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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Os «aziados» e os «azedos» e o aprofundar debate de ideias

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Num Seminário que assisti, em Março, no âmbito do ciclo “Novos Desafios do Poder Local”, registei algumas ideias-força que foram expressas, a propósito do modelo de “gestão da cidade”.

Recordo que, ali, foi sublinhado que, “cada vez mais daqui para a frente”, neste século XXI,  o modelo de gestão da cidade, deve ter por base a “consulta pública” sobre as “consequências e opções”, e, deve ter como referência um modelo que, envolva os políticos, os técnicos e as pessoas, visando promover  “mais transparência” e “mais diálogo”. 


Gostei. Porque sempre fui apologista deste modelo de gestão da cidade, sempre considerei essencial o envolvimento dos agentes locais e das pessoas, a participação pública, a concertação e constituição de parcerias, como uma linha de força de uma gestão que não quer controlar, nem vigiar a cidadania, mas que encontra nos cidadão a força e a energia do fazer cidade. Sempre fui um critico acérrimo da “municipalização da cidade”. Senti na pele.

 

Dou comigo muitas vezes a pensar sobre a importância do fazer cidade, tendo como leit motiv este pensamento estratégico – motivar a participação, fazer cidade e fazer cidadania. Tenho este sonho, que aprendi como associativista e cooperativista.

Tenho procurado, nesta vivência do fazer jornalismo local, apostar nesta dimensão do dar rostos às cidades.

Acreditando que a democracia não é, de facto, uma ideologia, mas o confronto de ideologias, a busca de caminhos.

Acreditando que o municipalismo – Poder  Local - é uma das maiores riquezas herdadas do Portugal nascido com o 25 de Abril.

 

Recordo que, em tempos não muito distantes, era pensamento político de alternativa, a critica ao modelo de «cidade de participação», que se considerava reducionista, apontando-se uma nova visão do fazer e pensar cidade e cidadania.

Cheguei mesmo, na verdade, a tecer comentários que o desenvolvimento de uma agenda politica diferenciadora, podia e devia, abrir o debate em torno desta temática. Cultivar o respeito pelas  diferenças.

 

Talvez por isso indignei-me, diversas vezes, quando ao longo do período pré-eleitoral e eleitoral, o debate de ideias fosse centrado numa conflitualidade vazia de valores, no criticismo fácil, na critica pela critica,  no “populismo ideológico” com olhos em culpados, bodes expiatórios, numa guerrilha para gerar o “inimigo comum” , tendo como uma única finalidade a conquista do poder.

 

Considero que o pior erro estratégico de construção de uma cidade é querer fazer caminhos limitando o debate e o fazer cidade aos fóruns políticos institucionais do Poder Local, ou, com base no permanente confronto politico-partidário.

A CDU perdeu as eleições no Barreiro porque se tornou autista. O PS venceu porque apostou no fazer uma cidade para todos, com todos – “o melhor do Barreiro são os barreirenses”.

 

O debate politico-partidário, normalmente, tem por base uma dimensão assente em visões de «muros ideológicos», de «purezas democráticas», de crispações, de bodes expiatórios, os culpados - eu fiz bem, tu fazes mal.

 

Sou defensor da construção de um modelo de cidadania aberto, transparente, mobilizador, que seja envolvente, de forma que cada cidadão e cada agente local sinta que faz parte desse movimento do fazer cidade e viver cidadania.

 

Os confrontos e as conflitualidades partidárias, ou políticos, não devem ser um estímulo para agressão, para criar estigmas, devem ser, isso sim, estímulos para percorrer caminhos, apontar caminhos, aprofundar as diferenças, dinamizar a pluralidade e consolidar a vida democrática.

 

Fazer cidade, não é fazer vida partidária. Uma cidade é um espaço de todos, para todos, de todos as cores politicas, ou mesmo sem cores partidárias.

 

O Poder Local é, tem que ser uma das mais belas dimensões de construção quotidiana de democracia – as escolas, as ruas, os transportes, os espaços públicos, a vida da cidade tem que ser marcada por uma de convivência e pluralidade. Depois, nas eleições escolhem-se os políticos responsáveis pela gestão da cidade.

 

Acontece é que, aqui, neste nosso Barreiro do século XXI, ainda não saímos do último processo eleitoral. Vivemos num clima de eleições permanente.

Mas, isso é natural, quando vivemos um processo eleitoral, onde não se discutiram ideias, nem cidade, nem estratégias. Discutiram-se buracos nas ruas, lixo nos contentores. Arranjou-se um culpado central de todos os atrasos. Criaram-se ilusões. Vendeu-se o produto. Falou-se em Potencial. Publicitaram-se os Barreirismos. Enfim por isso, estamos onde estamos. É natural.

 

Um destes dias alguém comentava – “nunca se ouviu tanta critica, como se ouve agora”. Falta memória. Ainda não há muito tempo as criticas arrasavam a vida quotidiana. Mas, nesses dias idos, o lixo junto aos contentores, a culpa era da Câmara, mas, agora é falta de civismo.

E, hoje, acrescenta-se aos discursos  de criticas e criticismos - os aziados.

Quem levantar a voz um pouco mais alto, nos dias de hoje, não passa de um aziado.

Enfim, percebe-se. Depois do processo eleitoral que vivemos, é natural que existam aziados, se eles não existissem é que seria de admirar.

 

E, naturalmente, se há aziados, ao seu lado e em confronto existem os azedos. Os azedos são o contrário dos aziados.

Mas os azedos e os aziados, têm que ser um tema de reflexão politica .

Os aziados e os azedos são um exemplo real, na vida quotidiana de uma cidade, onde os discursos são conflitos de propaganda, de marketing, que não deixam a cidade crescer, nem respirar pluralismo.

 

Acho que os agentes políticos locais estão conscientes desta realidade e sabem que este clima  alimenta as estratégias de conflito partidário, porque, o que está em causa são os jogos de luta pelo poder.

 

Os discursos dos aziados e os discursos dos azedos, sendo dominantes, não permitem aprofundar o debate de ideias, não é preciso aprofundamento de ideias, ficamos numa base ódios de estimação, são opostos não por uns serem poder e outros oposição, são opostos por uma espécie de clubite que sempre arrastou as multidões. Basta a retórica para gerar conversas e levar a vida real para a ficção das redes sociais.

 

As ideias repetem-se todos os dias, com o mesmo argumentário, de um lado e do outro, uns querem o bem da cidade, outros querem o mal da cidade, uma permanente conflitualidade que em nada ajuda a fazer futuro, nem a fazer cidade.

 

Uma cidade que não esteja motivada a viver-se, que limita o debate de ideias a trocas de silêncios, é uma cidade sem futuro.

Uma cidade sem participação é a longo prazo uma cidade que se fecha sobre si própria. Não será uma cidade para viver e fruir, será uma cidade para dormir.

 

António Sousa Pereira

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