Átomos de amor
Hoje, nesta noite fria, apetece-me deitar com as palavras, sentir os sons, assim como quem beija os lábios sorridentes ou mergulha nas curvas da planície, olhando o sol e, nele, misturados os ecos de um cântico que rasga as paisagens da memória.
Encontrar no silêncio do próprio silêncio, este encontro com a ternura, que faz sentir o tempo, melodicamente. Uma pausa nocturna.
Sentir-me um sonhador. Sentir, apenas sentir, como quem pinta uma tela de emoções. Um mural.
Imaginar que sou um criador. Imaginar que tenho a poesia, nos olhos coloridos de todas as cores. Sorrindo.
Dou comigo a pensar, na criatividade, no prazer de sentir nascer um poema, uma tela, uma fotografia, um som, e, sinto que esses, e outros como esses, são momentos de sonho. O artista é um sonhador.
O sonho de criar, inventar, delirar, uma fuga por dentro da vida e de todos os instantes que se inscrevem no cérebro, nos neurónios, esse lugar, fecundo, onde se descobre o silêncio. Único. A harmonia de um voo de uma gaivota, entre nuvens cinzentas, ali, no azul, rasgado numa brecha, onde o sol respira.
É isto o olhar por dentro das palavras que se inscrevem na folha branca, um branco feito de silêncio.
É isto, talvez, a sensação de sentir uma tela branca transformar-se numa emoção de cores que pululam dos neurónios, em tons que espelham sentimentos e paixão pela vida.
Tudo podemos criar, recriar, porque, afinal, será que tudo já está inventado.
A arte é a reinvenção da vida, o reancender da esperança.
A arte só tem sentido e valor, se, silenciosamente, se misturar em ritmos de amor. Amar não é mais que deitar os meus sentimentos no teu olhar e sorrir. Partilhar.
Por vezes, penso que afinal, todos nós, mais que procurarmos encontrar nos dias a felicidade, devíamos procurar descobrir o silêncio.
O silêncio dos sons, dos movimentos, das cores, dos nervos que rangem com mágoa, perante a tragédia de um mundo que se refugia nos gritos e no terror, e, silenciosamente, nos transforma a todos em verdadeiros «sem abrigo».
O encontro com o silêncio é um encontro com o nosso «abrigo», a nossa harmonia – esse reencontro com o universo. A infinitude.
Hoje, pela manhã, escutava alguém a falar de nanologia, esse infinitésimo olhar sobre o mundo, referindo que, nos tempos que correm, descobrem-se coisas que já existiam, mas, só agora, existem tecnologias que nos levam a ver o que não víamos.
Dizia a investigadora, que a cor do ouro – é vermelha - analisada ao nível da dimensão nanológica. Pasmei. E fiquei, por ali, perdido naquele pensar as cores, ou os sons, ou as palavras. Tanta coisa que existe e nós não vemos, não sentimos, não olhamos. Só porque não estão ali na dimensão da nossa pequenez humana.
Mergulhei no meu silêncio, tentando pensar com os pensamentos que são meus e só eles, de facto, permitem chegar, ali, a essa minha interioridade. A caverna das minhas sombras.
Fiquei com uma intensa vontade de sentir o futuro, de imaginar o futuro. Que outras coisas irão ser descobertas, que já existem e nós não vemos?
Sim, quando, amanhã, em vez de nanologia já existir outra dimensão, talvez uma nana-nanologia, que novas cores e sons esperam pela humanidade no futuro imenso.
No meio de tudo isto, encontro os meus registos sobre as ideias dos átomos de amor, teorizadas pelo Grego Demócrito. O amor a fluir como matéria viva. Emoções em movimento.
Será que um dia, vão descobrir outras coisas que nós não vemos, nem sentimos, mas que estão aí, reais, a fluir ao lado da nossa ignorância. Esse vazio que existe para além do vazio que toca o nosso coração, a pulsar o sangue que nos move e faz sorrir.
Chego ao fim do dia, e, de repente dou comigo a querer sentir tudo o que sinto, e não sinto, neste silêncio, esplendoroso de amor pela vida.
Olho em frente, e, inesperadamente, lá do fundo dos neurónios escuto um som, ali, em eco, no meu ouvido – “Mano!”.
Paro. Calo-me. Apetece-me pegar numa flor e lançar as pétalas, a voar pelo céu estrelado e frio.
Fechar os olhos e sentir o silêncio. Apenas o silêncio feito de átomos de amor.
S.P.

