As palavras
Acendi uma luz, para iluminar o silêncio da noite. Olho aquela chama reluzente, pontiaguda a tremelicar, como quem está acenado na escuridão dos meus olhos. Sinto o brilho deslizar, ténue, projectando sombras. A vida é isso, uma luz, intensa, que se propaga no tempo.
Um brilho. Um vazio. Um espaço. Uma ideia. Eureka! Faça-se luz!
Os olhos mergulham na penumbra. Abrem-se e sentem essa incidência, das tonalidades do dia, ao acordar, colorindo os pensamentos, ondulantes da madrugada. Os pensamentos essa energia que nos arrasta e faz percorrer todas as distâncias – do passado ao futuro – essa realidade que vivemos, uma química, que dá sentido a cada presente.
Hoje, aqui, agora, olhando a luz que ilumina o silêncio da noite, incandescente, observo os movimentos, delicados dos tons azuis e amarelos, um brilho cintilante.
Imagino os átomos a saltitar nos nervos. Penso Demócrito e, com ele, as emoções, feitas matéria que transforma. As ideias que se materializam em acções, afinal, é, assim sempre assim, que os pensamentos nos ajudam a descobrir as palavras – a força e o peso das palavras.
Escrevo para descansar de um dia de trabalho intenso e, afinal, é, ali, naquele fluxo luminoso que coloco o silêncio dos pensamentos.
Fecho os olhos, como quem está a adormecer por dentro de um feixe de luz, uma onda, que me transporta no vácuo – esse lugar onde as palavras são a radiação que faz nascer a vida, todos os dias.
Que seríamos nós sem palavras?! Que seríamos nós sem sentir as palavras?!
Chego ao fim do dia e, nelas, aqueço o coração e renovo as forças. Pelas palavras vamos, abraçamos causas, sonhamos e cantamos o universo.
Olho a luz. Sinto o silêncio. Adormeço.
S.P.

