A contagem decrescente
Está na hora de adormecer. Fechar os olhos. Começar a contagem decrescente. Chegámos à última estação. E, por estes dias, começamos a fazer balanços. A lançar projectos. Nas ruas escutamos os sons natalícios. Aquela musicalidade que nos transporta à infância. A festa. O tempo de festa.
O ciclo que encerra. O ciclo que começa. A repetição por dentro de todas as recordações.
Neste tempo, ocorre-me sempre à memória, aquele som que escutava ali na esquina, entre a Miguel Bombarda e a Alfredo da Silva, aquele ceguinho, remexendo a caixa negra e clamando : “É naataal, é naataaal..”.
Ao mesmo tempo, naquele lugar, o chilrear dos pássaros ecoava pela rua. Um som que me apaixonava.
Este é sempre um tempo de reflexão, um tempo que olhamos para dentro do próprio tempo e para dentro de nós, pensando, que este é um tempo de recomeçar, porque achamos sempre que há sempre um tempo para recomeçar. Renascer.
Para o ano vou fazer, sim vou fazer, pensamos e prometemos aos nossos botões.
Hoje, começa a contagem decrescente, rumo a um tempo que desejamos ver chegar e festejar. Ali, quando tocarem as badaladas da meia noite e por milagre, de repente, pensamos. Chegou um novo tempo. Acreditamos. Queremos acreditar.
Depois, acordamos. Ligamos a televisão e o mundo continua igual, as guerras, as tragédias, os conflitos, os gestos de amor, os beijos, a alegria de partilharmos a vida com quem gostamos de ter ao nosso lado. Sorrimos. E partimos para um novo ciclo. Igual. Diferente. A sonhar com as sextas- feiras. Ou a pensar nas férias de Verão.
Uma coisa é certa, essa certeza, todos devemos descobrir, em cada tempo que passa, cada dia, cada hora, cada mês, cada ano, nós vamos mudando, porque acumulamos tempo ao tempo vivido. Aprendemos. Compreendemos. Ignoramos, porque, por vezes, o melhor é mesmo ignorar, ou, em último recurso, tentar ignorar. Parar. Olhar as luzes brilhantes da árvore de Natal e, rebuscando nos cristais que iluminam o nosso sentido da vida, lá nesse brilho que faz pulsar o coração, recomeçarmos a contagem, contando ao contrário, assim como quem vai ao encontro daquele instante, único, onde estamos mergulhados nas águas da vida. Remexemos os braços e as pernas. Abrimos os olhos. Choramos. E, então, nesse momento, sabemos que vamos começar a nascer…vivendo!
Só vivendo é que nascemos em cada ano que esperamos, com vontade de recomeçar. Sem ilusões temporais, ou desejos de mudança. A mudança existe se não abdicarmos de ser o que queremos ser, sendo.
É, aí, nesse lugar, que começa sempre um novo ano. Comecemos pois a contagem decrescente…
S.P.

