O poema
A cidade vestiu-se de cetim, cores garridas, tecido de luxo, como quem se prepara para uma noite de gala. Era dia de festa. Solene.
Ela pintou os olhos, ternamente, em traços esfumados. O batom vermelho nos lábios, tornavam reluzente a sua pele morena.
Flores nas margens dos caminhos, anunciavam a Primavera. Talvez Abril. Uma garça branca cruzou o céu azul. Escutavam-se os sons dos pássaros no arvoredo.
O poeta sentou-se num banco do jardim. Olhou o sol. Sorriu. A aprendizagem do tempo era real, discretamente, colocou rugas nas palavras.
A ingenuidade dos sonhos, perdidos em beijos ao luar, foi superada pelos cabelos brancos.
A ternura dos sentidos tornaram os poemas em flocos de paixão – símbolos de derrotas e vitórias.
Afinal, era dia de festa, solene - a poesia estava na rua, cantada em cânticos de gaivotas.
Ela abriu os lábios vermelhos num sorriso único, como único é o sorriso que nasce de dentro de cada coração. O sorriso, como a memória, é expressão da nossa identidade, torna-nos únicos. Quantas vezes uma paixão começa num sorriso, rasgado, que brota em lábios vermelhos.
O sorriso une o nosso interior com o nosso exterior, pelo sorriso transportamos de dentro das veias, o poema, que inscrevemos no nosso rosto.
Ah, é verdade. Era dia de festa, no mundo real, esse, humano, que se espelha na poesia, na arte, na vida, sempre que sentimos emoções – da inveja ao amor, do ódio à gula, da ternura ao protesto.
Sim, era dia de festa, vestido de todas as cores do arco iris, do azul ao violeta, do amarelo ao vermelho. Até o laranja foi autorizado.
Ela vestiu-se de azul, da cor dos seus olhos, com os cabelos dourados a ondear o sol. Sorriu.
Era dia de festa. O dia em que o poema floriu amor, o amor soltou-se ao vento, provando que basta um poema, um simples poema, para que a criatividade se transforme numa «bomba de neutrões», que explode por dentro dos nervos e faz sentir, aqui, em ti, nesses lábios vermelhos, que mais que matar é preciso – sorrir, sorrir, sorrir…e amar!
S.P.

