As escórias da vida
Parei, ali, naquele lugar, e, por momentos, mergulhei em imagens gravadas no tempo. Recordo aquele movimento matinal, a entrada no portão, para começar mais um dia na fábrica. Na altura, o portão por onde entrava era junto à Praceta dos Lusíadas. Bicicletas. Motorizadas. Pessoal a pé, uns para a Sotinco, outros para a Equimetal, havia o Forno Cal, o Zinco Metálico, os Poliois, a «Kovaseiko» e muitos outros, Adubos, Metalurgia e até o último dos Contactos, que ainda funcionava, esse, que fazia cair uma intensa «chuvinha», uma neblina, mesmo quando não estava a chover e criava um ambiente único, telúrico e sulfuroso.
Recordo, algumas ruas esventradas, porque estavam a colocar uma nova rede de esgotos, com uma fibra, anticorrosiva. A fábrica agitava- se e agitava.
Parei. Fiquei por ali uns instantes a olhar e a recordar o tempo, quando este era um espaço fechado, completamente vedado à cidade. A Fábrica era a fábrica. A cidade era a cidade. Mas estavam ligadas por cordão umbilical de sentimentos.
Olhei aquele edifício, agora abandonado, e, senti o pulsar da vida que fervilhava no seu interior de descoberta e aprendizagens. Recordei o Salo, que algumas vezes encontrei a sair, junto àquelas portas, onde, ele, formava muitos jovens, que ali sonhavam um futuro de electricistas, soldadores ou outras actividades fabris. Ali começavam a sua formação. Ele sorria. Comentava um ou outro artigo que estava a escrever para o «Jornal Daterra». Trocavamos opiniões.
Eu, lá seguia, rumo à fábrica do Zinco Metálico, aquele mundo que estava em construção, prestes a produzir lingotes de zinco. Ali vivi os meus dias de operário. Entre a zona das células, uma zona de temperaturas baixas, frio, mesmo frio, onde era preciso entrar de máscara. Como quem entra numa atmosfera imprópria para o ser humano. Cheguei a ver companheiros a sangrar do nariz. Ali, era, de facto, mesmo, mesmo, quase impossível respirar.
Ou, então, trabalhava junto aos fornos, com temperatura elevadas. O líquido corria, como se fosse lava, escorrendo para dentro de formas, que giravam de forma permanente, num tapete rolante.
Quando o líquido, prateado, corria para as formas, no cimo ficava uma escória que era preciso retirar, rapidamente, para não solidificar, então, com movimentos rápidos e maquinais, automáticos, os braços tinham que acompanhar o ritmo do tapete, sempre a circular. Quando ali estava, muitas vezes, ocorria-me à memória as cenas do filme – Tempos Modernos – do Charlot.
De máscara, luvas de protecção ao calor e de avental, para proteger o corpo, ali, horas e horas, de ritmo intenso. Um trabalho isolado, que nos transformava em mera peça de um forno a fumegar zinco. Ali, sem ninguém para trocar qualquer diálogo, apenas, usando os braços, funcionando em automático, um movimento constante, retirando a escórias. Foi talvez, aí que aprendi a sentir e a descobrir as escórias da vida e nelas encontrar a beleza de todos os tempos que vivemos.
Ao fundo do tapete, pouco a pouco, num ritmo regular, calculado, lá iam caindo os lingotes de zinco metálico, pouco depois, transportados por um empilhador para um parque, onde se acumularam, acumularam, acumularam… porque, afinal, nunca chegaram a ser comercializados.
A fábrica de Zinco Metálico acabou por encerrar. Foi uma experiência. Um investimento do estilo «elefante branco». Hoje é um espaço vazio, ali, junto ao Tejo. O que resta são uns pilares dos tanques e o silêncio.
Quando por ali passo, ainda sinto o pulsar do tapete e o cheiro dos ácidos a penetrar os pulmões.
A fábrica. Sim, a fábrica, também faz parte deste tempo que vivi e senti, aqui, nesta margem do Tejo.
Tantas estórias e memórias. Recordações. Sons. Cheiros. Conversas. Lutas. Sonhos. O operário que fui, e não fui, cerca de dois anos da minha vida, que estão gravados em zinco no coração.
Foi isso que recordei, ao passar, ao fim da tarde, enquanto o sol descia no horizonte e, de olhos postos nas chaminés, parei a olhar a fábrica, as fábricas e a imaginar uma manhã…perdida num tempo que foi e, na altura, já se sentia que era isto que estava anunciado. O silêncio. A escória. As escórias da cidade. As escórias da vida.
S.P.

