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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Outono

Acordei a pensar em palavras, assim como quem acorda a escrever um poema. Levanto-me e escrevo um poema nos nervos. Melodicamente.

Sim, é pela poesia que eu sou, sinto, imagino, vivo este tempo, todo o tempo. Por dentro das palavras viajo no infinito, percorro paisagens, falo com o silêncio. Acordo o sol.

O vento sopra suavemente, enrola-se na textura das árvores. O seu som é uma onda, uma corrente de um rio, levando consigo as folhas amarelecidas. Escuto, ali, a olhar o Tejo, o timbre próprio do Outono.

Olho. As folhas, como flocos a descer sobre a relva, empurradas pelo ritmo do vento. As folhas são pássaros imaginados. Voam. Cintilam. E, lentamente, uma a uma, em cadência, pousam no chão, ternamente. Um manto de cor. Uma sinfonia.

De súbito chove. Pequenas gotas de luz, descem, na tarde, como pincel que vai borrifando a tela do dia. Sim, cada dia é uma tela, onde nos inscrevemos e somos.

Olho, o chão iluminado de pontinhos de vida. A paisagem vincada de notas de musicalidade. Um ponteado sorridente. Uma textura com ritmo.

Um perfume único, emerge, de dentro da terra a fervilhar naqueles pontos humedecidos. Nesse instante, sinto que a natureza toca os nervos. A terra abre os pulmões, as veias e respira. Toca-me e sorri.

O meu olfacto mistura-se com a percepção do lugar e sinto a paisagem ser parte da minha interioridade. A vida.

Ah, que sensação esta de sentir a natureza respirar, naquele silêncio feito de terra humedecida.  

Então, subitamente, naquele instante - aquele único instante – ali, tudo conflui, num sentimento universal, onde, o pulsar da vida, brota de uma energia, um feixe que toca os sentidos, a fluir no perfume da natureza, no sussurrar do vento, na candura das folhas, assim, como se fosse uma radiação que se propaga, um cântico que se espalha no espaço – a eternidade.  

Penso, é isto, é isto a felicidade. Sim, este instante, que descobrimos, as veias da terra humedecidas rasgar em perfume e fazer-se paisagem.  

É, sim, aquele instante em que beijamos com os sentidos, por dentro do odor, e, sentimos a natureza a tocar por dentro as nossas células - unindo a terra, o corpo e a vida.

 Afinal, é isto o Outono!

 

S.P.

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