A última gaivota
A cidade para mim é maior e mais vasta que o meu pensamento ideológico. Porque, não quero, nunca quis, fazer da minha cidade, uma cidade ao serviço e exclusiva do meu pensamento e ideologia.
Aprendi isto na vida associativa. Nunca deixei as minhas opções à porta, mas, nunca fiz da minha associação um espaço ideológico. Aprendi a viver no plural, sem abandonar a minha identidade.
Acho que, afinal, é isto que falta, e muito, na nossa cultura democrática. Continuamos a fazer da luta politica, e da ambição de conquista do poder, um confronto de guerrilha, marketing e propaganda. O objectivo é, muitas vezes, gerar reflexos condicionados.
É por isso, que, também, vejo o jornalismo, actividade que procuro exercer diariamente, com frontalidade e nunca abdicando do pleno respeito pela diversidade. É difícil, mas é possível.
Acredito que é possível construir uma cidade onde todos, democraticamente, possam agir e participar.
Não estou disponível para exclusões da cidadania.
Estou cansado do negativismo. Estou cansado dessas correntes da verdade e de honestidade que se afirmam, sempre, descobrindo e apontando culpados. São sempre os outros. Agitam-se rupturas emocionais e fantasmas.
Faz-se política, com um complexo pavloviano, assim como quem pretende demonstrar que água mole em pedra dura, tanto dá até que fura. É uma estratégia.
É por isso que o insulto e a adjectivação são a «marca de água» desse modelo de acção politica, que gera discussões estéreis e a banalização do insulto.
Acredito e sonho com a construção de uma cidade plural e cosmopolita. Uma cidade onde hajam confrontos com base em diálogos. Uma cidade de causas e projectos.
O diálogo não nasce na hostilidade. As diferenças com base no ódio e no fomentar inimigos de estimação, conduzem a uma monocultura autofágica. Sempre assim foi, sempre assim será, é um beco sem saída. Quem não aprendeu isto com a história da humanidade, parou no tempo.
Uma acção política sem substância, sem substantivos, feita de colagens e ideias soltas, não é o caminho para afirmar e levar a sério a importância da vida politica na construção da cidadania. Esse é, na verdade, o campo para semear o populismo.
Há uma grande diferença entre ser alternativa e ser alternância. Ser alternativa é afirmar a diferença. Ser alternância é ser mais do mesmo, só com outra cor.
Gerar ondas de indignação. Cultivar o mito da decadência. Não vou por aí. Já vivi esse filme. Mesmo que achem que estou distraído ou subserviente. Sou livre. E não abdico de afirmar a minha liberdade.
Podem, se quiserem, também insultar-me, e, naturalmente, adjectivar com todos os nomes que entenderem. Quando sinto essa pressão, fiquem sabendo que, cá comigo, sempre funcionou ao contrário. Bato o pé. Amarro o burro. E luto até às últimas consequências. Só quem não me conhece.
Já vivi, mais que uma vez, esse cenário, de pressão, de perseguição, de agressão de destruição de carácter. De vários lados. Afirmo o que penso, não para impor o que penso, mas para afirmar o direito a ser diferente.
É este o preço da liberdade. Sabem o que é isso?
É, por vezes, quase nem ter pão para comer e estar ali, de pé, firme. Lutando e sonhando. Escutando ao mesmo tempo os mais levianos impropérios, de moralistas, que não mexem, nem nunca mexeram uma palha para dar e servir a comunidade.
Vivo para sentir a democracia, a pluralidade e o respeito pela maior conquista de Abril – A Liberdade. É esse o meu sonho quotidiano.
É por isso, quando vou às escolas falar do 25 de Abril, o que digo, aos alunos, é que coloquem a mão no coração e sintam a Liberdade, pela qual muitos deram a vida, sonharam e não viveram.
Esse sonho e ideal que descobri e aprendi a viver, nesta terra, o Barreiro – a terra da Liberdade e terra dos meus filhos.
Mas, cá estamos e iremos vendo. O tempo depois esclarece. Tem, sempre, esclarecido.
Sei, este é um tempo pré-eleitoral e, este, é um tempo, complicado, onde os «valores» passam mais a definir-se pela palavra «eleitores».
Pronto, mas, já conclui que o sol continua a nascer todos os dias. O luar a brilhar. As estrelas não deixaram de existir.
Eu, digo-vos, vou por aqui, talvez acabe por ficar sozinho, ali, a olhar o Tejo, serenamente e tranquilo… vendo voar a última gaivota.
S.P.

