Fazendo, sempre fazendo!
O tempo passa. Os dias saltam pelos dedos. A vida. Este lugar. A cidade. O rio. Os discursos. Os sons dos pássaros. O colorido do céu azul. O som do comboio. O gemido do «Jaquim», como eu lhe chamo, junto à janela a dizer-me: «Miauu. Estou aqui…». Olhamo-nos, olhos nos olhos. Sorrimos. Ele agita a cauda. Salta. Assim, como o tempo, esse eterno encontro com os dias.
De repente, sentimos que mais um ano está prestes a culminar. Deslocamos o pensamento por dentro dos dias e reencontramo-nos, a olhar e a sentir, esse tempo perdido ou vivido. Crescemos, ou não crescemos. Mudámos. Aprendemos.
O tempo é isso mesmo, uma permanente aprendizagem e descoberta. Encontros e reencontros.
Sonhos vividos. Sonhos adiados. Esperança.
Afinal, nenhum dia é igual, quando vivemos a intensidade do fazer, assim, preenchendo as horas, os minutos, os segundos na paixão de viver.
Mas, há dias que nascem por dentro dos nervos da memória. Tocam. Agitam. Sentimos a ausência. Recordamos, de súbito, que o telefone deixou de tocar, e, do outro lado, escutarmos uma voz, suavemente, irreverente, agarrada ao tempo, agitada e viva. Construindo os dias em palavras. Sempre com opinião.
Depois, sentimos, que, hoje, este, é o dia do poeta – um dos dias do poeta – porque todos os dias são dias do poeta. Ele que nos diz, que somos nada e, apesar de tudo o que somos e não somos, mantemos vivos todos os sonhos do mundo. Mesmo dormindo no chão. Somos, sempre crianças. Nada mais belo que ser sempre criança. E, com esse olhar de criança, amar os dias e o tempo. Todo o tempo!
A poesia, é aquilo que nasce nos dias, transformando os seus resíduos e as suas escórias, em palavras, que procuram encontrar um sentido para a vida.
Amanhã, qualquer dia, amanhã, seremos uma mera recordação. Uma saudade. Um voo na imaginação.
E, será isso, que irá manter a nossa presença, até um dia, mais tarde, quando essa recordação for esquecida, como muitos já ficaram perdidos no tempo e foram esquecidos. Recordamos os que se inscreveram no nosso tempo vivido.
É por isso que, todos os dias, ao acordar, sejam dias do poeta, ou sejam os dias que na memória emerge uma saudade feita de silêncio, vale a pena, sentir, viver, sorrir e, porque não, até chorar, porque as lágrimas lavam por dentro os pensamentos humedecidos de ternura. Essa ternura que nos move e permite voar, voar, voar, navegar, navegar, navegar nas ondas dos dias, assim, agitadamente, fazendo e mergulhando até aos confins da natureza! Nesta cidade. Neste lugar. Neste tempo. Fazendo, sempre fazendo!
S.P.

