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Entre Tejo e Sado

Por dentro dos dias e da vida

Por dentro dos dias e da vida

Proibir o acesso ao silêncio.

Hoje não vou falar do meu silêncio. Hoje vou sentir o meu silêncio. Fecho os olhos. Beijo os meus pensamentos.

Olho para dentro e sinto que sou mesmo bipolar. Convicatmente bipolar. Sinto-me perseguido, por fantasmas que não existem. É a minha imaginação.

Ninguém escreveu nada. Fui eu que inventei. O silêncio, qual silêncio. Todo eu sou um megafone. Sento-me e penso neste drama que toca os meus neurónios.  

De um lado está o meu eu – aquele que conversa comigo. O meu eu louco. O meu eu, aquele, que sorri, apenas, porque ouviu um gato miar.

O meu eu onde a consciência se confunde com a emoção.

Sinto o desconforto. Que hei-de fazer, será que ele vai pensar que estou a escrever isto para ele, enquanto, de facto, eu estou a fazer psicanálise. Acordo de noite, a suar, a transpirar, com o Freud, sentado ao meu lado, dizendo-me: “Deita-te António!”.

Ele quer explicar. Eu não o entendo. Adormeço com um sorriso nos lábios. Feliz!

Do outro lado, está o meu eu – aquele que discute com discussões inúteis. Aquele meu eu que emerge das experiências de vida.

Aquele meu eu que me obriga a puxar os cabelos. Que me faz saltar aos berros e rebolar pelo chão.

O meu cão, que escuta os ruídos, reais, desta minha agitação – todas as noites, um pouco antes de passar o comboio da 1h30, rumo a Setúbal - começa a ladrar. Salta para a cadeira, onde estou  a escrever este texto – psicodramático - e lambe-me os dedos dos pés.

Este meu eu é terrível. A catarse é total. Os gritos batem nos neurónios. Imagino que sou Van Gogh. E, então, começo a segurar as orelhas com medo que saltem e vão pelas ruas a escutar as conversas.

De repente imagino que estou a correr todo nu, ali, junto às ondas, nos areais do Baleal. É terrível. A correr e nu. Onde chegou a minha degenerescência.

Isto, de certeza, já nem Freud consegue explicar.

 

Levanto-me. Vou beber um Licor Beirão. Escuto músicas angêlicas. E encosto-me de olhos fechados.

Bolas! Cá estou de novo com o meu silêncio.

Ouço o grito, até penso que é a voz de Dante, lá dos confins do Inferno: “Sai já daí desse teu mundo do silêncio!”

Foi então, que, finalmente percebi os perigos do futuro.

Mais que nos calarem o direito de falar, pensar e dizer os pensamentos, pelos vistos, vão mesmo proibir o acesso ao silêncio.

Porque o silêncio é uma coisa muito perigosa, pode fazer-nos descobrir a consciência e encontrar a tranquilidade.

 

No meio de tudo isto, penso – tenho este defeito de às vezes pensar – e registo, que, certamente, António Damásio, tinha razão – “usamos a mente para esconder parte do nosso ser”.

É que, sublinho,  o silêncio é mais forte que a consciência. O silêncio, somos nós, aí, dentro, bem dentro – o resto é o mundo.

Deixem-me ao menos ter este direito - poético - de me encontrar comigo todos os dias e sorrir com o meu silêncio!

Fiquem com a vossa superior consciência. Eu fico com o meu silêncio.

Acreditem, é mesmo um silêncio que grita. E digo-vos, grita tão alto, que as gaivotas assustadas, neste dias de férias, sujaram-me o carro todo, por vingança!

 

Parei de escrever. Li. Comecei a rir às gargalhadas.

Só então, tomei consciência – bipolar - que a loucura entrou por dentro da janela e sentou-se na minha frente a sorrir.  

Eu, silenciosamente, tinha que ser silenciosamente, levantei os olhos e pensei – Hoje é sábado, é dia de descanso. Vou dormir!

Ah, é verdade, vou em silêncio, deitar-me, espreitar e esconder-me por dentro das cores e dos sons, silenciosamente.

Hoje, de certeza, o Freud não me vai acordar. Se ele aparecer ao meio da noite, chamo o meu cão e mordo-lhe a perna.

Não, não mordo a perna ao cão. Mordo a perna ao Freud.

 

E se for preciso começo a ladrar. Ou, será que também não posso ladrar!?

Fiquem bem. Acreditem. Freud, explica isto!

 

S.P.

 

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