Envelhecer é lindo
Cheguei a uma idade que já não tenho pachorra para aquelas discussões que não levam a lado nenhum, nem paciência para alimentar a banalização da crítica.
Tenho opinião. Afirmo opiniões. É, para mim, indiferente que concordem ou não concordem. Expresso o meu olhar sobre a vida e o mundo.
Sinto-me livre ao escrever, numa liberdade que procuro manter e conquistar todos os dias.
Não corro em busca de nada, a única coisa que quero conquistar é o direito de viver num mundo onde se respeitem as diferenças e ajudar a construir a cidade.
O envelhecer deu-me, para além dos cabelos brancos, a memória.
Dentro de mim cresceu a distância que vai do olhar ao sentir, do pensar ao dizer ou escrever.
Não é que viva preso à memória, ou às memórias, mas, tudo isso que guardo, é, de facto, uma experiência única, que ajuda a perceber os movimentos da vida e dos dias, encontrando a diferença entre saudade e solidão, entre ser e não ser.
A velhice permite ir percebendo a diferença entre viver sendo e o viver por imitação.
Só tarde, na vida, percebemos que passamos muitos anos a imitar ideias, comportamentos, modelos, ideais, até os sonhos.
O envelhecer é lindo dá-nos a dimensão do tempo – todas as revoluções, todas as mudanças, toda a evolução tecnológica – e isso permite-nos, saber quer há mais vida para além do tempo que somos e fomos.
É por isso que, com a velhice, aprendi que mais belo que viver em busca do poder e do ter, é, de facto, viver em busca de ser livre e ter liberdade.
Estou mais velho. Estou mais cansado. Mas, sinto, cada vez mais que estou mais livre e que a palavra medo é apenas e só a memória que ecoa na canção da “trova do vento que passa”.
É isso que permite escutar, serenamente, os sons do vento e colorir os meus dias, com uma única vontade – viver !
S.P.

