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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Escrever sobre pedras

Estou sentado junto ao Tejo. Olho a minha própria sombra. Sorrio. Qualquer movimento que faço a sombra agita-se. Irrito-me. Porque será que ela, a minha própria sombra, me incomoda.

Fico pensativo. Triste. Volto a sorrir. Isto não é normal. Até parece que a sombra tem vida própria.

Começo a discutir com a minha sombra. Grito-lhe.

Um casal passa a correr e olha para mim, de olhos abertos e espanto. Passam em silêncio. Olham para trás. Reparam que estou a falar com a minha sombra. Sorriem.

 

Passa uma gaivota, branca, de asas bem abertas, rasgando o vento. Ouço os seus sons. Parece que fala comigo. Será que é a gaivota ou é a sombra? – interrogo-me.

“A partir de hoje, quero dizer-te que só vais escrever e falar sobre pedras” – são as palavras que escuto interiormente.

“Tens que acabar com essa mania de escrever sobre tudo, de ter opinião sobre tudo, de achares que sabes tudo, e, o mais grave de pensares que tens toda a razão e que és a única verdade”, continuo a escutar estes sons, não sei se são a voz da gaivota, ou se é a minha própria sombra.

 

Desconfio. Sinto-me confuso. Isto é paranoia. Escutar vozes de gaivotas ou das sombras.

O mais certo é serem os meus ódios de estimação, que andam por aqui a mexer, por dentro do meu silêncio. Esses que me acordam de noite, em pesadelos e suores frios.

Olho o Tejo. Vejo Lisboa ao longe como se fosse um cenário. A gaivota levanta voo.

Afinal era mesmo ela que estava a falar, lá de longe grita – “Não te esqueças só vais falar e escrever sobre pedras, mais nada!”

 

Fico pensativo. Se ela quer que fale sobre pedras, então eu vou passar a fazer isso mesmo.

Lembro-me do «Mito de Sísifo». Isto é um castigo, só pode ser. Só pedras!? Todos os dias só escrever e falar de pedras. É castigo!

“Achas bem isto?!”, pergunto à minha sombra.

“Acho mal”, responde-me a minha própria sombra. Fico feliz. Pela primeira vez na vida a sombra, a minha sombra, concordou comigo e eu concordei com a minha sombra.

“Quem nunca esteve em desacordo com a sua própria sombra que atire a primeira pedra”, pensei.

Vou olhando a sombra. Agora, estou mesmo conversando com ela. Só ela é que me entende. Misturo o silêncio com palavras. Divirto-me.

Ok. Vou cumprir. A partir de agora sou falo e escrevo sobre pedras.

Mas, afinal as pedras são tudo e estão em todo o lado. Rio-me. Dou fortes gargalhadas.  

 

Se só posso falar e escrever sobre pedras, então posso escrever tudo desde a pré-história até às cidades de hoje, posso escrever sobre areias – Alburrica; lodos – Sapal do Coina; minérios, as indústrias, as salinas e as memórias do Barreiro, os ferroviários que transportavam matéria prima das minas de Aljustrel e tanta coisa que se fazia do enxofre; os solos, a Mata da Machada, as AUGI’s, planeamento; as calçadas, posso falar de ruas e arruamentos, até sobre as as cavernas, posso falar daquelas que ligam os rios subterrâneos da Fonte das Ratas até ao Tejo e dos palácios – de Coimbra, do Lixo.

Fico deslumbrado, só pegando nas pedras posso falar de tudo o que me apetecer.  

Até imagino um concerto, no OUT. FEST, com sons de pedras.

 

E se escrevo sobre cavernas posso citar a alegoria de Platão, na República. Boa, posso filosofar!

E sobre palácios, dá para falar de reis e até de S. Bento, então, posso escrever e falar de politica.

As pedras estão nas estepes, nas planícies, nos desertos. As pedras são as cidades.

As pedras têm cores são vermelhas de óxido natural, são transparentes como um vitral de urânio. Isto dá para escrever sobre poesia e artes.

 

Recordo mesmo, depois de tudo isto,  aquelas palavras inscritas num poema que um dia escrevi : a minha vida é forjada, em palavras, palavras que são pedras, muitas pedras, pedras arrancadas da mina, das profundezas, de todas essas minhas experiências, as marcas no solo que fazem uma vida!

É por isso que escrevo sobre tudo, porque tudo o que vivi deu-me para aprender a ter opinião e afirmar opinião.

Ter opinião não é ter a verdade, nem é ser possuidor da razão.

É isso apenas isso – ser um homem com opinião!

É por isso que discuto com a minha sombra, desafio os meus eus – nessa ternura bipolar interior – e não me incomoda que uma gaivota me imponha o castigo de apenas ter que escrever sobre pedras.  

Levanto-me. Olho a minha sombra. E sinto que, no final de tudo, o futuro  será apenas uma pedra por gravar!

 

S.P.

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