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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

«A mesma água nunca passa duas vezes por baixo da mesma ponte»

Convite Comunicação Social - Setubal - Foto Ant

 

Um destes dias a convite do Agrupamento de Escolas Augusto Cabrita, participei no «Projeto Vocações – Dia das Profissões», dirigido aos alunos do 9º ano do 3º ciclo do Ensino Básico,  um momento que proporcionou conversas com profissionais de diversas áreas, com o objectivo de abrir caminhos de reflexão sobre escolhas, opções de vida e perspectivas de futuro percurso académico.

Participei  no painel dedicado à temática «Línguas e Humanidades», que contou com o contributo de um Advogado, uma Educadora de Infância e um Professor. Representei a área do jornalismo.

Após as intervenções, no debate uma aluna colocou a todos os convidados uma pergunta: “Na  vossa actividade profissional nunca tiveram problemas que os motivassem a desistir?»

“Sim. Muitas vezes tenho sentido vontade de desistir. Mas, depois há uma coisa que mexe, essa coisa chama-se Liberdade. Enquanto eu sentir a Liberdade a pulsar no meu coração, nunca vou desistir ”, respondi.

 

Na verdade, ao longo da minha vida, por várias vezes senti na pele, essa tenaz que quer silenciar, que quer reduzir à submissão, e, de facto, quando isso me aconteceu, isso significou, o contrário na minha forma de agir, porque optei sempre por erguer a voz e levantar bem alta centelha da Liberdade. Nunca quis fazer jornalismo submisso.  

 

Recordei isto a propósito de alguns acontecimentos do quotidiano, porque são os acontecimentos dos dias que abrem à nossa consciência, os sinais que emergem nos tempos que vivemos. São esses acontecimentos que tocam a nossa interioridade, fazem pensar e sentir.

Cada um sente na consciência a tristeza do peso da sua própria consciência, dos fenómenos que acarinha no seu estar aqui e agora. É vida.

Há quem faça a catarse de si, por comparação com outros, esse, por vezes é o drama dos perfeitos.

Eu sempre optei por estar tranquilo comigo mesmo, não me comparando, não tenho problemas para resolver, sou eu com os meus erros. Assumo-os plenamente.

No entanto, não assumo, nem nunca assumirei os epítetos que querem colocar sobre mim que não me pertence. Isso registo. Às vezes revolto-me. Indigno-me. Agora, com a idade, já vou dando avanço. Até, devolvo com um espelho, quando sei quem são os protagonistas, quando os conheço com clareza, então, limito-me a sorrir.

Quando não conheço, ignoro, ou espero que o tempo resolva. E, na verdade, muitas coisas o tempo tem resolvido.

 

Nos dias de hoje, a prática corrente é transformar o mensageiro no grande perigo tenebroso, procurar destruir lentamente, em lume brando.

O importante é que passe a mensagem que o mensageiro, de facto, é aquele que destrói a virtude dos dias, ataca a pureza dos sentimentos, destrói o clima de diálogo e mancha os valores da democracia, sem respeito por códigos deontológicos.

 

Entretanto, os senhores da ética, intencionalmente, ou por mero acaso, invertem e misturam tudo no mesmo saco, não querendo reconhecer nem distinguir as diferenças que existem, claras e objectivas, entre o que é notícia e o que é opinião.

Ter opinião e partilhar opinião é querer o debate de ideias, dar sal à vida, dar energia aos pensamentos. Não significa ter razão. É opinião e opinião não é, nunca foi noticia.  

Na verdade, “é isto que temos”. Um dia será nada.

Então, quando for nada, atinge-se a perfeição da democracia cultivada e estimulada nas redes sociais, essa, onde foi forjada a “cultura democrática da actualidade”, essa, onde foi forjada a “cidadania participada”, feita de perfis falsos, ou de perfis verdadeiros, cuja prática é a difamação e, essa, não carece de códigos de ética, porque os fins justificam os meios.  

 

É vida. Assisti a um debate, um destes dias subordinado ao tema - “Media, Democracia e Cidadania”, onde o prelector convidado salientava que o fenómeno de eleição de um Presidente da República, como consequência da sua regular presença na comunicação social, aconteceu com Marcelo Rebelo de Sousa, mas, eventualmente, pode não voltar a acontecer. É assim, a vida, a história por vezes repete-se, outras não.

É velho aquele ditado de Heraclito, “a mesma água nunca passa duas vezes por baixo da mesma ponte”. É isto.  

Como dizia o poeta – “enquanto o destino o permitir continuarei…”!

Contém comigo para defender a Liberdade, a Solidariedade e a Fraternidade. Sou dos velhos que sonhou e viveu Abril dentro do coração.

 

António Sousa Pereira

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