Isso é que é lindo!
Foi em Dezembro, precisamente há cinquenta anos. No final do ano de 1966, que foi tomada a decisão de sair da minha terra, rumo a Lisboa. Um novo tempo iria começar. Uma nova descoberta. Um novo caminho. Tantas incertezas e dúvidas. Mas adorei viver em Lisboa e gosto imenso de Lisboa, cidade que descobri, nos seus recantos, em longas caminhadas, aos domingos, de uma ponta a outra – do Beato a Belém, do Alto do Pina à Graça, da Mouraria à Madragoa, de Alvalade a Benfica, de Campolide ao Castelo. Lugares que guardo na memória. Sitios. Momentos. Lisboa a cidade que não dorme, onde, a qualquer hora existe vida para viver. Paisagens que se deitam sobre o Tejo. Lisboa faz parte do meu coração. Assim como Setúbal. São cidades onde vivi dias de encanto, luita e sonho.
Visitei o Barreiro, pela primeira vez em 1967, na altura estive, um dia inteiro no Bairro das Palmeiras, na companhia de um amigo de meu pai e conterrâneo o Barbeiro «Becinho». Por várias vezes, aos domingos, este tornou-se um passeio regular. Aqui, ou até à zona do Alto do Seixalinho, numa «vila» que existia, aproximadamente na zona onde, actualmente, está localizada a Praceta José Arede.
Longe de mim pensar, que, anos depois, era aqui, nesta margem, nesta terra, que iria construir toda a minha vida. Crescer. Amar. Lutar. Sonhar. Foi a partir de 1971 e mais fixamente a partir de 1972, que o Barreiro passou a ser a minha segunda terra. Esta é, afinal, a terra dos meus filhos.
Hoje, cinquenta anos depois, neste dia, que marca a passagem para mais um ano, recordo o dia da partida da minha terra natal, rumo à cidade grande e todas as incertezas e sonhos que transportava nas minhas ilusões juvenis.
Dizia a mim mesmo, sem saber o que era essa realidade profissional, era apenas o gostar de comunicar e escrever, algo que cultivava de forma autodidacta. Gostava de o ser, que queria ser jornalista. Era um sonho. Um desejo.
Gostava de ser jornalista, e, se não fosse isso, colocava como opção ser filósofo. Licenciar-me em Filosofia. Adorava debater ideias. Discutir. Descobrir. Uma permanente ansiedade de conhecer o desconhecido e outro desconhecido. No limite a ideia de Deus estava na frente dos meus olhos a sorrir. Mas, o jornalismo e a Filosofia eram, de facto, as minhas paixões.
Os dias eram difíceis. Trabalho. Muito trabalho. Suor e pão. Estudar à noite e trabalhar.
Bom, mas, essa história um dia hei-de dar a conhecer, em toda a sua dimensão. Estou a escrever, serenamente, revivendo as memórias de criança.
Afinal, aqui e agora, cinquenta anos depois, sinto que ainda estou a construir o sonho que guardo nas memórias da adolescência. Fazer jornalismo. Pensar filosofia. Construir cidadania.
Ninguém foge aos desafios que a vida lhe coloca pela frente. Ou se desiste. Ou se constrói.
Podemos não atingir o que queremos, mas, se chegarmos onde pudermos…atingimos as nossas capacidades.
Cinquenta anos depois, hoje, neste último dia de 2016…escrevo para recordar, e, ao escrever sinto que continuou a manter vivos os sonhos que trouxe comigo nos desejos juvenis, gerados nas leituras da «Nau Catrineta» e do «Pim, Pam, Pum»…ou, quando, olhava as páginas do «Jornal do Algarve», na minha Rua da Espanha, e, então, pensava - um dia vou escrever aqui…
De facto foi ali que escrevi os primeiros textos, antes do 25 de Abril. Esse era o começo de um sonho que, afinal, continuo sempre, sempre, sempre, a viver todos os dias. Fazendo o que gosto, vivendo o que gosto. Isso é que é lindo!
S.P.

