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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Há mais mundo para além daquele que existe no facebook!

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Estar ausente e não acompanhar as actividades que decorrem na comunidade é como não sentir o pulsar da vida. É como parar por dentro do tempo, numa inércia de ideias e ideais.

E, mesmo que acompanhemos as coisas que parecem ser a vida real,  a traulitar pelas redes socias, pela leitura dos jornais, na televisão, ou por outras vias, na verdade, tudo isso, esses filtros da realidade,  nunca, mesmo nunca serão o mesmo, que essa dimensão de viver – olhos nos olhos. Nada se compara ao sentirmos e vivermos. Observarmos. Estar lá. Saber de saber feito. Experiência. É no observar, no tocar, no viver que sentimos as ideias materializarem-se em realidade. Fazendo.

É isso que nos faz ter opinião, ter perspectivas, sentir a imaginação a fluir nos nervos, em paixão, alegria ou tristeza. A vida é acção.

 

Quando vivemos a vida no outro mundo, esse, das redes sociais, que é um mundo virtual, afinal, como vivi nestes dias, sentimos que esse é um tempo sem cheiros de maresia, sem os sons das palavras a cantar nos neurónios, sem o brilho dos olhos a trocar cores de sentimentos. Nem dá para ser percepção, porque nem temos essa dimensão do observar, e,  muito menos, sim, muito menos, permite que seja  acepção – essa que faz emergir os sentimentos em conceitos e dá vida à nossa consciência.

  

O mês de Fevereiro de 2019 vai ficar, para mim, como uma experiência enriquecedora, este tempo que foi marcado por uma ausência forçada, primeiro no Hospital, depois em casa, num completo retiro.

Mergulhei em leituras. Perdi-me pela memória viajando nos confins de tantas coisas vividas. Senti esse calor imenso que nos dá a força daqueles que nos amam, ali, diariamente, ao nosso lado, sorrindo.

 

Esta semana recomecei o meu reencontro com a vida, real, essa com as pessoas que fazem parte deste tempo que vivo. Dei umas voltas pelo meu Bairro. Fui ao café. Encontrei amigos. Senti o sabor das palavras. Olhei as árvores a florir. Vi a merda dos cães nos passeios, democraticamente distribuída, assim, real, nos dias de hoje, sem muros, em plena liberdade, tal como no passado recente. Enfim, a vida a pulsar, solene, com essas coisas que todos nós, humanos, diariamente fazemos cidade.

 

Ah, é verdade! Vi aquele homem de corpo inteiro, a entrar por dentro do contentor de lixo, rebuscando e remexendo. Sobrevivência.

No tempo da troika, recordo, vi, e escrevi sobre situações destas. Revoltava-me. Agora, depois de todas as lutas pela vida, resta-me a dor a rasgar o sangue e, cinicamente, olhar para o lado. Sentir na sua plenitude o tribalismo do tempo que todos somos.  

Afinal, a percepção, essa coisa, permite que nos coloquemos na caverna da nossa consciência, e, de lá possamos olhar para estas situações como se elas fossem apenas sombras do nosso mundo – o real e o irreal. O esquecimento. As bandeiras negras de outrora, hoje, estão guardadas no sótão da democracia.  

 

É talvez, por isso, quando começo a dar os primeiros passos nas ruas do meu bairro, só estes primeiros passos, permitem-me olhar o mundo e, sem grandes estudos académicos, concluir como, de facto, há mais mundo para além daquele que existe no facebook e nas redes sociais.

Há um tempo para viver que ao prendermos o nosso tempo ao facebook, verificamos como ele nos ilude e sufoca. Nestes dias até isso senti, com essa ausência, nos momentos que vivi em repouso e entregue a leituras. O livro é uma energia renovadora.

 

Sei, sim sei, que este tempo que vivemos é, cada vez mais, marcado por ser um tempo de gestão de emoções, de valorização da cultura do emocional, o facebook e as redes sociais motivam-no para essa dimensão – é por isso que, na prática, se afirma o velho dito, que uma imagem vale mais que cem palavras.

Os políticos cultivam essa estratégia. Sorrindo. Tocam no coração. Fazem dias felizes, únicos e históricos, todos os dias.

