Os três eus
«O que é a mente?». Leio esta pergunta e interrogo-me. Não sei. Nem tenho saber para encontrar uma definição.
Mas, nas minhas reflexões, já há algum tempo desenvolvi, para orientar o meu pensar e sentir o mundo, aquilo que defini por «Teoria dos três eus”.
Acho que é por aí, talvez, que somos capazes de desocultar, um pouco, aquilo que muitos procuram conceptualizar sobre a mente.
A nossa vida é um pouco o caminhar nessa descoberta dos nossos «três eus». Eles acompanham-nos a vida inteira.
O nosso “eu emocional”, que brota das vivências das nossas emoções – no olhar, ouvir, sentir, cheirar – que liga o nosso «eu» à natureza, ao mundo, às experiências que passam pelo nosso corpo.
Para mim, esta é a nossa dimensão estética. O nosso «eu estético», que move a nossa criatividade.
O nosso «eu racional», que emerge nas dinâmicas do nosso cérebro, na conceptualização das nossas experiências de vida.
Esta considero ser a nossa dimensão ética, que faz de nós seres solidários – é por aqui que desenvolvemos a nossa acção politica, religiosa, social e nos integramos nas dinâmicas da sociedade em que vivemos. Por aqui procuramos desenvolver a nossa intelectualidade.
Por fim, temos o nosso «eu espiritual», aquele onde encontramos a síntese dos «eus», aqui, forjamos o nosso «ser» - a nossa fé, a nossa ideologia, as nossas crenças, as nossas não crenças.
Este é o lugar da nossa interioridade que marca a nossa forma de estar, pensar e viver a vida. Os nossos erros e virtudes. Sim, porque todos temos erros e virtudes.
Este é o «eu» da nossa totalidade. Aqui forjamos o nosso carácter e a nossa identidade.
Aqui, nos encontramos com o tempo que vivemos, com aquilo que fomos, somos ou queremos ser. Este é ponto de encontro com a nossa Liberdade.
É esta, afinal, a nossa dimensão ontológica.
O ponto de encontro onde assumimos a síntese do nosso «eu emocional» , do nosso «eu racional» com o nosso «ser».
Sentimos, vivendo, que a nossa felicidade reside no conforto que encontramos, no equilíbrio entre o sentir, pensar e ser.
Descobrimos que somos, tudo o que queremos ser, na medida em desenvolvemos uma energia – nossa só nossa – que é nuclear e, afinal, é ela que move – a criatividade, a solidariedade e a Liberdade.
Essa energia é a nossa vontade.
A vontade de fazer, ou não fazer, a vontade de agir ou não agir, a vontade de estar só ou partilhar, a vontade de sermos tudo e não sermos nada, tudo isso que nos conduz a descobrir – o emocional, o racional, o espiritual.
É, afinal, a descoberta e o aprofundamento da nossa «espiritualidade» - o ser - que está o sentido da nossa vida.
O encontro com o cósmico e o universal. Nós somos seres num universo infinito.
De há muito que tenho pensado neste «três eus» e procuro descobrir, no meu quotidiano, esse sentido universal da vida.
Não sei se isto é a nossa mente. Nem penso isto como verdade, é, apenas isso, e só isso, uma mera reflexão, que nada tem a ver com qualquer tipo de dogmatismos.
É uma forma de estar, sentir e pensar os dias, este tempo que vivo.
É por isso, só por isso, que para mim a Liberdade é o motor da história e a vontade a força que move a vida.
Quando perdemos a Liberdade, perdemos o rumo da nossa história, mesmo que seja a história colectiva.
Quando perdemos a vontade, perdemos a energia que nos empurra, que faz, dá a força, para todos os dias ao acordar, olharmos o sol e construirmos, com os outros, o tempo que vivemos.
S.P.

