e disseram: ‘esta casa já não é sua’. Regressei a Portugal sem nada e aqui nada me deram”, comenta uma senhora com um brilho nos olhos.
“Eu não sou contra o 25 de Abril, mas o 25 de Abril tirou-me tudo”, repete, com emoção nos olhos.

Eu olhei para ela e comentei – “Sabe, nestes dias da Páscoa fui à minha terra, passei pelo cemitério, onde visitei os meus mortos. Também ali, estive junto ao meu primo Zé António, que foi morto, à saída da fábrica, numa rebelião, que ocorreu em Lourenço Marques. Ele e outros, a sangue frio assassinados. Uma revolução tem sempre estes dramas que marcam muitas vidas”.

Ali estive a recordar as memórias de um tempo que se canta e diz Liberdade. Uma data que marca a história de Portugal, inscrevendo-se no tempo que fomos e somos, aqui e no mundo.
Vi lágrimas nos olhos. Escutei a alegria dos sons vindos de Abril. Depois do Adeus e Grândola.
E, na despedida todos gritaram comigo bem alto – “25 de Abril, sempre!”

Nestes momentos, sinto a Liberdade a pulsar nos nervos e recordo o calor de Abril antes de Abril nascer, porque o 25 de Abril, era um tempo anunciado, a florir no coração de muitos que resistiram, lutaram, caíram, para que, num dia de Primavera, um cravo a florir numa arma, ficasse como exemplo para o mundo – um símbolo de Liberdade.
Obrigado, pelo vosso carinho. Obrigado pelo vosso Obrigado. Gostei de estar ali, em Coina, no CATICA, a reviver Abril no coração!

António Sousa Pereira

23 de Abril de 2019

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