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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Barreiro - Pensar e projectar a construção de uma nova Biblioteca

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A Biblioteca Municipal do Barreiro assinalou hoje, dia 5 de Janeiro, o seu 55º aniversário. A Biblioteca faz parte da memória de muitos barreirenses, naturais, ou, mesmo daqueles que desta fizeram a sua terra.

Conheci a Biblioteca Municipal a funcionar, ali, naquela esquina da Avenida Alfredo da Silva, frente à Livraria Bocage. Foi ali que li o romance «Os Irmãos Karamazov», de Dostoievski.

Naquele tempo, os rostos da Biblioteca, que todos conheciam, eram a D. Alda, a D. Olga, outra funcionária cujo nome não recordo e a jovem Francisca Trindade, esta, mais tarde, como Chefe de Divisão foi a protagonista, conjuntamente com o Arquitecto Eduardo Porfírio, de todo o processo de implementação das actuais instalações, com visitas de estudo a Paris, para obter informação actualizada e moderna no funcionamento de uma Biblioteca Pública.

Estas instalações foram inauguradas nos finais dos anos 80. Recordo, como se fosse hoje, o dia da sua inauguração,  quando Helder Madeira, presidente da Câmara Municipal do Barreiro, findou o seu discurso, o Mestre Augusto Cabrita, comentou  - “Brilhante discurso. Muito bom”.

Seguiu-se uma grande confusão de gente a entrar, afinal, todos queriam ser os primeiros a conhecer aquele espaço inovador e moderno no centro da cidade.

Recordo aquele beijo e abraço do Mestre Augusto Cabrita, foi a forma que ele teve para expressar a sua enorme alegria, pelo momento que estava a viver na sua terra, e, assim exteriorizou um gesto de ternura. Recordo.

 

A nova Biblioteca Municipal do Barreiro na época, para os que gostam de criticar e achar que no Barreiro o tempo parou, era considerada um exemplo, um modelo, um caso de estudo. Fomos pioneiros. O nosso problema é que, afinal, muitas vezes, em muitas coisas, ficamos no ser pioneiros

Sublinho que a nossa Biblioteca Municipal, na verdade, transformou-se num ponto de referência para a toda a Rede de Biblioteca Públicas, ao nível nacional. Era um exemplo apontado em diversos encontros regionais ou nacionais de e sobre Bibliotecas, por técnicos e por políticos e governantes. Muitos vinham visitar para conhecer, quando nos seus concelhos iniciavam projectos de construção de Bibliotecas.

 

Mas, o tempo foi passando e aquela que era um exemplo – um caso de estudo – pela qualidade funcional e pela sua diversidade de recursos, começou a ficar para trás, pelo país e pela região, foram nascendo novas Bibliotecas que superavam a já “velhinha” Biblioteca Municipal do Barreiro.

Foram sendo feitos investimentos em novas tecnologias, mas, de facto, o mundo transforma-se a um velocidade que exigia mais «percepção», mais «visão», mais «inovação».

 

Apesar de todas as dificuldades,  a Biblioteca Municipal do Barreiro foi actualizando o seu fundo Bibliográfico, muitas vezes devido à pressão dos seus leitores, estudantes universitários.

Nos dias de hoje, o Barreiro que quer ser uma cidade de referência na vida cultural, dizem mesmo que quer ser um «cluster criativo», devia começar a pensar e projectar a construção de uma nova Biblioteca, com novas valências, onde, como edifício âncora, pudessem existir em seu redor outras vertentes de estudo e leitura, nomeadamente o dito «Espaço J», ou até mesmo, a «Academia Sénior – UTIB».

Enfim, um projecto visionário, mas realizável, com recurso a fundos europeus, que contribuísse para dar qualidade de vidam e, de  novo, nesta dimensão cultural, o Barreiro tornar-se um caso de estudo.

 

Esta Biblioteca fez o seu tempo. Lá vai o tempo que, na verdade, ela, era o «AMAC» dos promotores da cultura municipal. Hoje continua a ser um equipamento municipal de qualidade, mas, para quem sonha um Barreiro melhor e maior, então, tem que existir visão para perceber e projectar uma nova Biblioteca Municipal do Barreiro - uma Biblioteca para o século XXI.

Alguém me dizia: “Sabe onde ficava um bom edifício de Biblioteca era no Palácio de Coimbra”.

“Dizem que vão fazer ali o Teatro  Municipal”, respondi.

“Que pena”, respondeu a especialista em bibliotecas, com quem estive a trocar breves palavras.

  

Em conclusão, parabéns aos trabalhadores da Biblioteca Municipal do Barreiro que continuam a dar o melhor de si, a inventar, a sonhar, para dar vida e manter vivo aquele espaço cultural no centro da cidade.

Eu sei. Sei mesmo. Porque ali, por ali, até sonhei, até fiz projectos, até inventei Laboratórios da Memória, coisas que ficaram na gaveta, e, tantas outras coisas, naqueles dias que por ali estive, durante cinco anos, na prateleira de silêncio, aquela onde são colocados funcionários públicos rotulados como “persona non grata”…

 

Gostei de estar por ali, hoje, em dia de festa, rever antigos colegas, com quem partilhei dias, emoções e forjámos amizades. É na vida real, no quotidiano,  no fazer, no dar e receber, no partilhar, que a amizade se inscreve no coração.

 

António Sousa Pereira

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