Enfim, este é um tempo feito de «soundbites», de fazer passar mensagens, curtas, repetidas, incisivas e persuasivas. Queimar em lume brando. Gerar ódios de estimação. Em tempos idos falava-se em teorias da conspiração. O Inimigo comum. Crispação.

A história por vezes repete-se, ou não fosse o ser humano de hoje, o mesmo ser humano dos tempos de Platão, Hegel ou Ortega y Gasset. Sim, evoluímos tecnologicamente. Mas, lá dentro, humanamente, somos o pensar de Freud, Marx, Rousseau, Hobbes, Santo Agostinho ou Marco Aurélio. Ou então, Buda, Confúcio, Maomé ou Jesus Cristo, sim, e tantos, tantos outros, que nos antecederam, legando pensamento. História e Memória.

 

Cá estamos em Março, este tempo que anuncia a Primavera. Tempo de Poesia. É tempo de retomar o caminho, dar um passo e outro passo, mais um passo, neste caminhar caminhando…viver e agir.

Adiante…

 

António Sousa Pereira

As ruas são o miradouro da vida!

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Uma das coisas que mais me incomoda o pensamento é, de facto, quando penso que, nos dias de hoje, se quisesse, podia limitar-me a matar o tempo. Sim, viver os dias matando o tempo. Sentar-me e esperar, apenas esperar.

Por exemplo, sentar-me num café vagueando os olhos pelo movimento repetido dos dias, tecer comentários sobre aqueles que passam na rua, criticamente, porque quanto mais forte a critica, mais energia ela dá para matar o tempo. Acintosamente.

Na vida sempre foi mais fácil desmantelar, destruir, que construir ou erguer, todos os dias a novidade.

É mais fácil ficar pelo dizer, que assumir em consciência o fazer. É por isso, apenas por isso, que muitos desistem de viver e optam por matar o tempo. Acham-se donos do tempo, mas optam por ver, diariamente, nascer o vazio. Angústia que dói, nessa perfeição inútil de viver. Matar o tempo.

Sim, o tempo mata-se matando-o, deixando-o correr nos dias nas margens do sol.

Detesto pensar nisso. Só de imaginar o tempo a esvair-se nos meus dedos, enerva-me. Não me imagino, vivendo dentro dessa tortura dos nervos, com uma angústia a rasgar os nervos, matando o tempo, dentro do tempo. Inutilidade.

Eu não quero matar o tempo, quero ver o tempo nascer, dar-lhe asas, sentir que voa como o vento, no céu azul, rumo ao sol. Sorrir. Fazer.

 

A minha relação com o tempo, sinto-a, quando percorro as ruas da cidade, esse miradouro sobre a vida, aí, nas ruas, encontro todos os dias, os sinais do tempo. Os que vivem o tempo. Os que matam o tempo.

Sinto isso, sim, todos sentimos, no pulsar do quotidiano, casuisticamente, quando cruzamos os nossos olhos com outros olhos. Olhamos para dentro. Sentimos.

Um destes dias, pela manhã, fui percorrendo as ruas cidade. Senti, mesmo, como as ruas são um miradouro para a vida.

Em muitas pessoas que fui encontrando, recordava, uma história, uma memória, evocações do tempo vivido. Situações.

Senti a poesia num beijo. Fixei rostos com sorrisos. Senti as mãos apertadas noutras mãos. Vivi encontros vindos do fundo do tempo – “Eh Manel, nem o conhecia, há tanto tempo que não o via”.

Notei aquele movimento de alguém que, discretamente, faz que não vê, fugindo de cumplicidades. O desprezo da superioridade moral.

A rua é mesmo um miradouro sobre a vida. Caminhamos, e, nos passos por dentro delas, descobrimos todos os olhares, vemos, os olhares reais deste tempo, aqui e agora, e, até, ali, encontramos olhares perdidos na memória. Recordamos. Sim, foi aqui, nesta rua, que conversei contigo, pela última vez, antes de partires para o infinito. Saudade.

 

Vamos caminhando, de súbito, uma porta abre-se e sentimos, naquele instante, nascer do silêncio, a ternura de um olhar que aquece o frio matinal. Sorrimos. As ruas são vida a pulsar no coração.

Neste pulsar, sentimos os nervos a florir, brotando como nascente -  a vida, o tempo, o que somos, tudo,  só faz sentido se vivermos, vivendo.

Afinal, matar o tempo é, antecipadamente, matar a vida, assim, como quem enrola os nervos na solidão.

