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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

As ruas são o miradouro da vida!

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Uma das coisas que mais me incomoda o pensamento é, de facto, quando penso que, nos dias de hoje, se quisesse, podia limitar-me a matar o tempo. Sim, viver os dias matando o tempo. Sentar-me e esperar, apenas esperar.

Por exemplo, sentar-me num café vagueando os olhos pelo movimento repetido dos dias, tecer comentários sobre aqueles que passam na rua, criticamente, porque quanto mais forte a critica, mais energia ela dá para matar o tempo. Acintosamente.

Na vida sempre foi mais fácil desmantelar, destruir, que construir ou erguer, todos os dias a novidade.

É mais fácil ficar pelo dizer, que assumir em consciência o fazer. É por isso, apenas por isso, que muitos desistem de viver e optam por matar o tempo. Acham-se donos do tempo, mas optam por ver, diariamente, nascer o vazio. Angústia que dói, nessa perfeição inútil de viver. Matar o tempo.

Sim, o tempo mata-se matando-o, deixando-o correr nos dias nas margens do sol.

Detesto pensar nisso. Só de imaginar o tempo a esvair-se nos meus dedos, enerva-me. Não me imagino, vivendo dentro dessa tortura dos nervos, com uma angústia a rasgar os nervos, matando o tempo, dentro do tempo. Inutilidade.

Eu não quero matar o tempo, quero ver o tempo nascer, dar-lhe asas, sentir que voa como o vento, no céu azul, rumo ao sol. Sorrir. Fazer.

 

A minha relação com o tempo, sinto-a, quando percorro as ruas da cidade, esse miradouro sobre a vida, aí, nas ruas, encontro todos os dias, os sinais do tempo. Os que vivem o tempo. Os que matam o tempo.

Sinto isso, sim, todos sentimos, no pulsar do quotidiano, casuisticamente, quando cruzamos os nossos olhos com outros olhos. Olhamos para dentro. Sentimos.

Um destes dias, pela manhã, fui percorrendo as ruas cidade. Senti, mesmo, como as ruas são um miradouro para a vida.

Em muitas pessoas que fui encontrando, recordava, uma história, uma memória, evocações do tempo vivido. Situações.

Senti a poesia num beijo. Fixei rostos com sorrisos. Senti as mãos apertadas noutras mãos. Vivi encontros vindos do fundo do tempo – “Eh Manel, nem o conhecia, há tanto tempo que não o via”.

Notei aquele movimento de alguém que, discretamente, faz que não vê, fugindo de cumplicidades. O desprezo da superioridade moral.

A rua é mesmo um miradouro sobre a vida. Caminhamos, e, nos passos por dentro delas, descobrimos todos os olhares, vemos, os olhares reais deste tempo, aqui e agora, e, até, ali, encontramos olhares perdidos na memória. Recordamos. Sim, foi aqui, nesta rua, que conversei contigo, pela última vez, antes de partires para o infinito. Saudade.

 

Vamos caminhando, de súbito, uma porta abre-se e sentimos, naquele instante, nascer do silêncio, a ternura de um olhar que aquece o frio matinal. Sorrimos. As ruas são vida a pulsar no coração.

Neste pulsar, sentimos os nervos a florir, brotando como nascente -  a vida, o tempo, o que somos, tudo,  só faz sentido se vivermos, vivendo.

Afinal, matar o tempo é, antecipadamente, matar a vida, assim, como quem enrola os nervos na solidão.

 

De há muito, habituei-me a olhar os dias e a vida pelos sentimentos que se inscrevem na memória, porque é nesse recanto da consciência, que estão todos os começos e recomeços, por isso, quando caminho no miradouro da vida – as ruas da cidade -  renovo energias.

Sorrindo, sempre sorrindo…

 

António Sousa Pereira

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