A vaidade
Gosto de pessoas vaidosas. Daquelas que são vaidosas pelo que fazem, pelo prazer que colocam naquilo que as realiza e realizam.
Aquela vaidade sentida como expressão da alegria de ser e fazer. Uma vaidade que brota do feito e não do dito. Uma vaidade feita de pureza.
Uma vaidade que não é outra coisa senão esse olhar para uma realização, uma afirmação, nesse ser senhor de si mesmo. Único.
Ter vaidade naquilo que fazemos, é ter autoestima, é sentir a satisfação de ser o que somos, pelo qual lutamos, trabalhamos, treinamos, para fazer mais, para fazer novo, para fazer melhor.
Fazer cometendo erros e aprendendo com esses erros, sem medo de os assumir. Fazer e ter consciência das limitações e insuficiências.
Saber, claramente, que com outras condições, outros recursos, outras circunstâncias, então, outros patamares seriam possíveis de alcançar, e, assim, com essa consciência, nunca desistir.
Assim, com essa energia de quem sabe - não tem cão, caça com gato. Trabalhar. Trabalhar. Treinar. Treinar. Só com trabalho, trabalho, treino, treino, se concretizam os objectivos. Ser.
Manter o possível, fazendo o possível. Olhando para nós próprios, como quem se observa nos seus limites, possíveis e impossíveis. Aguentar. Aguentar.
Sentir a vaidade como quem ergue um cravo a florir na Primavera. Uma vaidade florida.
Sentir a vaidade como quem voa, como quem coloca asas e encontra a beleza no voo de uma gaivota, rasgando o céu azul e as tempestades.
Gosto de todas as pessoas que são vaidosas porque sentem o prazer de viver a pensar, conscientes que é no pensar que tudo começa – os sonhos, as ilusões e as certezas e incertezas!
A vaidade de olhar e ver, a vaidade de sentir e pensar, a vaidade de ser e fazer, a vaidade que se mistura e consolida com essa vontade, na qual somos - participando, agindo.
Gosto de pessoas vaidosas aristocratas, nobres, snobes, até, de um snobismo feito de gentileza, com gestos que nascem no coração, na beleza dos seus actos que transmitem veracidade.
São essas pessoas vaidosas, de quem eu gosto, merecem ser vaidosas, porque têm o direito adquirido de o ser, pelo que são e fazem, seja o operário, o intelectual, o actor, o artista, o jardineiro, o carpinteiro, o professor, todos aqueles que amam o que fazem e, de facto são, sendo. Essa é uma vaidade pura.
Não gosto de pessoas vaidosas que fazem da vaidade um encanto, um modo, um estilo, uma forma de superioridade, um olhar distante de sabedoria. Uma vaidade donde emerge inveja, que detesta, que menospreza, que desvaloriza. Odeia. O ódio nunca foi bom conselheiro. Nunca encontram nada de bom nos outros, seja por razões ideológicas, politicas, religiosas, académicas, culturais, sociológicas, étnicas – eles são superiores.
Essa vaidade de saber absoluto. Essa vaidade que esmaga com o seu saber e reduz a cinzas todos os ignorantes que os rodeiam. Existem eles e o povão. Essa vaidade de tão perfeita que é, afinal, recusa uma das coisas mais belas que nós temos na humanidade – as diferenças.
Essa vaidade costumo classificar de pedantismo. Futilidade. Superioridade imbecil.
É por isso, que prefiro, sentar-me na última carruagem do comboio e, nesse lugar, usar o olhar, observar serenamente, procurando a cada instante, descobrir o sentido – das palavras, dos acontecimentos, da vida. Sim, repito, das palavras.
Adoro palavras. As palavras nascem dentro dos meus gestos e são a expressão do que vejo, vivo e sinto. Procuro descobrir palavras no quotidiano. Viver por dentro das palavras. Sentir.
Afinal, é tão simples, são as palavras que permitem sentir e encontrar essa diferença, mínima, que existe entre a vaidade e o pedantismo.
Basta escutar, ler e observar…descubram!
S.P.

