Onde floresce um cravo a cantar
Vejo aqueles olhos de luar, brilhantes, rasgando o silêncio da manhã. Escutava aquele grito de dentro das dores do corpo cansado de resistir, lutar, acreditar, sonhar – ““Estou cansada. Já não aguento mais”.
Toquei suavemente nos teus dedos, com ternura, docemente, numa melodia que vibrava, ali, como cântico de uma criança que se afaga nos braços. Esticava os nervos. Prendia os olhos. – “Estás muito bonita”. E estavas, com aquele grande sorriso em flor.
“O Bob Dylan já aceitou o Nobel?”, interrogavas. Disse-te que não. A vida lá fora a pulsar e tu agarravas os acontecimentos, a actualidade, como quem quer prender o mundo e voar nas canções.
“Que dizes da sacanice que queriam fazer ao Guterres? É uma honra o cargo que ele assumiu”, comentavas. Ali, nas curvas do tempo, não desistias de ter opinião, de interpretar, ver o mundo por dentro do mundo.
Dobravas o corpo. Remexias. “Dói-me o corpo. Quero ir para casa”. Senti a impotência. A raiva.
“Qual foi o resultado do Porto?”, continuavas. Brincámos. Sempre cruzamos piropos. Um leão não verga a um dragão.
Tocando teus dedos. Ficámos em silêncio. Percorri as tuas mãos. Lentamente, como quem toca e escuta os sons de um piano. Ficámos ali de mãos dadas. Até a dor rasgar os nervos. “Tens umas mãos lindas. Tens uns dedos lindos”, comentei.
Dedos longos, por onde as palavras nasciam em flor, e as ideias cresciam em catadupa. Irreverente. Única. Com conceitos forjados nas memórias, nas raízes ferroviárias, com os olhos no Tejo e a paz no centro do coração.
Afaguei os nervos. Emocionado. “Olha, desculpa qualquer coisinha!”, disse-te. Sorriste, num sorriso aberto.
“As tuas mãos, são as mãos de Deus, de Antero Quental”, foi o teu comentário.
Gosto de Antero Quental, tu sabias. Olhei teus olhos lindos e pensei na palavra – “Esperança”. Há sempre uma esperança.
Uma lágrima encostou-se nos nervos, mas eu não a deixei cair. Sorri.
“Sabes, a vida é para lutar, mas cada vez mais, considero que devemos viver fazendo o que gostamos e amamos. Viver todo o tempo com a alegria de sermos. É este o tempo que temos para viver”, disse-lhe.
“Tens razão”, foi o teu comentário.
Guardo, aqui, no baú, este lugar onde só entra quem nós queremos, essa manhã de Outubro, coberta de azul. Um azul matinal, de um pássaro que “voa na madrugada”.
Este mesmo Outubro, que nos levou, um dia, a dizer um poema, na despedida da Maria Rosa. Lembras-te?!
Dá-lhe um beijo, assim, como quem escreve nos lábios um poema, agora que vão abraçar-se nas águas, fonte da vida.
Afinal, se a vida é para ser vivida, se os dias são para ser cantados, se existimos para viver, se este tempo que navegamos é uma onda azul que rasga a areia vincada dos nossos passos, nós, todos nós, é vivendo que partimos.
Somos acção. Somos palavras. Somos ternura. Somos raiva. Tu foste tudo isso e muito mais. Foste paixão pela vida. Foste amor. Foste dor. A emoção rasgava o teu coração, sempre apaixonado por Abril.
Viver com paixão vale mais muito mais que viver com razão. Por vezes dói, dói mesmo…dói resistir, dói a resiliência, dói, dói ainda mais, muito mais, quando tudo isso é a energia que simboliza o amor à vida.
A vida só faz sentido, afinal, vivida com paixão, essa paixão que inscreves-te no teu amor ao Barreiro, a Portugal e ao mundo - à vida!
Abro o facebook, arrepiei-me. Ele veio dizer-me que, hoje, no dia de hoje, nos tornámos amigos – fui o mano que não tiveste, como dizias. Fiquei a olhar o teu rosto. Aquela fotografia registada na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, que adoptaste no face. O teu Instituto. A tua casa.
Agora, nesta madrugada, enquanto escuto o silêncio de Beethoven, penso no tempo que cruzámos, nos dias e na vida.
Escrevo para te dizer, que meus olhos, estão tristes, por fora e por dentro.
Por fora, eles, navegam no infinito da noite estrelada para te ver brilhar, junto à luz do luar.
Por dentro, estão humedecidos, e, digo-te - também não aguento mais - não quero, nem consigo travar esta lágrima, apenas uma lágrima, reluzente, que cai, como semente, onde floresce um cravo a cantar – “Grândola, Vila Morena”!
Até sempre, mana!
S.P.