 

De há muito, habituei-me a olhar os dias e a vida pelos sentimentos que se inscrevem na memória, porque é nesse recanto da consciência, que estão todos os começos e recomeços, por isso, quando caminho no miradouro da vida – as ruas da cidade -  renovo energias.

Sorrindo, sempre sorrindo…

 

António Sousa Pereira

Dez anos, afinal, não é muito tempo…

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Há dias que são iguais. Há dias que são diferentes. Afinal, aquela diferença, que só nós, cada um de nós regista, lá no fundo de si, naquele lugar do silêncio, onde conversamos com os nervos e sorrimos.

Hoje, é um desses dias, um dia marcante no tempo que vivi, e, de facto o que conta na vida é o tempo que vivemos, o tempo que se crava em sementes, essas donde nasce a memória. A memória só faz sentido quando é o que fomos, o que somos e o que ainda estamos para um dia ser, porque a vida não é um estar, a vida é sempre, sempre mesmo, acima de tudo um ser – sendo!  

 

Hoje, pela manhã, fui aos CTT levantar uma carta registada. Enquanto aguardava a funcionária, que já conheço há alguns anos, dizia-me que ainda não tinha idade para se reformar, e, embora podendo já tomar essa opção, vinha para casa com algum corte, por isso a sua decisão foi ficar até ao fim  - “também se for para casa, sei que vou passar a vida em casa, por isso opto por estar a trabalhar. E levo a reforma completa”.

 

Escutava as suas palavras e recordava as minhas opções. Eu decidi optar pela aposentação, com todos os cortes. Porque,  entre os cortes financeiros e os corte no sonho de viver, optei de facto por viver.

Era uma ansiedade enorme, um desejo que nascia na carne e nos ossos do pensamento. Voar. Viver. Liberdade.  Sentir os dias e vivê-los com o prazer de fazer apenas o que me dava gosto fazer.  Dar vida aos dias. Tocar o sol.

 

Foi no dia 1 de Fevereiro de 2009. Faz hoje, precisamente, dez anos que iniciei essa nova vida.

O primeiro dia foi vivido ali, naquele silêncio, em conversa com as gaivotas, na praia linda do Baleal.

Um dia que escrevi ideias no meu caderninho. Projectos. Caldeiradas de Palavras. Tantos sonhos.

E muitos foram sendo construídos, com limitações, mas, foram semeando futuro. É que no futuro está sempre em aberto esse passo de realizar os sonhos.

Afinal, só quem deixa de sonhar é que enterra os sonhos. Matar um sonho é suicidar o futuro.

 

Sim, eu sei que foi esse tempo da troika que veio adiar, baralhar e travar todos os projectos. Tanta coisa adiada. Podia ter sido diferente, podia. Mas, apesar de tudo nunca desisti. Cá estou, tal como há dez anos a sonhar futuro.

Enquanto sonhar futuro, sinto, dentro do meu coração essa energia que faz sorrir, faz nascer emoções vivas nos dias e ignorar os que estão. Já vi tantos no estar. Os do ser, esses, são menos. São esses que ficam cá no meu respeito, são os que me marcaram pelo diálogo, pelas diferenças, pelas opiniões, pela dignidade.

 

É por isso que vivo os dias de hoje, cada vez mais, com este sentimento de liberdade, independência, serenidade. Todo o tempo é meu.

Vivo com intensidade esta paixão de comunicar, de pelo meu trabalho dar contributos para que sejam

partilhadas ideias, exista diálogo, haja abertura às diferenças, que se combatam as intolerâncias. Fazer democracia. Confronto de valores. Abertura de caminhos. Pluralismo. Cidadania activa.

Sinto isso todos os dias. Faz hoje dez anos, nos mais dez ou vinte que tenho pela frente para viver, é, será sempre este o caminho que vou seguir – com valores, com princípios. Os mesmos de todo o tempo que vivi – valorizar os direitos humanos, valorizar os direitos da natureza, valorizar as diferenças. Três Dês.

Isto é Liberdade. Isto é Dignidade. Isto é Democracia.  

Dez anos de lutas, contra  troikas financeiras ou contra troikas ideológicas. Afinal, dez anos não é muito tempo.

E, cá estou a sonhar futuro, sempre!

 

António Sousa Pereira

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