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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Aromas

Não sei porquê, sinto-me mais motivado e emocionado com os sons, as palavras, as cores.

Gosto de escrever, por dentro das palavras, são notas musicais, há uma musicalidade escondida, em movimento, um ritmo, esse, que faz que eu pense enquanto escrevo, agitando um timbre nos nervos. Delicio-me. Os sons acompanham-me, como se fossem a água de um rio tocando nas margens das palavras. Penso como quem escreve.

É, talvez, por isso, que muitas vezes, falo como quem pensa, nesses instantes, sinto que as palavras saltam, efervescentes, radiosas, florindo nos meus lábios com gritos de paixão.

As palavras emocionam e dão colorido aos dias, mesmo aos dias mais frios, sem luz. Talvez, sim talvez, por essa razão gosto de escrever nos dias de chuva, enquanto escuto as lágrimas da natureza, trepidando nos vidros do meu canto do universo.

Todos nós temos um cantinho no universo, aquele lugar, onde encostamos os olhos e sentimos o ritmo do tempo, num tic-tac, que marca a sonoridade do coração.

Gosto de todas as cores. O verde da natureza verdejante. O azul do mar e do céu infinito. O vermelho do pulsar da vida. O amarelo que faz lembrar a luz solar. O branco, essa cor com que pinto o vento.

Depois, misturo todas as cores com o branco, para sentir que outras cores voam, nascem, renovam-se, por dentro da tela da vida, de tal forma, que as cores transformam-se em emoções, enquanto as emoções transformam-se em palavras e as palavras estoiram em sons, poeticamente. Essa é a beleza da vida. Sentir a poesia em todos os actos que abraçamos.

Descobrir na tragédia, na alegria, na dor, no sorriso, que, afinal, são as cores, as palavras e os sons que acrescentam aos dias vitalidade.

 

Mas, hoje, dei comigo a pensar, que, muitas vezes esqueço, ou, sem querer, ignoro os aromas.

E, ao pensar nisso, percorro por dentro dos nervos, tentando descobrir aromas no pensamento.

Fecho os olhos, procurando descobrir as minhas memórias olfactivas. Ah, são tantas!

Adoro os aromas do mar, aquele cheiro a maresia. Por vezes, quando vou em viagem e percorro uma zona de pinheiros, abro o vidro do carro, só para respirar aquele aroma que, sinto, toca na minha infância.

A nossa vida também é marcada de aromas que nos transportam a lugares, estórias, alegrias e dramas.

 

Mas, tudo isto, ocorreu ao meu pensamento, quando escutava uma jovem, a falar sobre uma cidade feliz, comentando os aromas de alfazema, de erva cidreira, de tomilho e de alecrim, defendendo a plantação de ervas aromáticas nos jardins das cidades.

Nesse instante, dei comigo a imaginar que os poemas também podem, devem, são, escritos com os aromas que se inscrevem nas nossas palavras.

Um beijo de alfazema. Um abraço de alecrim. Um sorriso de erva cidreira. Um aperto de mão de tomilho. Uma paixão de manjerico. Um grito de cravos. Um cântico de rosas.

Assim, misturando aromas, cores, sons, sabores, como quem compõe uma sinfonia-colorida, que interage com os nossos dedos, perde-se por dentro da nossa visão, tornando-nos, subitamente, humanos, no encontro com a natureza, esse lugar donde viemos e, donde, cada vez mais nos distanciamos, porque optamos por destruir, esquecendo o que é amar, esse amor que é feito de cravos, rosas, malmequeres, lírios…

Sim, é isso, esquecemo-nos de olhar os lírios no campo!

 

S.P.

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Paragem

Sento-me. Estico os braços. Toco com os olhos a paisagem. Imagino. Vivo, este instante, deslumbrado pela luz solar.

Os raios perfurantes da luz, ali, ao nascer do dia, são silenciosos, ternos e límpidos. Olho o rio. Paro no tempo, como quem hiberna, por dentro do pensamento.

É tão belo sentir a paragem do tempo. Assim, sem passado, nem futuro, apenas nós, naquele instante de solidão. Viver. Apreender e aprender com a sonoridade das palavras que vasculham o cérebro e fazem pensar. Sim, afinal, parar, serve para pensar, meditar, descobrir nas veias a energia que transportamos de todo o tempo vivido, neste aqui e agora, que é, afinal, a nossa totalidade.

Paramos. Pensamos. Ao pensar aprendemos os pensamentos que absorvemos, como quem se delicia a saborear um gelado num dia de calor, ou bebe um chá, bem quente, numa noite fria de inverno.

Parar é ganhar forças para avançar. Uma paragem na vida nunca é tempo perdido, muitas vezes, é, pode ser, o ponto de partida e, ali, dar à vida novo sentido.

 

Só quando paramos no tempo, sim, essa paragem, que nos impede de caminhar e sair do tempo vivido, então, ficamos ali, presos de uma prisão, feita de penumbra, de um tempo que já vivemos, que já fomos, congelámos a vida e os sonhos.

Sim, é verdade, essa paragem é desgastante, é uma fixação nos nervos que torna inúteis todos os gestos, sucumbimos, gelados nesse glaciar da memória.

 

Uma paragem a olhar o sol. Uma paragem a sentir o vento. Uma paragem a tocar as ondas do mar. Uma paragem dentro dos nervos agitados de amor. Assim como quem sente o corpo a florir, beijado de paixão. Ternamente. Essas paragens são lindas. Ternas.

 

Não quero parar no tempo, porque quando se para no tempo, paramos no pensamento. Parar o pensamento é parar de sonhar, de sorrir, de amar.

Deixa-me, apenas, parar encostado, no teu ombro, delicadamente e sentir os nervos, a vida, a fluir numa intensidade partilhada de gritos e paixão. Deixa-me, suavemente, remexer teus cabelos, meu amor!

 

Todas as paragens são belas, se forem paragens, nobres, tão nobres, que se transformam em clareiras ao luar, e, ali, na noite escura, são a marca, o ponto de partida para rasgar os caminhos das florestas e abrir a descoberta do infinito, essa miragem, que pulsa sempre por dentro do coração e faz parir o futuro.

Hoje parei, aqui, nesta paragem do tempo, não como tempo perdido, mas para sentir que, em cada instante, em qualquer instante, esse, que é sempre o instante de uma paragem que é, acredita, ponto de partida.

Só quando partimos vamos. Ficar é parar, numa paragem parida no tempo.

Porque, afinal, uma paragem tem que ser sempre um ponto de chegada e de partida.

Sim, só partindo vivemos!

 

S.P.   

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